O monumentoso Templo de Salomão, o Templo de jerusalém.

As “boas novas” circularam rapidamente e não somente Herodes ficou inquieto como também os rabis do Templo.

Voltemos ao encontro noturno costumeiro entre Míriam, a mãe, seus familiares e Jeroboão. Sentadas ao redor da fogueira todos esperavam com expectativa que a Senhora continuasse sua narrativa. E ela assim o fez com sua paz de sempre.

— A viagem até a casa de Izabel, minha prima, durou o dia inteiro. Eu saíra à primeira hora do dia e cheguei lá o Sol já avermelhava o céu deitando-se no horizonte. Antes de entrar em sua casa, gritei por Izabel e fiquei surpresa ao ouvir uma exclamação de susto vindo lá de dentro; um grito de alegria ao mesmo tempo. Aturdida, esperei por Izabel parada à sua porta, com minha mão sobre meu ventre, instintivamente, como se protegendo quem estava crescendo dentro de mim…

A Senhora fez uma pausa, olhar perdido à frente. Ruth, impaciente, quebrou aquele momento de ausência recordativa de sua mãe.

— Vai, mãe, continua. O que aconteceu?

A Senhora sorriu-lhe um sorriso luminoso e prosseguiu.

— Izabel me gritou lá de dentro de sua casa, em resposta à minha saudação: Míriam! Benta és tu entre todas nós e bento é o fruto de teu ventre! Vem, quero abraçar aquela que traz dentro de si o Senhor de todos nós.

Ela veio até mim, que, ainda aturdida, continuava parada à sua porta sem compreender bem o que ela me dizia.

Izabel, prima de Míriam, recebe a esta na porta de sua casa.

Izabel, prima de Míriam, recebe a esta na porta de sua casa.

— Tu és a mãe de meu Senhor, jovem prima. Meu filho, assim que te ouviu a voz, deu pulos de alegria em meu ventre. A ponto de me assustar. Vem, honra-me com tua visita. Onde estão teus pais?

Entramos em sua casa, ela se apoiando em meu braço e eu lhe explicando que eles não tinham podido vir devido a complicações com meu futuro marido. Izabel me prodigalizou todas as regalias que se deve prestar a um visitante ilustre, o que me deixou um tanto desconcertada. Mas quando, finalmente, nos sentamos, mãos dadas e olhos nos olhos, ela me disse, voz entrecortada:

— Eu sentia que tu virias aqui. Uma honra para mim e meu filho que ainda se agita em meu ventre…

E ela puxou minha mão e a colocou sobre sua barriga. Senti a criança sob a palma de minha mão e um calor estranho aqueceu-a. Olhei, maravilhada, para Izabel e ela, com voz entrecortada de prazer e susto, olhos arregalados como se visse algo que eu não enxergava, me disse:

O Arcanjo Gabriel não se ajoelhou diante de Míriam, como mostra aqui o beato em sua pintura.

O Arcanjo Gabriel não se ajoelhou diante de Míriam, como mostra aqui o beato em sua pintura. Ele sempre foi altivo como seu Mestre, Michael, agora, prestes a se chamar Yehoshua.

— Bendita somos nós, que recebemos a honra de trazer ao mundo dois seres especiais, Míriam. Tudo o que me aconteceu foi tão estranho quanto tudo o que vejo que te aconteceu também. O Arcanjo Gabriel te visitou, me visitou e ao meu marido, também. Isto é inusitado e não sei de algo semelhante em nosso povo ou em outro qualquer. Coisas maravilhosos e terríficas viveremos nós duas, que somos mães de seres além de nossa compreensão…

— E como é que Izabel sabia que tu também estavas grávida, mãe? Teu ventre já era tão proeminente, assim?

A Senhora voltou-se para Marta e sorriu, meneando a cabeça negativamente.

— Não, Marta, não era. Meu ventre não aparentava minha gravidez. Ninguém além de meus pais e de meu futuro esposo sabia do fato, mas Izabel o intuiu graças aos pulos que seu filho, Yahia, deu em seu ventre tão logo minha saudação se fez ouvir; praticamente a criança lhe informou sobre mim com aquela alegria espantosa. Eu estava como que hipnotizada e apenas murmurei, diante daquele olhar de fogo: “Minha alma engrandece ao nosso Senhor e meu Espírito está em júbilo pela escolha que Ele fez de mim. Tenho medo e estou desorientada com tudo o que me acontece, mas Yeve é poderoso e santo é Seu nome. Sua misericórdia estende-se sobre nosso povo desde o passado longínquo, de geração a geração, ainda que não me pareça que mereçamos tamanha distinção. 

— A que tu te referias, mãe? — Perguntou Míriam, a filha.

— Eu me referia a Sansão, a Isaías, a Joab, a Moisés e a tentos e tantos outros homens santos que nasceram entre nós, em vez de entre outros povos. Por que nosso Deus nos dá este privilégio?

Sansão é feito prisioneiro depois de ter sido tosqueado por Dalila. Cena do filme Sansão e Dalila, com Victor Mature.

Sansão é feito prisioneiro depois de ter sido tosqueado por Dalila. Cena do filme Sansão e Dalila, com Victor Mature. NOTA: na cena em que Sansão mata o leão ninguém quis contracenar com a fera, mesmo tendo-se arrancado todos os seus dentes. Victor Mature teve de realizar a luta com o leão correndo perigo de ser partido ao meio pelo peso e força do rei dos animais.

— Porque Ele espera que vosso povo compreenda de uma vez por todas que o Caminho que tomou não é o que Ele deseja para a humanidade — disse Jeroboão. — É verdade que, neste momento, vós não adorais bezerros de ouro, como fizestes outrora. Mas pior que isto é o que fazeis agora, quando vosso povo adora a ganância, a mentira, a traição, a gula, o egoísmo, a petulância, o racismo, a discriminação entre os filhos de Brahma e o ódio sem freio. Não praticais a caridade, nem exercitais a bondade e, menos ainda, o perdão. Sois egoístas como nenhum outro povo sobre a Terra. Tende-vos como os privilegiados do Criador, quando, aos Seus santos olhos, não sois nem maior nem menor que nenhum outro povo — disse Jeroboão, olhando sério para cada uma das mulheres diante de si.  — E não é por misericórdia que Brahma aparentemente vos tem distinguido entre vossos irmãos, mas sim porque Ele deseja que desperteis para a Verdade a fim de evitar dores e sofrimentos inauditos no futuro. Não vos esqueçais que aquele que semeia, colhe o que semeou invariavelmente.

Fez-se pesado silêncio e as mulheres olhavam para o ancião com os corações acelerados. Havia alguma coisa de ameaçadora nas palavras do homem e seu olhar era de pura reprovação.

— Perdoai-me — disse Míriam, a mãe, com voz sumida de temor. — Eu não quis gabar-me com o que narrei…

José Caifás, o mais duro e cruel dos rabis do Templo de Jerusalém. Ele mantinha a nação judaica sob rígido controle político-religioso.

José Caifás, o mais duro e cruel dos rabis do Templo de Jerusalém. Ele mantinha a nação judaica sob rígido controle político-religioso.

— Sei disto, senhora e não foi para recriminar-vos que eu disse o que disse, mas para advertir vossas filhas e nora a se manterem vigilantes contra os maus vícios da criação que receberam no meio social hebraico. É para combater aquele ranço fétido que estais aqui. Ele vos atrapalha sobremaneira os Espíritos gloriosos que tendes e que ainda dormem sob o peso dos vícios materiais. Prossegui, por favor.

Míriam, a mãe, estava perturbada e levou um tempo para se recompor. Um turbilhão de pensamentos e emoções desencontradas lhe turbavam a mente e o raciocínio. Mas voltou a falar, ainda que titubeante.

— Eu permaneci três meses em companhia de minha prima. Ajudava-a nos afazeres de casa e distraía minha mente das perturbações que vivera em Nazaré. Ao fim deste tempo, quando Izabel estava próxima de dar à luz, recebi um mensageiro de meu pai que me chamava com urgência de retorno à casa. Atendi-o e, para minha surpresa, encontrei Yoseph na companhia de meus pais. A partir daquele dia tudo foi muito corrido. Nosso noivado foi anunciado em uma festa que meu noive fez questão de oferecer à vila, de modo que, para todos, ficasse bem claro que nós nos casávamos segundo a Lei. Em três dias casamos e partimos para Cesaréia a fim de evitar especulações sobre meu estado. Eu contava três meses de gravidez, mas meu ventre não aparecia.

Da pujante e bela Cesarea só restam as ruínas.

Da pujante e bela Cesaréia só restam as ruínas.

Em Cesaréia Yoseph, que era excelente construtor, conseguiu um bom emprego na construção de residências e templos e durante cinco meses tivemos uma vida muito boa. Mas meu esposo começou a entrar em atrito com os gregos, que eram muitos e que praticavam costumes censuráveis diante de nossos princípios religiosos. Então, para evitar complicações com os guardas romanos e herodianos, voltamos para Nazaré, onde Yoseph, com as economias que trouxera, construiu uma casa para nós.

Enquanto trabalhávamos arduamente para construir um futuro mais ameno para nossa família… Quero chamara a atenção que eu recebi os filhos de Yoseph como meus, por isto já éramos uma família. Eles, logo se casaram e se foram, mas durante o curto espaço de tempo em que estiveram conosco, foram minha família, compreendem?

Todos assentiram com as cabeças.

Zacarias não se continha de felicidade por ser pai e trombeteou a divindade de seu filho e daquele que seria o Salvador.

Zacharias não se continha de felicidade por ser pai e trombeteou a divindade de seu filho e daquele que seria o Salvador.

Enquanto labutávamos por nosso futuro, Zacharias começou a falar demais. No próprio Templo, ele soltou o verbo, dizendo coisas como ter sido visitado por um Arcanjo que lhe predissera a gravidez de sua mulher; que aquela criança vinha de conformidade com o que tinha sido previsto por nossos profetas; que aquela criança, filho seu e de sua esposa Izabel, mas concebida conforme a Vontade de Senhor, viera para abrandar e preparar o caminho do poderoso Salvador que nasceria do ramo de David, conforme as profecias; que o Salvador, prometido a Abraão pelo próprio Yeve, bendito seja seu nome, encontrava-se próximo do seu nascimento; que o Salvador nos livraria de nossos inimigos para que assim livres pudéssemos glorificar e servir ao nosso Deus sem temor; que seu filho daria testemunho d’Aquele que viria ao povo de Israel para lhe dar o conhecimento da Salvação e da libertação próxima, retirando-lhes os pecados e os deixando puros para que se cumpra o que disseram os profetas. Toda esta falação de Zacharias despertou, em Herodes, profunda desconfiança e inquietação. Ele sabia que nosso povo não o aceitava de bom grado. Era um Idumeu, não um Hebreu. Apossara-se indevidamente do trono que devia ser d’Aquele que viria como o Salvador de nosso povo. Por isto, grandes murmúrios se fazia entre as gentes sobre onde nasceria o Salvador. Que jovem grávida já o trazia em seu ventre e outros mexericos deste jaez. Tudo isto levou Herodes a colocar sua guarda palaciana em alerta e mandou que espiões fossem infiltrados entre os hebreus a fim de colher informações sobre o tal Salvador.

No entanto, alheios ao falatório e às notícias desencontradas e, muitas, até fantasiosas, nós, Yoseph e eu, nos dedicávamos com afinco ao nosso trabalho. Ele, no seu emprego; eu, na arrumação de nosso lar e em seu embelezamento. Não éramos ricos, nunca o fomos, mas Yoseph ganhava bem e seu dinheiro nos proporcionava algum conforto.

Não sei quem, mas alguém que gostava muito de Zacharias, avisou-o de que Herodes estava demasiado interessado em seu filho. Isto colocou o rabi em alerta e o fez compreender que andava falando demais. Assim, às escondidas, enviou Yahia para Alexandria, no Egito. Lá, a criança ficou sob a guarda de um rabi, numa das inúmeras sinagogas que há naquela cidade. Mas mais tarde, quando já contava 15 anos, Yahia, de própria vontade, transferiu-se para uma Vihara indiana, onde aprendeu os fundamentos do Budismo e foi introduzido em sua profunda filosofia. Zacharias não lhe fez oposição, pois ele próprio freqüentara, quando mais jovem, uma daquelas escolas altamente prestigiadas por grande parte dos nossos rabis. Ali o jovem Yahia permaneceu até quando, adulto, regressou para o seio de nosso povo a fim de cumprir com o que lhe fôra profetizado.

Fiéis em festival no Rio Ganges, onde ocorrem os batismos.

Fiéis em festival no Rio Ganges, onde ocorrem os batismos.

Yahia tinha sido batizado no Ganges e aprendeu que a água é o símbolo da pureza e da vida. Se a água se torna imunda ela é mortal para a Vida. Assim como a água são os sentimentos. Limpos e puros, estes vivificam nosso Espírito, mas se são impuros e imundos, matam nossas almas. Quando veio para a Palestina, adotou o costume de batizar com a água e escolheu um riacho de águas limpíssima que desemboca no Jordão porque, além de ter águas limpas, ele era menos profundo e menos violento na correnteza de suas águas. Ali, Yahia passou a pregar sua palavra e a avisar que nosso Salvador já estava entre nós.

Ignorante disto, meu marido e eu continuávamos em Nazaré planejando nossa vida em família. Foi quando um édito do Imperador romano, César Augusto, foi noticiado. Nele, o Imperador mandava que todos os judeus fossem alistados e, para tanto, havia que se fazer um recenseamento. Sirino, Governador da Síria, era o encarregado do cumprimento da ordem imperial e nós estávamos sob sua jurisdição. Então, recebemos, todos os palestinos, a ordem de irmos para as cidades das quais os homens fossem originários. Ora, Yoseph era da Casa de David, assim como eu também. Então, tivemos de nos deslocar para a cidade de Belém, pois Yoseph era de lá. Eu estava próxima de parir meu primogênito e a viagem não foi nada fácil. Eu ia no lombo de um burrico e meu marido, a pé. Viajamos um dia e uma noite quase toda, até chegar a Belém. Encontramos a cidade regurgitando de peregrinos e não havia lugar onde nos hospedarmos. Yoseph estava muito preocupado comigo e angustiado com a situação.

Sim, ele nasceu numa estrebaria, por falta de lugar na cidade de Belém.

Sim, ele nasceu numa estrebaria, por falta de lugar na cidade de Belém.

No arredores da cidade, contudo, havia uma estalagem simples, onde se alugavam vagas para dormir até nas estrebarias. Mesmo contrariado, Yoseph se dirigiu para lá e conseguiu uma vaga para nós. À noite, perto da hora quinta (23 horas no nosso horário), senti as dores do parto. Ele foi rápido, quase não deu tempo de Yoseph e a mulher do estalajadeiro arrumarem um local para nosso filho. Uma pequena manjedoura foi transformada em um bonito berço de última hora e ali meu primogênito foi colocado, depois de banhado e amamentado. Não era desconfortável, a estalagem. Tínhamos até certo conforto. Meu filho não era chorão e sorria para quantos do berço improvisado se aproximasse, o que chamou a atenção de quantos, curiosos, o foram olhar. Ele parecia entender todo mundo e não estranhou ninguém. Eu, por minha vez, não tive qualquer problema. Uma hora depois do parto já andava normalmente e não sentia nenhum necessidade de guardar os dias de purgação para limpeza de meu ser.

Contaram-me, dias depois, que um ser de outro mundo se havia apresentado junto a um grupo de pastores simples e com eles jantara junto à fogueira que tinham feito para espantar o frio. Durante a conversa, o ser de roupagem prateada e pele muito alva, rindo com dentes alvíssimos e limpos, lhes dissera que nosso povo era privilegiado diante do Altíssimo e que por isto Ele havia enviado o Salvador e este havia nascido naquela noite, à quinta hora, na cidade de David, Belém. O estranho estava muito feliz porque entre nós, humanos, o Filho de Deus se apresentava para daqui partir em sua missão de trazer todo o rebanho de Seu pai ao redil do Amor.

Contaram-me, também, que os pastores tinham questionado aquele ser misterioso perguntando a razão de o Filho de Yeve ter nascido entre os hebreus, em lugar de entre romanos ou outro povo mais rico e mais poderoso. Os hebreus não tinham exércitos, como, então, conquistar outros povos? Rindo, divertido, o estranho respondera que o Filho do Verdadeiro Homem não precisava das riquezas da Terra, pois não somente elas lhe pertenciam todas, como também lhe pertenciam todas as riquezas além, nas estrelas. Depois disto, nenhum dos pastores soube dizer o que havia acontecido com o visitante misterioso, pois todos adormeceram e só despertaram quando o sol nascia. O estranho já não mais estava com eles.

Quando amanheceu o dia fomos, Yoseph e eu, fazer nosso dever. As ruas estavam regurgitando de gente de todas as partes e demoramos muito para nos inscrevermos. Enquanto isto, a estalajadeira, Larissa, tomava conta de nosso filho. Eu estava com o coração nas mãos, mas a mulher tinha razão. Andar com a criança recém-nascida no colo entre aquele povo seria uma loucura, como loucura era eu sair antes de completar um dia de parida. Mas eu não sentia nada. Estava perfeitamente saudável. Era como se jamais houvesse parido. E só depois do nascimento de nosso segundo filho foi que compreendi a necessidade do repouso.

Na nona hora, o sol queimando ainda, regressamos e já havia a promessa de um quarto para nós no dia seguinte. À noite, eu embalava nosso filho no berço improvisado quando três homens se aproximaram de nós. Um deles tinha a tez muito negra e os outros nos pareceram árabes. Eles sentaram ao lado e tiraram uns embrulhos que estenderam a Yoseph.

— Somos magos e viemos da Pérsia, onde somos sacerdotes. Eu me chamo Balthasar, este é Belchior e o outro é Gaspar. Faz dias que viajamos em busca da Estrela que anunciou o nascimento de um ser divino entre os homens. Sua luz nos trouxe até esta cidade. E um homem de vestes prateadas nos trouxe até aqui perto e nos mostrou onde estava a criança que buscávamos. Ele nos instruiu para vestirmos-nos como árabes, pois nossas vestes chamariam muito a atenção na cidade e é por isto que estamos com estes trajes.

— Por acaso — disse Yoseph, apontando para o céu — vós vos referis àquela estrela estranhamente brilhante, lá para o lado do nascente?

— Aquela mesma. Nossos estudos da abóbada celeste e dos astros nos deram o dia e o local aproximado onde nasceria o Salvador dos homens. E o homem de roupas brilhantes nos mostrou esta estrebaria onde só o vosso filho houve nascido aqui, por estes dias.

Yoseph reprimiu um sorriso de incredulidade e me lançou um olhar de esguelha.

— E o que são estes presentes? — Perguntou, sem tocar nos embrulhos depositados no chão.

— São Mirra, Incenso e Ouro. A Mirra, entre nosso povo, é queimada quando uma pessoa desencarna e regressa ao céu, onde nasce para a vida eterna luminosa e boa; o Incenso é queimado, quando a criança nasce na Terra, para que seu Espírito seja abençoado por Budha Maytréia e representa sua fé no Criador de Todas As Coisas; e o ouro exprime o desejo de que a criança seja limpa e pura como limpo e puro é este metal, além de ser o símbolo de sua realeza. Nós quisemos ofertar estes presentes ao Salvador do Mundo, vosso filho, ó felizardos. Mas também trouxemos seda para a mãe da criança e calças persas para o pai. Além disto, desejamos ofertar-vos estes potes com tâmaras secas, as melhores da região; esta caixa de uvas pretas e mais este pote de iogurte feito com leite de cabra. É muito bom para as mulheres paridas. 

Yoseph, agora sem se sentir nem um pouco jocoso, aceitou os presentes e agradeceu a cada um dos magos. Então, o de pele escura, Balthasar, curvou-se para meu marido e com voz preocupada sussurrou:

— Quando vínhamos para cá fizemos pergunta por toda a parte. Passamos, antes, em Jerusalém e por ali fizemos pergunta sobre o Salvador que tinha nascido por estas bandas. Ninguém soube dizer nada a respeito. Fomos, então, levados ao palácio do rei Herodes e este nos recebeu com muita cortesia. Explicamos-lhe nossas cartas astrológicas e ele se mostrou muito atento, até demais, para nosso gosto. Mas foi durante o jantar que nos ofereceu, à força do muito que bebeu, que se mostrou demasiadamente interessado na criança divina e nos pediu, quase mesmo implorou, que nós, quando descobríssemos onde ela estava, retornássemos por Jerusalém e fôssemos até ele informar-lhe da criança. Perguntamos a razão de tanto interesse e ele, com um olhar estranhamente fugidio, nos disse que era porque também desejava prestar suas homenagens ao “rei dos judeus”. Esta frase nos pôs desconfiado e, agora que vos conhecemos, gostaríamos de vos aconselhar a não retornar à Palestina com vosso filho, pois não confiamos em Herodes. Há algo de muito mau naquele homem.

Os magos sírios se foram e nos deixaram perturbados. O que devíamos fazer? Tudo que era nosso estava em Nazaré e não havia como chegar lá sem entrar na Palestina. Mesmo que nos disfarçássemos, teríamos que nos revelar mais cedo ou mais tarde. E se nosso filho realmente fosse diferente dos demais? Seria notado rapidamente e isto com certeza atrairia a atenção malévola de Herodes.

Enquanto estávamos a nos debater com este dilema, Herodes perdera a paciência. Os magos não tinham retornado tal como lhes pedira e fôra informado por seus espiões que eles, depois de terem estado em Belém, se tinham ido de retorno ao seu território por outros caminhos. Ele, então, mandou que se vasculhassem todas as casas em Belém e se buscasse por qualquer criança que tivesse nascido ali nos dias de censo.

Um dia antes dos seus guardas chegarem, nós estávamos retornando à nossa cidade. Cauteloso, Yoseph conseguiu integrar uma caravana de árabes tuaregues, com os quais os guardas herodianos não se metiam, pois lhes temiam as perigosas adagas. E foi assim que chegamos até Nazaré, sempre nos misturando com gente de fora para dificultar nossa localização.

Em Nazaré Yoseph retomou seu trabalho de construtor e eu me dediquei a cuidar de meu filho, evitando, o máximo possível, interagir com outras mulheres e evitando toda e qualquer exibição de Yehoshua a olhos estranhos. Vivíamos, os três, enclausurados e evitando sermos vistos por pessoas desnecessariamente.

Yehoshua tinha um ano e nove meses quando Gabriel nos visitou novamente. Era à noite e estávamos cansados. De repente uma grande luz se fez no quarto onde dormíamos…

— Por hoje, senhora, chega. É tarde e tereis de trabalhar duro, amanhã. Retomareis vossa interessante narrativa amanhã, à noite, como de costume. Ide para vossos quartos em silêncio e orai pela paz entre os homens.

E Jeroboão se retirou, seguido pelas mulheres silenciosas…