Ele fala errado como quê, mas seu pensamento é coerente.

Ele fala errado como quê, mas seu pensamento é profundo como sua vivência e sabedoria.

Orozimbo chegou quando eu estava às voltas com a grade que serve de portão deslizante bem no primeiro degrau dos seis que descem da varanda até a grama diante de minha casa. Uma ventania brava arrancara a grade e na queda a rodinha que a faz deslizar se desprendera. Agora, está difícil manter a grade no lugar. Ele me ajudou como pôde a arrumar aquilo até que o soldador venha fazer a solda.

Depois, bebemos água, pois apesar da chuva anda fazendo muito calor, e nos sentamos. Eu peguei dois halteres e me pus a fazer exercícios. Ele apenas me olhava, curioso. Então, em dado momento, me fez a pergunta que o trouxera aqui.

— Home, vancê parô de iscrevê?

Sem interromper o que fazia, meneei a cabeça negativamente.

— Entoce, pru qui é qui agora a gente num vê artigo seu no seu brogue, cuma dantes? No passado, vancê iscrivia inté dois artigo num dia. E seus leitô gostava, num sabe? Agora, vancê isquece deles. Pru que?

"Sodade, meu bem sodade..."

“Sodade, meu bem sodade…”

Parei a série de exercícios e me sentei a seu lado. Fiquei um tempo calado, buscando uma razão lógica para lhe oferecer como explicação, mas não encontrei nada dentro de mim que justificasse meu desinteresse por escrever.

— Sabe, meu velho, não sei como lhe responder. Simplesmente perdi o interesse. Às vezes eu me sento diante do computador e fico ali, olhando a tela preta, sem vontade nenhuma de ligar a máquina. Busco dentro de mim um tema, algum assunto, e não encontro nada. Estou como as represas paulistas – vazio.

— E pru qui é qui vancê num busca cá fora? Afiná, tem notiça aos monte aí pra vancê comentá. Vancê apimenta o assunto, num sabe? Munta gente qui véi cunhece gosta de seu modo de iscrevê. Vancê às veiz desce o morro e se mistura com a ralé na linguage; otras veiz, vancê sobe o morro e fala cuma dotô qui é. Outras veiz vancê iscreve cuma um pade ou coisa paricida. Vancê tem munta verve, home. Num tê assunto? Véi num querdita nisto, nhor não.

Sorri e lhe dei um tapinha na coxa musculosa.

— Está bem. Talvez não seja falta de assunto. Talvez seja enfado.

— Enfado?! Cuma ansin, enfado?

Fiquei mudo. As perguntas de meu velho caíam em um lugar escuro dentro de mim.

— Sabem, Orozimbo, estou enfarado da vida. Ela não mais tem atrativo para mim.

Ele ficou a me olhar durante um tempo e, com um suspiro, perguntou:

— Vancê num tá sofrendo de banzo, não?

O banzo também faz chorar em silêncio porque não há palavras que o traduza.

O banzo também faz chorar em silêncio porque não há palavras que o traduza.

— Banzo?! — Fiquei pensando na sua pergunta. Banzo, para os negros africanos, é um misto de tristeza e saudade. Uma mistura que retira a vontade viver e faz perder o interesse pelo ambiente e pelo que quer que nele se encontre. É a expressão emocional da perda do  lugar onde se vive, onde se criou raízes e onde a pessoa se sente integrada e pertencendo àquilo tudo que o rodeia. Ao ar que respira; às aves que cantam nas árvores; à brisa que sopra; à cor do solo que pisa; aos morros, aos rios, às matas e à luz do dia assim como à escuridão clara de estrelas, à noite. É se sentir integrado ao som da língua que os outros falam e que se entende, assim como aos costumes que colorem a comunidade; é o saber ser aceito pela vizinhança, ainda quando esta pareça indiferente; é aquela segurança que vem do nada e de tudo que nos rodeia. Banzo é a perda disto tudo. Por isto, eu respondi, meneando negativamente a cabeça.

Não, meu velho, eu não estou sofrendo de banzo, não. Não estou triste, ainda quando esteja sentindo uma tristeza suave como o manto da noite sobre meu ser. Eu não perdi nada e, no entanto, sinto como se tivesse perdido tudo… Mesmo assim, não posso dizer que estou sofrendo de banzo. Aqui é meu lugar. Depois de vinte anos, aqui realmente é meu lugar. O Rio de Janeiro, onde vivi por quase quarenta anos, me é estranho, agora, quando volto lá. Tudo mudou muito neste tempo e eu não vivi aquela mudança. Aqui, tudo também mudou muito, e drasticamente, para ser franco. Mas eu vi e vivi esta mudança violenta. A pacífica e gostosa Goiânia, cabocla, tímida, amigável, tornou-se quase uma São Paulo em violência, turbulência, roubalheira política, trânsito ruim, engarrado, ônibus péssimos em conservação, poluição no ar, na água e na terra… Enfim, a Goiânia de agora iguala-se a qualquer outra capital brasileira: é violenta e ruim de nela se viver. Mas com tudo o que vi mudar, aqui é meu lugar. Agora. Por isto, por não ter perdido meu lugar, acho que não sofro de banzo.

Orozimbo me olhou durante um tempo, silencioso. Então, acendendo seu velho pito, disse:

O banzo da perda de ser livre.

O banzo da perda de ser livre.

— O banzo é muito mais que a perda de um lugá, home. O banzo abarca a sôdade da perda da juventude; da perda da adolecença; da perda da inocença da vida qui uma veiz qui se vai, num vorta nunca mais. O banzo é a perda da muié qui a gente amô de todo coração e qui a vida levô imbora pra bem longe de nóis. O banzo é sôdade de tudo o que a Vida nos leva de mansinho ou de modo violento, sem que a gente possa fazê nada pra retê aquilo ao nosso lado. Vancê perdeu muntas muié bunita e qui amarum vancê de verdade. Véi sabe bem disto. E véi sabe que vancê amô a todas ela, mas há uma qui vancê ainda traiz no coração cum muinto carinho e qui num mais tá a seu lado. Ao meno fisicamente, né não?

Eu não respondi nada. Apenas permaneci quieto, olhando o solo sob meus pés. Banzo… Será que eu sofria disto sem saber?

— O banzo ataca a gente, home, quando perdemo a companhia de nossos irmão e num pudemo ver eles invelhecê cuma nóis; num pudemo mais brincá cum eles; brigá cum eles; fazê as paiz cum eles. Num pudemo ajudá eles a criá nossos subrinhos. Esta farta, qui é silenciosa de tão profunda dentro do coração de carqué pessoa, home, é banzo.

O banzo vira nossa vida de cabeça para baixo... Como na capoeira, a expressão viva do banzo negro.

O banzo vira nossa vida de cabeça para baixo… Como na capoeira, a expressão viva do banzo negro.

Banzo é perda, home. A gente passa a vida perdendo mais do qui ganhando, num sabe? A gente pensa qui ganha fios, mas eles cresce e vão imbora. Levam no coração nossa lembrança e levam na mente o qui nóis insinamo a eles, mas a vida arrasta tudo pra longe e a gente fica só. Só cum as lembranças. Estas, home, é a única coisa que num se vai, mas ao contraro, se inriquece sempre. E é o único lenitivo pra dô do banzo.

Banzo, home, é a sodade da vida qui se isvai, se esgarçando nos ispinho do caminho sem qui a gente possa fazê nada pra juntar os pedacim, num sabe?

Isto tudo é banzo, home. O banzo é a morte que chega tão de manso cuma o intardecê. A gente sente que ela tá chegando, mas num pode fazê nada pra evitá, num sabe? O banzo é ansim. Ele cumeça a chegá desde mermo quando a gente chora pela premêra veiz quando se nasce, pruqui, home, a gente cumeça  morrê desde o momento qui sai de dentro da nossa mãe, né não? Pois é. O banzo chega no mundo junto cum a gente e vai imbora tombém junto cum a gente. Entonce, se qué sabê, véi acha qui vancê tá sofrendo de banzo, sim. Só num se deu conta disto… Ainda.

Fiquei calado, olhar perdido além, sem ver nada. E ele continuou.

— É banzo a tristeza qui se sente quando se vê quem tá a nosso lado negando  à gente o dereito de tombém ir vê nossos parente; é banzo o egoísmo do otro qui sempre coloca os desejo e as necessidade dele à frente das nossa; é banzo a gente está sempre agradando a quem num merece pruqui é incapaiz de dizê um simple obrigado. Tudo isto é banzo, home. E vancê tá sofrendo de banzo, sim sinhô.

E meu velho amigo se levantou, bateu seu cachimbo na coluna, deixando os restos do fumo no piso para eu limpar, e se foi cantando:

Sôdade, meu bem, sôdade,

Sôdade de meu amô…

Foi simbora e num disse nada,

Nem uma carta deixô…”

Quando me dei conta, uma lágrima rolava pelo meu rosto…