E somos falsos que só merda de boi...

E somos falsos que só merda de boi…

É interessante como nós, brasileiros, somos antitéticos. Há quem apele para os extremos e diga que somos falsos e não confiáveis. Mas não é bem assim. Temos um senso de moral tipicamente anal. Discorda? Então, veja como somos positivamente anal no uso do vocábulo mais importante para nós, em que pese nossa falsa demonstração de asco para com ele. Eu me refiro ao vocábulo “merda”. Aposto que você, falso bem-educado, acaba de torcer o nariz e me recriminar. No entanto, fazendo uso da sentença do Rei dos Reis eu lhe digo: “atire a primeira pedra se você nunca pronunciou este vocábulo em sua vida”. E aí? Cadê a pedra? Não seja falso. Não se venda pelo que não é. Admita que você é tão chulo quanto qualquer brasileiro favelado. Mesmo que ganhando rios de dinheiro; mesmo que roubando Amazonas de reais de mistura com dólares e euros à conta do Petrolão, do Menhsalão e de outros “ãos” que ainda vão aparecer, você é coprolálico com todas as letras. E com toda a vontade. Basta que fique um tiquinho assim contrariado. Mas não se amofine. O vocábulo tão censurado nas “rodas de intelectuais e instruídos” brasileiros é mais usado que a maioria dos demais de nossa língua e tem uma infinidade de funções. Se não, vejamos.

Na função de localização geográfica (primeira): “Onde fica esta merda?”

Na função de localização geográfica (segunda): “Vá à merda!”

Na função de localização geográfica (terceira): “Estou há três horas esperando aqui e ninguém apareceu? Eu vou é embora desta merda!”

Na função de substantivo qualificativo: “Você é um merda!”

Na função de auxiliar numeral quantitativo: “Escrevo pra burro e não ganho merda nenhuma!”

Na função de especialização profissional: ” Ela só faz merda!”

Na função de indicativo de grau superior de especialização: “Ele faz é muita merda!”

Na função de demonstrativo de performance desportiva: “Neimar não está jogando merda nenhuma!”

Na função de afirmação depreciativa: “Fez merda, né?”

Na função de predicativo óptico: “Não se enxerga merda nenhuma!”

Como complemento indicativo de um caminho: “Por que você não vai à merda?”

Na função enfática de surpresa: “Que merda é essa?”

Na função enfática da situação financeira: “Ele está na merda”.

Na função de expressão de ressentimento: “Neste Natal não ganhei merda nenhuma de presente!”

Na função enfática de adjetivo exclamativo: “Puta merda!”

Na função enfática de rejeição: “Puta merda! Sai fora!”

Na função enfática de desespero sanitário: “Sai fora, merda!”

Na função de Adjetivo Interrogativo: “Quem esse merda pensa que é?”

Na função expletiva de continuidade: “Estou na mesma merda de sempre!”

Na função reforçadora de determinada situação: “Tá tudo uma merda!”

Na função constativa de resultados alquímicos: “Tudo em que ele toca vira merda!”

Na função constativa exclamativa: “Deu merda!”

Na função constativa pejorativa: “Você é um merda!”

Na função qualitativa comparativa: “ela treme como uma merda!”

Na função qualitativa depreciativa: “Seu merda!”

Na função constativa de espanto: “Que merda!”

Na função classificativa literária: “Êta cronicazinha de merda!”

Como qualificativo da produção governamental: “Esse Governo só faz merda!”

Como demonstrativo qualificativo constativo: “Se você leu até aqui é porque não tem merda nenhuma que fazer”.