As noites de reunião levavam as mulheres a tomar conhecimento de coisas fantásticas...

As noites de reunião levavam as mulheres a tomar conhecimento de coisas fantásticas…

Uma semana transcorreu sem que Jeroboão se reunisse com suas pupilas, à noite, como de costume. É que ele havia viajado a Hemi a fim de se reunir com o Lama do mosteiro. Só no sábado à tardinha foi que retornou da viagem. Trazia notícias de Yehoshua. Ele estava chegando ao Sindh, onde pretendia embarcar para terras longínquas em companhia dos monges que tinha escolhido para o acompanhar. Sua viagem, ele dissera, duraria três anos, tempo durante o qual sua família permaneceria em Srinaggar, sob a orientação do Lama de Hemi. Yehoshua viajava ao encontro das tribos que integravam o grupo de Druidas-Liang, os que se dedicavam à pratica do curanderismo. Eram parte do povo Celta que tinha fama de ser de grandes guerreiros que davam enorme dor de cabeça a César. Só de ida Yehoshua levaria três meses viajando com pressa. O mesmo tempo para retornar a Srinaggar.

Naquela noite, quando chegou do trabalho, a família de Yehoshua encontrou Jeroboão sentado no chão, comendo sua janta. Elas o cumprimentaram reprimindo a satisfação de o ver de volta, pois aprenderam que demonstrações emotivas não eram permitidas.

A Lua Cheia clareava a noite e tornava tudo prateado, mas mergulhado numa escuridão de mistérios e ruídos característicos, aos quais a família já se acostumara. Sentadas ao redor da fogueira, impacientes, elas aguardavam que o ancião viesse ter ali. Ele demorou mais do que de costume, mas quando apareceu vinha trajando belíssimas roupas de seda colorida, o que era inusitado, já que sempre se vestia com roupas velhas e a miúde, rasgadas ou poídas. Ele as cumprimentou e convidou-as a fazer uma oração de agradecimento pelo dia que findava. Todas já haviam orado a bereka costumeira, mas nada disseram e acompanharam a oração de Jeroboão. Ao final, ele se voltou para Míriam, a mãe de Yehoshua, e convidou-a a continuar sua história. Ruth, entretanto, interrompeu a mãe para pedir ao Yogue que explicasse um mistério que a atormentava há muito tempo. Jeroboão olhou-a com uma interrogação na face, mas assentiu com um aceno de cabeça.

A Lua Cheia, por cima do morro do Olinda, é simplesmente Linda!

Naquela noite ela estava assim: um grande disco prateado no céu.

— Em nossos livros sagrados, senhor, diz-se que quando o Criador desejou criar, deixou em seu trono o Arcanjo Luzbel. E enquanto Ele se entregava à faina da criação, Luzbel governou Seu reino e viu como era bom o Poder. Assim, quando o Criador retornou de seu trabalho, Luzbel rebelou-se contra Ele e não lhe quis devolver Seu trono. O Criador, então, lançou-o para baixo, para as Trevas e com ele todas as falanges de anjos rebelados. Ao atingir o Reino da Escuridão, Luzbel já não mais era o belíssimo Arcanjo em quem o Criador confiava, mas se tinha transformado em uma entidade horrível e seu nome mudara para Lúcifer.

Fez-se silêncio. Ruth se tinha calado e olhava interrogadoramente para Jeroboão, como a pedir que ele dissesse alguma coisa. O ancião inspirou fundo e sorriu complacente.

— Este trecho dos vossos livros, minha jovem, é uma parábola que esconde alguns segredos que não devem ser divulgados entre os homens, agora. Entretanto, como faz parte de vossa aprendizagem, vou explicar um pouco. Sabeis todas que somos Espíritos e, enquanto Espíritos, somos como uma centelha do Corpo do Criador. E sendo uma Centelha de Seu Corpo, somos totalmente iguais a Ele e, concomitantemente, iguais às outras milhares e milhares e milhares de centelhas que d’Ele se desprenderam para nos dar origem.

O Criador é perfeito, logo, por princípio, cada um de nós também é perfeito, já que D’ele somos uma pequeníssima centelha.

Ele era perfeito entre os homens. Mesmo assim, seu Espírito esteve momentaneamente sob o domínio da Matéria.

Ele era perfeito entre os homens. Mesmo assim, seu Espírito esteve momentaneamente sob o domínio da Matéria.

Aquele que é Perfeito é pleno de Amor e esta Energia, n’Ele, não se multiplica em reações emocionais. Assim também é com nossos Espíritos. O Amor é uma Energia beatífica, de bem-estar, de alegria plena, e de plenitude absoluta. Não admite sofrimento nem variações, pois o Amor é Inabalável e Imutável, como o é o Criador. Por isto é que, encarnado, o Espírito não pode se manifestar em Amor, mas somente em DESEJO. O Desejo nem sempre é impuro. Ele pode ser altruísta, como é o caso do Desejo entre um homem e uma mulher. Este Desejo pode ser tão forte que leva um par do casal a sacrificar as coisas mais caras a si em benefício do outro, sem por isto lhe cobrar pelo sacrifício. O Desejo que se centra no prazer da cópula como a base do relacionamento, que é o que acontece entre os homens em todos os tempos e ainda continuará assim pelos séculos vindouros, talvez por um kalpa completo, é a força que impulsiona a Criação.O Desejo, no ser humano, é prenhe de Fôhat, a Energia Eros por excelência. E é esta energia que impulsiona o homem para a mulher e vice-versa, para que cumpram com a ordem que o Criador deu à Sua Criação: “Crescei e multiplicai-vos”, encontrada no Capítulo I, Versículo 22 do Livro Gênesis de vossas Escrituras. Esta ordem vale também para a raça humana, não somente para os peixes das águas e as aves do céu. Enquanto encarnado, o Espírito está submetido à Natureza Animal, primitiva, para que se cumpra a Vontade do Criador. 

Tudo estava dentro e conforme COM Sua Vontade, mas Aquele que é Perfeito não pensa o Mal, não sente o Mal, não cria o Mal e não age pelo e no Mal. Assim também acontece com aquelas centelhas d’Ele que somos nós. 

No entanto, Ele necessita que estas centelhas se diferenciem, se individualizem, criem experiências várias que as tornem únicas entre bilhões e bilhões delas.

O Espírito humano, enquanto centelha que ainda não conheceu o mundo inferior, está alegoricamente representado pelo Arcanjo Luzbel.

O Espírito humano que, uma vez encarnado, já experimentou inúmeras variedades de sensações e emoções e as memorizou para sempre em seu íntimo, é representado alegoricamente pelo Arcanjo Lúcifer.

Bem e Mal são termos inadequados para tal estado de coisas. Substituam-nos pelos termos Unicidade e Multiplicidade. O que se tem como Bem é a Unicidade, Invariável, inexperiente, pura e, por isto mesmo, incapaz de criar. O que se tem por multiplicidade é o Mal, Variável, cheio de experiências, rico em aprendizado que torna cada centelha individualizada das demais e, por isto mesmo, capaz de criar infinitamente.

Eis a Terra sendo bombardeada pelo "Vento Solar". A carga de energias letais que este "vento" traz não permitiria a Vida na Terra nem por um segundo. Mas o magnetismo do planeta desvia o "Vento Solar" e livra o planeta de se tornar tórrido.

Eis a Terra sendo bombardeada pelo “Vento Solar”. Com este “vento” vem todas as Energias necessárias à Vida Humana encarnada.

Luzbel, ou a Bela Luz, é o estado de perene bem-aventurança, onde a quietude não é perturbada por coisa nenhuma. É o Pralaya, o tempo que decorre entre um momento de criação, conhecido entre os budistas como Manvantara, e outro momento de criação. Este intervalo, também chamado de Noite de Brahman, é conhecido por Pralaya e é representado na parábola pelo Arcanjo Luzbel. Lembrai-vos do Livro do Gênesis. Nele se diz que “No princípio era a escuridão e o Espírito repousava sobre as águas”. A Escuridão refere-se, aqui, ao Pralaya ou Noite de Brahman e Espírito, aqui, representa a Mente Criadora do Incriado, recolhida a si mesma. 

Então, também está no Gênesis, o Criador disse: “Fiat Lux! e a Luz se fez”. Este trecho se refere à passagem da Quietude absoluta ao Movimento ininterrupto, ou seja, à passagem do Pralaya ao Manvantara. O Movimento cria as mudanças, os fenômenos e os desafios. O Movimento, é, pois, aquilo que vai impulsionar o Espírito encarnado para a individualização. O Manvantara, é, portanto, o Arcanjo Lúcifer, que significa “aquele que porta a Luz”. Esta luz é o Conhecimento que levará a raça humana à Sabedoria Plena, onde não haverá mais diferenças nem oposições, ainda quando exista a Individualidade, e o Equilíbrio retornará. Mas não cheio de vazio e sim pleno de possibilidades.

Na Dimensão Divina e até àquela Mental, o Espírito ainda não tem condições de Aprender. Ele ainda não pode se individualizar. Tem de descer até a Matéria mais Densa, mais pesada. Ela pode adormecer os sentidos espirituais e, com isto, abrir espaço para o surgimento dos sentidos carnais. E estes se manifestam e dominam o corpo, a veste carnal do Espírito. O corpo se movimenta, como tudo sobre a Terra, mas ele precisa de muito mais do que só Movimento. Então, à força das Emoções, formas diversas de manifestação do Sentimento Amor se adequando às infinitas condições terrestres, o homem desenvolve a Vontade e esta o leva à Ação. A Ação tem o Movimento como sua base, mas requer reação, intenção, objetividade, força, desejo, determinação, perseverança, persistência e consecução. Todas estas qualidades inerentes à Ação o homem desenvolveu na base da emoção mais dominante nele – a emoção do Medo.

Com os superiores sentidos espirituais adormecidos, o homem teve de desenvolver os sentidos grotescos, corporais, para poder sobreviver em um mundo rude, violento, inadequado a ele, mas totalmente necessário aos propósitos do Criador, que o deseja individualizado e senhor de si mesmo. E na medida em que o homem avançou e desenvolveu sua capacidade de aprender e memorizar as coisas ao seu redor e em sua vida, criou a Mente Pensante Física, que é o que chamamos de Alma Mortal. Esta é um arremedo daquela Divina. A Alma Mortal recebe leve influxo das forças da Alma Imortal, a Centelha Divina, e isto faz que batalhe incessantemente para encontrar o Bem, aquilo que a leve para o Alto, ao encontro d’Aquele que nunca morre e que está na Centelha Divina no homem. Por isto, todos, absolutamente todos os homens lutam pela Justiça. Assim fazem os Gregos tanto quanto os Romanos, os Celtas e outros povos pelo mundo. Todos buscam criar um modelo de Justiça entre os membros de suas pátrias. Estas, um dia, chegará à perfeição de se tornar uma única, com um modelo quase perfeito da Justiça que, em sendo humana, muito se aproximará daquela outra, Divina.

Uma vez que Ele, o Criador Incriado, se encontra em cada ser humano, é tolice e inutilidade buscá-lo algures, fora da própria pessoa. Ninguém O encontrará fora de si mesmo. Aquele que realmente avança para a Luz, fá-lo interiorizando-se profundamente e abandonando toda a ilusão do Mâyâ, que é este mundo que vemos.

Jeroboão parou e olhou na face de cada uma das mulheres e percebeu que elas estavam confusas e, algumas, assustadas. Ele jogara muita informação novíssimas para todas. Contrariado, ia dar por findo o relacionamento quando Martha perguntou:

— O que é um Kalpa?

— Kalpa é um período de tempo onde uma grande parcela dos acontecimentos previstos para nosso mundo deverá concluir seu ciclo. Tem a duração de 16.200.000 anos. Este é o Kalpa menor. Há ainda dois outros, o segundo, o Kalpa médio, vale dois Kalpas menores e o terceiro, o Kalpa maior, vale três Kalpas menores. Mas vamos parar por aqui, hoje. Tivestes mais informações do que era necessário. Perdoai-me o entusiasmo. Tende uma boa-noite.

E Jeroboão se retirou, pouco depois seguidos pelas mulheres que, antes de se levantar, oraram uma bereka pelo que tinham acabado de aprender.