Esta é a velha cidade de Srinaggar, como Yehoshua e sua família a viram.

Esta é a velha cidade de Srinaggar, como Yehoshua e sua família a viram.

As mulheres da família carnal de Yehoshua estavam descendo a montanha de retorno a Srinagar. Tinham sido enviadas para lá, juntamente com as demais postulantes, para executarem tarefas de serviçais. Deveriam prestar todo e qualquer trabalho junto às famílias que seriam indicadas mês a mês pelo Lama de Hemi. Nenhuma trabalharia junto com outra na mesma casa, mas poderiam trabalhar em casas vizinhas, de modo que bem podiam, nas horas das refeições, conversarem entre si. Durante a viagem de descida, Míriam, a esposa, aproximou sua montaria da de Míriam, a mãe, para conversar. Disfarçadamente, falando muito baixo, ela perguntou à sogra.

— A senhora soube do que eles me disseram?

Também falando sussurrando e sem se voltar, a mãe de Yehoshua respondeu que não. Ninguém lhe dirigira a palavra desde que seu filho dissera que daquele momento em diante eles não mais se comunicariam. Míriam, a nora, narrou sobre sua maior preocupação: retornar a Israel e não deixar claro que era a esposa legítima de Yehoshua. Ela não podia aceitar esta ordem absurda. E se ele viesse a se tornar o Rei de seu povo, como é que ela ficaria?

Míriam, a sogra, olhou-a de soslaio e com o semblante interrogativo. Não entendera bem aquela história e ardia de vontade de sustar a montaria e falar francamente com sua nora, mas seus olhos vislumbraram, pelos cantos, que um monge vinha apressado em direção a ambas. Calou-se e espicaçou sua montaria, adiantando-se à outra. O monge, contudo, sustou sua marcha e segurando a alimária pelas rédeas fê-la emparelhar com a da nora.

— Sabeis que não tendes permissão para conversar entre vós. Por esta desobediência perdereis a voz até que o Lama a devolva. Só o monge que vos recebeu quando aqui chegastes, Jeroboão, poderá dirigir-se a vós e só então podereis falar. Mas com ele. Nunca entre vós.

O monge se afastou e Míriam, a esposa, horrorizada viu que tinha ficado muda. Míriam, a sogra, apenas abaixou a cabeça resignadamente e não fez nenhum esforço para verificar se tinha ou não, voz.

A casa de Jeroboão ficava ao lado do Templo de Srinaggar.

A casa de Jeroboão ficava ao lado do Templo de Srinaggar.

Chegaram à residência de Jeroboão já era noite e fazia frio. Foram recebidas com muito carinho pelo velho monge que mandou que lhes servissem uma sopa quente e muito reconfortante. Após a refeição, ele as convidou para sentarem ao redor de uma fogueira que ardia no meio do pátio de sua grande casa. Um luxo que as mulheres desconheciam, visto que na primeira vez em que estiveram com o ancião ele as recebera numa casinha simples. Mas ninguém falou nada, embora morressem de curiosidade por fazer perguntas.

Um vinho quente e muito saboroso foi servido às mulheres e ao senhor da mansão, Jeroboão. Após o primeiro gole, ele pigarreou e deu início à sua fala.

— Estais aqui para descobrir quem realmente sois vós — disse, pausadamente, olhando incisivamente nos olhos de cada uma. Todas estavam expectantes e Míriam, a esposa, percebeu que seu coração batia acelerado. Mas não ousou tentar falar para não se angustiar novamente ao confirmar que sua voz lhe fora realmente retirada.

— Sois seres especiais — continuou o ancião. — Viestes a este mundo por ordem de nosso Senhor Maitreya que, já o sabeis, é, neste momento, o Senhor do Mundo, Aquele que estuda o progresso do Espírito humano e o progresso de todas as vidas, inclusive a das árvores e a das pedras. O Senhor do Mundo estuda e define até mesmo a vida deste mundo em que vivemos todos nós. Ele tem um enorme séquito de seguidores, Bodhisattvas iluminados, aos quais atribui o ingente esforço de estudar a história construída por todos os seres viventes sobre a Terra e, a partir daí, escolherem os melhores caminhos e o indicarem ao Senhor do Mundo, que decide sobre qual optar para o progresso de todos em harmonia e preferentemente, serenidade. Maitreya significa Bondade, Amor, Compaixão. Sem estas qualidades divinas a Vida não poderia sobrepor-se ao Mundo do Mâyâ. No entanto, o Senhor do Mundo pode, por vezes, escolher para um determinado grupo humano, como o de onde vindes, o duro caminho da guerra e da dor, pois a dor é a mó que pode quebrar a dura casca do orgulho fútil e da arrogância vazia. Há povos que atravessam os séculos experimentando a agrura da dor e do sofrimento sem que aprendam o caminho da harmonia, da paz e da fraternidade. Por isto, continuará a sofrer  e a chorar até que, finalmente, dobrem os joelhos e curvem as cabeças arrogantes.

Ela não tinha consciência de quem realmente era, tal a força da Matéria sobre o Espírito.

Ela não tinha consciência de quem realmente era, tal a força da Matéria sobre o Espírito.

Mâyâ significa ilusão. O que vedes ao vosso redor não existe de fato. São ilusões que estão sempre e sempre se desfazendo e se reconstruindo, mas numa reconstrução progressista, sempre melhor do que a anterior. Vede as folhas das árvores. Elas nascem belas, vivem belas, envelhecem, caem e viram adubo na terra. Daí, voltam a serem absorvidas em suas essências materiais por outras árvores e tornam a nascer, quer como novas folhas, quer como novos caules de outras árvores, estas, sempre melhores do que aquela de onde vieram na forma de folhas. Assim é com todos os corpos que aparentemente sofrem o temido processo de Ajal. Ajal não existe. Ajal é uma ilusão. Apenas um adormecer aqui, na matéria densa, para despertar em outra realidade mais sutil e menos ilusória.

O fio da Vida não cessa com a Ajal do corpo.

Agora, que sabeis que nada que vêdes realmente é, aconselho-vos a vos recolherdes em meditação sobre a Realidade além da realidade. Busqueis a serenidade interior a fim de poderdes apartar vosso verdadeiro Ser deste ser mesquinho que é o corpo que pensais ter. Ele verdadeiramente não vos pertence, mas à Mãe Terra. Recolhei-vos em serenidade, ignorando o cansaço da viagem e o prazer que pensais ter encontrado no alimento que comestes. Abandonai totalmente o mundo das sensações. Abandonai vossos ilusórios envoltórios carnais e recolhei-vos ao vosso íntimo mais profundo. Abandonai os apegos a coisas e processos materiais ou sociais. Não alimenteis imagens mentais de espécie alguma. Não deis atenção a nenhum pensamento, por mais urgente que ele vos pareça ser. Não deis atenção às críticas ou aos elogios ouvidos por vossos ouvidos materiais. O que os outros corpos vos disserem não tem qualquer valor verdadeiro, mas apenas no relativo mundo da representação ilusória do que pensais ser o Certo ou o Errado. Nada é certo e nada é errado. Tudo somente É.

Os juízos de valor que ouvirdes sobre outros, ignorai, assim como ignorai todo juízo de valor sobre vós mesmos. Vossas ações, vossas tomadas de decisão, o traçar de vossa caminhada sofrida sobre o chão que pisais não depende totalmente de vossas pequeninas vontades de encarnados, mas sim da Sabedoria Superior, à qual não tendes qualquer acesso.

Sabei que sois o que sois e isto deve bastar-vos. E eu vos digo com toda a certeza: sois Espírito, algo muito além da matéria densa. Algo a que os juízos e os valores terrenos e ilusórios não alcança, não macula, não perturba. Tendes uma Alma terrena e esta Alma se vai com Ajal, assim como se vão vossos corpos. Mas o que sois de verdade, isto não se vai. Permanece sempre, pois o que sois verdadeiramente está além e acima das ilusões do Mâyâ. Buscai, em vosso recolhimento, afastar de vós todos os estímulos que vos chegarem por quaisquer meios externos a vós ou interno a vós. O corpo vos acicatará em agonia por perceber que desejais deixá-lo. Ele vos fará sensíveis ao cansaço, mas com o exercício de vossa Vontade, anulareis isto. O que mais vos virá ameaçar são vossas fantasias e vossas crenças em deveres materiais, sociais. Deveres e obrigações a que não tendes de subjugar vossos Espíritos Celestes. 

Jeroboão parou de falar e escrutou demoradamente cada rosto diante de si. Percebeu a confusão que suas palavas tinham causado nas mulheres e, quando terminou seu estudo das expressões faciais, com um profundo suspiro e olhando para o solo, falou novamente.

— Por hoje é só. Ide recolher-vos, mas não penseis em dormir e, sim, em vos recolherdes aos vossos interiores. Isto é o que importa, não o repouso da matéria densa.

O ancião pôs-se de pé e se retirou, deixando as mulheres a se entreolharem ansiosas, mas mudas. Uma a uma elas se levantaram e em silêncio cada qual se recolheu a seus aposentos. O de Míriam, a mãe, situava-se no segundo andar da casa de pedra talhada. Tinha um bom leito, uma jarra com água fresca, lençóis limpos e uma bacia para lavar os pés. Os outros não eram diferentes. Míriam sentou-se num banquinho de pedra acolchoado com pele de carneiro e permaneceu quieta, rememorando tudo o que ouvira. Então, fechando os olhos e repousando as mãos sobre o colo, procurou serenar sua respiração e relaxar o corpo e a mente. No quarto em frente sua filha Ruth tinha-se sentado num banquinho semelhante e cruzara as pernas em padmasana, com os pés sobre as pernas e as plantas voltadas para o alto. Sua coluna se endireitou, seu queixo foi empurrado levemente para dentro e sua face curvou-se levemente para baixo. Então, sua respiração foi diminuindo até quase se tornar imperceptível. Ela varria da mente todas as imagens do dia e aquelas da recordação. Não lutava contra os pensamentos que lhe assaltavam a Mente como bando de salteadores, mas não lhes dava qualquer atenção. Logo, estava vazia e não mais sentia o peso do corpo nas nádegas…

Marta estava agitada e um milhão de pensamentos atormentavam sua mente. Nem pensou no que tinha acabado de ouvir. Deitou-se na cama, soprou a chama da lamparina e no escuro permaneceu quase duas horas fitando o escuro e pensando mil pensamentos desencontrados e incômodos. Perdeu o sono e passou a noite em claro.

Míriam, a esposa, não teve melhor sorte. Sentia enorme saudade de Yehoshua e uma terrível sensação de desamparo a levava a um choro silencioso. Dormiu de cansaço quando o dia estava próximo a clarear.

Míriam, a irmã, ficou mais de hora dando voltas no quarto e experimentando a fechadura da porta. Só para comprovar, pela centésima vez, que havia uma tramela pelo lado de fora e que lhe era impossível sair dali. Raivosa, xingou em pensamento todos os que conhecera naquela estranha viagem e sentiu muita raiva de seu irmão mais velho. Entregou-se à fantasia de como faria para lhe pregar uma peça bem pior do que ele lhes havia feito. Dormiu tarde, mas quando adormeceu foi com um sono de pedra.

Em Hemi, o Lama veio sentar-se ao lado de Yehoshua que, sob a luz da lua cheia, meditava apenas com uma tanga na cintura. Todo o corpo estava desnudo e, no entanto, ele não parecia sentir nenhum frio. Quando o Lama se sentou, ele abriu os olhos e voltou a face para o fitar.

— Vejo preocupação em ti. O que tens? — Perguntou, com voz serena.

— Preocupa-me, ó Budha, que tu ainda teimes em levar avante a missão que te impuseste. Sei que sendo eu somente um Bodhisattva ainda não iluminado não tenho acesso aos desígnios superiores. Mas também tenho conhecimento do quanto os humanos estão longe de compreender a excelsa mensagem que vós decidistes trazer a eles. Não estão nem perto de poder compreender o que desejais, ó Budha. Vossa família carnal, por exemplo, é composta de almas fracas, ainda muito apegadas aos valores morais e às crenças sociais do povo em que nasceram. Mesmo vossa mãe, que, com vossa irmã Ruth demonstraram ser entidades bem acima dos outros, ainda está mergulhada na escuridão da matéria. Como desejais poder contar com eles quando o futuro que vos traçastes, chegar?

Yehoshua voltou a fechar os olhos e só então falou.

 — Tudo a seu tempo, Bodhisattva. Tudo a seu tempo. Não foi à-toa que tu vieste primeiro que eles e não foi à-toa que te tornaste o Lama deste mosteiro, onde vim para que tu me despertasses minha consciência superior, adormecida na Matéria por ter eu nascido como um mortal comum. Farás a mesma coisa com eles, cada qual em seu estágio evolutivo. Eles são superiores às pessoas comuns do povo onde nasceram. Têm um progresso espiritual bem mais avançado que aqueles. Sabes bem que aquela que veio para ser minha mãe é igual a mim e sabes que minha irmã Ruth é como tu, só que já possui iluminação superior à tua. Mas estão, todos eles, aprisionados ferreamente pela Matéria e é tua obrigação livrá-los disto, a todos eles, independente de sexo. Agora, já que me perturbaste, quero dizer-te que parto amanhã e não vou de retorno à Palestina. Vou para terras bem além no oceano. Um lugar onde sangue jovem é derramado nos solstícios de verão e nos equinócios invernais do ano. Um povo há que comete barbaridades bem maiores que aquelas cometidas pelos hebreus em nome da religião que cultivam. Eu vou mudar aquilo e tu irás me ajudar nesta empreitada. Preciso de 12 monges fortes e bons de luta física. Preciso, também, que me consigas um navio que navegue pelos mares mais profundos e mais distantes. Navios cujos comandantes conheçam águas que são desconhecidas pela maioria das pessoas daqui e da Palestina.

— Para amanhã? — Espantou-se o Lama.

— Exatamente. Agora, vai providenciar o que te pedi.

E Yehoshua fechou os olhos e retomou sua meditação…