Eis Morihei Ueshiba, o fundador do Aiki-dô.

Eis Morihei Ueshiba, o fundador do Aiki-dô.

O campo de batalha fervilhava de ribombos. Tiros de metralha, fuzis, pistolas e obuses. Gritos de agonia e de raiva e de comando. Soldados avançando sob uma nuvem de pó e fumaça acre. Poeira entrando pelos olhos. De um lado, russos; de outro, japoneses. Ele, o endiabrado nipônico, participava da guerra russo-japonesa deflagrada em 1904.

Entre os japoneses havia aquele estranho baixinho que se destacava pela velocidade com que corria e pela curiosidade desnorteante: era o único que não disparava seu fuzil. Aquele japonesinho endiabrado nascera com o nome Morihei Ueshiba, em 1883, em Tanabe, uma pequena vila de pescadores e camponeses. Seu nome, Morihei, significava “paz abundante” e estranhamente parece que determinou seu destino.

Já bem próximo da linha de frente de combate, na guerra, Morihei passou a se esquivar milagrosamente dos tiros de fuzis disparados por soldados americanos à distância de 20 metros mais ou menos. Ninguém entendia como é que ele podia esquivar-se das balas daquele jeito. Era um milagre. O atirador tinha a certeza de que ia matá-lo. Apertava o gatilho tendo a testa do adversário na mira a menos de 15 metros e… ele escapava. Esquivava-se da bala, que se movia à velocidade de 900m/s. Era impossível, mas o assombroso japonês fazia isto. E chegou correndo entre os soldados russos. E usando seu fuzil como um bastão, desancou mais de cinqüenta sem que nenhum deles, a baionetadas, a socos e pontapés e também servindo-se do fuzil como um bastão, pudesse tocá-lo. Finalmente, um bando de desesperados soldados russos se atirou sobre Ueshiba e o derrubou. Estava dominado, finalmente, o japonês mais assombroso do mundo!”

O que narrei acima fez realmente parte da história da vida de Morihei Ueshiba. Foi verídico. Enquanto esteve na guerra, no front, ele jamais matou alguém. Naqueles idos, recrutado para a guerra em sua vilazinha de Tanabe, no Japão, ele já cultivava uma pequena horta de frutigranjeiros e, isolado de todos, dedicava-se a estudar o ZEN (equivalente do TAO chinês) e a praticar a meditação. Também, sozinho, dentro de seu limpíssimo dojô, Ueshiba passava horas executando uma estranha dança sem música. Rodava sobre si mesmo. Às vezes, lentamente; às vezes com uma velocidade estonteante. Em todos os seus movimentos ele parecia estar atirando alguma coisa para longe de si ou, então, caindo agarrado com alguém sobre os tatamis (esteiras de palha ensacadas e juntadas umas ao lado das outras para formar o que se conhece como dojô). Seus giros eram ora suaves, ora rápidos, de braços abertos e com as mãos soltas, como se pendentes dos punhos. Ele como que flutuava sobre o dojô. Às vezes executava-os de olhos fechados, sem jamais perder o senso de distância ou equilíbrio.

Sokaku Takeda, samujrai apegado e praticante das antigas tradições do clã, era violento, aguerrido e sanguinário.

Sokaku Takeda, samurai apegado e praticante das antigas tradições do clã, era violento, aguerrido e sanguinário.

Quando jovem, Ueshiba foi aluno de um dos mais sangrentos e temidos samurais que já viveram no seu país. Nome? Sokaku Takeda. Este samurai era tão obcecado pela espada e pelas tradições do clã samurai que, já em seu leito de morte, ao ser tocado pelo fundador do jiu-jitsu, também seu aluno, com a mão esquerda — a metade direita de seu corpo estava paralisada por um AVC — atirou o aluno contra a parede, no outro lado de seu leito, com tanta violência que ele desmaiou. Não o fez por maldade, mas porque estava já quase inconsciente e o toque de seu aluno foi interpretado, em seu estado de semi-inconsciência, como o ataque de um adversário.

Sokaku era, como Ueshiba, pequeno em estatura, mas de tremenda força física, graças aos seus extenuantes exercícios nas artes de guerra dos samurais. E o criador do jiu-jitsu pesava nada menos que cento e trinta quilos. No entanto, já quase moribundo, Takeda fez algo que a um ocidental é impossível…

Samurai manejando a naginata.

Samurai manejando a naginata.

Morihei aprendeu o manejo do bojutsu, da lança, da espada samurai e, ainda, todas as artes de combate corpo-a-corpo, assim como dominava o manejo da naginata-jutsu e do kenjutsu, de cujas técnicas de extrema violência se tornou um mestre famoso. Entretanto, ainda que tendo sido discípulo de um dos mais temidos e sanguinários samurais de sua época, não há registro histórico de que Morihei jamais tenha ferido alguém. Matar, vencer, ferir, derrotar um adversário não era parte de seu pensamento.

Ele também dominava com perfeição a temida técnica Daitô ryu Aiki-jujutsu, ensinada a ele por Takeda Sokaku (no Japão de outrora, o sobrenome vinha primeiro que o nome. Assim, costuma-se, seguindo a tradição japonesa, denominar ao Mestre de Ueshiba de Sokaku Takeda).

Treinamento do manejo do ken-jutsu. Seus movimentos eram utilizados também  na esgrima com a espada samurai.

Treinamento do manejo do ken-jutsu. Seus movimentos eram utilizados também na esgrima com a espada samurai.

Morihei tinha um sonho: criar uma vila onde os habitantes não fossem dominados pela política de violência de sua época. Ele estava desmobilizado há alguns anos e vivendo em Tanabe, em 1904. Sua vida tinha uma motivação que o angustiava e ele não conseguia encontrar uma “missão” para realizar que lhe desse condição de criar algo para ensinar os homens a não-violência.

Foi quando ouviu falar de um projeto do governo  japonês de  lançar um programa de desbravamento e de remanejo de habitantes para os territórios até então ainda não ocupados pelos japoneses. Em tal condição estava Shirataki, no centro da ilha de Hokkaido, onde o clima era difícil e de extremos. Sem pensar duas vezes Morihei Ueshiba viajou para o local. Observou argutamente que a terra era boa para se plantar e, para ele, era ótima, visto que não despertava grande interesse dos conclamados pelo governo para assentamento em terras vazias.

Morihei em seus tarjes tradicionais.

Morihei em seus tarjes tradicionais.

Fez um recrutamento entre os habitantes de Tanabe e arcou com o máximo das despesas para convencer seus concidadãos a segui-lo na aventura. A maioria se tornou discípula do Mestre.

Em 1876, quando Sokaku Takeda tinha apenas dezessete anos, os samurais foram proibidos de portar o símbolo de seu poder, a kataná, sua espada, símbolo da casta samurai, o que foi uma verdadeira calamidade para eles. Os samurais viviam e morriam pela espada. Ela era tudo no seu estilo de vida. Deixar de portá-la era o mesmo que castrar um touro. Tamanha alteração no regime político japonês trouxe, como consequência, o fato de que numerosos samurais se viram de repente sem emprego. Foi um golpe de morte para eles. Mesmo que o Estado lhes amparasse com uma pequena pensão, muitos terminaram na miséria e no banditismo. Suas tradicionais formas de combate tornaram-se obsoletas, pois dominava, agora, a pólvora, contra a qual a kataná era impotente. Numerosos sistemas de artes marciais japonesas caíram no esquecimento, enquanto outros transformaram-se em sistemas educativos. O aspecto de auto-defesa foi privilegiado em detrimento da aprendizagem de técnicas mortíferas, que tinha sido até então a prioridade das escolas de artes marciais. E o sistema foi aberto ao público.

Já idoso, Morihei lança longe um praticante que com ele treinava.

Já idoso, Morihei lança longe um praticante que com ele treinava.

Morihei trabalhou duro, estudando e meditando e praticando o Zen, sempre buscando encontrar algo dentro da Arte Marcial Japonesa que pudesse criar um caminho de fortalecimento da Mente e do Espírito, com total controle da Emoção, dirigindo os homens para a prática da não-violência. E foi assim que ele decidiu retirar do sistema Daitô ryu Aiki-jujutsu, de seu mestre, todos os golpes violentos e mortais, substituindo-os por movimentos defensivos suaves, que visavam não matar, mas apenas lançar o adversário ao solo, dominando-o sem o machucar. Esta prática tinha como objetivo tornar o corpo forte, integrar o homem – Mente e Espírito – na Essência do Cosmos, o AIKI, que era conhecida entre os chineses como TAI-CHI.

O Ô-sensei demonstrando uma técnica de imobilização.

O Ô-sensei demonstrando uma técnica de imobilização.

Há muito, mas muito mesmo, que dizer sobre Ueshiba, mas o que me interessava creio que eu o disse. E era mostrar a profunda diferença entre os objetivos de Bruce Lee e de Ueshiba. Enquanto aquele visava desenvolver a Arte Marcial Chinesa Invencível para enfrentar qualquer tipo de lutador, Ueshiba visava usar sua arte, o Aiki-dô como um caminho espiritual. Através da prática de suas técnicas, o praticante era, também, levado à meditação profunda e aos poucos a entrar em contato com seu AIKI interior. A partir daí, sempre usando os movimentos circulares e belíssimos do aiki-dô, o praticante chegaria à integração de seu KI com o KI do Universo.

Já idoso, uma noite, praticando sozinho seus amados movimentos, Ueshiba parou para se sentar e, descansando, meditar. E foi então que se sentiu arrebatado por uma luz estonteante. Seu espírito se viu repentinamente unido a todas as coisas e formas na Terra e na Galáxia e por um momento ele compreendeu tudo, a razão de tudo. E entendeu que nada, absolutamente nada, acontece no Universo que não seja pela força e pela coordenação do KI. Ele jamais conseguiu transmitir em palavras aquele momento de iluminação.

Bruce, o lutador invencível e o homem mais veloz do mundo. Pena que não houvesse espiritualidade em sua Arte.

Bruce, o lutador invencível e o homem mais veloz do mundo. Pena que não houvesse espiritualidade em sua Arte.

Enquanto Bruce Lee se limitou ao rés do chão dos combates físicos, não fazendo do TAO o centro de sua vida de Artista Marcial, Ueshiba, ao contrário, entregou-se de corpo e alma ao domínio do KI em seu Ser. E cresceu. E conseguiu tornar seu amado AIKI-DÔ conhecido e praticado no mundo inteiro. E mais: conseguiu difundir seu pensamento zen. Nenhum dojô de aikidô que se preze pratica esta arte senão centrando seus treinos voltados para o estado zen, ou seja, para desenvolver no praticante a paz interna em qualquer que  seja a situação real de sua vida.

No confronto, o japonês ganhou de dez a zero sobre o chinês…