"Um filho não é uma bênção, mas uma provação". E Yehoshua foi bem o exemplo disto.

“Um filho não é uma bênção, mas uma provação”. E Yehoshua foi bem o exemplo disto.

Depois daquele fracasso com a folha seca, por noventa dias Jeroboão não promoveu reunião com as parentas de Yehoshua. Inquietas, ora se sentindo culpadas, ora irritadas, elas esperavam com ansiedade o momento de novamente se verem diante do velho instrutor. Ainda não lhes era permitido conversar entre si e, assim, viviam a angústia do silêncio forçado. A primeira a ter a idéia foi Ruth, mas logo todas, individualmente, tinham uma folha seca dentro de um lenço cuidadosamente dobrado e escondido dentro do quarto em que dormiam. À noite, sozinhas, cada qual tentava sem sucesso rejuvenescê-la. A frustração fez que, aos poucos fossem desistindo, exceto Ruth que persistia com a mesma tenacidade com que começara.

Naquela noite a jovenzita sentou-se no chão, após orar sua bereka em agradecimento por tudo o que tinha vivenciado e aprendido em seu trabalho, para tentar pela milésima vez a ressurreição da folha morta. Mas quando tentou esvaziar sua mente veio-lhe o rostinho da criança, Timóteo, que morreu em seus braços. E com a lembrança também veio aquele pranto dorido de quem se sente impotente diante da Morte. A criança era a filha mais nova de seus patrões e era muito meiga e muito apegada a Ruth. A jovem se sentiu tomada de grande ternura e uma confusa mistura emocional de amor maternal e saudade do menininho que tanto rira com ela. 

E Ruth chorou pela criança a  quem amara de verdade. E aquele amor se estendeu para a folha seca e eis que súbito ela foi mudando de seca e feia para um verde brilhante, de folha nova. A moça não sabia, mas aquele amor intenso tomou a direção de seu pensamento intencional, que era ressuscitar a folha morta. A jovem custou a perceber o “milagre”, pois seus olhos ainda estavam embaçados pelas lágrimas do pranto.

A folha de Ruth ficou vivíssima e fez sua alegria.

A folha de Ruth ficou vivíssima e fez sua alegria.

O pranto de dor e saudade deu lugar ao espanto quando os olhos da jovem puderam, finalmente, fixar a folha. E o espanto cedeu lugar à alegria. Sem se conter, a jovem se lançou para fora do quarto aos gritos de “Eu consegui!”, despertando todos ou atraindo para fora de seus aposentos os que ainda não tinham adormecido.

Ruth segurava a folha verde na mão direita e a agitava ao alto, feliz por ter conseguido trazê-la de volta à vida. As outras mulheres logo estavam ao seu redor e se integravam à algazarra. Afinal, uma delas havia realizado o milagre e provara que realmente o Bel-Beu estava certo: tudo se interligava no Universo.

Jeroboão integrou-se ao grupo e permaneceu quieto, enquanto Ruth lhe mostrava, cheia de alegria, a folha verde em sua mão. O ancião tomou-a entre as suas e permaneceu com ela escondida dentro das palmas das mãos. Quando, finalmente, as abriu a folha estava novamente seca e se desfazendo em fragmentos. O silêncio que se fez era quase palpável e todos os olhares se voltaram para ele, com expressão compungida.

— Por que fez isto? — Gritou Ruth, levando as mãos ao rosto, horrorizada. — O senhor a matou!

— Não. Eu libertei o espírito da criança que tu, ignorando o que fazias, tinhas prendido a ela. Isto é magia negra e não deve ser feito de modo algum. Agora, ide deitar, todas vós. Amanhã explicarei o que aconteceu aqui.

E o ancião rodou nos calcanhares e se retirou, altivo, para seus aposentos, deixando todas atônitas, a se entreolharem desamparadas. Aos poucos foram sendo tomadas pelo pesado silêncio que se fizera e quietas, permaneceram olhando para a escada que levava ao patamar superior, onde se encontrara o aposento em que o Yogue repousava.

As mulheres desorientadas e confusas se retiraram cada qual para seu quarto. Ruth foi a única que permaneceu ali fora, no escuro, olhos abertos na obscuridade do ambiente, mente dando voltas e mais voltas sem encontrar uma resposta satisfatória para sua angustiante pergunta: “O que ele quis dizer com Magia Negra? E onde estava preso o Espírito de Timóteo? Como sabia da morte da criança?”

Foi ao redor de uma fogueira que a família de Yehoshua teve suas primeiras aulas de ocultismo.

Foi ao redor de uma fogueira que a família de Yehoshua teve suas primeiras aulas de ocultismo.

O dia seguinte foi pesado e parecia que não ia terminar nunca, para todas elas. Estavam ansiosas para voltar para casa e ouvir o que o ancião tinha a lhes dizer sobre o milagre da folha seca de Ruth, assim como a explicação que ele lhes prometera sobre a tal Magia Negra que a jovem teria praticado sem o saber. Elas chegaram apressadas, lavaram-se e oraram a bereka antes do jantar frugal; depois correram a se sentar ao redor da fogueira à espera do ancião. Ele foi pontual. Cumprimentou a todas e ouviu, como de costume, o que cada qual tinha a relatar sobre as emoções várias que haviam vivenciado em mais aquele dia de duras provações de aprendizagem. Tinha-se tornado um ritual ao qual todas se haviam acostumado. Sempre, à noite, depois do jantar, elas se sentavam ao redor de uma fogueira para fazer uma narrativa o mais objetiva possível sobre os fatos mais importantes vivenciados e como haviam respondido emocionalmente a eles. Não interessava tanto aquela emoção que de alguma forma fôra colocada para fora, explosivamente falando ou agindo. Mas era de grande interesse para todos a emoção que ficara rugindo como trovoada no íntimo de cada uma. Invariavelmente terminavam por discorrer sobre os pensamentos negativos, maus, de rancor e de retaliação que lhes ocorriam e as perseguiam quando raivosas, frustradas, humilhadas ou desconsideradas pelas pessoas do local. Jeroboão lhes tinha explicado que toda pessoa possuía duas etapas emocionais. A primeira era superficial na mente e era sensível. A segunda, mais importante, era oculta na mente, profunda, raramente sentida ou percebida, mas permanecia enegrecendo todos os pensamentos, dirigindo-os para fantasias mórbidas, doentias, rancorosas ou vingativas. Uma vez que todas tinham sido desde a infância educadas nos rígidos princípios do judaísmo, tinham facilidade para viver mais tangidas pelas emoções ocultas na mente do que por aquelas superficiais, imediatamente percebidas e sentidas.

Elas não haviam apreendido bem aquela instrução, mas após noventa dias sendo exigidas a se voltar para cavucar o mais esconso de seus íntimos, expondo-os a nu e cru diante de todos, começaram a compreender o que o Yogue lhes dissera. Agora, era com imensa ansiedade que esperavam para se descobrirem nas reações emocionais mais escondidas, mais disfarçadas e mais “demoníacas”. Jeroboão rira quando ouviu de Míriam, a irmã de Yehoshua, aquela definição para as emoções disfóricas. Explicou que o demônio não era acessível assim, tão fácil como as pessoas geralmente julgavam. E toda vez que alguma tinha a rara infelicidade de ter contato com o Senhor das Trevas e da Desordem, imediatamente enlouqueciam e não podiam mais ser recuperadas senão por alguém que fosse muito forte, muito acima de qualquer mortal, mesmo acima dos excepcionais.

As possessões demoníacas atravessaram os séculos e chegaram até hoje, quando, com total inversão de valores, os demônios são cultuados.

As possessões demoníacas atravessaram os séculos e chegaram até hoje, quando, com total inversão de valores, os demônios são cultuados.

Elas lhe disseram que entre seu povo era comum as pessoas serem tomadas pelos demônios. Os possessos ou falavam sozinhas com o danado, pois ninguém mais o via senão eles, os endemoniados, ou babavam, debatiam-se espumando no chão e quando o diabo ia embora não se recordavam de nada… E desfilaram uma imensa gama de possessões demoníacas. Jeroboão ouviu tudo em silêncio, mas ao final disse apenas: “Tudo isto que vós me narrastes não faz parte alguma das artes do Demônio. São doenças, apenas isto. O Demônio, assim como o Seu Criador, não tem tempo a perder com a raça humana e fica furioso quando é por alguém desta espécie perturbado em sua morada. Os males de que sofrem os humanos, neste momento de suas existências, são causados a si mesmos por eles próprios. Mas chegará o dia em que o Senhor das Trevas será liberado sobre a Terra, entre os homens. E aí, sim, a humanidade verá e viverá sua força aterradora“. E sem permitir questionamentos ou perguntas, trouxe todas de volta ao assunto.

— Ontem — disse o ancião —, vós ficastes muito excitadas com o aparente milagre da ressurreição da folha morta, supostamente realizado por Ruth. Na verdade, o que a jovem filha de Míriam fez foi inadvertidamente ligar o Duplo da criança falecida, a quem ela muito amava, à folha morta. A vitalidade do Duplo da criança, ainda em sono profundo depois de deixar seu envólucro carnal, passou instantaneamente a vivificar a folha e como esta pertence a uma entidade viva muito inferior à humana, logo obedeceu ao desejo intenso e oculto na mente de Ruth, de trazer de volta aquela criança. A folha não retomou a vida a partir de Vishnu, o Senhor da Vida, mas sim a partir do Duplo da criança. Era, pois, um aleijão, algo que não existe na Natureza. Viveria como um vampiro entre as pessoas e quando o Duplo da criança se sentisse enfraquecer, automática e naturalmente sugaria a energia prânica de qualquer um que estivesse próximo da folha. Isto perpetuaria o sofrimento do Espírito aprisionado no Duplo da criança, pois enquanto este fosse mantido forte, não se desfaria e não permitiria ao Espírito despertar como é seu direito, depois que perde o envólucro carnal.

Como artistas pensam o que foi a ressurreição de Jesus Cristo.

No passado, diz as lendas hebraicas, havia muitos profetas e magos que realizavam ressurreição de mortos.

— A ressurreição, minhas filhas, não é façanha acessível a qualquer um. Só quem realmente não se apega nem a filhos nem a pais, nem a esposa nem a esposo, nem a qualquer valor ou bem material e vive neste mundo sem depender dele em nada, mas respeitando tudo, pois quem é visita não tem o direito de quebrar ou entortar nada na casa que o abriga como visitante; só quem atinge este estilo de vida, repito, pode tentar obter de Brahman a Força Vital e o direito de trazer de volta à vida interrompida alguma coisa ou alguém. Mas as entidades evoluídas, como os Budas, nunca ressuscitam pessoas, pois isto é contrário à caminhada que ela tem de realizar em busca de seu Aperfeiçoamento Divino. Retornar a um corpo que já não mais lhe serve e já cumpriu com sua missão, mesmo que tal corpo adquira saúde perfeita após o retorno do “morto” é andar para trás. Os Mestes que andam pela Terra na condição de profetas ou superior a eles, nunca ressuscitam mortos. 

— Jeroboão — disse Ruth, observada atentamente pelas demais —, a ressurreição cessa o sofrimento dos parentes e amigos do falecido, além de, quando o falecido era o arrimo da família, trazer o equilíbrio perdido ao lar perturbado. Todos eles sofrem pela perda e todas sabemos o quanto esta dor é imensa. Passou por nossa terra um homem, acho que se chamava Apolônio de Tiana, que fez vários milagres como este, de ressuscitar mortos. Yehoshua até foi falar com ele e ficaram muito íntimos. Conversaram muito, os dois.

— As famílias dos falecidos ficaram muito felizes e o ressurrecto também. Eu mesma passei pela experiência com o Timotinho, o garotinho que faleceu apenas com dois anos e meio e a quem eu me tinha apegado de todo meu coração. Eu sofria e sofro muito — e sua voz se embargou, obrigando-a a um esforço para não mergulhar num pranto dorido e  prolongado — assim como sofrem seus pais. Eles eram e são arrogantes com gente como eu, que não sou daqui e lhes sirvo na condição de empregada… de inferior; eles são gananciosos e dão demasiado valor a jóias e bens materiais. Apegam-se às belezas físicas, sem notar que são efêmeras. Principalmente as mulheres. São, em suma, pessoas comuns que vivem e têm os vícios comuns à maioria das pessoas deste lugar e de outros, como aquelas que vivem na Palestina. Foi o que observei neles até agora. Mesmo assim, são pais e a perda do filho muito lhes doeu e dói.

O amor da mãe ao seu bebê e vice-versa é a base da Evolução do Espírito.

O amor da mãe ao seu bebê e vice-versa é a base da Evolução do Espírito. Mas Jeroboão confundiu as mulheres com dizer que um filho não é uma bênção, mas uma provação. No entanto, se se observa bem a relação mãe-filho e vice-versa, mormente na atualidade, chega-se à conclusão que ele estava certo.

— Ruth — disse Jeroboão, sério —, um filho não é uma bênção, mas uma provação. Um filho é um Espírito Independente que é entregue a dois Espíritos encarnados, também independentes, a fim de que estes lhe dêem a melhor educação possível, combatendo naquele que retorna seus vícios anteriores, a fim de que não voltem a se manifestar. Se tal acontece, a encarnação está perdida para o Espírito que retornou e asseguro-vos que a responsabilidade é dos que o receberam aqui em baixo e deles será cobrada a responsabilidade por isto. Então, os Espíritos que receberam outro aqui em baixo para orientar e educar, se e quando este outro é chamado de volta aos mundos superiores, não devem lamentar sua partida e, sim, sentirem-se aliviados e tentarem compreender que alguma razão houve para que Shiva tenha resolvido recolher aquele que aqui estava pela benevolência de Vishnu. Não permitais que vossos Espíritos sejam obnubilados pelo apego da carne. Quem chora pela partida do outro é o Elemental Físico dos que se acreditam pais, não seus Espíritos, pois estes sabem perfeitamente que a matéria densa não faz parte de suas existências, senão temporariamente.

— Como é possível viver neste mundo sem o amor familiar? — Questionou Míriam, a mãe. — Sem o amor paternal e fraternal, os Espíritos encarnados, como nos definis, se perderiam rapidamente. 

— O amor de que falais, senhora, é um arremedo do Verdadeiro Amor. E é arremedo porque é possessivo. Os pais se convencem que aquele filho lhes pertence. É deles porque saiu do ventre da mulher parelha do macho num ritual puramente social, convencional. É o “amor” da carne pela carne. São os corpos dos genitores apegados àquilo que acreditam que produziram. Sim, em verdade eles engendraram um corpo semelhante aos que são eles mesmos, mas não criaram nada. Não geraram nada. Nenhum deles teve qualquer ação direta no que aconteceu no ventre feminino a partir da fecundação. Tudo ali dentro acontece e se processa segundo a Vontade de Vishnu, o Criador. Só Ele pode conceder a vida na carne. Ele é o Senhor da Criação e da Geração.

— Então, o amor que sinto por meus filhos não é válido? — Perguntou Míriam, espantada e revoltada. Ela sabia que daria a vida em defesa de qualquer um deles, se visse algum em perigo.

— É válido, senhora, na medida em que serve para que um Espírito aprenda a considerar o outro, que é tão grande quanto ele mesmo, como irmão. Um irmão é igual a outro irmão, esta é a Lei. Não há um irmão superior a outro, senão enquanto enquadrados nos valores terrenos. Diante de Brahman qualquer Espírito humano é absolutamente igual a outro em todos os valores celestiais. E é isto o que importa. Vêde, senhoras, se um irmão é igual a outro irmão em tudo, então, entre estes irmãos não há espaço para invejas, nem rancores, nem vinganças, nem maquerências de quaisquer espécies, pois um é exatamente o reflexo do outro. E é assim que os homens deviam viver entre si. No entanto, a humana raça se esqueceu rapidamente da fraternidade e se entregaram à criação de hierarquias baseadas em posses, em riquezas e em Poder Venal. Passaram a se distingüir entre si em função de tais valores inúteis, pois todos eles findam com o fim da vida na matéria. E por isto, para se valorizarem diante de seus irmãos, criaram reis, governos, sátrapas, hierarquia militar e política e uma infinidade de tolices como estas, que apenas aprofundam a inconsciência espiritual na lama da Matéria Densa. E será por isto, porque se valorizarão através destas ilusões, que um dia, no futuro, o Demônio receberá de Shiva a autorização para vir ao seio dos homens e exterminar com eles. É num esforço contra este perigo que os Budas decidiram intervir agora, enviando alguém dentre eles para despertar as mentes já embotadas dos que atualmente se acreditam os donos do Mundo. Tolos. Nada são, senão cadáveres que se crêem vivos.

João Batista, dizem os Budistas, era a encarnação de Sakyamuni. O amor da mãe ao seu bebê e vice-versa é a base da Evolução do Espírito. Veio para anunciar a chegada do Salvador, seu primo.

João Batista, Yahya era como se chamava entre os hebreus, dizem os Budistas da época de Yehoshua, era a encarnação de Sakyamuni. Veio para anunciar a chegada do Salvador, seu primo.

— E como é o nome deste Buda que dizeis deve descer entre os homens para lhes libertar as mentes embotadas? — Perguntou Marta, até então, silenciosa.

— Sakyamuni, Marta. Este é seu nome.

— E quando ele chegará entre os homens? Onde chegará? Como será reconhecido?

— Por que este interesse em Sakyamuni, Míriam, irmã de Yehoshua? — Perguntou Jeroboão, voltando seu olhar penetrante para a jovem mulher.

— Porque ele deve vir na forma de um profeta, acho eu. E também creio que virá entre nosso povo… os hebreus, quero dizer.

— Eu não sei se Sakyamuni virá como profeta de algum povo. Também não creio que encarnará entre vossa gente, Míriam. Mas posso dizer-vos que ele já se encontra entre nós. Em algum lugar ele certamente está.

As mulheres se entreolharam significativamente. Jeroboão, que as observava com atenção, perguntou:

— O que pensais? Por que vossos olhos brilham deste modo? Por acaso, conheceis alguém extraordinário lá nas terras hebraicas?

— Sim — disse Míriam, a mãe. — Há um homem extraordinário, filho de minha prima, Izabel, que esteve muitos anos em retiro voluntário no deserto. É cinco anos mais velho que meu Yehoshua. Ele se ausentou de casa com mais ou menos 15 anos, quando devia noivar como é o costume entre nossa gente, e deixou a família em desespero. Mas retornou com 25 anos. Vinha do deserto. Vestia-se com roupas feitas com pele de camelo. Era alto, muito alto e muito forte. Tão forte que foi capaz de erguer uma carroça cheia de mantimentos que tinha atolado e a mula não conseguia arrastá-la. Ele, vendo o carroceiro chicoteando o animal inutilmente, tomou-lhe o relho e o atirou longe. Então, sem dizer nada, pegou a carroça por detrás e com um esforço hercúleo ergueu-a do atoleiro e a arrastou por dez côvados, até o solo duro. Calou a todos que estavam zombando de sua ousadia, pois a carroça estava abarrotada com sacas de mantimentos e pesava muito, certamente.

— E seu nome? — Perguntou Jeroboão, sem entonação emocional na voz.

— Yahya, este é seu nome.

— Ele é, então, parente de vosso filho, Yehoshua? — Tornou a perguntar Jeroboão.

— Sim, é, pois sua mãe e eu somos primas legítimas.

— Yahya, um dia, disse a seus familiares, num dos raros momentos em que esteve na companhia deles, que havia passado aqueles anos todos metade com os Homens Santos do Mosteiro de Qunram, estudando e aprendendo com os Nazoritas; e metade em Alexandria, numa Vihara, uma escola com um templo dedicado ao estudo da Verdadeira Religião. Ele voltou ao nosso meio para batizar com a água do rio Jordão, escolhido por ele porque, segundo disse à sua mãe, era um rio sagrado como aquele de onde provinham os mestres que ensinavam na Vihara egípcia. Por isto, passou a ser chamado de Batista. Yahya, o Batista, tinha feito o aprendizado dos Nazarenos e é, portanto, um nazorita. Seu aprendizado se deu na sede sul da seita, num lugar chamado Engedi. Até hoje ele leva uma vida asceta, rígida. Batiza muita gente com a água do Jordão, tal como vi aqui fazerem os monges com as águas do Ganges. Então, pelo que ouvimo-vos dizer, cremos que o Buda Sakyamuni deve ser nosso parente, Yahya. 

— E Yahya — completou Míriam, a irmã de Yehoshua —, também realiza milagres maravilhosos. Ele promove a cura de doenças graves; devolve a visão a cegos; devolve os movimentos a membros paralíticos; cura a lepra e dizem até que ressuscita os mortos. Não come nada que venha de animal nem bebe bebida fermentada. Alimenta-se de frutas secas e de gafanhotos, quando se retira para o deserto. Ele o faz periodicamente, para se purificar dos miasmas que as pessoas lhe deixam, diz ele.

— E quem dentre vós já esteve na presença desse homem? — Perguntou Jeroboão, sério.

— Nenhuma. Mesmo sendo nosso parente, ele prega e vaga distante de onde vivemos. Cremos que nem mesmo Yehoshua já se encontrou com ele. Por que perguntais?

Jeroboão não respondeu de pronto à pergunta feita por Míriam, a mãe. Permaneceu calado por um longo tempo, fitando as chamas da fogueira que dançavam alegremente diante de todos. Então, bateu palmas por três vezes e se levantou. Era o sinal de recolhimento e as mulheres, contrariadas e frustradas, se recolheram em silêncio..