Numa tremenda injustiça, a Igreja eliminou Sua Família. Por que?

Numa tremenda injustiça, a Igreja eliminou Sua Família. Por que?

A família pôs-se em marcha tão logo o sol nasceu. A névoa fria incomodava a todos, mas nenhum deles reclamou da saída tão cedo. Yehoshua era quem comandava a organização e se demonstrou duro e inflexível nas ordens que dava. Thiago não teve nenhuma consideração especial por ter estado doente e ainda se encontrar enfraquecido. Teve de trabalhar duro no desmanche das barracas e na arrumação dos elefantes. Yehoshua se mostrou eficiente como caravaneiro. Na primeira hora da manhã a pequena comitiva já estava na estrada. As árvores foram rareando depressa e dando lugar a pedras negras e gélidas. O vento frio tornou-se cortante e todos ansiavam pela luz do Sol que, no entanto, chegava difusa e fraca por entre nuvens de neblina que se contorciam rapidamente sopradas por rajadas súbitas de vento indesejado.

Mesmo hoje as estradas do Himalaia são tremendamente perigosas.

Mesmo hoje as estradas do Himalaia são tremendamente perigosas.

Estugando seu elefante, Judas conseguiu colocar-se atrás daquele em que estava montado seu irmão mais velho. Dali, tiritando, ele lhe gritou: “Yehoshua, não está funcionando!” Sem se voltar, Yehoshua gritou de volta: “O que não está funcionando?” Com a voz trêmula pelo frio, Judas gritou novamente: “Aquele negócio de eu ser Deus e, por isto, poder ordenar o que quiser que serei obedecido. Estou mandando que este frio danado cesse e não dá certo. Por que?” Yehoshua soltou uma gargalhada e lhe respondeu, jocoso: “É por que tu não O despertaste dentro de ti, irmão. E vai demorar, eu te asseguro. É melhor que não grites para não deixar escapar o calor que trazes dentro de teu corpo.” Desanimado, Judas calou-se e se enrolou mais ainda na grossa pele de carneiro que lhe servia de manta. 

À quarta hora (dez horas em nosso horário) o vento cessou e o sol surgiu brilhando tanto que doía nos olhos. Yehoshua aconselhou a que colocassem um pano ao redor da testa formando como que uma aba, de tal modo que os olhos ficassem sob a sombra da aba. Isto aliviaria o brilho incandescente da luz solar. Também os aconselhou a olhar para o solo e para as rochas negras sob os pés dos animais. Nunca, para a neve branca que se estendia montanha acima. Isto evitaria a cegueira pela reverberação da luz na brancura da neve.

Uma hora mais de caminhada e Yehoshua parou sua montaria. Desceu e mandou que todos fizessem a mesma coisa. Reuniu-os à sua volta e lhes disse que em mais duzentos metros a senda se tornaria tão estreita que mal daria passagem a um elefante por vez. Deveriam ir à frente das bestas, mas deveriam evitar segurar qualquer coisa que os prendessem a elas, pois se uma escorregasse para o abismo arrastaria aquele que a ela estivesse preso.

A senda estreita chegou. A pedra preta era escorregadia devido à água que por ela escorria vinda das neves acima. Os animais passaram a andar muito lentamente e todos, menos Yehoshua, estavam com o coração aos saltos de medo. O abismo ao lado direito lhes mostrava um precipício que parecia não ter fim. Pelo lado esquerdo, por outro lado, o paredão de pedra negra salpicado de pedaços de neve e gelo dava uma incômoda sensação de pequenez e impotência a todos eles. Yehoshua sustou a marcha e falou em voz baixa para Judas, o que estava bem atrás de si. “Diz ao que te segue e manda que passe a informação aos demais: não devem permitir que os elefantes soltem barridos. Não devem gritar nem falar alto. O eco da voz ou do barrido, reverberando nas pedras da montanha, fará desprender grande quantidade de gelo e trará sobre nós uma avalanche esmagadora, que arrastará homens e elefantes para o abismo. O silêncio, aqui, é questão de vida ou morte”. O recado foi passado de boca a boca até o último deles.

Três horas depois a senda voltou a se alargar e a passar entre altos paredões de granito, fazendo desaparecer de vista qualquer sinal do abismo que tinham deixado atrás de si. Estugando sua montaria, Yoseph veio postar-se logo atrás de Judas e obrigando sua montaria a maior esforço, ultrapassou o irmão e se colocou ao lado de Yehoshua.

Ele não abria a boca para soltar palavras vãs.

Ele não abria a boca para soltar palavras vãs.

— Vamos ao encontro de Jeroboão — disse ele, quase gritando, pois o vento silvava forte por entre as rochas. — O que faremos, depois?

— Faremos o que for necessário, Yoseph. Por que tentas apressar as coisas? Deixa que elas aconteçam no devido tempo.

— Não quero apressar nada, Yehoshua. Quero apenas saber o que vamos fazer depois do encontro. Afinal, temos tido uma enxurrada de aprendizagens que nos atordoa…

— Porque não vos abris para absorvê-las. Não foram tantas, assim. — Rebateu Yehoshua, emparelhando sua montaria à de seu irmão.

— Não?! Como não? Começou com aquela fala sobre Moisés. Jeroboão nos disse coisas…

— Vês como tens memória fraca? — Cortou Yehoshua. — Tudo começou há muito tempo atrás, quando nem tínheis idéia sobre Jeroboão. Já na casa de Simão, quando vós destes vergonhosa amostra de vossa arrogância, nós tínhamos dado a todos exemplos de quão erradas eram vossas crenças infantis.

— Por que dizes “nós”?

— Eu não falo sozinho. Por minha boca também fala nosso Pai Celestial. Por que será que te parece tão difícil compreender isto? Por acaso, não acreditas quando as pitonisas dos templos e as advinhas que trabalham com os espíritos dos mortos falam contigo? Não mintas que é vergonhoso para teu espírito. Eu sei que tu e meus outros irmãos muitas vezes tendes apelados para informações dos mortos para tentar encontrar respostas para os dilemas de vossas vidas.

— E muitas vezes eles, os mortos, nos ajudaram. Foi errado o que fizemos? Se foi, metade de nosso povo, senão todo ele, está errado.

— E todos estão. Não se deve abrir a porta entre os mundos, meu irmão. Quem já se foi daqui deve trabalhar lá onde está. Quer seja para sair das condições miseráveis em que foi cair, quer seja em evoluir para situações muito melhores do aquela que encontraram lá, ao chegar. Os que partiram daqui e que já cumpriram com sua missão entre os que sonham na matéria devem ser deixados em paz. Um dia, todos vós, eu inclusive, estaremos despertos com eles.

— Então, tu também acreditas que os mortos podem falar conosco, os vivos?

— Vivos?! — E Yehoshua mirou intensamente a face de seu irmão. — Quem vos disse que estais vivos?

— Como não? — Exclamou espantado Yoseph. — Eu sinto tudo à volta de mim. Vejo tudo o que olho. Toco tudo o que desejo… Tenho um corpo que é solido e meu. Enfim, se isto não é estar vivo, o que é estar vivo?

— Aprende, meu irmão, que na matéria vós viveis somente um sonho. Em Espirito, estais apenas sonhando durante o tempo em que aqui vos encontrais. A Verdadeira Vida não é esta que pensais viver.

— Uma ova! — Rugiu Yoseph, espichando o pescoço para olhar na face de Yehoshua. — Tentas me confundir com tua lenga-lenga, mas não vais conseguir isto, eu to garanto.

Yehoshua açulou o elefante estugando-lhe o passo e gritou para Yoseph:

— A matéria é o pesadelo do Espírito. Aprende isto, irmão!

O resto do dia Yehoshua se manteve à frente da comitiva e não mais falou com seus familiares nem com os dois caravaneiros que o acompanhavam. Já à sexta hora (meio-dia) o caminho se abriu numa verdadeira clareira de pedra onde encontraram alguns viajores trajando roupas feitas de pele de Iaqui. Também usavam aquele animal como meio de transporte de pessoas e cargas. Os parentes de Yehoshua não conheciam a alimária e logo estavam ao redor de uma, olhando-a admirados. Observaram que seu irmão mais velho falava a língua daquela gente de baixa estatura, musculatura forte, pele escura e olhos estranhamente rasgados e negríssimos. “Como diabo é que ele fala tantas línguas diferentes?” Perguntou-se Judas, cutucando Yoseph e apontando para o irmão mais velho.

— Ele fala com aquela gente. Como é que conhece o idioma deles?

— Ora, nosso irmão viveu aqui por muito tempo. Creio que seja natural que saiba comunicar-se com esse pessoal estranho. Não me admiro disso.

— Pois eu me admiro de tudo o que ele diz e faz. Quase chego a duvidar de que seja realmente nosso irmão, de tão estranho que nos parece.

Thiago, que se tinha aproximado, fez seu comentário.

— Ele sempre foi esquisito, desde criança. Ao menos é o que nos diz nossa mãe. Agora, vamos, venham ajudar-me com o elefante que traz nossos alimentos. Eu é que não vou comer a carne que aquela gente está exibindo a Yehoshua. Ela parece podre…

Caminhos do Himalaia. Por caminhos semelhantes a família de Yehoshua chegou a Hemi.

Caminhos do Himalaia. Por caminhos semelhantes a família de Yehoshua chegou a Hemi.

Armar as barracas foi impossível e tiveram de se contentar com a idéia de alimentar-se com raízes cruas, mesmo. No entanto, elas estavam duras demais para serem mordidas. Do mesmo modo estavam as tâmaras e outros frutos que traziam consigo. Até o mel e o leite haviam endurecido a ponto de quebrar dentes, se algum atrevido tentasse mordê-los. Aborrecidos, passaram às mulheres a tarefa de transformar aquilo em alimento comestível. Em vão. Não havia como acender fogo pois a pedra era lisa e o vento gélido, constante.

Yehoshua aproximou-se deles e informou que os nômades lhe tinham indicado um local, mais adiante, onde havia uma grande gruta. Lá, disseram eles, seria possível fazer fogo e cozer alimentos. Sem comentar o que via nem esboçar qualquer sinal de reprovação pelo esforço perdido de seus irmãos, ele os guiou até a gruta. Sim, ali dentro o vento não soprava, mas ainda assim o frio era intenso. No entanto, com habilidade, Yehoshua usou suas pedras de pederneira para obter a faísca que fez fogo no pêlo de carneiro que ele havia colocado sobre a pedra. A partir dali obteve o fogo que todos queriam. As mulheres, então, afanaram-se em cozinhar o alimento que lhes entregara. Ele se contentou com tâmaras, uvas passas, charonis e outros frutos secos, um copo de leite adoçado com mel, e pão. Seus familiares comeram carne de aves e carneiro que traziam em grandes cestos feitos de junco.

Míriam, a mãe, em companhia de Míriam, a esposa, aproximaram-se do líder da caravana, Yehoshua, e lhe perguntaram se pretendia pernoitar ali. Ele lhes respondeu que não. Descansariam por uma hora e seguiriam viagem. Ali não havia o que os elefantes comer e eles, famintos, poderiam ficar nervosos e perigosos. Calculava mais três horas de marcha até o platô onde deviam encontrar com Jeroboão e onde, inclusive, mercadores tinham alimento para as alimárias. Entregaria os elefantes ao caravaneiro que lhos tinha emprestado e ficariam livres dos cuidados com eles.

Exatamente à nona hora chegaram ao platô. Era muito grande e localizado entre grandes picos de pedras montanhosas, o que quebrava o vento gélido para alívio dos viajores. Jeroboão lhes informou que dali seguiriam na companhia de uma caravana de iaques que levava alimentos, panos e outros artefatos de primeira necessidade para o Mosteiro de Hemi, onde deveriam chegar ao anoitecer.

http://www.viajarpelomundo.com/ - O interior de um Mosteiro Budista. Semelhante a este era o cenário do Mosteiro Hemi.

(http://www.viajarpelomundo.com/ )- O interior de um Mosteiro Budista. Semelhante a este era o cenário do Mosteiro Hemi.

E foi exatamente à quarta hora da noite, com um frio de rachar, que eles chegaram ao desejado mosteiro. Ninguém teve ânimo de examinar a grandiosa construção. Todos queriam somente encontrar um lugar bem quente para descongelar as juntas dos corpos.

O monge que os recebeu trajava um grande pano amarelo-açafrão á volta do corpo e não tinham absolutamente mais nada a protegê-lo do frio intenso. Os portões foram abertos e os animais entregues a estudantes, que trataram de os levar para local seguro. Todos os membros da comitiva foram dirigidos a uma parte do Mosteiro à esquerda do grande portão de entrada, mas a família de Yehoshua e ele mesmo foram conduzidos ao prédio central. Por ali subiram, tiritando de frio, uma grande escada de madeira, por dentro de um corredor também de madeira e ao abrigo do vento gélido que não parava de uivar lugubremente lá fora.

Abraçados uns aos outros, menos a Yehoshua que caminhava ao lado do monge de modo natural e parecendo, ambos, nada sentir do frio terrível que assolava o ambiente, a família do Nazareno seguia a dupla sempre tremendo de frio. No terceiro andar adentraram um grande salão gostosamente aquecido por uma enorme lareira. No centro daquele cômodo espaçoso havia uma grande mesa de madeira grossa, pesada e de cor escura. Ao seu redor grandes bancos também de madeira. Um homem estava diante da lareira e de costas para a enorme porta por onde a família friorenta acabara de entrar. O monge indicou-lhes os almofadões próximo do homem e da grande lareira, curvou-se com as mãos postas à altura do peito e se retirou, andando de costas até que a grande porta fosse fechada por dois guardiães que a família não tinha notado. Todos olharam para Yehoshua que se encaminhou diretamente até o homem. Ali, ajoelhou-se diante dele, cabeça curva ao peito e mãos postas à altura da testa. Seus familiares entreolharam-se boquiabertos. Aquilo era absolutamente inaceitável para ele. Um judeu jamais se ajoelharia diante de um goin, fosse ele quem fosse. Yehoshua envergonhava a todos e desmerecia seu povo.

O ancião de Hemi tinha barba longa e era ereto como uma palmeira.

O ancião de Hemi tinha barba longa e era ereto como uma palmeira.

O homem se voltou para os olhar e eles viram que se tratava de um ancião muito alto e cujas barbas brancas eram tão longas que lhe chegavam aos joelhos. Também trajava aquele lençol amarelo-açafrão, mas o que chamou de imediato a atenção de todos foi a tremenda autoridade que de sua pessoa emanava e parecia esmagar a cada um deles com um peso insuportável. Sem conseguirem se suster, todos se ajoelharam e num gesto automático repetiram a saudação de Yehoshua.

— Assim está melhor — soou a voz do ancião e ela pareceu ser tão forte e densa como um trovão. Sentiram medo. Mantiveram-se ajoelhados e não conseguiram erguer suas frontes até quando o ancião se achegou a eles e lhes ordenou que se levantassem. Trêmulos e assustados todos, exceto Ruth, puseram-se de pé receosos e mantendo as cabeças abaixadas. Ruth, ao contrário, olhou diretamente nos olhos do ancião com um sorriso encantador na face. O patriarca fitou-a e também esboçou leve sorriso, indicando-lhe com um gesto de mão e sem dizer nada, os almofadões próximos à lareira e onde Yehoshua se encontrava sentado sobre um deles. Ruth não se fez de rogada e lépida se encaminhou para perto de seu irmão, sentando-se em outro almofadão ao seu lado. Não se falaram nem se olharam. Ambos tinham os olhos fechados e estavam totalmente relaxados, um ao lado do outro.

— Sinto vosso cansaço e sinto vossa desorientação. Também sinto vosso medo desarrazoado. Por isto vou deixá-los à vontade para que se esquentem e possam tomar nossa frugal refeição. Ela vos será servida por dois de nossos estudantes. Por favor, não hesiteis em vos saciardes. No devido tempo virei ter convosco.

Como se deslizasse sobre o piso de grossas tábuas polidas por milhares de pés que por elas tinham passado ao correr dos séculos, o ancião desapareceu de diante dos familiares de Yehoshua. Saíra por uma segunda porta, menor que a da entrada, ao fundo e na semi-obscuridade do ambiente.

Timidamente todos se encaminharam para a lareira e cada um tomou assento em um almofadão…