O conceito desta estrutura invisível ao olho físico é mesmo difícil de ser apreendido e aceito.

O conceito desta estrutura invisível ao olho físico é mesmo difícil de ser apreendido e aceito.

Yehoshua ordenou que todos descansassem e se isolou, afastando-se do pequeno grupo para ficar sozinho. Seus parentes, com exceção de Ruth, estavam confusos e agastados com ele. Ainda não tinham entendido bem a questão do tal Ovo Áurico nem, muito menos, a experiência fantástica que tinham vivido. Mas Yehoshua não parecia disposto a conversar com nenhum deles, nem mesmo com sua mãe. Eles fizeram o almoço, comeram e não contaram com sua presença à mesa. A tarde se esgotou e nada de Yehoshua aparecer, o que só aconteceu perto da décima segunda hora (18 horas em nosso horário atual).

Não falou com ninguém. Apenas sentou-se próximo à fogueira e permaneceu calado. Sua expressão de preocupação não encorajava a nenhum deles quebrar o silêncio que se impusera.

Com o mesmo carinho e  o mesmo esforço, ele procurou ensinar um pouco do que revelara a seus familiares àqueles que escolhera para discípulos.

Com o mesmo carinho e o mesmo esforço, ele procurou ensinar um pouco do que revelara a seus familiares àqueles que escolhera para discípulos.

Só na segunda hora da noite (vinte horas em nosso horário) foi que Ruth veio sentar-se ao seu lado e lhe tocou de leve o braço forte. Yehoshua olhou-a e seu olhar suavizou-se. Ele se curvou e lhe osculou a face rosada. 

— O que deseja minha maninha mais bonita?

Ruth sorriu, envaidecida. Adorava o carinho que ele lhe dispensava.

— Quero pedir-te que converses com nossa família. Eles têm muitas perguntas que te desejam fazer, mas tu nos tens evitado. Compreendo que estejas magoado conosco, mas peço-te paciência, Yehoshua. Afinal, tu nos lançaste numa aventura inusitada e até mesmo assustadora…

— Não estou magoado com ninguém dentre vós — respondeu ele, com um sorriso triste na face. — Preocupa-me o tempo…

— Por que? Prevês tempestade?

— Não falo do tempo atmosférico, maninha. Falo do tempo que tenho para obter de vós que aprendais aquilo que é necessário para me ajudar, quando o momento for chegado.

— Aí está. Tu nos tens intrigado com esta conversa de “tempo que ainda não chegou”. Que tempo é esse? O que vai acontecer de tão grave para que tu tenhas tão grande necessidade de nossa ajuda? E por que, para ajudar-te, temos de abdicar de nossa fé?

— Por partes, sim? Primeiro, se eu falar do tempo que ainda virá porei ansiedade em vossos corações, o que será péssimo para meus propósitos. Então, o máximo que posso dizer é o que tenho dito: vou precisar da ajuda de todos vós, mas no devido tempo. E até lá tereis de estar prontos em assuntos e treinos que jamais obtereis curvando-se às fórmulas ridículas da religião que dizeis ter-vos sido legada por Moisés. Segundo: a fé de que falas, mana, não é a Verdadeira. Curvar-se diante da idéia de um Deus é o pior momento da vida de qualquer pessoa. Necessito que compreendais que o Verdadeiro Deus sois vós, cada um de vós. Ele se manifesta com infinitas faces e todas elas, humanas. Ele fala infinitas línguas e todas elas humanas. Ele pensa infinitos pensamentos e todos eles, humanos. Ele sente infinitas emoções e todas elas humanas. Ele apenas não fala de si mesmo como um Ser que habita algures, perdido no Espaço. Ele não é isto. Ele está aqui, em toda parte, no mais pequeno e no maior ser que habita a Terra. Ele está na própria Terra. E Ele é ela enquanto ser que tem vida própria e deve ser compreendida e respeitada por aqueles que, sendo sua outra forma de manifestar-se, imagina-se algo diferente da Terra. Eu sei que o que falo parece complexo e confuso, mas não é. Apenas é uma idéia nova que tendes dificuldade de absorver e apreender em seu significado. Mas não é difícil. Basta que tenhais coragem de lançar fora todas as idéias que fazeis do Pai de todos nós.

— Falas do tal Brahma?

— Não. Falo do Verdadeiro Pai, o Senhor do Tempo e do Espaço. Ele que é ambos simultaneamente. Brahma é somente um símbolo criado para que os menos capazes consigam ter uma idéia de quem Ele é.

Ruth permaneceu silenciosa por um tempo e Yehoshua não perturbou seu pensamento. Então, a jovem sorriu e disse, sem mirar na face do irmão:

A Estátua de Brahma em Halebid.

A Estátua de Brahma em Halebid.

— Brahma é como Jeovah: um símbolo d’Aquele que não pode ser representado porque não tem Forma…

— Não é à-toa que te julgo a mais inteligente dentre todos os meus parentes — disse ele, satisfeito. — É isto mesmo o que quero dizer.

Os outros se tinham aproximado e silenciosamente tinham tomado assento ao redor dos dois irmãos que conversavam. Atentos, ouviam o que eles diziam entre si sem os interromper. Mesmo Míriam, a mãe, não falava. Apenas ouvia.

— Como podes crer em algo que não tem um símbolo para ser representado mentalmente? — Perguntou a jovem, sorrindo.

— Como podes crer que Mênfis, no Egito, aonde jamais foste, está viva e lá onde te disseram que existe, se não tens uma representação de toda ela para creres nisto?

— Creio porque mo disseram, Yehoshua. É diferente…

— Em quê?

Murmúrios surgiram da pequena platéia ao redor deles. Ruth calou-se e franziu a testa, pensando em uma resposta que não encontrava para oferecer ao seu irmão. Então, sorriu abertamente e entre risos, disse:

— Tens razão. Não há diferença. Assim como creio na existência de Mênfis por ouvir dizer, também assim creio na existência de Jeovah por assim dizerem… Então, posso crer nesse Pai misterioso de que falas, não é?

— Não. Precisas compreender que Ele é tu mesma. Precisas abdicar de todas as ilusões que te meteram na Mente para que pudesses acreditar em falsidades que só servem para que espertalhões te dirijam a vida e te explorem a Fé. Tu, nem ninguém, necessitais de templos luxuosos aonde ir para adorar o Pai. É ridículo, visto que cada grão de areia empregado na construção de tais templos é Ele mesmo na Forma. E a Ele pertence a Terra e tudo o que nela há. Então, Seu templo, se um houvesse, forçosamente teria de ser a própria Terra, compreendes?

— Então, devemos adorar a Terra?

A pergunta viera de Thiago, agora já com a face refeita e totalmente desinflamada. Seu dente não mais doía. Yehoshua e Ruth o olharam com olhar penalizado.

— Se tu és o Pai em manifestação na Forma humana, meu irmão — disse Ruth —, por que precisas adorar a outra coisa que não a ti mesmo?

— Egolatria?! — Exclamaram Míriam, a esposa, e Míriam, a mãe, em uníssono. — Isto é pecado mortal!

— Não estamos dizendo que tomeis de um espelho, mireis a imagem por ele refletida e vos ajoelheis diante dela — ridicularizou Ruth, agora séria. — Isto não seria egolatria, mas loucura simplesmente.

— Por que tendes a necessidade de adorar seja o que seja? — Perguntou Yehoshua, por sua vez. — Por que tendes a necessidade de crerdes em um ser todo poderoso sempre a postos para vos atender em vossas necessidades mesquinhas? Por acaso ainda não entendestes que sendo Ele vós mesmos, não necessita de Outro que O socorra?

— Mas somos fracos, Yehoshua — Exclamou Míriam, a irmã, com voz titubeante.

— O que diz vossos livros a respeito d’Ele? Mais precisamente, que resposta Ele deu a Moisés quando este o questionou no monte Horeb sobre Sua identidade?

— Deus respondeu à pergunta de Moisés dizendo: “Eu sou quem Sou”  — Disse Yoseph, todo atento.

Abatimentos psíquicos ou morais são a causa da derrota da maioria esmagadora das pessoas.

Abatimentos psíquicos ou morais são a causa da derrota da maioria esmagadora das pessoas.

— Exatamente. Ele é Quem é e não precisa de mais nada — confirmou Yehoshua com voz suave. — Ouvi-me: o EU SOU é tudo, diz tudo sobre nosso Pai e faz todos os milagres que desejais que sejam feitos. Se olhais para vossa imagem refletida nas águas quietas do lago e dizeis para vós mesmos: “EU SOU fraco”, então tereis feito o milagre de tornar nosso Pai um fraco em vós. Se, diante de uma grande dificuldade, dizeis convictos para vós mesmos: “EU POSSO”, então tereis realizado o milagre que desejais, aquele de poder vencer a dificuldade. Se, diante de um dilema, dizeis desanimados para vós mesmos: “Eu desisto”,  então tereis realizado o milagre de tornar vosso Pai um desertor. O que desejo que compreendais é que a fórmula EU SOU é a mais poderosa que tendes ao alcance de vossas Mentes. O ingrediente que pode tornar esta fórmula infalível é a FÉ, a CONFIANÇA que colocais ao pronunciá-la para vós mesmos. O Pai vos ajuda Se deixando revelar tal como desejais que Ele em vós se revele. Só podeis tê-lO em vós sempre forte e sempre realizando todos os milagres que desejais se disserdes para vós mesmos, com toda a convicção: EU POSSO. 

Prender a Mente a conceitos, preconceitos e crenças é a pior coisa que se pode fazer ao Espírito.

Medo. Quando vence a razão da pessoa, o Medo a transforma numa aberração.

E para que Ele seja sempre forte e invencível, não vos permitais mergulhar nas ilusões das paixões e dos desejos mundanos. Ele não busca realizar-se em tais ambientes, pois tudo isto é apenas ilusão, criação do homem enquanto Sua miragem; não tem consistência real. Tudo o que o homem, miragem do Pai, cria, fá-lo por Medo e o Pai não conhece o Medo. O Pai desconhece o Desejo. O Pai desconhece tudo o que O reduza a uma ilusão, uma ficção. Ele é o Único que É. Nada mais É.

— Não esperemos milagres repentinos, que alterem subitamente as Leis do Universo. Jamais isto nos acontecerá — disse Ruth, faces afogueadas de entusiasmo.

— Aí erras, irmã — Exclamou Judas, entusiasmado com ter pegado uma falha no que ouvia. — A cura do dente de Thiago foi repentina. Alterou todo o processo que deveria durar semanas, senão mais. Mas aconteceu de repente. Tu oraste por ele e um Deus fora de ti atendeu-te. Como explicas isto?

— E como sabes com certeza que o próprio Thiago, agoniado pela dor, não tenha desejado com toda a força de sua Vontade, ficar curado? E isto justamente no momento em que eu, ignorando o que agora sei, prostrava-me de joelhos rogando a Budha que fizesse o milagre de sua cura?

— Tua fé em que serias atendida e teu desejo forte e sincero, sem rancores contra mim nem contra ninguém, irmãzinha, fortificou sobremodo a Vontade do desesperado Thiago de ficar curado e ajudou a cercear os efeitos deletérios do Medo à morte que o perturbava naqueles momentos dolorosos — esclareceu Yehoshua, olhando com carinho e aprovadoramente para sua irmãzinha Ruth.— Vosso pensamento de cura aliou-se ao desejo de ficar bom que fustigava a Mente de nosso irmão Thiago e isto fez o “milagre” de que tantos falais.

— É fácil assim, fazer um milagre? — Espantou-se Míriam, a mãe, olhando admirada para seu filho.

— Fácil? Então, mãe, se julgas fácil realizar este “milagre”, realiza um agora diante de nossos olhos. Ordena àquela pedra que se atire nas águas do lago, lá adiante.

Todas as cabeças se voltaram para a tal pedra a que Yehoshua se referia. Ela era branca, do tamanho de um ovo de gansa e facilmente enxergada na semi-obscuridade que reinava ali. Míriam olhou de volta para seu filho e exclamou, espantada:

— Nem eu nem ninguém pode dar essa ordem absurda  à pedra e  esperar que ela obedeça. Pedra não tem vida; não se move por si mesma.

Yehoshua olhou-a com expressão penalizada. Então, estendendo a mão em direção à pedra ordenou em voz alta:

— Pedra, atira-te no lago!

Como se tivesse sido chutada, a pedra voou e mergulhou nas águas do grande lago gelado com o barulho característico de algo que afunda. Todos ficaram boquiabertos.

— Como fizeste para que ela te ouvisse? Que eu saiba, pedra não tem ouvidos — disse, pasmo, Thiago.

— Yehoshua meneou a cabeça com desânimo.

— Por que sempre tendes de pensar segundo os limites de vossos corpos? Não expliqueis o mundo com base em vossos pobres cinco sentidos. Compreendei que o nosso Pai não se limita ao corpo que tendes, mas sim que Ele vai do infinitamente grande ao infinitamente pequeno. Se vos limitardes a compreender Sua criação apenas dentro dos limites de vossos corpos, então, estareis cegos para sempre. E se vós sois Ele em ação, não há limite para Sua Vontade. Eu sou Ele e Ele sou Eu. Quando ordeno a qualquer coisa que me obedeça esta coisa prontamente me obedecerá, pois que obedece ao Seu Criador. Podeis compreender o que digo?

— Tu estás dizendo que és… O Criador? — Espantou-se Míriam, sua irmã. Yehoshua olhou um a um com expressão de desânimo.

— Vejo que não entendestes metade do que vos tenho dito, hoje. Irmãos meus, estou dizendo que todos aqui são Ele. Todos aqui podem ordenar que uma pedra se jogue dentro do lago e ela obedecerá, pois todos aqui são o Criador em Manifestação. É tão difícil entender isto?

— É. É sim — disse Judas com firmeza. — Ainda não nos explicaste com clareza como pôde a pedra ouvir-te e te obedecer.

A forma amarela no ápice do Ovo Áurico pode ser tomada como a representação  do Corpo Egóico, a morada do Verdadeiro Homem.

A forma amarela no ápice do Ovo Áurico pode ser tomada como a representação do Corpo Egóico, a morada do Verdadeiro Homem.

— Ela não me ouviu — disse Yehoshua com impaciência. — Minha Vontade firme e determinada fez que toda a Energia em movimento ao meu redor se concentrasse para explodir perto da pedra e atirá-la no lago. Ouvi o que eu digo: há Energia de sobra à disposição de qualquer homem ou de qualquer mulher nesta terra em que vivemos. Esta Energia apenas percorre o espaço ao redor e dentro da terra que pisamos. Ela não tem utilidade se não for adequadamente usada pela Mente Real do Homem Real. Este Homem Real não é a aparência física que vedes ao pousar vossos olhos em outra pessoa. O Homem Real não tem corpo. Ele se concentra em vosso Ovo Áurico, na parte superior desta estrutura que vos envolve e que já vistes aqui por minha exclusiva Vontade. Ele é a Mente que Pensa e Cria; Ele é que tem a Vontade Divina centrada em si mesmo. Ele é o Criador e simultaneamente é cada uma pessoa, homem ou mulher. Ele pode concentrar a Energia que abunda na Terra e dirigi-la para seus propósitos, sejam eles quais sejam. Basta que o homem ou a mulher carnal tenha Vontade Firme e Propósito claro e o milagre se fará diante dos olhos dos ignorantes. Seja o que seja que o Homem Real ordene, acontecerá, pois ele é o Criador em todo o Seu esplendor.

Fez-se pesado silêncio. Yehoshua observou que seus parentes se mexiam incomodados e desconcertados. Sabia que nenhum deles apreendera os conceitos que tentara lhes passar, mas compreendia que devia ser assim. Afinal de contas, tomavam contato com tais informações pela primeira vez e seria demais esperar que se levantassem prontos e acabados. Levaria anos até que finalmente apreendessem o significado de suas palavras. Então, Yehoshua levantou-se e disse que a aula estava terminada. Virou-se e caminhou em direção ao lago, a uns trezentos metros de onde estavam e lá sentou-se com as pernas cruzadas e olhos fechados.

Logo era somente uma sombra imóvel como a pedra em que se sentava…