Os anciãos de Hemi eram calmos e sorridentes, mas não se devia desrespeitá-los, senão...

Os anciãos de Hemi eram calmos e sorridentes, mas não se devia desrespeitá-los, senão…

Míriam de Magdala estava desorientada. Ela fôra colocada em uma ala destinada a mulheres juntamente com as irmãs e a mãe de seu marido, mas cada qual em uma cela individual. Disseram-lhes que não mais se comunicariam entre si e que ela já não mais era esposa daquele a quem sempre conhecera como Yehoshua. Míriam, a mãe, continuaria a ser reconhecida como a mãe do Enviado, ao qual ela reconheceu como sendo seu esposo, embora ninguém lhe tivesse dito isto claramente. Míriam, a irmã, assim como Ruth e Marta seriam reconhecidas como irmãs legítimas de Yehoshua, mas a partir daquele momento, só no Mosteiro de Hemi. Quando retornassem para seus lares todas elas não deviam mais deixar claro entre o povo que tinham qualquer parentesco com o Enviado. A única que tinha direito de se mostrar publicamente como sua parenta era sua mãe terrena, pois ela e o  Enviado estavam ligados por laços muito além daqueles criados pelos homens.

Sentada em seu leito e com os pés no chão frio, protegidos por grossas botas de lã, Míriam de Magdala mirava a parede escura diante de si perdida em reflexões atordoantes. Doía-lhe imensamente não ter a seu lado o marido tão amado. E a consciência de sua ausência era como a consciência de sua morte.

E Míriam chorou como só choraria assim de novo anos depois, num momento de horrível solidão…

A névoa gelada vira uma tortura para alguns membros da família de Yehoshua. Foto de http://zitosloko.blogspot.com.br/

A névoa gelada vira uma tortura para alguns membros da família de Yehoshua.
(Foto de http://zitosloko.blogspot.com.br/)

Marta andava de um lado para outro como um animal enjaulado. Também ela não estava entendendo nada e ainda não tinha tomado consciência plena da tremenda realidade de solidão em que se encontrava. Aquele cubículo tinha certo mínimo conforto material, mas a ela parecia uma prisão sufocante. Estava acostumada demais a ter seu irmão mais velho a seu lado. Estava acostumada demais a se sentir segura diante das decisões que ele tomava em defesa da família. Agora, prisioneira naquele cubículo, parecia-lhe que sua vida tinha-se desmoronado. Não lhe restava nada, exceto aquelas paredes de madeira geladas. Nunca, antes, fôra retirada de perto de seus familiares de modo tão definitivo. Queria conversar com eles, irmãos, irmãs e mãe. Sentia-se integrada numa família, quando possuía aquela liberdade. Agora, esta liberdade lhe fôra arrebatada e com ela a sensação de “pertencer a” que desenvolvera desde quando nascera. Marta chutou a parede,  cama e tudo o que a rodeava. Esmurrou a pesada porta e terminou por se curvar sobre si mesma chorando em desespero.

"Me tirem daqui!"

“Me tirem daqui!”

Míriam, a irmã de Yehoshua, estava aos gritos de “Me tirem daqui! Vocês não podem fazer isto comigo! Vocês não têm esse direito!” e chutava furiosamente a porta, sem qualquer resultado. Só o silêncio e o eco prisioneiro de seus gritos retornavam a si. Rodou pelo cubículo furiosa e impotente e terminou por se deixar cair chorando histericamente contra o que a ela parecia ser uma prisão injusta. Ela era família. E de todas as mulheres era a mais apegada ao grupo familiar. Imitava sua mãe na rigidez de propósitos e na determinação férrea, quando tomava uma decisão. “Quando um de vocês aparecer aqui eu juro que vou arrancar seus olhos a unhadas! E eu faço isto, sim! Vocês não me conhecem!” – gritava histericamente olhando para a porta e novamente mergulhava o rosto nos lençóis sacudida por soluços de um pranto raivoso e impotente.

Mesmo sem ainda ter consciência de quem era realmente, ela se destacava pela firmeza e determinação altivas.

Mesmo sem ainda ter consciência de quem era realmente, ela se destacava pela firmeza e determinação altivas.

Míriam, a mãe terrena do Enviado, sentou-se na borda do seu leito e olhou estudadamente todo o pequeno cômodo. “Não é desagradável” murmurou sentindo a lã dos lençóis sob os dedos. Depois, ajoelhou-se com os olhos fechados e orou a Javé pedindo-lhe que protegesse sua família e que fizesse que aquela situação estrambótica se esclarecesse. Sentia que os monges tinham um propósito e sabia do fundo de seu coração que seu querido filho mais velho nunca meteria a família em encrenca. Seria mais fácil deixar-se matar que permitir que qualquer maldade se fizesse contra qualquer um deles. Esta certeza lhe trazia paz ao coração. Yehoshua tinha a firmeza e a segurança de seu pai, embora o tivesse perdido cedo. Às vezes Míriam se sentia reconfortada da saudade de seu marido ao ouvir as ponderações firmes e as posturas claras de seu filho diante dos destemperos dos que mandavam no povo hebreu. Ele sempre tomava a decisão mais correta e menos perigosa para a família. Yehoshua lhe dava a sensação de que ainda tinha Yoseph a seu lado. Esta recordação fê-la sorrir satisfeita.

Após a oração, Míriam, reconfortada e conformada, deitou-se sem alimentar qualquer expectativa, fechou os olhos e adormeceu serenamente, sentindo a presença de seu querido filho ali, perto de si.

Ruth entrou na cela e a olhou com curiosidade. Viu a cama cheia de lençóis de lã e abriu um sorriso contagiante. Voltou-se para o monge que a acompanhava e assentiu com um aceno de cabeça. “Eu nunca tive uma cama como esta. Obrigada!” O monge curvou a cabeça raspada sem qualquer reação na face, mas com o coração em festa. Aquela jovem era sábia. Não via o que pudesse desagradar a seu Egoísmo primitivo, mas enxergava rapidamente o que era bom para seu bem-estar. Aceitava sem reclamar o que lhe davam. Talvez fosse a única a não se sentir revoltada com o que estava reservado a todas elas.

Yoseph ficou estático, olhando cuidadosamente ao redor de si. Aquele cômodo era pequeno demais. Sentia-se sufocado. Suas paredes de madeira enegrecidas e frias; o silêncio sepulcral; o frio que parecia sólido invadindo tudo, até seus pulmões; a semi-obscuridade da lamparina sobre a mesa, tudo aquilo lhe causou imediata repulsa e uma vontade quase incontida de sair dali correndo. Mas quando se voltou para falar com o Monge que o trouxera deu de cara com a pesada porta de madeira trancada. Tentou abri-la inutilmente. Raivoso e impotente, cruzou os braços sobre o tronco e estudou com mais cuidado o ambiente. Não tinha quase nada, exceto a pequena mesa onde estava a lamparina de chama reta como se estivesse morta, a cama de madeira com cobertas grossas de lã de carneiro e sobre a mesinha uma jarra de madeira contendo água e tendo ao lado um copo também de madeira. Yoseph correu a esmurrar a porta e gritar pelo monge sem qualquer resposta. Então, gritou por seus irmãos, mas só o silêncio lhe respondeu. Sentou-se na borda da cama desorientado e sem saber o que fazer.

E foi naquela posição que o dia ameaçador, frio e escuro veio encontrá-lo. Insone, casado e desorientado…

Thiago chegou à porta de sua cela falando acremente com seu acompanhante, um monge forte, sério, de boca mais fechada que tramela de porta. Thiago reclamava do tratamento que lhe vinham dispensando e jurava que o velhote arrogante ainda ia ouvir umas verdades. Exigia que o deixassem ir embora. Afinal, tinha o direito a não ficar ali. Não era prisioneiro. Não era um escravo. Apenas fôra enganado por seu infeliz irmão mais velho que simplesmente arrebanhara a família e se pusera a caminho sem dar qualquer explicação a ninguém. E foi assim, falando alto e esmurrando uma mão com a outra, que viu a porta de sua cela ser aberta. Olhou lá dentro e de volta para o monge, com uma interrogação. Este, em silêncio, indicou-lhe que devia entrar ali, com um gesto muito eloqüente de mão.

— Não vais querer me dizer que tu pretendes trancafiar-me ali, vai? Porque se vai…

Um empurrão violento atirou-o sobre o estrado duro, coberto com uma grossa manta de lã de yaqui e antes que pudesse reagir a porta foi trancada por fora. Estava preso. Furioso atirou-se de ombro na porta, mas só o que conseguiu foi se machucar. O madeirame grosso nem rangiu. Esbravejou, gritou todos os palavões insultuosos de que fôra capaz de se lembrar e tudo inútil. Só o silêncio lhe respondia aos brados. Mesmo assim, continuou esmurrando a porta até os nós dos dedos sangrarem. Continuou a chutá-la até os dedos de seu pé doerem. E foi neste prolongado acesso de fúria que o dia veio encontrá-lo exausto, ofegante, mas ainda assim, zangado.

Judas parou e olhou o monge que o convidada em silêncio a entrar na cela. Sem comentar nada, mas desconfiado, deu dois passos para dentro do cubículo e olhou ao redor. Ainda de costas, perguntou ao monge:

— Vou ficar aqui a noite toda, sozinho?

Como não ouviu resposta à sua pergunta voltou-se para a porta e a viu trancada. Deu dois passos de volta até ela e empurrou-a com força, só para constatar que estava trancada.

— Pelos cornos de Belzebu! — exclamou contrariado. — O desgraçado me prendeu aqui! Mas amanhã ele vai ver com quantos paus se faz uma fogueira. E será bem pior se tiver feito a mesma coisa com Thiago. Aí, sim, ele vai saber o que é a raiva de um hebreu.

E Judas sentou-se na beira da cama tamborilando nervosamente os dedos das mãos. A noite seria longa…

Matheus  parou à porta da pequena cela e a olhou escrutinadoramente. Ela lhe pareceu agradável. Estava muito cansado do dia trabalhoso que tivera. Com um olhar interrogativo perguntou ao monge se ele queria que entrasse ali. Um aceno positivo de cabeça foi a única resposta. Lembrou-se do que lhes tinha dito Yehoshua: “A partir de agora não mais falareis”. Sem dizer nada, cumprimentou o monge do modo característico que os observara fazer, com as mãos postas à altura do externo e um curvar de cabeça. O monge lhe respondeu ao cumprimento sorrindo e se retirou. Matheus mesmo fechou a porta da cela sem se incomodar de ficar escutando para ver se ela era trancada por fora. 

Não tinha sido.

Ainda era cedo, uma hora antes da primeira hora do dia (eram, mais ou menos, as cinco horas da manhã) e já os monges encarregados deles lhes batiam à porta. As três Míriam não demoraram a atender ao chamamento. Suas acompanhantes eram monjas que sem dizerem nada as guiaram até um quartinho onde lhes foi indicado que entrassem. Era um banheiro, mas muito limpo e com lamparinas que soltavam odor de incenso. Viram as bacias para se lavarem e viram buracos entre as tábuas para fazerem as necessidades fisiológicas. Limparam-se e se desfizeram da premência urinária. Então, foram guiadas até o vasto salão de alimentação. Ali, viram várias postulantes, todas quietas, cabeças curvadas sobre o peito, olhos fechados, esperando o desjejum, que foi servido assim que as recém-chegadas tomaram assento junto a elas. Logo depois chegaram Ruth e Martha. Todas foram, então, separadas e colocadas em mesas diferentes e longe umas das outras. Todas entenderam que era para evitar que conversassem. Guardaram o silêncio e também fecharam os olhos para rezar uma bereka pela noite bem dormida e pela primeira refeição do dia que iam receber.

Não viram sinal dos homens.

Matheus saiu e se colocou ao lado do monge que tinha a obrigação de o acompanhar. Estava calmo e concentrado em obedecer às ordens silenciosas. Ele também se lembrara do que lhes tinha dito seu irmão mais velho. Judas saiu resmungando e insultando em voz contida o monge que o levava ao quarto de banho para fazer a ablução matinal e as necessidades urinárias. “Você está aí todo compenetrado, seu careca de uma figa. Mas vai ver só o que vai acontecer quando libertarem Thiago. Eu é que não ia querer estar no pelo do coitado que for buscá-lo”. O monge não lhe respondeu. Parecia totalmente surdo ao seu neófito revoltado. Yoseph tinha fortes olheiras e tão logo se viu diante do monge despejou uma série de insultos contra o goin atrevido que tinha tido a ousadia de encerrá-lo naquele cubículo indecente. Não obteve nenhuma resposta nem o monge demonstrou qualquer reação de quem se sente ofendido pelos insultos. Limitou-se a indicar-lhe o corredor e se pôs a caminhar à frente, sendo seguido de má vontade pelo revoltado irmão de Yehoshua. Thiago, mal a porta de sua cela foi aberta, atirou-se como um vendaval para fora aos gritos de “Onde está aquele velhote de uma figa? Eu quero falar com ele. Não é assim que se trata as visitas em minha terra. Nós temos respeito por elas. Nós não as insultamos. Ele precisa me ouvir!” Mas seu arroubo de dignidade ofendida foi sustado pela mão de pedra do monge que pousou em seu ombro e o obrigou a se voltar para o olhar. Com uma expressão dura na face, o monge indicou imperiosamente o corredor por onde o revoltado irmão de Yehoshua devia segui-lo. Rodou nos calcanhares e caminhou apressado, obrigando o furioso Thiago a correr atrás dele. Se se perdesse ali dentro, onde havia um emaranhado de corredores, não saberia dizer se seria capaz de encontrar a saída.

E o que ele mais queria era sair dali.

Eles nem imaginavam que teriam de passar uma noite inteirinha fora do mosteiro, na neve, nus e em oração...

Eles nem imaginavam que teriam de passar uma noite inteirinha fora do mosteiro, na neve, nus e em oração… (arvoremilenar.blogspot.com)

E foi o que aconteceu. Saíram no grande pátio externo onde já estavam seus outros irmãos, menos, é claro, Yehoshua. Com exceção de Matheus, todos reclamavam quase aos gritos e clamavam pela presença de Yehoshua, o culpado por eles terem sido tão humilhados por aquele bando de gente inferior e indigna de ao menos falar com eles, hebreus puros.

Quando todos estavam reunidos ali, um monge idoso, de barbas longas e ralas, cabelos brancos, pele curtida pelo frio e engelhada pela idade, aproximou-se de um molho de varas de mais ou menos dois metros de comprimento. Tomou de uma e a jogou para Yoseph que, pegado de surpresa, deixou-a cair no chão. Mas abaixou-se pressuroso para apanhá-la. A próxima foi lançada para Judas, que a aparou no ar. A outra foi para Thiago, que também a aparou no ar e sopesou-a, satisfeito com seu peso. A última foi lançada a Matheus, que deu um passo atrás e a deixou cair sobre a neve, não se curvando para apanhá-la. O rapaz limitou-se a se ajoelhar, colocar as mãos sobre as coxas e aguardar de cabeça baixa o que fosse dito ou feito.

O velho monge caminhou até o meio do grupo e com um aceno de mão convidou-os a circulá-lo. Thiago olhou para Judas e soltou uma gargalhada.

— O velhote nos convida para lutar! Ótimo, é um bom modo de eu começar meu dia. Estou mesmo doido para descer a lenha no lombo destes goins atrevidos. Não vou respeitar a idade dele. Depois de lhe dar uma surra, vou arrebentar os outros. E se vocês não me seguirem, vão-se ver comigo, eu juro!

O esquentado Thiago foi o primeiro a se lançar ao ataque, mas teve um surpresa desagradabilíssima. O velhote esfumou-se diante de seus olhos, tal a velocidade com que se movera, para aparecer às suas costas e lhe aplicar dolorosíssima palmada nas nádegas. Pegado de surpresa ele soltou um grito de susto e levou a mão à nádega atingida. Mas nem teve tempo de se refazer da surpresa e outra palmada tão dolorida quanto a primeira estalou em sua outra nádega. Ele saltou como um animal ferido nas ilhargas e se voltou lançando a vara em movimento circular, furioso. Mas duas outras palmadas estalaram em suas nádegas, aumentando desagradavelmente a sensação de dor em seus fundilhos.

— Ataquem! — Bradou dando bordoadas a torto e a direito sem conseguir nenhum êxito. Mas a mão do velho monge não errava uma palmada. As nádegas de Thiago pegavam fogo e ele já se agitava em desespero para se livrar da enxurrada de tapas altamente dolorosos que lhe explodiam no traseiro. Judas e Yoseph não tiveram melhor sorte. Também eles foram atacados pelo endiabrado monge e passaram a gritar de susto e dor com as palmadas desesperantes que lhes eram aplicadas sempre nos mesmos lugares.

Quinze minutos de surra de palmada e todos eles estavam doidos para correr dali. Mas não era possível. O velho endiabrado estava em todo lugar e sua maldita mão não parava de estalar palmadas nas nádegas dos irmãos de Yehoshua que, agora, gritavam pelo mais velho pedindo socorro em desespero. O primeiro a se jogar de costas no chão foi Thiago. Pensava poder safar suas preciosas nádegas da tremenda surra que estava levando. Os outros dois o seguiram na manobra, mas logo descobriram que tinha sido a pior idéia, pois o velhote passou a surrá-los com a vara que tinha em mãos. E como era rápido. Um estalo era seguido por outro e por outro numa seqüência enlouquecedora. Os gritos de susto e raiva se transformaram em gritos de desespero e, pouco depois, em gritos de choro agoniado.

A surra continuou até quando os três coitados estavam moídos e quase não conseguiam se movimentar. Então, o ancião parou a surra e com um gesto de cabeça ordenou que os acompanhantes retirassem dali os irmãos humilhados e feridos. Só Matheus teve um tratamento suave e foi levado para algum lugar desconhecido pelos outros.

Foram levados para a estrebaria onde lhes entregaram pesadas pás de madeira. O lugar, enorme, estava cheio de fezes endurecidas e com gestos os monges lhes ordenaram limpar o ambiente, lavar e escovar os yaquis presos a uma grande vara presa ao longo de uma das paredes do vasto salão da estrebaria. Retiraram-se sem mais nada dizer. Os três irmãos, sem reclamar e movendo-se devagar, puseram-se a trabalhar. Judas chorava…

Era quase a décima primeira hora (11 horas) quando eles pararam e olharam para a montanha de fezes empilhadas ao lado da grande porta da estrebaria.  Enfim, trabalho pronto. Estavam sentindo os estômagos pregados nas costelas de tanta fome, mas nenhum ousou falar nada. Todos temiam estar sendo observado por algum monge, principalmente pelo velhote endiabrado. Cansados, mas sem poderem se sentar devido às nádegas muito machucadas, recostaram-se como puderam na parede de madeira e curvaram as cabeças, sem ânimo nem mesmo de falarem entre si.

O monge atarracado e que fôra o guardião de Thiago, entrou na estrebaria com três grandes e pesados baldes de madeira. Entregou um a cada um dos irmãos e apontou a montanha de esterco. Cruzou os braços e permaneceu quieto, esperando. Eles compreenderam o que deviam fazer e com suspiros de resignação puseram-se a encher seus baldes. Quando estes estavam cheios olharam para o monge que rodou nos calcanhares e caminhou para fora da estrebaria. Eles se entreolharam e com lágrimas nos olhos cada um pegou um balde com dificuldade e o levou ao ombro. Então, puseram-se a seguir o monge. Este, saiu do mosteiro e caminhou por uma senda que levava ao alto, a uns quinhentos metros da entrada de Hemi. Ali no alto, num grande descampado sobre uma pedra negra, o monge indicou o lugar onde eles deviam jogar o estrume. Era um paredão de mais de seiscentos metros de profundidade. A neve que flutuava lá embaixo não deixava ver o fundo onde a caca devia cair. Sem reclamar, mas com claras expressões de descontentamento, eles descarregaram os baldes e retomaram o caminho de volta. E o monge atarracado os seguia para cima e para baixo, sem dizer nada e sempre estugando-lhes os passos com varadas nas pernas ou nas doloridas nádegas.

A montanha de estrume desapareceu e os baldes para transportar a caca foi substituído por outros cheios de água. O monge levou-os para fora e lhes mostrou um grande recipiente de pedra sobre uma fogueira. Lá dentro havia a água morna com que deviam dar banho nos mais de oitenta yaquis que, amarrados ao varal, comiam o feno que eles não sabiam dizer de onde vinha.

Já era a décima segunda hora do dia e a luz solar se tinha ido fazia tempo, quando finalmente eles acabaram de lavar os últimos yaquis. Moídos e quase sem poderem ficar de pé foram levados à sala de banho, onde foram jogados sem considerações dentro de um grande recipiente de madeira, grande o suficiente para caber mais do que uma dúzia deles. Ficaram ali, com a água morna até os pescoços, sem ânimo de se mexer. Mas aos poucos o calor do líquido precioso os animou e eles passaram a se esfregar. Quando já estavam reanimados, três monges entraram. Eram seus guardiães. Traziam vestimentas quentes, feitas de couro curtido de yaqui. Traziam, também, grandes e grossas mantas com que eles enxugaram os irmãos, desta vez sem violência e procurando não machucá-los alem do necessário. E todos se sentiram profundamente agradecidos por aquele gesto de carinho…

Foram levados ao grande salão de refeições onde não encontraram mais ninguém ali. Uma sopa substanciosa lhes foi servida e nunca alimento nenhum pareceu tão gostoso ao paladar deles. Depois do repasto, foram reconduzidos às sua celas onde entraram dando graças a Javé por ter um leito quentinho onde deitar e dormir.

Nem se lembraram de orar uma bereka de agradecimento pelo dia de aprendizagem…