A neblina na mata pode dar um sensação de opressão.

A neblina na mata pode dar um sensação de opressão.

O dia seguinte amanheceu intensamente frio. Uma densa neblina flutuava por sobre a montanha que se via ao longe, quando o dia estava claro; e perto, por entre o pedregulho e as árvores esparsas, de troncos fortes e grossos, entre o denso capinzal. Thiago queimava em febre e um elefante foi preparado exclusivamente para ele. Não iria em seu lombo, mas sobre uma maca feita de galhos de árvores e coberto por peles de carneiro e roupas quentes para combater o frio intenso que descia sobre aquela terra. Seu rosto estava tão deformado que não se lhe  reconhecia a fisionomia. Mais parecia um monstro. Babava. Seu hálito fedia muito e ele não conseguia engolir nada. Até a saliva lhe era difícil engolir.

Miriam, a mãe, chorava de joelhos diante de seu filho mais velho e este a mirava condoído. Então, acedeu em ir até seu irmão para ajudá-lo no que pudesse, mas deixou bem claro que não podia realizar milagres. Quem tinha todo Poder para tanto era o Senhor do Mundo e a ele é que todos deviam apelar para conseguir a cura por que tanto ansiavam.

Yehoshua gostava de ficar sozinho para se irmanar com nosso Pai, o Senhor do Mundo.

Yehoshua gostava de ficar sozinho para se irmanar com nosso Pai, o Senhor do Mundo.

— Mãe — disse Yehoshua, pondo-se de pé e se preparando para ir ter com Thiago. — De uma vez por todas compreende que o que supostamente me viste fazer lá na Palestina não foi por minha vontade, mas pela vontade de nosso Pai Maitreya. Ele e só ele tem o poder que todos me atribuem. Vou ter com Thiago, mas sinceramente não posso prometer que o vou curar. No entanto, pedirei por ele ao nosso Pai. Só isto é o que posso fazer. Agora, vem comigo e façamos um pedido conjunto ao Budha Maitreya. Teu sofrimento de mãe terrena pode ser que O faça intervir a favor de Thiago. Vem.

Ambos chegaram à barraca onde se encontrava Thiago, os dois outros irmãos, Jeroboão e os três chefes caravaneiros. Eles discutiam a impossibilidade de o enfermo prosseguir a viagem, visto que agora iriam subir a montanha em direção ao mosteiro Hemi e o caminho, além de muito pedregoso e difícil, molhado tornava-se impraticável para a maca improvisada cujas pontas se arrastavam pelo solo liso e escorregadio. A tendência era que escorregasse e despencasse nos abismos, havendo o risco de, dependendo do local, levar consigo também o elefante quando a senda se tornasse por demais estreita, mal dando para a passagem de um animal por vez.

Yehoshua parou um pouco afastado, tendo sua mãe e sua irmã mais nova grudadas em seus braços, olhando-lhe a face serena com ansiedade em seus rostos.

Yehoshua constantemente se serviu  de passes magnéticos para realizar curas no Duplo Etérico.

Yehoshua constantemente se serviu de passes magnéticos para realizar curas no Duplo Etérico.

Jeroboão estava ao lado do enfermo e lhe aplicava passes magnéticos descendo as mãos lentamente por sobre a frente do corpo, da testa até os joelhos. Repetia o gesto indiferente à falação ao seu redor e Ruth, atenta, percebeu que ele espirava o tempo todo em que as mãos desciam da fronte até os joelhos de seu irmão. Ali, esfregava as mãos e inspirava profundamente para retomar o trabalho dos passes.

— O que ele faz? — E Ruth apontou para a dupla. Yehoshua olhou para a irmã e lhe sorriu com carinho. Ele gostava imensamente de sua maninha mais nova. Amava sua discrição, seu silêncio e seu modo de estar presente em toda parte sem se fazer notar. Era discreta e nunca emitia opinião sobre o que quer que fosse. Mesmo que algo a desagradasse, ela não deixava transparecer o mal-estar e se mantinha fechada às reações emocionais passionais. Tinham-na por fria e distante, mas ele sabia muito bem que ela não o era. Ao contrário, Ruth era muito sensível e justamente por isto era discreta. Temia que descobrissem esta qualidade que a ela parecia ser fraqueza.

— Ele procura extirpar do corpo oculto de nosso irmão a raiz da doença que se manifesta no corpo revelado em que trabalha. Suas mãos executam passes magnéticos, que sei que desconheces, mas que te explicarei no devido tempo.

— Vem — instou Míriam, a mãe, puxando Yehoshua pelo braço em direção à tenda. Mas seu filho lhe resistiu ao puxão no braço, meneando negativamente a cabeça.

— Não temos nada a fazer ali, mãe — disse ele, tranqüilo. Míriam se impacientou. Não conseguia compreender a frieza de seu filho mais velho diante da agonia do irmão. Está certo que Thiago era um cabeça-quente e que os dois viviam às turras. Thiago provocava muito a paciência de Yehoshua e sempre o chamava de fraco e covarde porque ele teimava em não se armar como os demais. Andar pelas terras da Palestina sem uma arma para se defender era como ser um coelho correndo numa pradaria cheia de gaviões. Mas aquela não era a hora de uma vingança mesquinha, pensava ela, angustiada.

— E o que vamos fazer? — Perguntou, tensa, olhos presos na face serena de seu filho mais velho.

— Vem. Sossega teu coração e me segue.

— Como posso sossegar meu coração se vejo Thiago em agonia? Talvez até venha a falecer por causa do dente. Já vi algumas pessoas morrerem por isto. Temo pela sua vida.

Míriam torcia as mãos nervosamente. Yehoshua parou e a olhou nos olhos. Tinha o semblante sereno e a testa franzida.

— Mãe, por mais que te angusties, por mais que corras agoniada, por mais que vertas um oceano de lágrimas, nada disto mudará um cêntil que seja na situação de Thiago. Portanto, mãe, sossega teu coração e tua mente. O que vês não é o fim do mundo. Apenas um homem que sofre de uma mazela comum a qualquer outro. Apenas isto. Mas se o queres ajudar a primeira coisa a fazer é serenar coração e mente. Perturbada como estás jamais conseguirás fazer nada que possa ajudar ao meu irmão, teu filho Thiago.

— Como podes pedir-me que fique serena, Yehoshua? Não tens coração? Thiago sofre e eu sofro com ele. E sofro bem mais porque nada posso fazer para lhe diminuir o sofrimento. Quisera poder trocar de lugar com ele. Eu o faria de bom grado…

— E lhe darias como prêmio a angústia que sofres agora, por ele? — Cortou Yehoshua, olhando com olhar censuroso para sua mãe. — Sim, porque ele, vendo-te naquela agonia, também entraria no desespero em que estás. E sabendo que tu tinhas trocado de lugar com ele, aumentaria muito mais seu sofrimento e, ainda por cima, se sentiria infinitamente culpado por isto. Tu lhe terias intensificado o sofrimento, pensaste nisto?

Míriam respirava ofegante e torcia as mãos sem saber o que responder ao seu amado filho. Ele lhe mirou a face com certa tristeza na expressão e, com um suspiro, disse em voz baixa.

— Este é o mal do mundo, mãe. Egoísmo e falta de fé.

Suas palavras doeram no coração da mãe desesperada. Ela arregalou os olhos e recuou tensa, com as mãos crispadas junto ao corpo curvado para a frente.

Eis como o Espiritismo apresenta a face de Míriam, mãe de Yehoshua. Aqui, ela já havia sido revelada para si mesma.

Eis como o Espiritismo apresenta a face de Míriam, mãe de Yehoshua. Aqui, ela já havia sido revelada a si mesma.

— Eu não sou egoísta, Yehoshua! — Gritou Míriam, mãos apertadas com força. — E não sei o que seja a fé a que te referes. Não nesta hora de agonia. Não nesta hora em que aquele a quem chamas de nosso Pai está pouco se lixando para o sofrimento daquele filho dele que jaz naquela maca! — E Míriam apontou histericamente para onde Thiago se debatia agoniado pela dor.

— Pois é justamente nas horas de maior agonia que se deve mostrar a Fé que possuímos no Senhor do Mundo, mãe. Se somos todos Sua Criação, então, é certo que Ele sabe a razão de tudo e o porquê de tudo. Não poderás chegar a Ele neste estado de desespero, pois desespero não faz parte de Seu Reino. Emoções agoniadas nunca elevam o Espirito, sejam elas de dor, sejam elas de dúvida, sejam de pura exibição egoísta daqueles que as demonstram para impressionar os outros. E ages com egoísmo, sim — agora a voz de Yehoshua se tornara áspera. — Ao desejares mudar de lugar com ele, intimamente o que desejas é fugir ao angustioso estado emocional em que te lanças por falta de fé. Queres trocar de lugar com ele para dar fim a este sofrimento emocional em que te debates, pois, no teu íntimo, julgas que o sofrimento dele é menor que o teu. Tu te sentes culpada por ser impotente para o retirar da situação dolorosa em que está por seus próprios méritos. Mas eu te garanto que ambos os sofrimentos são equivalentes, acontecendo apenas em corpos diferentes. E tua impotência te assoberba a consciência porque sabes, intimamente, que tens meios de salvá-lo de como está, mas para tanto necessitas encontrar dentro de ti a fé que te falta. Agora, sossega e me segue, se desejas ajudar teu filho. Caberá a ti e não a mim orar por ele.

Segurando a mão da mãe, Yehoshua quase a arrasta atrás de si, obrigando-a a quase correr para o acompanhar. Ele se dirigia ao local onde estivera em samádi, mas quando ali chegou sustou o passo, surpreso. Ajoelhada sobre a laje, olhos fechados, mãos postas à altura dos ombros e  testa ao solo, Ruth estava imóvel como uma estátua. Ela orava em silêncio. E sua imobilidade dizia claramente o quanto estava distante dali, naquele momento. Ambos ficaram a olhar a menina-moça em silenciosa contemplação respeitosa. A paz se fez no coração de Míriam e ela começou a chorar baixinho. O tempo transcorreu sem que nenhum dos dois parecesse notar. Então, Ruth pôs-se de pé, voltou-se para eles e, sorrindo com expressão de grande felicidade, disse: “Vamos! Thiago está salvo!”

Míriam soltou uma exclamação de felicidade, olhou radiante para a face de Yehoshua e desvencilhando-se de sua poderosa mão rodou nos calcanhares e correu como uma gazela de volta à maca onde estava Thiago. Encontrou-o tal como o havia deixado, febril, coberto de suor e gemendo em desespero. Parou atônita. Não compreendia nada do que via. Como é que sua filha lhe tinha garantido que Thiago estava curado, se ele continuava do mesmo jeito? E onde estava Jeroboão? Por que deixara seu filho sozinho, nas mãos dos caravaneiros?

Durante muito tempo ela foi somente a mãe de vários filhos. Uma mortal qualquer...

Durante muito tempo ela foi somente a mãe de vários filhos. Uma mortal qualquer…

Aos gritos de “afastem-se dele!” Míriam correu a se ajoelhar junto à maca de Thiago e nervosamente tomou de um pedaço de pano com água quase gelada, passando a lhe fazer compressa fria no rosto deformado. Estava nervosa e mais machucava que ajudava. Thiago queria gritar, mas somente soltava grunhidos agoniados e se debatia em desespero. Míriam, contudo, não lhe dava espaço e continuava a lhe colocar o pano com água fria, passando-o também sobre a testa porejada de suor pegajoso.

Ruth e Yehoshua chegaram e pararam a pouca distância do pequeno grupo. Os caravaneiros de pé, mantinham-se afastados dos dois, da mãe que chorava em desespero e do filho que se debatia em agonia. Judas e Yoseph, com olhar agastado e expressão de constrangimento, miravam impotentes a ação desesperada de sua mãe, sabendo que ela não ajudava em nada com aquele desespero.

— Nossa mãe quebra a harmonia que devia haver aqui — murmurou Ruth, voltando seu olhar tranqüilo para a face do irmão. Este a olhou de volta e assentiu com um balançar de cabeça.

— Vamos — disse Ruth, puxando Yehoshua pela mão em direção ao resto da caravana, onde quase tudo estava pronto para a partida. — Thiago está salvo. Eles é que não notam isto.

Yehoshua assentiu com um aceno de cabeça e se deixou levar pela mãozinha delicada da irmã em direção à caravana. Ambos se puseram a arrumar as coisas sem mais se preocupar com o que acontecia lá na barraca onde estavam seus familiares, impotentes. Jeroboão e o chefe da caravana se aproximaram dos dois e Jeroboão falou.

— Míriam atrasa a partida. Vamos atravessar um local perigoso e não é bom que seja à noite. O que podes fazer?

— Deixem-nos para trás. Partiremos amanhã, quando Thiago estiver melhor — sentenciou Yehoshua.

Jeroboão assentiu com um aceno e de cabeça e com outro, convidou o chefe da caravana para ir preparar o grupo para a partida.

— Nós nos vemos amanhã, no platô que há antes do Mosteiro. Tu o conheces bem, não?

— Sim. Não me esqueci de nada no que diga respeito àquelas paragens. Vão em paz.

Eles permaneceram de pé olhando a caravana que, lenta, sumia dentro da densa neblina...