Aqui estou eu, vivinho da silva, ao lado do amigão que já se foi desta para melhor, muito melhor.

Aqui estou eu, vivinho da silva, ao lado do amigão que já se foi desta para melhor, muito melhor.

Desperto lá pela madrugada “fechada” (perto da uma hora da madrugada). Estou paralisado. Meu tórax está vazio de ar e tenho dificuldade de tomar plena consciência do que me sucede. Não consigo mexer nem mesmo a falangeta do dedo mínimo de minha mão direita, já que a esquerda está sob o corpo. Estou deitado de lado, quase de borco sobre o lado esquerdo. Há uma tremenda necessidade de ar em meus pulmões, mas não consigo inspirar. A consciência começa a clarear e a luta pelo ar se torna intensa. Ao meu lado, ressonando, minha mulher está quieta. Penso em tocá-la para que ela mexa em meu corpo. Tenho a certeza, e não sei de onde ela me vem, que se meu corpo for mexido eu consigo respirar. Mas como me encontro totalmente paralisado, não posso mexer nem mesmo a ponta do dedo mínimo, quanto mais me virar para tocar no corpo de minha mulher. A luta é só minha e a premência pelo ar já se faz muito incômoda. Concentro-me em obter meios de fazer que meu tórax se dilate e aceite o ar entrar em meus pulmões. E aí me vem a consciência de que há alguma coisa errada com minha garganta. Ali parece haver um estreitamento que não permite que o ar prossiga além das fossas nasais. Fico tentando inspirar, mas apenas “ouço” um leve tique, como se algo não conseguisse se ligar. A premência por ar começa a me incomodar muito. Mas mesmo ansioso, meu coração não acelera. Nada em mim sofre alteração, exceto a percepção de que se não conseguir respirar logo vou perder a consciência e aí… Babau.

Gosto muito é de relaxar e respirar sem ter de me preocupar com isto.

Gosto muito é de relaxar e respirar sem ter de me preocupar com isto.

A luta prossegue por um tempo real de não mais que alguns segundos, talvez uns trinta ou quarenta e cinco segundos, mas psicologicamente este tempo mínimo me parece uma eternidade, visto que estou sem qualquer reserva de ar nos pulmões. Estou-me sentindo enfraquecer; meu corpo fica mais pesado e sinto que será mais difícil meu tórax se dilatar. Pela primeira vez me vem o pensamento: “Estou morrendo”. E esta tomada de consciência me põe em alvoroço. Nunca me agradou a idéia de morrer sufocado. Até queimado eu aceito, mas sufocado, não. Também aceito ser esbagaçado numa batida de carro  a 160 km por hora, que é a média de velocidade com que dirijo. A perspectiva não me amedronta, assim como a de ser baleado na cabeça e ser desligado como a luz do teto quando se desliga o interruptor. Encaro o revólver na mão de um meliante com a mesma tranqüilidade com que encaro uma curva fechada em uma das mortais estradas brasileiras. Sei que, ali, naquele momento, a decisão será rapidíssima. Mas não tenho qualquer tranqüilidade para encarar a perspectiva de morte por sufocamento. Eu não sei se é bem por isto, pelo terror de morrer sufocado, mas de súbito, sem que ainda tenha podido definir por qual razão, o ar me penetra nos pulmões de uma só golfada. E eu percebo que estou exausto, muito, muito cansado. Sento-me na cama e permaneço apoiando-me nas mãos, pés no chão frio, com leve perspiração no corpo. Respiro com um cansaço terrível, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Levanto trêmulo e vou até à geladeira. Encho um copo de água gelada e bebo devagar, sentindo minhas mãos trêmulas.

Retorno à cama e me deito, mas o sono se foi. Estou com medo.

Aqui está o único homem pelo qual sou apaixonado. Meu filhão. Bombeiro por acidente e Engenheiro de Computação por profissão.

Aqui está o único homem pelo qual sou apaixonado. Meu filhão. Bombeiro por acidente e Engenheiro de Computação por profissão.

Não sei quantos de meus leitores passam por esta experiência aterrorizante, mas acabo de descobrir que meu filho, com apenas 29 anos, sofre disto desde os seus 20 anos, principalmente, disse-me ele, após o almoço. Se se deixar adormecer neste horário, segundo suas palavras, é pedir para morrer, pois o sufocamento sempre lhe acontece. O engraçado é que nunca nos falou sobre isto.

Quando eu estudei Psicologia, na Universidade Gama Filho, tive de cursar dois anos junto com os alunos de Medicina. Ali, todos nós do curso de Psicologia estudávamos em parceria com alunos de Neurologia. E entre as matérias estava aquela relativa aos Transtornos do Sono. Comecei a rememorar minhas aulas sobre este assunto. É comum, na população com mais de 65 anos, os Transtornos do Sono. O ritmo circadiano destas pessoas sofre alterações significativas e por isto muitos idosos costumam trocar o dia pela noite e vice-versa. Não dormem à noite e passam as horas do dia cabeceando de sono (eu ainda não entrei nesta. Quando durmo, durmo bem e não costumo trocar o dia pela noite). Outras razões para a perda do sono à noite são as ocorrências de afecções como tendinites, refluxo gastro-esofágico (e eu tive problemas com a tal hérnia de hiato, que me roubou uma grande quantidade de sono noturno sob torturantes crises de gases muito dolorosas), cervicalgias ou torcicolos e as tendinites são afecções do corpo que perturbam o sono natural e normal. E isto sem citar as hérnias de disco, que doem pra burro em função de deformações do colchão.

O mal de que ando sofrendo, e meu filho também, chama-se Apnéia do Sono. Apnéia quer dizer suspensão temporária da respiração. As crises de apnéia do sono se caracterizam exatamente pela interrupção da respiração noturna. As crises podem ocorrer várias vezes durante a noite e a pessoa não se dá conta de que sofre disto. Geralmente elas vêm com mais freqüência naquelas que roncam (como eu, ultimamente) e não são de grande duração, nada além de 10 segundos, no máximo. Quando, porém, ultrapassam este limite a coisa se complica porque a pessoa acorda ou tem maior probabilidade de acordar como eu acordei, ontem e ante-ontem, paralisada e com a consciência do sufocamento. 

O estreitamento da via aérea interrompendo a passagem do ar, na inspiração, causa o ronco noturno e, com ele, pode vir também a apnéia. Esta afecção é mais comum nos idosos e é a causa de muitas mortes durante o sono. Mortes que muitas pessoas acreditam ser ideal porque se “morre dormindo”. Mas não é verdade. Não se está dormindo. Está-se em grande agonia, tentando conseguir um mínimo de movimento ou tentando um grito de socorro sem qualquer sucesso. A morte sobrevém devagar, sadicamente devagar. A pessoa sente a dor desesperante do sufocamento; sente seu coração começando a se debater e bater forte e descompassadamente, sem obter oxigênio para o sangue; antes de sua consciência se nublar e se perder para sempre nesta matéria, o infeliz apnéico sofre as agruras de quem morre afogado. Só que este, pode debater-se e ele nem isto pode fazer.

Nunca deseje morrer dormindo. É uma armadilha do diabo.