Ele fala errado como quê, mas seu pensamento é coerente.

Ele fala errado como quê, mas seu pensamento é coerente.

Eu me preparava para ir à consulta médica, quando Orozimbo chegou e se prontificou a me acompanhar. Aceitei. Ele é excelente companheiro. Enquanto as horas escorriam com aquela lentidão-apressada que sempre lhe é característica, sentamos diante da telona para conversarmos. Tive o imenso prazer de apertar a tecla “silencioso” do controle remoto e fazer calar a turma do blá-blá-blá da Globo, no Bom-dia Brasil. Calamidade atrás de calamidade; assassinato atrás de assassinato; acidentes no trânsito atrás de acidente no trânsito. O mesmo desfile de horrores todas as manhãs. Terrorismo global brasileiro adocicado, como tudo é neste país das maravilhas. A última notícia que ouvimos foi a de que Alkimim tinha ido a Brasília pedir dinheiro para obras relativas ao dilema cruel da falta d’água em São Paulo.

Orozimbo ficou calado olhando para a TV sem som e se voltou para mim, dizendo:

— Home, Deus é mermo brasileiro.

Judeus usando o kipak.

Êta povinho teimoso e renitente!

— Eu não acho, meu velho. Acho é que ele abdicou da cidadania brasileira e vai escolher outra. Há muito deixou de ser judeu porque nem Seu Filho fez sucesso entre aquele povo danado de sanguinário e ganancioso. Veio para Pindorama e se deu muito bem com os silvícolas, mas infelizmente aqui chegaram os portugueses e seus vícios sociais horrorosos, entre eles a corrupção. Aqui plantaram esta erva daninha, que se espalhou e empestiou todos os corações dos mestiços que passaram a se chamar brasileiros. E, hoje, a corrupção viceja pujantemente entre nós. Desde mesmo quando saímos ou das vaginas ou dos cortes nos ventres de nossas mães. Já chegamos totalmente corruptos. Nem Deus deu jeito nisto.

— Apois véio num concorda cum vancê, nhor não.

— E por que não? — Perguntei, curioso.

— Ora, veja vancê. Um pai só castiga seu fio quando ele é teimoso e rebelde e presiste no erro, né mermo? Aí, num tem esse negóço de ECA nem MELECA. O pai qui é pai desce o relho no lombo do mar-criado pra ele aprendê o bom caminho. Pelo meno era ansim no nosso tempo. Hoje, a coisa é fazê cuma faiz esse pessoá da Rede Grobo de TV: blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá. Ora, se os mulequim de hoje num sabe mais nem falá a língua dereito, vai intendê blá-blá-blá de educação? Vai nada, home. Agora mermo é qui o relho faiz farta. Num é o povo mermo qui afirma qui a gente só aprende quando dói no borço? Entoce! Os mulequim tombém só aprende quando dói nos lombo, ora.

— Mas deixando os “mulequim” de lado, fale-me de Deus — Pedi eu, quando vi que ele se perdera no assunto.

Diz a Bíblia que Deus se apresentou a Moisés como fogo que não queima. Mas acredito que Ele mudou de idéia. Continua sendo fogo, só que desta vez, queima muito...

Diz a Bíblia que Deus se apresentou a Moisés como fogo que não queimava. Mas acredito que Ele mudou de idéia. Continua sendo fogo, só que desta vez, queima muito…

— Ah, sim. Apois bem, Deus num é nosso pai? Entonce. Ele é da véia guarda, num é ansim qui se diz? E quem é da véia guarda num passa a mão pela cabeça do mar-criado, nhor não. Nóis ganhô o país mais rico em água e em chuva qui há na Terra. Mas num demo carqué valô a isto, né não? Nóis gastamo água cuma quem joga merda na latrina. Nunca atentamo pro farto de qui ela tombém percisa de cuidado, senão, cuma tá acuntecendo, se acaba. Entonce, Deus arresorveu nos insiná do modo mais doído. Ele fechô as tornera lá de riba e cá im baixo o povão se danô. Tá tudo fedendo a suvaqueira (e ele soltou aquela gargalhada cheia, como é sua característica). Pelo meno lá in Sum Paulo, home. Itu, onde tudo é grande, a suvaqueira deve ser danada tombém, né não? Tem de passá cachaça da boa nos suvaco e nas viria pra tirá o fedô, senão ninguém agüenta andá nem mermo amuntoado nos atormove, ora.

Nós dois rimos de sua tirada e ele continuou.

Tartarugas são lentas, mas vivem muito...

Tartarugas são lentas, mas vivem muito…

— Cuma véi dizia, Deus fechô as tornera. Cum isto pôs todo mundo cá debaixo pra repensá seu comportamento. Os Zé Ninguém num aprende depressa, nhor não. Aprende cuma anda a tartaruga: devagá qui dá reiva. Mas aprende, ora se aprende. E o qui é mió, os pulíticu forum obrigado a se mexê pra cuidá da água. Durante mais de um século este véio uviu falá dos puliticu deste país tomando impréstimo nos banco do ixteriô pra limpá a Baía da Guanabara e o rio Tietê. Véi num sabe onde foi pará a dinheirama toda qui veio lá de fora, mas sabe munto bem qui nem a Baía da Guanabara nem o Tietê forum limpo coisa ninhuma. Tão sujo e fedendo qui dá nojo. Entonce, home, Deus arresorveu entrá na briga e retirô dos brasileiro a água. Num tem água nem nas iscola pros mulequim iscová os dente. Num foi inteligente? Foi sim. E munto. Tem munta casa pur aí qui o banhero tá fedendo feito gambá, home. Até mermo pruqui o povo qui mora nelas ainda num aprenderum a sê higiênico. Cagaram no vaso aos monte e, agora, tão às vortas cum a própria merda.

E novamente Orozimbo deu de rir aquela sua gargalhada de corpo inteiro. Tive de acompanhá-lo. Era contagiante.

A Terra se esturrica. Alguns dizem que é um fenômeno natural e inevitável; outros acusam a desídia do homem em suas ações deletérias. Quem está com a razão?

Eis uma paisagem que não devia existir no Brasil, se houvesse Vontade Política.

— E Deus tá castigando tombém os tar de fazendêro. O gado tá se danando de sede. Bem feito, ora. Quem mandô desmatá tudo e prantá capim em lugar de arvre? Capim só seca a terra. Num põe água dentro dela, nhor não. Agora, tome prejuízo. Os riacho secarum. Os minadô tombém secarum. Inté o minadô das água do São Francisco secô. Tá tudo seco qui tá danado. Mas os qui véve no campo ainda num aprendeu. Continua bataiando pra levá aquela vidinha de vagabundo irresponsarve. E cum as tar de Borça famia é qui num vão mudá tão cedo, né não? Ficarum viciado em ganhá sem trabaiá… Eles aquerdita qui fazendo novena e desfiando pur aí cum uma istáuta de santo nos ombro vai fazê chuvê. Ora, qui burrice! Num há istauta qui faça chuvê, né não?

— A fé, meu velho. É a fé que pode fazer o milagre. Mas concordo com você: o povo não tem fé, por isto os romeiros apresentam aos céus as estátuas de santos à granel. E tome choradeira e gemedeira em fila indiana, com o padre à frente, cantando e gemendo, implorando a Deus que mantenha tudo como sempre foi. Mas ninguém está disposto a mudar seu comportamento. Todo mundo, do miserável ao ricaço, quer continuar como era: irresponsável. Vai daí, que, agora concordando com você, Deus está retirando seu presente a este país de coitadinhos.

Quando falta a chuva e a fome aperta o nordestino se socorre dos santos católicos...

Quando falta a chuva e a fome aperta o nordestino se socorre nos santos católicos…

— E num é mermo? Véi acha qui Deus continua bem brasileiro e tá é danado da vida cum este povinho de nada qui veio pra cá impestá os índio. Estes, sim, sabia tomá conta da Terra e das matas. Agora, inté eles tão burro e invenenado pelo tar de dinhero. Num sabem mais vivê sem o dinhero dos branco. Qui droga, home! Aprenderum a robá, a assartá e a menti. Num é à-toa qui Deus tombém se zangô cum eles, ora. Tão recebendo as merma duença dos branco, qui eles num cunhecia quando viviam em harmonia cum a Natureza. Mas num aprende, diabo. E óia, home, num vai pará só na farta d’água, qui véi acha qui tá só no cumeço. Véi acha é qui o Amazonas vai virá torresmo de areia, ora se vai. Cum a farta d’água tombém vem a fome, pois o campo num dá mais cumida cuma dava e o gado morre sequim, sequim, im riba das terra isturricada. Aí, num é a gasolina qui vai fazê crescê a tar de infração, nhor não. É a cumida, home. A cumida é munto mais urgente e munto mais importante qui o tar de combustive. A gente pode andá de bicicreta, a pé, de lombo de mula ou de burro, inté de cavalo forgoso, mas ninguém pode é agüentá dois dias sem tê cumida no bucho. Isto, home, num há cristão qui agüente. Mas do modo cuma vai a carruage, a cumida logo, logo, vai fartá na mesa do brasilero. Presta atenção no qui véi tá falando.

Corpo. Luxúria. Ilusão que se acaba rapidamente e aquela que brilhava na passarela será uma velha com tudo caindo...

Luxúria. Turismo sexual sem freios. Tudo nós aceitamos porque somos ricos…

E quando farta a cumida a alegria se acaba e sem alegria, adeus carnavá e sem carnavá adeus farra de secho. Istrangêro num vem pra cá mais atrás das minininha gordinha e alegrinha, treinadinha pela Grobo na tendência ao coito, nhor não. Eles sabe qui vão incontrá uns isqueletim feim, feim, tar e quá aqueles pretim lá de minha terra, a África. Num vai tê mais as buchecha rosada e as carinha já safada pruqui eles insinarum o qui num presta pra elas, nhor não. O grande randevu qui tem sido este país, home, vai-se acabá. Adeus ao tar turismo de secho. E sem este turismo, o dinhero vai minguá qui vai danado, num é mermo? Empregos vão fartá. Mais fome. Mais assartos, mais mortes, mais corrupção entre as gentes comuns. Mais apurrinhação prus puliticu, que vão ter, gostando ou não, de se vortá pra situação danada de caótica que Deus deixará se instalá aqui. Entonce, home, concluindo, o qui véi acha é qui Deus continua brasilero, num sabe? Só qui tá danadim da vida, ora se tá!

Fiquei sério e pensando no que tinha acabo de ouvir. De certo modo, Orozimbo estava com a razão. Deus certamente não estava gostando nem um pouco do que via em seu país predileto e certamente que tomava medidadas cautelares para consertar esta zorra que nós fizemos.

Todos nós.

Olhei o relógio: dez horas. Considerando que os ônibus saem de 45 em 45 minutos e a consulta é às 11:30, estava na hora de nos mandarmos. Chamei-o e lá fomos nós, com meu velho amigo papagueando sem parar.