Uma paisagem ainda comum na Caxemira de hoje.

Uma paisagem ainda comum na Caxemira de hoje.

O dia amanhecera frio e nublado, ao contrário daquela mesma manhã lá onde Yehoshua estava com seus monges e iria encontrar seu discípulo romano, Primus. Ao se reunirem para orar a bereka costumeira, as mulheres tiveram a surpresa de receber a companhia de Jeroboão. Ele quase sempre chegava após a curta prece que elas faziam religiosamente em agradecimento ao dia que se iniciava. Orou com elas e fez o desjejum em silêncio. Quando tudo havia terminado e as mulheres se dispunham a se levantar, ele, com um gesto de mão, fez que permanecessem sentadas.

— Nenhuma trabalhará hoje. Já acertei tudo com vossos patrões e estais dispensadas pelo dia de hoje. Preciso que estejais comigo na visita que faremos a um monumento desconhecido pelos que vivem na Palestina. A caravana já está pronta. Os animais estão arreados e prontos para a viagem. Fazei vossas provisões, pois a viagem deverá durar até à noite, ida e volta. Ah, sim, estais livres do voto de silêncio, mas só entre vós. Ainda não vos é permitido conversar com ninguém que não seja de vossa família, bem como com nosso hospedeiro, quando chegarmos ao nosso destino. Agora, ide. Tendes uma hora para vos apresentar lá fora.

Cavalgá-lo não é cômodo como cavalgar cavalo.

Cavalgá-lo não é cômodo como cavalgar cavalo.

Encontraram oito camelos devidamente arreados. Montaram sem questionamento e logo se punham em marcha. Para espanto de todas elas, o guia açulava os animais que corriam à rédea solta. Eram boas amazonas, mas logo estavam cansadas com o balanço nada cômodo das corcovas dos animais. Uma hora depois a corrida foi interrompida e os animais passaram a andar na marcha natural. Aquilo, no entanto, não dava para descansar o corpo moído. Haviam partido à primeira hora do dia ( seis da manhã no horário atual) e já era a segunda (oito horas no horário atual) quando, finalmente, fizeram uma parada para descanso. Jeroboão mandou que descessem e se dessedentassem. Reuniu-se ao pequeno grupo e explicou que tinham de correr para poder voltar ainda naquele dia.

— Aonde vamos? — Perguntou Ruth com as mãos sobre os rins, entortando-se toda com uma careta de dor.

— É uma surpresa que desejo fazer-vos. Então, tem paciência, sim?

A jovem deu de ombros e se afastou resmungando alguma coisa. Jeroboão ficou a olhá-la sorrindo enigmaticamente.

Já era a quarta hora quando, finalmente, chegaram ao destino. Estavam em Harã, a aproximadamente 12 quilômetros da vila de Behat-poor, situada às margens de um vale que se abria para o lago Wular, naquele tempo de águas límpidas e piscosas. Jeroboão levou-as à casa de um seu conhecido que abrigou a todos com alegria. Era o comerciante Jefoné. O anfitrião conduziu a todos para o grande salão de refeições onde se sentaram em padmássana para conversar. Ele era curioso e queria saber tudo sobre as mulheres, principalmente porque elas eram da família de Issa, o Milagroso jovem hebreu. Ele lhes contou que Issa, quando criança, já fazia prodígios. Certa vez, vindo da rua com algumas compras, ele deparou com uma família debruçada sobre o corpo de uma criança que se tinha afogado. O alarido era grande entre os parentes. Os pais do menino gritavam em desamparo. Issa parou a caminhada e ficou olhando aquilo. Então, largando a mão de Jefoné, dirigiu-se para o agrupamento. Abriu passagem e se aproximou do corpinho estirado no chão. Sem falar nada, colocou a mão sobre a fronte da criança, fechou os olhos e fez uma oração em hebraico. Por um momento todos silenciaram. Olhavam, sem compreender, aquele garoto intrometido, que parecia não os notar. Então, Issa se pôs de pé e disse, no dialeto local: “Tendes mais fé em Brahman. Este menino não está morto”. E voltando-se para o corpo exangüe, estendeu-lhe a mão e o convidou: “Vem comigo. Eu te levo para casa em segurança”. Para espanto de todos, o garoto abriu os olhos, vomitou grande porção de água, tossiu muito e, então, pondo-se de pé e ignorando mãe e pai, pegou na mão de Issa e o seguiu, sorrindo. Ambos foram até a casa do garoto, onde Issa o deixou e sem falar com ninguém retornou para a casa de Jefoné. Horas depois os pais do garoto vieram oferecer frutas, peixe e outros alimentos em agradecimento pelo milagre feito por Issa. Este, contudo, olhou-os sério e lhes perguntou a razão daquilo. Responderam-lhe que os Milagreiros sempre cobravam por seus feitos. Tinham vindo pagar o milagre. Issa, zangado, respondeu-lhes: “Que vida vale paga? Quem pode comprar uma Vida? Não vos deixeis iludir nem ludibriar por espertalhões. A Vida não pode ser comprada por ninguém, pois Aquele que a dispensa nada cobra por ela. E eu, como Seu Filho, também não posso fazer isto, pois estaria insultando meu Pai”. Este foi o primeiro milagre do menino prodígio palestino e ele tinha somente seis anos.

O conto de Jefoné assombrou as mulheres. Nenhuma delas soubera daquele feito de Issa. Míriam, a mãe, ficou boquiaberta. Então, seu filho era um milagreiro desde pequeno? Que ele era especial, os acontecimentos estranhos e incompreensíveis que lhe tinham acontecido desde a gestação, com um Arcanjo misterioso sempre vindo defendê-los do perigo, ela o sabia de alguma forma. Mas não estava preparada para admitir que a capacidade de realizar milagres de seu Yehoshua chegasse ao ponto de ressuscitar os mortos.

A conversa se estendeu até quase a sexta hora, quando a mesa foi posta. Almoçaram salada de verduras, codornas assadas e frutas, muitas frutas, frescas e secas. Tudo foi regado a bom vinho feito das videiras cultivadas pelo próprio Jefoné.

Uma casa padrão hebraica.

Uma casa padrão hebraica (peregrinodecristo.blogspot.com.br).

A casa de Jefoné era ampla e diferia daquelas na Palestina. Tinha uma grande sala e uma pedra sobre quatro outras, o que formava uma mesa de certo conforto. A alimentação era comida com os comensais sentados no chão, mas antes da alimentação todos tinham de lavar ambas as mãos, não somente a mão direita, como entre os hebreus. Além disto era obrigatório a lavagem da cabeça e do rosto, pois não era permitido sentar-se à mesa para receber o alimento doado por Brahma com pensamentos impuros e cabeça suja. A água, fosse ou não do Ganges, era crida como tendo a capacidade de lavar também as impurezas da alma. Os alimentos eram servidos em pratos e dele eram retirados com colheres feitas de madeira. Não eram pegados com as mãos, exceto quando já dentro do prato do comensal. Mesmo o pão já vinha cortado em fatias para facilitar sua colheita. Ao contrário dos hebreus, ninguém se deitava no chão ao redor dos alimentos servidos, mas sentavam-se com as pernas cruzadas, na posição padmássana (a postura do lótus. Padmássana quer dizer exatamente isto: lótus), ao redor da pedra que lhes servia de mesa. Isto era bem mais cômodo para os comensais. Havia ao lado de cada pessoa uma bacia pequena, com água para se lavar as mãos sempre que estas estivessem muito empapadas com a gordura dos alimentos,  ou quando mudavam de um alimento salgado para outro, doce e vice-versa. A roupa dos comensais deviam ser trocadas antes das duas principais refeições do dia, de modo que os moradores da região sempre tinham à mão uma roupa especialmente destinada a estas ocasiões. Como a Caxemira era abundante de águas, com rios e lagos à vontade, geralmente, quando o frio não era intenso, as pessoas adotavam banhar-se antes das refeições, principalmente da primeira, ao meio-dia (sexta hora), quando a temperatura era maior. Assim, ao se sentar para fazer a refeição, os caxemirenses de Harã apresentavam um costume que não era comum a todos os demais.

Os tetos das residências da Caxemira sempre foram inclinados.

Os tetos das residências da Caxemira sempre foram inclinados. Eram como as casas desta foto, da antiga Srinagar.

O teto da casa de Jefoné também diferia daquele das residências judaicas. Nestas, os tetos, geralmente, eram feitos com varas grossas distribuídas longitudinalmente e sobre estas, barro amassado com palha (nas mais pobres) ou misturado ao gesso (nas dos mais abastados). Por isto, quase sempre nos períodos de chuva, as casas hebraicas apresentavam goteiras altamente incômodas. Passado o torturante período chuvoso a maioria delas tinha de ter seus tetos refeitos. Quase sempre os tetos serviam de dormitório a céu aberto, entre os hebreus, visto que a Palestina era quente e o melhor era dormir ao relento. Por isto, quase todas as casas da Palestina tinham escadas do lado de fora que levavam ao teto das residências. Na casa de Jefoné a escada não levava ao teto de pedras talhadas e encaixadas, assentadas sobre grossas vigas de madeira resistente. Este teto era inclinado para melhor escorrer a água da chuva. A escada levava a um amplo e confortável segundo andar, onde se distribuíam os quartos que tinham janelas de madeira que podiam ser fechadas, à noite, para melhor proteção contra o frio. O piso também era de madeira e na residência de Jefoné havia o luxo de as paredes dos quartos serem revestidas também de madeira. Isto, aquecia o ambiente no inverno rigoroso da região.

Quando terminaram o repasto foram convidados a descansar nos quartos superiores. As mulheres ocupariam um dos aposentos enquanto Jefoné e Jeroboão saíram da casa e foram sentar num banco de pedra, para conversar.

Uma casa celta.

Uma casa celta.

Longe dali, naquele mesmo dia, Yehoshua levantou-se cedo e acompanhou o Druida chefe da aldeia para a colheita de visgo. Deram-lhe um baldo que não devia ser tocado por suas mãos. Tinha apenas que carregá-lo por uma corda presa ao redor da borda do vaso e à sua cintura. Seu companheiro ficou entre os aldeões, apenas observando atentamente o modo como viviam, pois não entendia a língua falada entre eles. Notou que aqueles homens fortes, barbudos e grandes o olhavam de esguelha, com desconfiança. Talvez porque suas roupas o denunciassem como um romano e nem sempre ser romano era garantia de boa receptividade por outros povos. Os galeses eram, dentre estes povos, os que mais tinham razão para odiar romanos. Incomodado com os olhares desconfiados e ameaçadores, Primus buscou a sombra de uma árvore, um tanto afastada do local onde os outros se atarefavam, e sentou-se sob ela. Achou que quanto menos fosse notado, menos seria o perigo de uma briga. Lamentou ter sido abandonado por Yehoshua e percebeu que, junto ao judeu, estranhamente, sentia-se seguro. Mais até do que quando estivera entre seus pares legionários. No entanto, mesmo de onde estava, podia sentir a hostilidade pesada no ar. Por que diabos o judeu não o levara consigo?

Um visgo em florada.

Um visgo em florada.

Era o meio-dia quando os dois regressaram da mata. O balde vinha cheio de visgo e o druida caminhava à frente de Yehoshua. Nenhum dos dois falava. Chegaram à aldeia e estacaram surpresos. Havia muitos homens sangrando, dois ou três estendidos no chão gravemente feridos e pelo menos um morto. Primus estava amarrado a uma estaca e juntava-se lenha ao seu redor. Certamente que pretendiam assá-lo. O Druida olhou de esguelha para Yehoshua e acenou com a cabeça, convidando-o a segui-lo até o centro do grande pátio. Lá, conversou longamente com um aldeão que se explicava em voz alterada. Yehoshua, embora compreendendo o que era falado, manteve-se em silêncio. O Druida, voltando-se para ele, disse:

— Teu companheiro atacou os aldeões e estes se defenderam. Esperam somente que eu dê minha sentença de morte para que seja queimado, como é o que fazemos com todos os nossos prisioneiros inimigos. O que tens a dizer, Issa?

Yehoshua aproximou-se em passos lentos e colocando-se diante do indefeso Primus, falou com voz tonitruante:

— Apresentem-se aqui, diante do Druida e de mim, aqueles que se dizem feridos!

Um silêncio pesado se fez e por um longo período nada aconteceu. Então, todos começaram a se voltar e a buscar com os olhos os feridos que, há pouco, gemiam ou no chão, ou amparados por alguém. Mas não havia mais nenhum deles.

— Não há nenhum? — Perguntou Yehoshua e um murmúrio de desorientação se elevou de dentro dos aldeões. Na verdade, não havia ninguém ferido ali. E os que tinham sido feridos não pareciam lembrar de nada a respeito do assunto. Então, uma mulher afastou os que estavam em sua frente e se aproximou. Tinha os cabelos desgrenhados, olhos avermelhados pelo pranto e as mãos crispadas de raiva.

— Eu não sei como fizeste isto, estranho. Mas meu homem está alí, morto, estendido no chão. Não há como negar que ele foi abatido pelo teu companheiro. Tu podes ser um grande mago de outra nação. Curaste os feridos e lhes apagaste a memória, como a de todo meu povo. Todos parecem não se lembrar do que aconteceu aqui, há pouco e eu…

Os guerreiros celtas foram grandes combatentes e resistiram bravamente aos conquistadores romanos.

Os guerreiros celtas foram grandes combatentes e resistiram bravamente aos conquistadores romanos.

— E o que aconteceu aqui há pouco, podes contar-nos? — cortou Yehoshua com voz trovejante.

— Teu companheiro, o romano desgraçado ali — gritou a mulher apontando com um dedo nervoso de tanta raiva para o espantado Primus, que olhava ao redor sem poder acreditar no que via —, atacou nossos homens quando estes trabalhavam. Sem motivo! Como os romanos fazem geralmente…

 — Mentir é feio, mulher — e a voz de Yehoshua soou estranha e ameaçadora, calando todos os sussurros de ódio que já começava a crescer entre os presentes.

— Eu não minto! — Urrou a mulher, rodando sobre si mesma. — Não é mentira que há um morto aqui. Alguém pode negar isto? Não é mentira que o morto foi meu homem. Alguém pode negar isto?

Ninguém se moveu, mas todas as cabeças se voltaram para o cadáver estendido no chão, de costas, braços abertos em cruz.

— Não há uma única testemunha que possa narrar-nos, a mim e ao Druida aqui ao meu lado, a verdade do que aconteceu? — Yehoshua esperou um momento, mas ninguém disse nada. O silêncio era tumular.

— Então — disse Yehoshua —, como não tenho mais a quem recorrer para que a verdade seja dita e, não, palavras mentirosas motivadas pelo mais amargo dos sentimentos, o ódio, eu clamo ao nosso Pai que nos vê e ouve, que me permita conclamar o morto para que se erga e diga a verdade. Os que morrem não mais têm porquê mentir.

Todos os olhares se voltaram para o morto, até o de Primus, que não cria que tal milagre pudesse acontecer. Houve um momento em que nada realmente aconteceu, mas, para espanto de todos, a mão direita do “morto” mexeu-se. Primeiro, tremeu um pouco. Depois, foi levada ao cabo da espada que estava atravessada no peito do homem e de lá a arrancou, jogando-a longe. Então, ele se levantou, pestanejou e cambaleou. Um grito uníssono de susto se elevou da multidão que, assustada, recurou vários passos para trás, olhos, agora, presos no estranho que tinha o poder espantoso de trazer de volta à vida o que dela já havia partido.

— Homem — ouviu-se, no pesado silencio do espanto, trovejar a voz de Yehoshua, chamado pelo Druida de Issa, e ordenar: — uma vez que todos aqui mentem, que tu nos digas a verdade. Foi Primus, o romano, quem começou a briga que resultou em tua suposta morte?

— Não — ouviu-se claramente a voz do homem, que se pusera de pé. — Nós o provocamos e eu fui o primeiro a agredi-lo com esta espada. Mas ele é valoroso guerreiro e tomou-a de minhas mãos. Não pôde fazer nada mais, porquanto todos os homens da aldeia caíram sobre ele com gana assassina. Mas mais uma vez o romano provou sua valentia e seu valor e lutou contra todos nós. Feriu muitos e a mim, cravou-me no peito minha própria espada quando eu, atacando-o por trás, pretendia esmagar-lhe a cabeça com aquela massa de guerra —  e o homem apontou para a arma ao solo.

Uma exclamação de assombro ergueu-se da multidão que, envergonhada, abaixou a cabeça.

Sua autoridade se fazia sentir sem questionamento em qualquer que fosse a situação.

Sua autoridade se fazia sentir sem questionamento em qualquer que fosse a situação.

— Druida — disse Yehoshua — aí está a verdade por aquele que teria tudo a negar, não tivesse ele voltado do além. Esta é a verdade. Se houve ataque de Primus foi em defesa de sua vida. E isto é permitido pelo Pai de todos nós. Até os menores animais lutam para se salvar, quando atacados por outros. Por que ao homem esta ação seria negada? Eis que Meu Pai ordenou: “Crescei, Vivei e multiplicai-vos.” Ao ordenar “Vivei” implicitamente Ele também ordenava “defendei vossas vidas“, pois em um mundo violento até na própria manifestação da Natureza bruta, quem não luta pela vida não pode sobreviver. A vida de qualquer ser é sagrada e a todos os seres cabe defender-se. Mesmo que venha a perder a batalha, não deve chegar do outro lado como um covarde. Não foi para aprender a covardia que aqui fostes enviados, sejais vós celtas, sejais romanos, indianos, árabes, germanos, sírios ou egípcios. Todos devem lutar por suas vidas, pois a ninguém é dado mais que uma. Se possível, já que sois vós, os humanos, aqueles que têm o dom da palavra, esta luta deve ser travada na base da Justiça e através da fala. O apelo às armas só na última das últimas opções, pois o sangue derramado, ainda quando por justa defesa, sempre será cobrado. A pena, no entanto, será segundo a gravidade da ação que levou ao ato abominável. No entanto, a mentira — e o dedo acusador de Yehoshua apontou direto para a mulher, que cobriu o rosto com as mãos e caiu de joelhos, envergonhada — é uma mancha que não se apaga nem do outro lado da existência. E a mentira praticada em grupo sempre é cobrada do grupo, dada a desculpa que seja dada. Não há perdão. Só os covardes mentem. Só os traidores mentem. Só os maquinadores da maldade mentem. Só os maus políticos e os maus líderes mentem. Vós mentistes buscando a condenação injusta de um inocente que somente se defendeu obrigado que foi por vós mesmos. Os políticos romanos vivem da mentira e urdem suas intrigas e suas conquistas fundamentados na fraude e na mentira. No entanto, eles mesmos não vão à guerra. Não pegam em armas. Fazem de suas línguas a pior de todas elas, pois lançam povos contra povos urdindo mentiras em seus palácios luxuosos. Tomam cidadãos que poderiam viver em paz e os transformam em assassinos fardados, infundindo-lhes nas mentes valores sem quaisquer significados diante de Meu Pai, o Criador de todas as coisas. E assim enganados e manipulados, cidadãos que poderiam viver em paz com outros povos, tornam-se soldados e terminam por serem odiados pelas maldades e atrocidades que cometeram a mando de inúteis e covardes líderes. Agora, eu, Issa, vos pergunto: em quê, vós que vos erguestes em juízes contra meu discípulo, vos diferenciais deles? Assim também fazem os líderes religiosos hebreus que se julgam superiores aos romanos, como vós, que assim vos julgais, aqui e agora fizestes. Em verdade, em verdade eu vos digo que sois todos indignos de meu Pai celeste. De todos os povos que se baseiam na mentira para trair e obter lucros tal responsabilidade será cobrada com vigor e o pranto que derramarão por séculos e séculos seguidos não lhes aliviará a pena, até que ela se cumpra em sua totalidade. Quanto a vós, sois mesquinhos demais para que fiquemos em vossa companhia. Soltai, pois, meu discípulo que vamos seguir viagem.

Acreditava-se que os druidas eram detentores de poderes sobre as entidades da Natureza.

Acreditava-se que os druidas eram detentores de poderes sobre as entidades da Natureza.

— Espera, Issa — gritou o Druida, aproximando-se e se colocando diante de Yehoshua. — Minha aldeia errou, mas o homem que quase foi punido injustamente pertence a um povo cruel, que por onde passa deixa dores, lamentações e desespero. O povo celta sabe disto porque muitas de nossas aldeias sentiu o peso do gládio romano. Teu companheiro, Issa, pertence àquele povo. Era soldado dele e isto a roupa que traja não nega.

— Sinal de que não é covarde e devia ser respeitado por isto — rebateu Issa com olhos chamejantes. — E eu vos pergunto, Druida, achais justo que um comandado tenha de pagar com a vida o crime que é coletivo de seus comandantes? Onde está a justiça em ato tão cruel e inútil? Pois a morte cruel que quase sofreu meu discípulo não perturbaria nem em sonhos o sossego dos que, em Roma, maquinam as dores e os sofrimentos de que me falas.

— Tendes razão, Issa, e eu, em nome do povo de minha aldeia vos peço perdão, a vós ambos. Tu nos mostraste um poder além de todos os poderes. Sou Mago. Levei anos desenvolvendo estudos e pesquisas e realizando rituais místicos para chegar a domar as forças e os elementais da Natureza. Mas não tenho, e não conheço Druida que o tenha, o poder de trazer à vida quem desta já se foi. Tu és o maior mago dentre todos os magos e é uma honra ter-vos conosco e aprender contigo o que certamente vieste ensinar-nos. Hoje entendi nossa conversa de ontem. Fica, pois. Nós prometemos ser humildes contigo e com teu discípulo.

— Tens em tuas mãos o sangue de inocentes, Druida. Mesmo assim, vou atender ao teu rôgo, pois vim ao mundo pregar a Paz a todos os homens. Mas agora, manda que libertem meu discípulo. Ele e eu necessitamos ficar a sós para conversarmos.

Com um aceno imperioso de mão o Druida deu a ordem e logo Primus veio juntar-se aos dois. Andava com muita dificuldade, claudicando, pois seu joelho direito havia sido quebrado. Seu braço direito também estava com o úmero partido, assim como tinha algumas costelas quebradas, o que lhe dificultava sobremodo respirar. Sua face estava deformada pelas pauladas que tinha recebido e seu olho esquerdo estava fechado sob feio hematoma e sangrava muito pela boca onde vários dentes tinham sido quebrados. Não parecia um ser humano, mas um monstro. Ele bem que tentou se manter de pé, mas cambaleou e não desabou no chão porque foi amparado pelo forte braço de seu Mestre.

— Estás feio, muito feio — disse Yehoshua, sorrindo carinhosamente para seu irmão romano.

— Tive muitos trabalhando em mim para que eu ficasse deste jeito — balbuciou com dificuldade, Primus.

Sem se incomodar com o Druida, Yehoshua amparou o romano e com ele se dirigiu lentamente para fora da aldeia. Entraram na mata e se encaminharam para um riacho que cantarolava suas águas por entre pedras limosas. Ali, Yehoshua deixou que Primus se deitasse sobre a areia fria e foi buscar água com que lavou cuidadosamente a face ferida. Depois, deu um pouco a beber ao romano e este, em pouco tempo, exausto, adormeceu. Yehoshua ficou a fitá-lo com atenção. Seu irmão não lhe cobrara a cura, ainda que soubesse que ele bem podia fazê-la, dado o que tinha visto realizar junto aos galeses. “É um homem de coração culposo e isto não é bom” pensou o Mestre, com um suspiro. Então, deitou-se ao lado do amigo, fechou os olhos e se deixou orar fervorosamente ao seu Pai. Sabia que Ele lhe atenderia a qualquer pedido que fizesse…

Despertou com alguém sacudindo-o com força. Sentou-se esfregando os olhos e mirou aquele que o despertara de modo tão inadequado.

— Vê, Mestre, eu estou curado! E mais! Tenho dentes novinhos em folha!!! — Gritou Primus levantando-se e se pondo a saltar de alegria, soltando gritos altos de mistura com uma grande gargalhada de felicidade.

Yehoshua desviou os olhos dele para alguém que o romano certamente não via. Gabriel, de pé sobre uma grande pedra, também ria da alegria do romano.

— Tu fizeste isso? — Perguntou Yehoshua em pensamento. O arcanjo olhou-o e se curvou reverente. Ainda sorrindo, acenou afirmativamente em resposta à pergunta de Yehoshua.

— Tudo bem. Acho que já era tempo. Eu esperava para ver quanto tempo ele levaria até me pedir um milagre para si também. Afinal, viu o que foi feito com aqueles que ele ferira entre os da aldeia galesa. Era justo que esperasse a mesma coisa de mim para si mesmo. Mas ele parecia não desejar fazer tal pedido…

— E não faria. Tem um senso de justiça rígido e, segundo seu juízo, tu o terias premiado com um milagre se julgasses que ele era merecedor. Se não o fizeste era porque não o tinhas julgado assim. Então, estava conformado a sofrer até que pudesse se curar, ainda que ficando aleijado.

—Ele é um homem culposo, Gabriel. Julga-se com demasiado rigor. Tenho de lhe tirar da mão a arma perigosa da culpa, ou não poderá servir aos meus propósitos.

— Creio que terás de trabalhar duro para isto, Yehoshua.

— E vou — respondeu o Mestre em pensamento e se pondo de pé. Gabriel desapareceu.

— Vem comigo. Já é tempo de ficarmos a sós para que aprendas algo que desejo muito ensinar-te e não quero outros por perto.

Os dois se afastaram mata a dentro justo quando um grupo de celtas, curiosos pelos gritos do romano, chegava para ver o que acontecia. Mas só encontraram o silêncio.

Longe dali, a tarde já se iniciara há tempos e sol estava inclinado no céu, Jefoné subiu as escadas e chamou a família de Yehoshua para descer ao encontro de Jeroboão. Montaram em seus camelos e subiram um morro através de uma senda tortuosa. A vegetação era luxuriante e a paisagem que se ia descortinando à medida que subiam ficava cada vez mais deslumbrante. Avistavam pomares muito bem cuidados e campos arados e verdejantes. Viam-se ovelhas pastando placidamente nas tiras de terras que serpeavam por entre os canais de águas cristalinas. Tudo era totalmente diferente das áridas terras palestinas. Lá se plantava, quando a terra assim permitia, mas os tempos da plantação eram curtos e o solo quase sempre era seco, pedregoso ou arenoso, exceto nas encostas das montanhas por onde corriam rios de águas geladas, que iam desaguar no principal deles – o Jordão. A temperatura sempre quente contrastava chocantemente com aquela que as parentas de Yehoshua sentiam em seus rostos. Durante algum tempo subiram ao passo bamboleante e cadente dos camelos. Então, sob uma árvore de copa grande e frondosa desceram. Jefoné encarregou-se de colocar os camelos para dentro de um curral, onde dois homens reverenciosamente os acolheu, recebendo dinheiro pelo trabalho de guardadores que exerciam. Eles diziam em silêncio que aquele local era bem visitado e não podia ser diferente, pois a vista de lá de cima era deslumbrante.

— Venham — convidou Jefoné — nosso destino está logo ali, depois daquela curva.

As mulheres, ansiosas pela curiosidade que as espicaçava, acompanharam sem reclamar por mais dez minutos de subida através de uma senda estreita, pisada por muitos pés, a julgar pela profundidade que apresentava. Terminaram diante de uma pequena construção encerrada dentro de uma muralha de pedra, diante do portão da qual havia um homem. Este se pôs de pé segurando com força um cajado grosso.

— Sahib Jefoné! — Exclamou, assim que reconheceu o guia que vinha à frente do pequeno grupo. — Que Brahma sempre o tenha sob Sua proteção.

— E a ti e tua família também, ó Wali Rishi. Abre-me o portão que preciso dar a conhecer o túmulo do Grande Instrutor a estas mulheres. Elas são parentas de Issa, que tu conheceste bem.

— Oh! — exclamou o Wali Richi, apressando-se a abrir o pesado portão de madeira enegrecida. Os visitantes adentraram o ambiente e se encaminharam para uma grande pedra negra devido ao limo.

— Foi aqui que Moisés se quedou, olhando para a Terra Prometida, na qual, doente, sabia que jamais adentraria. Aqui ele entregou seu espírito ao Criador. E lá em baixo está a Terra pela qual os hebreus foram levados a vagar por longos anos no deserto — a terra de Caxemira, que ele dizia ser uma terra de onde brota leite e mel. Os caxemirenses são descendentes das dez tribos “desaparecidas”, minhas jovens senhoras. Ali está o túmulo do Legislador — E Jeroboão, o que falava agora, apontou para a pequena construção de pedra.

— Mas as escrituras dizem que ele ascendeu aos céus levados por uma nuvem… Por isto é que seu corpo jamais foi encontrado — Disse Míriam, a irmã de Yehoshua, com voz trêmula.

— Houve uma razão para que tal fosse escrito — respondeu Jeroboão. — Como, agora, há uma boa razão para que este segredo tão zelosamente guardado pelo Wali Richi (Guardião) vos seja revelado. Nada nem ninguém ascende aos céus com o corpo físico em que seu Espírito viveu enquanto esteve no mundo inferior. Nunca tomeis os escritos que assim afirmam como verdade, senão que um artifício para esconder uma verdade que não pode ser revelada durante algum tempo. Mesmo que este tempo possa durar uma eternidade.

O pequeno grupo encaminhou-se em silêncio até o túmulo de pedras enegrecidas e o rodeou respeitosamente, passando, seus membros, as pontas dos dedos nelas, suavemente, como a lhes fazer carinho. Depois, todos curvaram as cabeças sobre o peito e Míriam, a mãe, orou em voz alta uma bereka de agradecimento pela revelação que lhes tinha sido feita naquele dia deslumbrante. Então, em silêncio, o grupo retomou o caminho de volta à casa de Jeroboão. As mulheres voltavam confusas e cheias de perguntas, mas até à noite, reunidas com o Velho Yogue, não tiveram chance de questioná-lo sobre o que tinham vivido naquele dia de revelações espantosas.