Gregário, paciente e solidário, o elefante, como o cavalo, foi e ainda é grande amigo dos humanos.

Gregário, paciente e solidário, o elefante, como o cavalo, foi e ainda é grande amigo dos humanos.

Ainda que sôfregos pela continuação da narrativa de Jeroboão, este não conversou com os três irmãos de Yehoshua senão quando já era a 12ª hora (mais ou menos as 18 horas de nosso horário) e a caravana fez a parada necessária para passar a noite. O local era bastante desértico, cercado por grande campo capim verde. Aqui e ali grandes árvores copadas quebravam a monotonia da paisagem. Para o noroeste, no entanto, a uns duzentos metros de onde se fazia o acampamento, havia como um bosque onde o arvoredo era denso. Uma clareira fôra aberta por outros e outros caravaneiros e algumas casas rústicas, de pedra e pau, foram construídas para os que por ali pousassem. Entre dois grossos troncos de árvore havia uma grande corrente esticada e a eles presas. Serviam para se amarrar os elefantes, presos por uma das patas, a fim de evitar que se evadissem e entrassem pela floresta a dentro em busca de uma manada que os aceitasse.

Yehoshua afastou-se de todos e procurou um lugar sossegado, mesmo que dentro de grande escuridão. Ali, sentado como um iogue, pernas cruzadas com as plantas dos pés para fora e para o alto, ele fechou os olhos e se deixou serenar corpo, coração e mente. Em breve tempo tinha entrada em samádi e estava totalmente alheio ao ambiente e ao ruído das vozes dos caravaneiros e dos de sua família.

Às vezes em locais públicos, simples, se construíam sinagogas onde os ensinamentos sagrados eram passados entre os hebreus.

Às vezes em locais públicos, simples, se construíam sinagogas onde os ensinamentos sagrados eram passados entre os hebreus.

Todos se afanavam para preparar as tendas e o repasto de fim de dia. Os três irmãos não tinham tempo para continuar suas discussões sobre o que tinham ouvido e o que tinham aprendido na sinagoga de sua vila de origem. Nada batia com nada e a disparidade lhes colocava muitas dúvidas na fé. As revelações do Yogue os fazia perturbados, no entanto o desejo de saber mais ficava cada vez mais forte em cada um deles. Tacitamente decidiram não comentar nada com as mulheres. Não tinham plena consciência disto, mas estavam rancorosos e simultaneamente invejosos das “regalias” que elas recebiam do estranho deus indiano e do irmão mais velho, Yehoshua.

Já era noite e o céu se iluminava com a luz misteriosa das estrelas quando os três irmãos foram-se reunir à volta de Jeroboão. Thiago estava visivelmente abatido e caminhava com muita dificuldade, amparado por Yoseph e Judas. Por outro lado, Míriam, a esposa, buscava encontrar seu marido que havia sumido desde quando apeara do elefante. Não fora visto nem mesmo na hora da refeição. Em companhia de quatro caravaneiros e das duas outras mulheres, a mãe e a irmã de Yehoshua, elas rodaram à volta do acampamento sem o encontrar. Retornaram apreensivas e foram procurar pelo Yogue. Encontraram-no com os rapazes. Ele fazia compressa de água fria na bochecha muito inflamada de Thiago. Míriam colocou a mão sobre a testa de seu filho e percebeu que ele ardia em febre. Sua preocupação aumentou e ela sentiu mais ainda a necessidade de encontrar Yehoshua. Falou com Jeroboão sobre o desaparecimento de seu filho mais velho. O Yogue ouviu-a com olhar sereno e, então, sem dizer nada, apontou para o alto. Todos os olhares acompanharam seu gesto e todos os queixos caíram de espanto. Flutuando muito acima da copa das árvores viram Yehoshua ao redor de quem uma suave luz azulada emprestava um aspecto fantasmagórico à aparição.

— É Yehoshua — Exclamou suavemente Míriam, a esposa, com entonação de quem não acreditava no que seus olhos viam e levando a mão ao coração em sinal de temor.

— É meu filho, sim. Não sei como faz aquela maravilha, mas é ele. Eu o reconheceria em qualquer lugar — murmurou Míriam, a mãe, também com a mão direita no coração.

Quando o Poder da Concentração alinha os sete chakras sagrados, dizem os yogues que se pode levitar à vontade.

Quando o Poder da Concentração alinha os sete chakras sagrados, dizem os yogues que se pode levitar à vontade.

— Não se assombrem — ouviram a voz serena de Jeroboão. — A levitação é muito comum em meu país, entre os filhos diletos dos tathagatas, jovem mãe. Vosso filho, há alguns éons, recebeu a sexta iniciação entre os Budhas, um feito jamais igualado por outro ser humano. Pelo menos, até agora. Falta-lhe a sétima e última iniciação e, para tanto, deverá passar por dura prova no corpo físico.

As mulheres e os três irmãos se entreolharam sem compreender absolutamente nada do que tinham ouvido e foi Míriam, a mãe, quem expressou a ignorância de todos ao ancião de cabelos brancos e feições tranqüilas. Jeroboão permaneceu calado por um tempo, olhando de um para outro dos parentes de Yehoshua. Então, explicou sucintamente.

— Os tathagatas, senhora, são os cinco budhas chamados Krakuchchanda, Kanakamuni, Kashyapa, Shakyamuni e Maitreya. Nosso Senhor Maitreya é o Senhor do Amor Criador e é exatamente isto que seu nome significa.  Sem a irradiação do Amor de Maitreya sobre a Terra e sobre tudo o que nela vive, nada existiria, pois as formas brutas se aniquilariam pela ferocidade que lhes habita os corações e os machos não seriam atraídos pelas fêmeas para a procriação e a perpetuação da Vida na Forma. Tudo porque os seres viventes na Forma, sendo filhos da Terra, são entes prenhes de Medo e o Medo leva à agressividade e à destruição. Só os seres poderosos, os que não têm o Medo como seu guia sobre a Terra, mas possuem ao menos uma radícula de Amor, do mesmo Amor que se irradia do Coração do Budha Maitreya, são senhores do mundo, deste mundo ilusório que vos pareceis tão concreto e tão sólido. Vosso filho, Yehoshua, foi um guerreiro destemido, mas extremamente amoroso em todas as suas encarnações. Por isto é que evolui sob a Luz do Senhor Maitreya. Será conhecido, no futuro, como o Deus do Amor, mas na verdade Ele será sempre o Filho do Deus do Amor, não o Deus propriamente dito.

O Budha Shakyamuni ainda não tomou corpo físico denso na humanidade, mas tomá-lo-á daqui a 2434 anos e seu nome terreno será Budha Gautama. Ele tomará corpo físico para aprender e compreender a natureza do nascimento, do envelhecimento, da doença, da morte, do renascimento, da tristeza e da confusão humanos. Na condição excelsa em que se encontra, atualmente, é-Lhe muito difícil entender tais mistérios da vida humana encarnada. Só apreendendo profundamente estes fatos do viver humano poderá ele prestar auxílio efetivo à humanidade como um todo, não somente a uma sua parcela, como pensais com relação a vós e àquele a quem chamais Jeovah.

A confusão dos que o escutavam aumentou mais ainda. Jeroboão apreendeu a perturbação em que lançara seus ouvintes e decidiu não mais falar sobre aquele assunto. Voltou-se todo para Thiago que, agora, tremia de febre.

— A infecção se espalha — disse o Yogue, olhando nos olhos de Míriam, a esposa. — E no estado em que se encontra vosso cunhado, senhora, não há como lhe extrair o dente onde o Mal se estabeleceu. É necessário que ele seja recuperado a fim de que possa entrar em harmonia com nosso senhor Maitreya e receba, dele, a cura para seu sofrimento.

Jeroboão levantou-se e se retirou, deixando as mulheres e os irmãos em grande aflição. Todos estavam sofrendo a horrível experiência de se sentirem impotentes diante de um mal como aquele que afligia Thiago. Demorou quase uma hora para o retornou do Yogue, tempo em que Thiago entrou em convulsões e delírios. Debatia-se, tremia muito e murmurava coisas sem nexo. Todos estavam aflitos com o que viam quando Jeroboão chegou com uma beberagem verde-limo e com muito cuidado fez que Thiago a bebesse. Aquilo tinha um odor desagradável e ele explicou que se tratava de raízes de plantas retiradas de um pântano que existia ali perto. Mas não informou o nome das tais plantas.

Thiago vomitou muito com muita convulsão e contorção do corpo em espasmos nervosos. Míriam, a mãe, e Míriam, a esposa, caíram no choro acompanhadas por Míriam, a irmã.

— Senhoras — explicou o Yogue — vosso parente está colocando para fora todo o miasma que o mal que lhe invade o corpo fez que desenvolvesse e alimentasse com suas energias negativas. Agora, ele descansará. A febre vai passar e só lhe restará alimentar-se bem para recompor as forças.

— E… e o dente… o que está estragado… — perguntou, entre soluços, Míriam, a irmã.

— Ficará limpo do mal por uma semana, tempo mais que suficiente para encontrarmos quem lhe faça a extração — respondeu o Yogue, pondo-se de pé. — Agora, senhoras, acredito que deveis retornar às vossas tendas e descansar. Tudo está consumado. Resta-nos esperar…

— Não! — Gritou Míriam, a mãe. — Eu quero ficar ao lado dele.

— E para quê? — Perguntou Jeroboão e sua voz estranhamente forte e profunda chamou a atenção de todos, que fixaram os olhos em seu rosto. Viram uma face dura, de olhar brilhante e censuroso, que os agastou.

— Nada faríeis senão chorar e incomodar mais ainda quem já se encontra cheio de dores. Ele precisa de silêncio para lutar sua luta que é apenas e somente sua.

— Eu ficarei mesmo assim — disse Míriam, a mãe, desafiadoramente. Seu olhar e o de Jeroboão se encontraram e o Yogue deu de ombros.

— Se assim o desejais, permanecei aí. Eu vou-me deitar para dormir um pouco. Estou cansado. E advirto a todos que a marcha amanhã será a mais difícil e a mais árdua de todas. Deviam pensar nisto e procurar descansar.

Sem mais falar, o Yogue se retirou deixando todos confusos, mas determinados a permanecer velando por Thiago. Nenhum deles se lembrou mais de Yehoshua que flutuava a quase cinqüenta metros acima de Thiago…