Repensando Bruce e Ueshiba.

Repensando Bruce e Ueshiba.

Se algum leitor pensar que pretendo escrever um fictício combate entre estes dois portentos das Artes Marciais mais destacadas do planeta, engana-se profundamente. Nada mais distante do que pretendo considerar aqui, hoje. Nem de longe sou fã de pancadaria, estupidez e brutalidade. E é assim que vejo e compreendo encontros ditos “marciais” como os do MMA, atualmente tão ao gosto popular e que acontecem ao vivo (e são transmitidos pela TV paga) e onde “feras humanas” sangram aos tapas e pontapés, para gáudio dos medrosos que só sabem urrar feito os gordos e imbecilizados romanos nas arenas da Cidade Eterna. Poucos dos que gritam alucinados “mata ele!” subiriam no octógono para enfrentar um daqueles profissionais da dor sem razão.

Aprendi com um samurai que “nossas mãos e nossos pés não foram feitos para ferir nossos semelhantes, mas a Sociedade que criamos nos impõe que matemos ou sejamos mortos. Faz isto porque nasceu doente pelos vícios ruins da Personalidade humana”. Concordei e continuo concordando com ele.

Ele se tornou um mito, fez uma arte marcial que tentou fosse divulgada pelo mundo todo, mas não sei se conseguiu seu objetivo.

Ele se tornou um mito, fez uma arte marcial que tentou fosse divulgada pelo mundo todo, mas não sei se conseguiu seu objetivo.

Há uma série sobre a vida e obra de Bruce Lee na Netflix à qual estou assistindo com toda atenção. Nos idos de 70, Lee foi meu herói favorito e não somente meu, mas também de grande parte da humanidade jovem daqueles tempos. Eu ainda não tinha maturidade para compreender a profunda diferença entre a Arte de Lee e aquela de Ueshiba, pela qual já me interessava.

Na série, muito bem feita e cujo ator que representa Lee é assombrosamente parecido com ele mesmo e tem uma performance admirável, é-nos narrada minuciosamente a vida do ator marcial nunca igualado até hoje. Eu gosto de filmes sobre fantasias marciais, pois muito deles são divertidíssimos nos exageros de seus efeitos especiais. Mas costumo assistir aos filmes não vendo apenas a trama por detrás da história, mas também tentando apreender a mensagem que tentam transmitir. Nesta série a que me refiro, tenta-se não somente mostrar a tremenda luta de Bruce Lee, garoto de família pobre de Hong-Kong, para concretizar seu sonho: tornar conhecidas mundialmente as artes marciais chinesas. 

Não era assim, no princípio. Naquele tempo, Hong Kong era uma colônia inglesa e os chineses eram discriminados e humilhados pelos de “pele branca”. Lee sofreu esta discriminação e sendo magro e indefeso, também levou memoráveis surras nas ruas. Isto e, claro, outros conflitos mais íntimos e familiares, talvez com uma pitada muito forte de certo complexo de inferioridade, tornou-o um obsessivo-compulsivo ou, como se usa atualmente, um paciente de TOC. Rancoroso, explosivo, desobediente, tornou-se o tipo que “não levava desaforo para casa”.

Bruce, em uma de suas poses cinematográficas.

Bruce, em uma de suas poses cinematográficas.

Seu desequilíbrio psicafetivo foi interpretado como uma paixão dirigida para a luta, o que o levou a ser ingressado, por seu tio e seu pai e após se ter metido numa briga com um bandido perigoso, numa escola de Arte Marcial a cargo de Ip Man. Ali, sob a rígida disciplina marcial, sua carga de ódio subliminar foi direcionada para descarga controlada, isto é, executada sob disciplina e orientação do Mestre. Mesmo este não entendeu que Bruce Lee era, na verdade, um paciente psicológico, um jovem emocionalmente desequilibrado.

Sua indiferença à dor, aliada à sua obsessividade agressivo-destrutiva, fez que construísse a imagem de um adolescente determinado. Seu treinamento ia muito além do que era comum aos seus colegas de escola. Transformava árvores em instrumentos de treino e batia furiosamente seus antebraços, palmas das mãos e punhos de modo violento contra os duros troncos, aparentando não sentir dor. Exagerava no tempo de treino e freqüentemente passava quase a noite toda se exercitando. Um modo de extravasar seu impulso agressivo-destrutivo. Todo este comportamento é mostrado de um modo que leva o expectador leigo a interpretar seu comportamento desajustado como sendo uma determinação férrea em função de uma predestinação para se tornar expoente na Arte Marcial. No entanto, de meu modo exclusivo de entendê-lo, vejo que aquele comportamento não era nenhuma predestinação e, sim, desequilíbrio psico-emocional.

Egolatria exibicionista cinematográfica. Lembra um galo se preparando para a briga...

Egolatria exibicionista cinematográfica. Lembra um galo se preparando para a briga…

Ao ir com seu tio para os EUA, Bruce se deparou com uma sociedade nada amorosa, onde, como lhe foi dito por uma senhora chinesa há muito radicada ali, só os fortes conseguem vencer. Ele podia sofrer de TOC, mas não era estúpido e logo percebeu que tinha de se adaptar e mudar radicalmente suas atitudes rebeldes. Teve, por força mesmo do way-of-live americano, que se adaptar e adaptar sua agressividade-destrutiva de modo a direcioná-la para algo aceitável. Ajudado pela velha chinesa, ingressou numa escola e cursou o ensino secundário. É claro que mesmo ali não deixou de explodir e se meter em encrenca, mas quando entrou para a Faculdade, sob a orientação de um Professor altamente competente, dirigiu toda aquela energia para o estudo da Filosofia e, ainda orientado pelo seu mestre na faculdade, voltou sua pesquisa para o TAO chinês e daí para as artes marciais. 

Seu conflito racial, que tinha sido marcante em Hong-Kong, tornou-se agudo na América. Ali, cultuavam-se as artes marciais japonesas e ninguém sabia nada sobre as chineses. Seu complexo de inferioridade aflorou de modo explosivo. Passou a desafiar todos os japoneses que encontrava pela frente, todos eles mestres nas artes marciais japonesas. Começou atacando professores de karatê, vencendo-os em público e colocando a comunidade japonesa em polvorosa. Depois, desafiou e venceu o maior expoente do jiu-jitsu; venceu-o e se projetou como grande lutador no cenário local da Califórnia. Afinal, não é de hoje que os membros destas duas culturas, chinesa e japonesa, não se amam. Estava, assim, traçado o caminho para ele. Poderia, agora, como lutador, colocar para fora, de modo socializado, toda sua impulsividade e toda a sua agressividade destrutiva.

Era dono de um invejável controle do corpo, ou cavalo físico, como dizia meu Sitaigong Wu Chao-siang..

Era dono de um invejável controle do corpo, ou cavalo físico, como dizia meu Sitaigong Wu Chao-siang.

Bruce Lee adotou como meta a ser alcançada por seu imenso cabedal doentio agressivo-destrutivo, tornar conhecida em todo o Mundo a arte marcial chinesa, tal como já o era aquelas oriundas do Japão. Tinha a admiração dos californianos que, como todo norte-americano, é “fissurado” em “vencedores”. Estava, assim, aberto o caminho para que Bruce Lee pudesse dar vazão à sua agressividade-destrutiva socializadamente, sem correr o perigo de ser caçado como mau elemento. Casado com uma norte-americana ele, finalmente, tornou-se um cidadão admirado, mas nem por isto menos TOC, isto é, menos paciente de transtorno obsessivo-compulsivo. Domado, dirigido para um fim socialmente aprovado, mas TOC.

Bruce teve inúmeros desafiantes e a todos venceu em combate honesto, embora nem sempre seus oponentes tenham sido honestos. Trabalhou com teimosia na criação de seu próprio estilo marcial e terminou criando-o. Chamou a este novo estilo de jet-kune-dô.

Mas Bruce Lee não conseguiu ir além do solo, para usar uma imagem parabólica. Seu estilo se resume na filosofia do vencer o adversário. Nunca perder. Ser imbatível. E isto, aos olhos do TAO que, ao que parece ele jamais compreendeu, é somente uma gigantesca ilusão. As vitórias em combates físicos são como o sucesso de um espetáculo de teatro. O espetáculo é aplaudido de pé; os atores são ovacionados e cumprimentados em seus camarins, mas no dia seguinte o teatro está silencioso, os que ali estiveram aplaudindo estão, agora, mergulhados nos seus afazeres e nas lutas pela sobrevivência e só o silêncio e o esquecimento resta da noite de glória. O palco está vazio…

Bruce Lee não conseguiu realizar nada sobre-humano… Ele não passou de uma pessoa medíocre, aos olhos do TAO…

Brilhou nas telas cinematográficas; brilhou nas páginas das revistas sensacionalistas; brilhou nas páginas de revistas especializadas em lutas e combates; mas não passou daí. Morreu. Deixou seu legado ao filho, Brandon Lee, que também morreu em Hollywood. Seu neto também findou a vida muito cedo na meca do cinema, suspeita-se que tenha sido assassinado, como seu pai. E fim da Saga de Bruce Lee.

Continua…