As noites estreladas são belas onde quer que estejamos.

As noites estreladas são belas onde quer que estejamos.

Era noite e, como de costume, elas se reuniram ao redor da fogueira à espera do ancião. Tinham muitas coisas a lhes queimar os miolos, principalmente Míriam, a mãe, cujas recordações estimuladas pelo relato que vinha fazendo sobre os acontecimentos estranhos que vivenciara com o nascimento de Yehoshua, estava, agora que era mais informada nos mistérios dos conhecimentos védicos, vivenciando estranhas sensações íntimas. Sensações que a perturbavam, como se precisasse com urgência lembrar-se de algo que, não obstante, não lhe assomava à consciência. Talvez Jeroboão, com sua fantástica sabedoria, pudesse-lhe explicar aquilo.

Mas vamos deixar as mulheres à espera do Yogue e vamos ver o que acontecia com Yehoshua, cuja viagem já se prolongava por mais de trinta dias. Naquela noite ele se encontrava acampado com seus guerreiros monges ao pé de uma grande montanha, no território pérsico, agora dominado pelas legiões romanas. Fazia frio, mas nosso viajor trajava somente um balandrau azul-escuro, com um cinto a lhe prender a vestimenta na cintura. No cinto uma pequena bolsa contendo objetos de uso pessoal – um par de sandálias, uma tesoura para aparar a barba, uma escova de cabelo e um pedaço de sabão para banho. Era só.

Era a terceira hora da noite e os seus acompanhantes, afastados dele, se concentravam em meditação. Ninguém tinha comida nada. Haviam andado o dia inteiro e ninguém, inclusive Yehoshua, tinha colocado qualquer alimento na boca. No entanto, não pareciam famintos nem casados.

Yehoshua preferia sempre a solidão para poder ficar mais perto do Criador e com Ele conversar em seu íntimo. Um diálogo que não tinha fim...

Yehoshua preferia sempre a solidão para poder ficar mais perto do Criador e com Ele conversar em seu íntimo. Um diálogo que não tinha fim…

O céu densamente estrelado estava bonito naquela noite sem lua. Yehoshua olhava à frente, sem um único movimento de seu corpo. Na penumbra da noite viu a silhueta de várias leoas e dois leões que caçavam. Eles passavam longe, mas sobre a crista de um morro pedregoso e a silhueta de todos eles, oito ao todo, surgia-lhe na visão como formas fantasmagóricas, pretas, que se moviam sem ruído. Os monges não fizeram fogueira, mas isto não significava que não fossem vistos pelos olhos fosforescentes das feras. No entanto, elas seguiram em frente, mais interessadas em alguma presa possivelmente do outro lado do morro por onde andavam.

Mal as feras desapareceram descendo para o lado oposto àquele onde o pequeno grupo se encontrava, ruído de cavalos e metais chegaram aos ouvidos de Yehoshua. Simultaneamente uma luminosidade tênue surgiu a dois metros dele e logo se tornou uma luz azul intensa, de dentro da qual surgiu Gabriel. Quando sua figura se solidificou, a luz apagou-se. Ele saudou o Mestre com um curvar de cabeça e se aproximou, postando-se em pé diante de Yehoshua.

— Que a paz do Criador esteja convosco, senhor — cumprimentou o Arcanjo.

— Que Ele te abençoe, amigo. Por que estás aqui?

— Vossos inimigos estão chegando. Vades permanecer aqui, à mercê deles?

— Ainda não é minha hora, Gabriel. Sei que vêm. Sei que escrutam a meu respeito por onde quer que passem. Mas nada fiz que tenham por me acusar. Eu ainda não me manifestei como farei em breve. Herodes treme diante da própria sombra e faz que seu medo impregne o Governador romano da Judéia. Que venham. Serão bem recebidos.

Os cavalos se faziam ouvir já bem próximos e, não demorou, suas silhuetas e aquelas de seus ginetes  armados com suas longas lanças de pontas aceradas se recortaram na semi-obscuridade do morro, lá onde há pouco leões tinham passado. Desceram em direção ao grupo de Yehoshua, embora não os pudessem ver, ainda. Não havia fogo aceso e isto causou um susto nos dois comandantes das decúrias. Eles quase atropelaram os imóveis monges que, mesmo ouvindo a aproximação dos animais, não se moveram, como se fossem de pedra.

Gabriel desfez-e em suave luz não percebida pelos outros que não o Mestre.

O Decurião Romano tinha estas vestes.

O Decurião Romano tinha estas vestes.

— Por Júpiter! — Gritou o decurião que vinha mais à frente e cujo cavalo, assustado, passarinhava com bufidos de medo, dando o que fazer ao ginete para o acalmar e não cair de cima de seu lombo. — Quem diabo são estes homens?

Dez soldados a pé cercaram o grupo de monges, que, ainda que ouvindo tudo, não se moveram. As lanças foram apontadas para suas costas, numa ameaça perigosa. O decurião cujo cavalo quase derruba estava irritado e seu companheiro se tinha aproximado dele, pronto a lhe dar apoio.

— Uma tocha! — Bradou o segundo decurião. Logo um soldado se aproximou pressuroso com a luz solicitada, passando-a às mãos de seu comandante. Ele estendeu-a à frente e acima da cabeça para poder enxergar melhor.

— Por Hades, são monges budistas.

— Sejam quem sejam, se não se levantarem agora e o chefe deles não vier ter comigo para se explicar sobre o que fazem no escuro, mandarei que os soldados os trespassem sem contemplação. Sei que não se alistam, logo, não servem para nada — vociferou o primeiro decurião ainda zangado pelo susto que tinha tomado.

Yehoshua se levantou e com passos firmes avançou em direção aos soldados.

— O que desejais, senhores?

Todas as cabeças se voltaram para ele. Agora, vinte tochas estavam iluminando bem o ambiente.

— O que fazeis aqui, neste deserto, sentados no escuro deste modo? — Perguntou o decurião estugando o cavalo para avançar em direção ao homem que vinha da escuridão. A luz da tocha lhe mostrou alguém que não trajava o manto açafrão dos outros.

— Quem és? O que fazes em companhia desta gente imprestável?

Yehoshua não disse nada. Apenas se aproximou até quase tocar a perna do empertigado decurião.

— Vejo que tendes fome, sede, e estais cansados. Vossos soldados estão com as forças combalidas devido à marcha forçada. De onde vindes, nobres romanos?

— Isto não te interessa, estranho. Responde à minha pergunta: quem és? Por que estás entre essa gente imprestável?

— Por que os julgais imprestáveis? Por acaso, é imprestável o leão que se aproxima perigosamente por detrás de vós e que vos rastreia há algum tempo, só por que não faz a guerra à vossa moda?

— Tergiversas buscando viver mais um pouco, imbecil? Minha lança…

O Rei dos Animais, à noite, quando faz ouvir sua voz poderosa, arrepia até os mais destemidos.

O Rei dos Animais, à noite, quando faz ouvir sua voz poderosa, arrepia até os mais destemidos.

Um poderoso esturro fez que o cavalo do romano empinasse e ele caísse ao solo duro com um grito de susto. Não foi menos feliz seu companheiro, que também se esborrachou no solo, pois seu cavalo também empinou ao som arrepiante que vinha da escuridão e, livre de seu ginete, disparou em corrida desenfreada mergulhando na escuridão. Um vulto fulvo veio de dentro do escuro e saltou sobre os soldados que, pegados de surpresa, ainda não se tinham preparado para a defesa. Um grito terrível se ouviu, quando uma leoa cravou os dentes no ombro de um dos decuriões que se encontrava mais afastado do grupo e desapareceu com ele, levando-o entre os dentes.

Como um só, todos os demais legionários se puseram ao redor de seus comandantes, lanças voltadas para fora, apontando para a escuridão. Os comandantes se puseram de pé, gládios em punho, olhos arregalados buscando enxergar alguma coisa para o lado de onde vinham gritos lancinantes. Os monges se puseram de pé, mas a mão de Yehoshua elevou-se num gesto imperioso, impedindo-os de se moverem. Sem nada dizer, ele avançou para o escuro, sob os olhares atentos e desorientados dos soldados. Como se tivesse sido engolido por um dragão monstruoso, desapareceu no negrume da noite.

Fez-se pesado silêncio. A tensão estava em todos, pois sabiam que o bando de leões não se daria por satisfeito com uma presa, somente. E tendo capturado tão facilmente um deles, logo as feras voltariam ao ataque.

O tempo transcorreu sob grande tensão. Não se ouvia nada, nem um único inseto zumbia. Os soldados se entreolhavam, tensos e com medo. Será que o estranho se tinha sacrificado por eles? Ou teria sido pelo seu grupo de monges? Quem era ele?

Alguma coisa surgiu no escuro. Era uma forma estranha, com muitos braços balançando ao redor do corpo. Não era um leão, disto todos estavam certos.

Hefestos, o senhor do Hades tão temido pelos fantasiosos legionários e pelos gregos criadores do mito.

Hefesto, o senhor do Hades tão temido pelos fantasiosos legionários e pelos gregos criadores do mito.

— Preparem-se! — Gritou o Decurião que tinha caído primeiro do cavalo quando ali chegaram. As lanças foram enristadas e os músculos se tensionaram. As respirações ficaram suspensas e todos eles suavam. Quem era o animal que vinha sobre eles? Um monstro saído diretamente do Hades? Aqueles homens estranhos, que conheciam desde a Índia, tinham poderes misteriosos e bem poderiam ter invocado não somente os leões, mas também um demônio vindo diretamente do reino do senhor das trevas.

Mas não era nada do que o medo os fazia fantasiar. Era o estranho líder dos monges que voltava trazendo o soldado ferido sobre os ombros. Ele se encaminhou diretamente para o grupo de monges que abriram passagem para que entrasse no meio deles e depositasse o homem ensangüentado no chão frio.

— Cuidai dele — ordenou. E voltando-se para os decuriões, disse: — Não temais. As feras se foram. Não mais há perigo para vós.

Quem és tu?  Como retiraste esse homem das garras dos leões? — E o que parecia ser o comandante de todos abriu passagem entre os soldados e avançou em direção a Yehoshua. 

— Sou um peregrino que vagueia pelo mundo. Não tenho onde repousar a cabeça para descansar, como estes monges, mas isto nos basta, a eles e a mim. E não tive de retirar o ferido da boca de nenhum leão. Eles o tinham deixado no solo, já que corriam atrás de um de vossos cavalos.

— Era o meu — disse o outro decurião, talvez o sub-comandante do grupo de vinte legionários. — O desgraçado me jogou ao solo e sumiu desarvorado de medo.

— Lamento que tenhais perdido vossa montaria. Mas ainda resta uma e deveis dar graças por isto. Como bem o disse vosso irmão aqui a meu lado, a caminhada será dura, como tem sido para estes pobres soldados que vos acompanham a pé desde há muito tempo. Agora, irmãos, descansai. Os leões não voltarão. Já se encontram em banquete e há carne suficiente para todo o bando no animal que capturaram.

Atacar búfalo é tarefa para o rei dos animais. Ma não bastam força e coragem...

Atacar búfalo é tarefa para o rei dos animais. Ma não bastam força e coragem…

— Os malditos me deixaram a pé! — Falou irritado o sub-comandante da patrulha.

— Sim. Mas deveis agradecer ao cavalo que, perdendo a vida para as feras do deserto, salvou as vossas.

O homem que Yehoshua  trouxera aos ombros entrou em estertor. Perdera muito sangue e um braço parecia quase arrancado de seu ombro. Pela ferida o sangue jorrava abundantemente

— Primus está morrendo — exclamou um dos legionários, compungido. — Sua família ficará desamparada…

— Ele tem família? — Perguntou Yehoshua olhando para aquele que falara e vendo-lhe os olhos umedecidos.

— Sim, senhor. Uma mulher e três filhos. Alistou-se para poder alimentá-los, pois como ex-escravo, não conseguia trabalho melhor.

— O que queres dizer com isto? — Perguntou o decurião comandante, fuzilando com o olhar o legionário que falara — Por acaso, para ti, servir nosso excelso Imperador, o sagrado filho de Júpiter, não é um trabalho digno?

— Não, senhor. Eu não quis dizer isso… — Tartamudeou o legionário agastando-se.

— Não é hora de discussões fúteis — interveio Yehoshua e sua voz forte silenciou o decurião comandante, que o olhou espantado. — Todos os homens são iguais perante nosso Pai Celestial, pois todos são criação d’Ele — e a voz de Yehoshua parecia preencher toda a noite e seu tom impositivo fez que os dois comandantes se voltassem em sua direção, espantados. — Vinde e vede o Poder de vosso verdadeiro Deus.

E, altivo, ele abriu caminho até o ferido. De pé, estendeu a mão em sua direção e ordenou em voz alta:

— Homem, levanta-te! Eu to ordeno em nome de meu Pai Celestial. Vem!

Fez-se um pequeno silêncio durante o qual nada aparentemente aconteceu. Mas o ferido gemeu baixinho e rolou sobre si mesmo. Então, de borco, apoiou as mãos no solo duro e cambaleante se pôs de pé segurando o ombro ferido. Com dificuldade aproximou-se de Yehoshua que lhe tocou o ferimento com a ponta dos dedos da mão esquerda. Ele era canhoto.

— Estás curado. Tua ferida já não mais sangra. Quando o sol nascer, poderás acompanhar teus camaradas. Agora, dai, todos vós, companheiros de infortúnio deste soldado, graças ao nosso Pai Celestial, pois foi Ele que, atendendo ao meu rogo, sarou vosso companheiro.

O decurião ferido saudou-o com o punho fechado tocando fracamente o próprio peito e, cambaleando, deixou-se cair sentado. Seu ferimento não mais sangrava e ele foi ajudado pelos monges a se deitar a fio comprido.

Adormeceu quase imediatamente.

— Deixai-o descansar por esta noite. Pela manhã estará pronto para continuar com a marcha a que sois obrigados por vossos comandantes — disse Yehoshua sem olhar para os boquiabertos decuriões, que fitavam Primus adormecido sem compreender aquele acontecimento espantoso. O soldado sarava bem diante de seus olhos espantados.

— Despi-vos de vossas armaduras e de vossas armas — Ordenou Yehoshua — e descansai. Vejo que muitos de vós mal se sustentam de pé. Tendes fome e sede. E estais exaustos. Vossos comandantes foram insensíveis ao vosso cansaço. Eles montavam, vós marcháveis. Isto não foi justo. Descansai, pois.

Quase como se fossem um só, todos os soldados lançaram ao solo seus escudos, seus “pilum” e seus gládios. E se deixaram cair sentados, com suspiros de alívio.

Yehoshua tomou do cantil de um deles e elevou-o acima da cabeça. Nesta posição e em voz alta orou uma bereka de agradecimento e louvor.

“Meu Pai, graças vos dou com alegria e agradecimento pelo presente que destes ao nosso irmão Primus, deixando que vivesse mais tempo para o sustento de sua família. Somente vós, que vedes até o mais íntimo dos corações dos homens podeis saber do merecimento desse combatente que fere seus irmãos nos campos de contenda não por gosto, mas por falta de opção. Perdoai-lhe os pecados que tem cometido sob as ordens de homens que desconhecem, ainda, Vossa Existência e oram a deuses de pedra, criados por suas fantasias infantis. Abençoai esta água e fazei dela remédio para o cansaço dos corpos e das almas destes vossos filhos, tão perdidos no escuro da Vida quanto estão agora, no escuro suave e belo da noite”.

Ato contínuo, Yehoshua estendeu o cantil ao legionário mais próximo que o aceitou pressuroso. Tinha sede. Muita sede, pois não bebia há mais de cinco horas. E o cantil foi passado ao próximo, e ao próximo, e ao próximo. E quando foi estendido aos decuriões, estes hesitaram, mas o olhar penetrante de Yehoshua fez que, mesmo agastados, tomassem da água benzida pelo deus que desconheciam.

E após passar de mão em mão e dessedentar a todos, inclusive a Primus, a quem a água fôra ministrada por um dos monges, retirando-lhes o cansaço e cessando a fome nos corpos castigados pela marcha forçada, nele ainda havia água suficiente para toda uma legião. O sub-comandante devolveu o cantil a Yehoshua, mas perguntou-lhe, com voz de admiração:

Ele era perfeito entre os homens.Mas jamais se arrogou qualquer milagre. Sempre os reconhecia como feitos pela Vontade do Pai Celestial.

Ele era perfeito entre os homens.Mas jamais se arrogou qualquer milagre. Sempre os reconhecia como feitos pela Vontade do Pai Celestial.

— Como fizeste isto? Como fizeste que a pouca água de um cantil dessedentasse a todos nós e ainda sobrasse no vasilhame?

Não ouvistes que orei ao nosso Pai Celestial antes de vos entregar vosso cantil? Não fui eu quem manteve o cantil cheio, mas Ele. Vim ao mundo para dar testemunho de Sua Grandeza e vos ensinar que há somente um Deus. Um único, a quem deveis vossas vidas e que vos sustenta desde quando dais vosso primeiro vagido até quando soltai vosso último suspiro. Ele, e só Ele, insufla a vida em vossos corpos ainda quando estais no ventre de vossas mães. Deveis tomá-lo como vosso Protetor, pois só d’Ele é o Poder, o verdadeiro. Tudo o mais é somente ilusão.

— Não vemos ninguém mais aqui, senão tu e nós. Onde está esse Pai a quem te referes e que é capaz de fazer milagres que nunca se viu o poderoso Júpiter fazer tal?

Júpiter não passa de uma ilusão a que vos aferrais por desconhecer e ignorar a existência do vosso Verdadeiro Pai e meu também. Quando vossa fé se vir abalada pelo que julgais sofrimento demais, não apeleis para Júpiter nem para nenhuma invencionice dos homens, pois vossos deuses são deuses de pés de barro; mas orai com fervor ao vosso verdadeiro Pai. Ele vos ouvirá e vos dará segundo veja o quanto mereceis diante de Sua infalível Justiça. E se o que Ele vos conceder de presente ao vosso rogo não for aquilo por que ansiais, nem por isto deixai esmorecer vossa Fé em Seu julgamento, pois só o Pai é verdadeiramente justo. Colocai vossas vidas em Suas mãos e tendes certeza de que Ele saberá o que fazer com elas, pois é d’Ele toda a Vida que se manifesta no mundo sob as mais variadas formas.

Enquanto falava Yehoshua caminhava em direção a uma pedra mais alta, onde se assentou. Mesmo que se tivesse distanciado dos soldados, estes o ouviam e viam como se ele estivesse ao lado de cada um deles. E todos estavam maravilhados com o que ouviam, pois sentiam em seus corpos a mudança fantástica, onde o cansaço, a irritação e o medo davam lugar a um delicioso bem-estar que não se lembravam de já terem experimentado igual, antes.

Ele, sempre que se apresentava uma oportunidade, improvisava um discurso para disseminar sua mensagem entre os homens.

Ele, sempre que se apresentava uma oportunidade, improvisava um discurso para disseminar sua mensagem entre os homens.

Ouvi, irmãos meus — começou Yehoshua, atraindo para si todos os olhares atentos de quantos ali se encontravam, até mesmo dos monges que o acompanhavam em sua jornada. — Vós credes que a realidade se resume ao que vossos pobres sentidos pode captar e vossas mentes infantis pode compreender. Mas em verdade, em verdade, eu vos digo: há muito mais ao vosso redor do que podeis perceber e compreender. Agora mesmo dezenas de vermes se agitam sob a areia onde repousam vossos pés e não tendes a mínima consciência disto. Vossas certezas são o que são porque ignorais a Verdade de que sois o produto especial do Infalível Criador de todas as coisas. Ele é nosso Pai Celestial. Não o podeis ver e, por isto, não tendes como a Ele erigir estátuas ou desenhar efígies e isto é muito bom. Estátuas e efígies são erros monumentais que cometeis, pois estes símbolos vazios de Poder e Significado substituem em vossas mentes a Verdade da Existência que vos fascina a cada passo que dais sobre a terra que pisais. Disseram-vos vossos sacerdotes: construamos tal ou qual imagem de tal ou qual Deus para a ele prestarmos subserviência. Mas eu vos digo: jamais construais imagens de espécie alguma. Elas são barro e somente isto. Erigi o altar de adoração em vossos corações e adorai apenas ao Verdadeiro Deus, em silêncio, pois ele não ouve a voz do corpo, mas sim os sentimentos do coração. Agora mesmo vistes o verdadeiro Poder de nosso Pai Celestial em vosso companheiro ferido por uma leoa. E se Ele pôde realizar esta pequena façanha que vos colocou em espanto e susto, pode, ainda, eu vos asseguro, fazer coisas maravilhosas que vossas mentes nem de longe são capazes de imaginar. Ele é a Vida, logo, Ele é o Poder. O Único. O Verdadeiro. Todo o resto é somente ilusão criada por espíritos fracos, destituídos de Fé e mergulhados na escuridão de seus medos.

É porque ainda não tendes a Fé e o Conhecimento Verdadeiros que criais para vós fantasias com as quais vos iludis, como esse Júpiter de pedra, que só age em vossas imaginações infantis.

Quando o desânimo, o cansaço, o medo ou o desespero da desesperança vos assolar os espíritos combalidos pelo que julgais duras penas, fechai vosso olhos e orai. Mas não dirigi vossas preces a deuses criados pela imaginação medrosa e ignorante de quantos assim procederam. Recolhei-vos ao vosso interior e afastai-vos do mundo ilusório que vos cerca e no qual momentaneamente deveis viver em espírito para que se faça a Vontade de Nosso Pai Celestial. Serenai vossas mentes; afastai vossos medos; limpai vossas imaginações de pensamentos perturbadores e só então, quando estiverdes verdadeiramente limpos, buscai em vosso interior as palavras silenciosas da oração que desejais, através de vossos espíritos, dirigir Àquele que tudo pode. Não oreis por fórmulas prontas, que elas não são ouvidas porque são mudas diante do Senhor; não buscai palavras rebuscadas pois Ele não necessita de ouvi-las, já que ouve dentro de vossos próprios corações; dentro de vossos próprios espíritos. Não desperdiceis vosso precioso tempo fazendo abluções e limpeza corporais para poder apresentar-vos bonitos diante dos altares de pedra que construís e construireis ainda por muito tempo em Sua homenagem. Não é o corpo que nosso Pai vê verdadeiramente, mas vossos Espíritos, que vós mesmos ignorais, pois viveis vossas vidas fora de vossa verdadeira realidade.

Não desperdiceis vossos tempos inventando e realizando rituais que só servem para exaltar vossos próprios egoísmos e, com isto, cegar vossos Espíritos.

Sabei que toda a Terra é Seu Templo e toda criatura seus adoradores. Onde quer que estiverdes, lá é o Templo do Pai Celestial, não importando a Ele em que estado físico vos encontreis. Ele não vê vossos corpos, mas, repito, somente vossos Espíritos, pois é em Espírito que sois verdadeiramente Seus filhos diletos.

Ele também não ouve palavras oradas em murmúrios ou em brados altissonantes, pois escruta diretamente vossos interiores secretos. É lá que se encontra a verdade de qualquer pessoa, homem ou mulher e é a esta verdade que o Pai busca e escuta. E quando tiverdes ânsias de gritar vosso agradecimento a Ele por Sua Imensa generosidade, fazei-o em voz alta, se quiserdes, mas para vossos ouvidos, somente. Não viseis ser ouvidos por quantos vos cercam, ou vossas palavras de felicidade se tornarão sem som perante os ouvidos do Criador.

Buscai, antes, ser verdadeiros em vossos rogos. Buscai clarificar em vós a Verdade de vossas fraquezas, pois Ele vê através do que tomais por sujeira.

Nada é sujo na Terra, irmãos meus. Tudo é d’Ele e Ele não cria sujidade de espécie nenhuma. Naquilo que tendes como imundície Ele coloca Vida e muitas vidas vivem ali para Sua Glória e Riqueza.

Não vos julgueis nem certos nem errados, pois não podeis fazer senão o que tendes condição de fazer e nada além nem aquém. Aquele que se elege seu próprio juiz crava em seu espírito a negra espada da Culpa e esta não é a arma que nosso Pai Celestial deseja que empunheis, mas sim a do Perdão, da Compreensão e da Caridade.

E não sejais juízes de vossos irmãos. Se não podeis julgardes a vós mesmos, como arvorar-vos o direito de julgar e, pior, condenar aquele que é tão criança quanto vós o sois? A vida deve ser feita de sorrisos e, não, de lágrimas ou rancores, pois no Reino de nosso Pai Celestial não há lugar para dores e rangeres de dentes.

E a Caridade e o Perdão devem começar em vós e para convosco mesmos. Se não vos perdoardes por vossos enganos infantis, como podereis perdoar aos que vos tenham ofendido? Só há Um Juiz, o Pai. E crede em mim: Ele não julga nem condena seus filhos, mas perdoa-os e, sorrindo, mostra-lhes o caminho tantas vezes quantas sejam necessárias. Se Seus filhos caem, não é por Sua responsabilidade, mas tão-só porque são crianças ainda e toda criança erra e tenta e erra de novo. Quem de vós, sendo pai, pune vossos filhos porque tentam e tentam a fim de aprender? Se para com vossos filhos sois pacientes e complacentes, quanto mais o Pai que está no Céu. A paciência do Pai é infinita meus irmãos.

O auto-perdão é imprescindível para que possais ir ao encontro de Nosso Pai Celestial.

Aquele que se deixa sujar pela Culpa torna-se cego e não pode apresentar-se diante do Pai Celestial, pois seu Espírito está imundo. A Culpa é uma inutilidade que não deveis cultivar. E não vos julgueis deste ou daquele modo, pois só o Pai vos conhece e sabe de vossas fraquezas, vossas necessidades e vossos merecimentos. Ele sabe que não podeis ser melhor do que sois e não podeis fazer mais do que fazeis; e vos aceita tal e qual sois. E Ele não vos julga nem vos pune, como pensais fazer vossos deuses de pés de barro. Apenas, irmãos meus, deixai fluir vosso Amor para convosco mesmos, pois quem a si não ama em primeiro lugar, não pode Amar nem ao Pai Celestial, nem ao seu irmão na carne e no Espírito. E quando digo irmão, não me refiro apenas a outro homem ou a uma mulher. Sois irmãos da Terra e de todos os seres que nela vivem, por mais ínfimos que sejam seus corpos diante de vossos olhos míopes, ou por mais gigantescos que sejam os corpos em que vivem diante de vossos olhos espantados, assim como a vespa ou a baleia. Grande só é o Senhor do Céu de quem somos todos filhos queridos.”

A voz de Yehoshua silenciou e por um longo tempo nem um único fio de cabelo se mexia naquele grupo de homens fascinados com o que acabavam de ouvir. Aquelas palavras calaram fundo em suas mentes rudes e fizeram desabar dentro de cada um uma tempestade emocional que ainda não compreendiam, mas com ela se maravilhavam. Alguns choravam e, entre estes, o subcomandante do grupo.

O dia veio encontrá-los adormecidos aonde, antes, se tinham sentado para ouvir o Sermão aos Gentios, como, mais tarde, os monges denominaram aquela noite memorável. Pena que aquele sermão jamais tenha constado dos livros ditos “sagrados”…

Os romanos encontraram uma frugal refeição à base de tubérculos e frutas secas, feitas pelos monges. Comeram com eles e se despediram com respeito e alegria pela companhia. Nenhum deles esquecera uma única palavra do que tinham ouvido e elas mudariam radicalmente suas vidas, depois daquele encontro.

Quando o comandante ordenou aos soldados que se perfilassem para a partida, Primus, já totalmente sarado, não vestiu sua indumentária e permaneceu de pé sem obedecer à ordem de entrar na fila para a retomada da marcha.

— Primus! Não me ouviste? Apressa-te. Vamos partir antes que a tempestade que se anuncia no alto desabe sobre nós. Anda! — E a voz do comandante se fez dura. Mas o legionário permaneceu onde estava. O comandante aproximou seu cavalo e olhou sério nos olhos de seu subalterno.

— O que há? Queres desertar? Sabes que isto é punível com a morte.

— Não vou mais guerrear por ninguém, senhor. Estou livre do peso de tanto sangue que derramei. A morte que me sorria de dentro da boca daquela leoa me fez ver o quanto dói morrer. Eu pensei em minha esposa. Eu pensei em meus filhos. Eu pensei em quanto foi inútil tudo o que fiz em meu viver. Não construí nada para mim, mas fiz dezenas de olhos derramarem lágrimas de dor por seus entes queridos que matei sem piedade. Eu trazia uma culpa enorme me esmagando a alma, mas o sábio que nos falou, ontem, retirou tão negra carga de sobre meus ombros. Eu fiz muitos sofrerem pelo gládio que empunhava e por muitos dias carreguei culpa pelo que fiz. Ontem, compreendi que não devo jogar aos meus ombros tal responsabilidade. Embora fosse minha mão que empunhava a arma, era o coração ganancioso do Imperador que a manejava e tirava vidas. Não somente através de minhas mãos, mas também das vossas e da de todos aqueles que vestem a farda das legiões de Roma. Quero viver sossegado e para minha família.

— Não podes fazer isto, homem. Só o Divino César pode te conceder a liberdade que desejas. Vem. Entra no grupo e toma teu lugar. Depois, quando chegar o tempo, se ainda estiveres vivo, poderás pleitear a baixa. Não agora.

— Chamais a ele de Divino. Divino em quê, podeis dizer-mo? César é arrogante. É sanguinário. É vingativo. É um irresponsável que só pensa num poder que, de verdade, não há em nenhum lugar sobre a Terra. São assim os poderosos de todas as nações. Não compreendestes, ó comandante, o que nos foi dito ontem, pela boca do sábio que nos falou de alma para alma?

O decurião avermelhou-se todo e sacou do gládio com intensão clara de matar o insubordinado. Mas quando estava para desferir o golpe fatal, sem que o legionário fizesse qualquer movimento de defesa, eis que Yehoshua se interpôs entre ele e seu quase assassino. O hebreu não precisou falar, pois seu olhar sereno caiu como uma pedra sobre a consciência do comandante da decúria. Ele hesitou, gládio ao alto, olhos nos olhos caramelados daquele homem alto e desarmado que o fitava sério e censuroso. Então, vagarosamente embainhou a  arma, puxou as rédeas de sua montaria e com um grito seco deu ordem de marcha.

E os decuriões se foram.

Yehoshua posou a mão amigavelmente no ombro de Primus, que se voltou para ele e se ajoelhou, cabeça curvada ao peito.

— Levantai-vos, irmão meu. Por que vos ajoelhais diante de mim, se já vos ajoelhastes diante de vós mesmo? Este, sim, é o genuflexo que agrada ao Pai do Céu. Sou somente vosso irmão. Vinde, comigo.

E Yehoshua encaminhou-se para os monges que o esperavam e lhes deu a ordem de partida. Foram em direção oposta àquela seguida pelos decuriões da patrulha romana.

— Chamas-te Primus, não?

— Sim, senhor. Meu nome é Primus.

— Sei… O Primeiro, em tua língua. É isto que teu nome significa. Pois de agora em diante, tu serás meu primeiro apóstolo gentio e tenho muita alegria de que o sejas. Virás comigo para onde eu for e eu te direi onde ficarás para pregares meus ensinamentos.

— E minha família, senhor? Tenho mulher e filhos em Roma…

— Tens uma enorme família, agora, Primus. Todos os homens, todas as mulheres e todas as crianças que puderes alcançar. Esta será tua família, não aquela que construíste coabitando com uma mulher. Aquela, encontrará amparo na caminhada que deverá seguir cada um de seus membros. Nela, ninguém te pertence, mas ao Pai e Ele saberá recompensá-los pela perda de tua presença e conforme seus merecimentos diante de Seus justos Olhos, pois não são teus filhos, mas d’Ele. Aprende comigo: aquele que toma meu fardo aos ombros e se volta para olhar para a vida que deixa atrás de si não é digno de mim.

E o Mestre se pôs a caminhar, deixando o ex-legionário aturdido e pasmo, parado onde estava pelo choque daquela dura revelação.

Primus nunca foi mencionado nos livros canônicos. No entanto, ele se destacou como o Primeiro Apóstolo do Cristo encarnado e viveu e pregou até os cem anos em vários lugares por onde passou. Morreu prisioneiro dos romanos, que o lançaram às feras.

E isto aconteceu 60 anos depois daquele encontro…