A força da Matéria obnubilou seu Espírito tão ou mais forte que o de seu filho.

A força da Matéria obnubilou seu Espírito tão ou mais fortemente do que o de seu filho.

Míriam, a mãe, adormeceu de cansaço sobre o corpo de Thiago. Este, por sua vez, também mergulhara num sono comatoso e Yehoshua proibiu que fossem despertados “antes do tempo”. Só à nona hora (três da tarde), quando ele conversava com suas irmãs e sua esposa (seus irmãos sentavam-se apartados dele, magoados porque não fizera nada para tirar Thiago do sofrimento nem atendera os rogos chorosos da mãe deles), foram surpreendidos pelo doente que, com a face bastante desinflamada e sorridente, chegou-se ao grupo segurando a mãe pela mão.

— Vejam! — exclamou Míriam, jubilosa. — Thiago está quase curado. Nem precisou da ajuda de Yehoshua ou daquele a quem chama de Pai…

Ruth levantou-se e fuzilou a mãe com um olhar gelado, mas seu irmão mais velho lhe puxou o punho, antes que ela falasse alguma coisa.

— Que bom! — Exclamou Yehoshua com um sorriso a lhe abrilhantar todo o rosto. — Então, temos a tarde e a noite para descansar e nos prepararmos para partir amanhã, bem cedo.

— Thiago e eu — disse Míriam, a mãe — vamos regressar à nossa terra. Não seguiremos…

— NINGUÉM FARÁ NADA SEM MINHA PERMISSÃO!!!

O grito de Yehoshua deixou a todos paralisados. Sua voz soou como um trovão e pareceu penetrar cada célula dos corpos de seus parentes, que, petrificados e boquiabertos, olhavam-no estarrecidos.

O Bem e o Mal não lutam por nós fora de nós. A luta se trava no silêncio de nosso Ser e é única para cada um.

O Bem e o Mal não lutam por nós fora de nós. A luta se trava no silêncio de nosso Ser e é única para cada um.

— Eu vos trouxe até aqui com um objetivo e vós fazeis parte dele. Tereis de ajudar-me quando a hora for chegada e deveis despojar-vos das crenças infantis e dos medos desarrazoados que vos tolhem a mente e aprisionam vossos corações. Não posso crer que após viverdes o que a nenhum mortal comum é dado conhecer, ainda teimeis em manterdes vossos antolhos aprisionados em vossos rostos. Se quereis ser dirigidos segundo as leis estúpidas de vosso povinho miserável, então que assim seja. Como o mais velho da família e o homem que deve manter as rédeas de todos vós, eu vos digo: de agora em diante fareis tão-só o que eu mandar e determinar. E que assim seja! E isto, mãe, serve para vós também.

Avermelhando-se até à raiz dos cabelos, Míriam, a mãe, fechou os punhos e fuzilou seu filho com um olhar de verdadeiro ódio.

— NUNCA! Jamais te obedecerei,Yehoshua. Tu te esqueces que sou tua mãe e que a mim deves obediência? “Horarás pai e mãe” – esta é a Lei e tu deves cumpri-la.

— E eu a estou cumprindo, ainda quando assim não pareça. E se grito contigo é porque dás mau exemplo aos demais. Insufla-os contra minha autoridade. Então, quando assim ages e pões em risco a união de nossa família, é chegado o momento de impor a todos meu mando por primogenia. Sou aquele que vos sustenta, a todos vós. E se Thiago melhorou a olhos vistos não foi devido à ridícula compressa de água fria que nele fizeste, mas sim à prece fervorosa de minha irmãzinha que, em que pese sua juventude e talvez por ela mesma, orou com fé ao Único que Tudo Pode. Ele a ouviu e decidiu que para Thiago era chegado o momento de alívio. Quando Ruth prostrou-se contrita diante d’Ele, com seu coração e sua mente em paz e sossego, sem se deixar perturbar pelo que acontecia ao seu redor, obteve para nosso incréu e empedernido Thiago a Misericórdia Divina.

Quando ele pregava nas sinagogas sempre deixava a todos confusos.

Quando ele pregava nas sinagogas sempre deixava a todos confusos. Mas quando falava a seus familiares deixava-os atônitos.

— Então, esse Pai a quem rogas e obedeces, exige de nós que nos humilhemos diante d’Ele? — Questionou Míriam, a mãe, ainda altiva e desafiadora.

— E por acaso aquele que vós e os cegos da Palestina adorais não o faz com muito mais impropriedade? O que nosso Verdadeiro Pai pede é que n’Ele confiemos e busquemos compreender a razão porque ganhamos da vida segundo nosso merecimento. A única exigência que Ele nos faz é que confiemos em Seu juízo. Ele não pune, ficai certos disto para todo o sempre. Vós vos punis por vossos atos, vossas palavras e vossos sentimentos. Gerais forças que não podeis controlar e estas forças desencadeiam um rodamoinho energético que põe em movimento o que de mais imundo jaz na base de vossos Ovos Áuricos. Como se fosse um copo onde, no fundo, repousasse a sujeira da água que nele há, assim é o Ovo Áurico de todos os humanos. Acumulais sujidade e imundície por ação má, por pensamento mau e por emoções más no fundo de vossos Ovos Áuricos. E constantemente agitais tais sujeiras e as colocais a circular ao vosso redor.

— Irmão de meu coração — disse Ruth com sua voz suave e terna — explica-nos o que é esse Ovo Áurico de que nunca ouvimos falar.

Eis como se apresenta o Ovo Áurico de uma pessoa comum.

Eis como se apresenta o Ovo Áurico de uma pessoa comum.

Por um longo tempo Yehoshua discorreu sobre o Ovo Áurico e o Duplo Etérico. Como parecesse difícil aos seus apreender o conteúdo de suas palavras ele pediu que todos fizessem vinte e um respirações profundas, com inspiração lenta e longa, esticando ao máximo o abdômen. Depois, retivessem a respiração pelo máximo de tempo que pudessem e,então expirassem e repousassem até recuperar o equilíbrio. Só então voltassem a inspirar novamente. Após todos terem feito o exercício e se sentirem meio tontos, Yehoshua pediu que sua irmã Ruth esvaziasse a mente e elevasse o pensamento até a imagem de Budha Maitreya. Com tranqüilidade a jovenzita fez o que lhe era pedido e entrou quase imediatamente numa espécie de transe. Seu corpo enrijeceu-se e sua postura ficou ereta. Yehoshua observou-a por um momento e, então, passou a tocar o frontal de cada um de seus familiares.

— Eu não devia fazer isto, mas não lhes causo dano fazendo. Por isto, vou acelerar vossa terceira visão para que possam ver o que não é visto pela quase totalidade das pessoas. Agora fechem os olhos e relaxem. Procurem ver pela testa. Não é difícil, mas na primeira vez a pessoa se atrapalha um pouco.

A primeira a soltar uma exclamação de assombro foi Míriam, a esposa de Yehoshua.

— Ruth está levitando! — Exclamou ela quase gritando. Os outros abriram os olhos e procuraram enxergar o que tinham ouvido, em vão. Ruth estava sentada diante deles e com as nádegas bem firmes no solo.

— Fechai os olhos e relaxai — disse Yehoshua com voz calma. Todos o obedeceram relutantes. Demorou mais ou menos vinte minutos antes que outro exclamasse com o mesmo assombro de Míriam, a esposa.

— É verdade! Ruth levita! — Era Judas que impulsivamente abriu os olhos e imediatamente deixou de enxergar a irmão flutuando acima de suas cabeças.

— Não vejo nada! — Exclamou Míriam, a mãe, com um tom de decepção, mas não abriu os olhos.

— Não abrais os vossos olhos. Apenas deixai que a paz tome conta de vós. Não vos altereis pelo que vejais. Apenas vede, em paz e calma.

Ele precisou esperar quase uma hora até que todos vissem a jovem Ruth flutuando bem acima de suas cabeças. Sem abrir os olhos, Thiago foi o primeiro a perguntar:

— Por que, quando abrimos os olhos, deixamos de vê-la lá em cima? Ela me parece bem sólida e não uma miragem…

Yehoshua lhe respondeu com voz calma e pausada.

A levitação do Duplo Etérico. Ele é a cópia exata do corpo físico e vice-versa.

A levitação do Duplo Etérico. Ele é a cópia exata do corpo físico e vice-versa.

— Quem levita não é o corpo físico de Ruth, mas seu Duplo Etérico. Quem buscar enxergar o corpo físico levitando ficará frustrado. Este, jamais sai do solo ou de onde estiver. Por isto é tão raro alguém enxergar aquele que levita, pois o que levita só pode fazê-lo através da expulsão involuntária ou voluntária de seu Duplo Etérico e quem o enxerga só pode fazê-lo pela Terceira Visão.

— Mas eu vejo outras pessoas levitando junto a Ruth e elas têm aparência azul. Um azul forte… — exclamou Míriam, a mãe, cuja entonação de voz era de alegria e espanto simultaneamente.

— Estas que vês, mãe, são yogues que já possuem maior controle sobre o processo da projeção consciente e se encontram muito avançados na Verdadeira Senda. Não estão no Duplo Etérico, mas sim em seus Corpos Astrais inferiores. Vê que alguns deles são mais brilhantes que outros.

— Verdade — murmurou Míriam, a mãe, com enlevo. — Olha! Todos se reúnem à volta de Ruth. Por que?

— Porque minha irmãzinha, mãe, é mais forte que todos eles. Ela está acima do Plano Astral onde os demais se projetam. Vê que a luz de Ruth é mais forte e seu azul é quase esbranquiçado. Isto quer dizer que ela se projeta a partir do quinto subplano de matéria do Plano Astral. Poucos podem fazer isto. Mas minha irmãzinha é um espírito bem elevado e nesta encarnação não opõe resistência aos meus ensinamentos, como fazeis vós todos. Neste momento sua Consciência Cósmica está no envoltório de matéria do quinto subplano superior do Plano de Matéria Astral. Daí a cor azul-esbranquiçado com que vos aparece em sua forma astral…

— Eu… Eu não vejo isto de que falais — disse Thiago, com certa decepção na voz. — A cor de Ruth, para mim, é de um azul forte, brilhante.

— Eu também a vejo assim — secundou-o Judas com certa ansiedade na voz.

— Eu também. — confirmou Yoseph com um tom de decepção na voz. — Minha irmã Ruth não me parece azul-esbranquiçada, como tu a descreves, Yehoshua. — Seu corpo me parece azul, mas de um azul denso, ainda que de forte brilho. Por que?

— Cada um de vós vê um dos muitos corpos de Ruth no Plano Astral, meus irmãos. Os mais atrasados, mesmo tendo eu acelerado seus chakras Ajna, não poderão enxergar além do limite a que podem chegar. Então, verão apenas um dos corpos sutis de Ruth, entre os 35 possíveis dentro dos cinco subplanos astrais que preformam a totalidade de seu Corpo Astral. Depois eu vos explico essa história de haver tantos Corpos Astrais dentro do que aparentemente devia ser apenas um. Agora, Ruth, peço-te que retornes ao teu corpo físico denso.

Imediatamente a jovem abriu seus olhos, olhou para seu irmão com expressão de grande alegria e sorriu um sorriso de felicidade. Todos os seus parentes voltaram a olhar para ela com olhos físicos e havia uma grande expressão de admiração misturada com certo temor.

— Vistes muito além do que os olhos da humanidade em geral poderão ver por muitos séculos à frente. Com isto desejo que compreendais que não tendes de permanecer como eternos mendigos dos favores de Jeovah ou Budha ou outro ser superior qualquer. Todos, homens ou mulheres, pois umas não são inferiores aos outros, poderão enxergar os corpos sutis de seus semelhantes e com algum treino intensivo poderão ver a seus próprios corpos. E se assim o fizerem, verão a sujeira de que vos falei há pouco. E aqueles que conseguirem esta façanha, simples, eu vos asseguro, terão muito mais oportunidade de se corrigir por si mesmos e operar os milagres que desejam em seus próprios corpos, pois todos vós tendes o poder de se curar. Não precisam ficar à espera e à mendicância de milagres que jamais acontecerão para aqueles deles não merecedores. E quando um milagre acontece, certamente Deus ou outro Ser superior qualquer dificilmente tem algo haver com o fato. Tudo deve ser realizado pelo homem e pela mulher, bastando que se esforcem para chegar ao Poder Interior que possuem e esperam apenas que seus donos lhes abram as portas.

Seus parentes, agora, o ouviam atentamente. Depois da experiência por que tinham passado, não mais duvidavam de suas palavras nem de seus ensinamentos.

— Yehoshua — perguntou Míriam, sua esposa — m quê o que nos ensinas vai ajudar-nos no futuro a te ajudar, quando estiveres em apuro? Pelo que desconfiamos, tu és superior a todos nós e bem podes sair de qualquer situação de perigo com facilidade.

— Tu o dizes bem, meu amor. Mas é que não me é permitido sair do apuro que vou ter de enfrentar. Se fugir a ele…

Yehoshua calou-se, deu de ombros e se afastou, deixando a todos incomodados com seu silêncio.