Mosteiro budista tibetano.

Mosteiro budista tibetano.

Fazia dois meses que os irmãos de Yehoshua trabalhavam duro no mosteiro de Hemi. As tarefas eram, para eles, humilhantes, principalmente porque o outrora “mudinho”, gozava da amizade e da deferência do Rimpoche do Mosteiro, no que nenhum dos outros concordava. Naquele exato momento, enquanto eles davam duro cerrando toras e mais toras de madeira e as transportando no lombo de yaquis, Matheus estava dentro do Templo, ao lado do Rimpoche, conversando alguma coisa “idiota”. Nenhum dos outros irmãos, Judas e Thiago, se sentia satisfeito com aquela injuriosa discriminação. O que tinha o “mudinho” que eles não tinham? Por que se faziam rapapés para ele e os desprezavam com raiva?Afinal, não tinham atacado a ninguém e se o irmão mais velho era descendente de David, logo, rei dos hebreus por direito, eles também eram da mesma descendência, logo, príncipes. Eram iguais ao “mudinho”. Por que a discriminação? Não tinham insultado nenhum daqueles diabos de vestes cor de açafrão. Sempre se tinham comportado, desde quando haviam recebido a reprimenda do tal Rimpoche. Mas ainda assim, ainda quando guardando silêncio e não deixando escapar nenhuma palavra de revolta, os monges não gostavam deles e os tratavam rispidamente. Algumas vezes tinham apanhado duramente de alguns monges, que manejavam os malditos bastões com uma mestria diabólica.

Não sabiam de suas irmãs nem de sua mãe. Não sabiam de seu irmão mais velho. Parecia que a terra os tinham tragado e perguntar por eles a qualquer pessoa dali era a mesma coisa que falar com uma pedra. Nem um olhar eles lhes dirigiam.

A cor açafrão era padrão em Hemi.

A cor açafrão era padrão em Hemi.

Matheus vestia-se como um dos iniciados do Mosteiro de Hemi. Sua roupa açafrão vivo caía-lhe bem, pois era musculoso e alto, quase tanto quanto seu irmão mais velho. Naquele momento ele e o Rimpoche caminhavam lentamente dentro do vetusto e impressionante salão do Templo do Mosteiro. O rimpoche lhe dava lições sobre a Vida, a Verdadeira. Matheus ouvia-o atentamente.

— A dor é ilusão — dizia o venerando chefe do Mosteiro de Hemi. — Tu podes serená-la com o poder de teu Espírito. A Forma é ilusão. Tu podes ir além dela e perceber a Alma que ali está presente, em formação, em crescimento, em manifestação. Sem alma, nada haveria com Forma. Nem mesmo a Terra, Matheus.

— Mestre, se bem entendo, dizes-me que aquela coluna ali — e ele apontou para um grosso tronco de árvore que, de tão velho, já estava quase preto — tem uma alma. Como isto é possível, se ali está o tronco de uma árvore que foi derrubada há muito tempo? Se houvesse alma ali, ela estaria em agonia, presa que se encontra há tanto tempo naquela forma.

No interior do Mosteiro de Hemi tudo era profusamente colorido.

No interior do Mosteiro de Hemi tudo era profusamente colorido.

— Aquela árvore que agora é madeira, Matheus, não sente dor. Não sente o estar parada, estática há anos, ali. Também não sente o peso da estrutura que sustenta. A alma daquela árvore que, agora, é coluna, continua a mesma. A árvore deixou de existir sob a forma de árvore. Seu tronco foi trazido para cá e trabalhado por instrumentos cortantes até que adquirisse a nova forma que nós, monges, desejávamos que tivesse. Ela, a alma da árvore, gravou em si a mudança de forma que seu corpo rígido, de madeira, sofreu. Mas em verdade, ela mesma não sentiu dor nenhuma. Não como nós, homens, a sentimos quando nos ferimos. E nossos cânticos a impregnam, em seu corpo Etérico, com emanações agradáveis, que este corpo, lento em evolução, apreende e guarda na forma de uma memória incipiente. O toque das mãos dos monges e monjas que a limpam, polem e azeitam, também lhe imprimem sensação de conforto. Ela não tem a percepção desta sensação com a clareza com que nós teríamos se estivéssemos em seu lugar, mas sendo como somos agora. Quando tinha a vida vegetal, ela era una com todas as demais árvores. O que se fizesse a uma, todas sentiam. Hoje, ela não mais integra a unicidade da alma vegetal, mas na sua individualidade, aprende novas experiências. Não, é claro, como tu aprendes comigo e com nossos irmãos monges. Ela não tem cérebro físico, portanto, não pode pensar nem ter memória nem raciocinar. É rude. É rústica. Apenas sua forma Etérica sente levemente os impulsos que emanam de nós, humanos. Nossas emoções são muito fortes no Astral e no Etérico, meu irmão. As ondas emocionais que emitimos invadem a contra-parte etérica daquele tronco e de todos os demais como uma onda intensa de energia. Uma onda que faz que a alma incipiente que ainda se encontra ali, sinta esta onda como vivificadora de sua vida. E ela, visto como o tronco é conservado e não carcomido e destruído pelos cupins, apreende as novas ondas que vivencia de um modo muito tênue, mas nem por isto menos importante para seu despertar para uma futura evolução para um reino superior ao em que agora se encontra.

Os dois se detiveram próximo à grande coluna de madeira a que se referiam. O rimpoche apontou para a mureta que circundava todo o palácio, servindo de parapeito para um vácuo de nada menos que trinta metros. Lá em baixo os irmãos de Matheus os olhavam atentamente.

— Agora — disse o rimpoche —, quero que sentes aqui, esvazies tua mente e quando estiveres plenamente calmo e sereno, faz emanar de ti em direção a esse velho tronco uma onda de amor. Que este tronco sinta esta onda amorosa e que se vivifique mais do que já está vivificado. Eu saberei se fizeste isto direito, quando, amanhã, voltar aqui. Tenhas um bom-dia, meu irmão.

E o ancião se afastou em passos lentos, mas sem deixar transparecer em sua postura o peso de seus cento e cinqüenta anos.

Thiago e Judas continuaram de pé, olhos fixos em Matheus que, sentado na mureta, postado de frente para a grande coluna de madeira, parecia ter-se tornado em pedra.

— Aquilo é um absurdo! — gritou Judas jogando o grande serrote ao solo congelado do mosteiro. — Ele fica lá, de castigo, mas somente sentado com os olhos fechados feito um idiota. E nós, que somos iguais a ele em descendência, aqui estamos trabalhando feito o diabo. Minhas mãos estão que é só calos! Minhas costas doem de  tanto carregar toras de madeira. Passo frio, pois as roupas que nos dão são as piores, as mais esfarrapadas e as mais velhas. Temos de fazer alguma coisa para mudar isto, irmão. Temos de agir!

Thiago olhou sério para seu irmão e lhe apontou o serrote.

— Pega-o ou vais apanhar daquele diabo açafrão que nos observa com cara de demônio. Não podemos fazer nada. Somos prisioneiros aqui e eu creio que era isto que Yehoshua queria: que nos tornássemos apenas escravos desses miseráveis de olhos rasgados e pele escura. Yehoshua foi mais covarde que Pilatos. Um dia nós nos vingaremos dele, mas agora, idiota, apanha esse maldito serrote porque o diabo açafrão já vem para cá.

Judas voltou-se e viu o monge caminhando decidido em direção deles. Rápido abaixou-se e apanhou o serrote, pondo-se incontinenti a serrar a tora que estava presa sobre uma rústica mesa de pedra justamente para ser cortada. O monge sustou os passos ao lado de Judas e o encarou quase tocando sua face na dele. Riu um riso sem dentes, pois a maioria estava cariada. Com rudeza cutucou-lhe as costelas com um dedo que mais parecia feito de pedra, o que levou o irmão de Yehoshua a gemer de dor.

— Trabalha. Não resmunga. Eu posso ouvir tudo o que dizem e posso entender cada palavra. Mas vocês são broncos e não podem me entender.

Temerosos, Thiago e Judas se puseram a trabalhar afanosamente e com maior ânimo depois de algumas cutucadas daquele dedo terrível. Mas, disfarçadamente, lançavam olhares ao “mudinho” que permanecia placidamente sentado de frente para a grande coluna de madeira escura. Veio a hora da refeição. Entregaram-lhes dois pratos contendo carne de yaqui, grãos e legumes. Comeram com apetite, pois estavam famintos. Depois, serviram-lhes uma bebida alcoólica feita de quê eles não sabiam. Mesmo assim, beberam-na, pois precisavam que o álcool lhes desse novo ânimo. O restante do dia era sempre o mais longo em suas vidas…

Já à tardinha, quando o trabalho foi dado por findo, os dois irmãos se encaminharam para o local do banho. Ali, também, era  agradável para eles. Depois da refeição, por não terem enxergado o irmão entre os comensais, foram até o pátio e o viram lá em cima, sentado na amureta e na mesma postura em que tinha sido deixado pelo Rimpoche.

— Será que ele está de castigo? — Perguntou Judas com um vínculo de preocupação na testa.

— Não creio. O Rimpoche parecia muito afável com ele — Respondeu Thiago, dando de ombros.

— Mas o “mudinho” está na mesma posição há horas. Aquilo deve fazer doer o corpo todo — Disse Judas, passando a mão pelos cabelos.

— Ora, ele é o queridinho do mosteiro. Não está ali sem uma boa razão. Estamos-nos preocupando com ele à-toa. Vamos, vamos entrar antes que alguém implique conosco porque não fomos para o templo fazer a última oração do dia.

— Eu não oro como eles nem para o Deus deles. Oro a Jeovah, bendito seja seu nome, nosso verdadeiro e único Deus.

E os dois retornaram ao interior do templo, onde um monge carrancudo os esperava para os escoltar ao templo no interior do Mosteiro.

Assim eram as casas da tribo celta onde estavam Primus e Issa.

Assim eram as casas da tribo celta onde estavam Primus e Issa.

Longe dali, Yehoshua caminhava por entre a mata com desenvoltura. Parecia que já conhecia aquele local como se ali tivesse vivido a vida toda. Atrás de si seguia o romano Primus, intrigado com a desenvoltura de seu misterioso e assustador Mestre Feiticeiro. Em sua cabeça milhares de dúvidas perturbavam-lhe o fio do pensamento. Mas não falou nada. Limitou-se a seguir àquele judeu feiticeiro. Em seu íntimo tinha-lhe muito medo.

 Chegaram a uma clareira que se abria ao redor de um pequeno lago, no leito de um riacho que marulhava as águas preguiçosamente por entre as pedras. Yehoshua escolheu um lugar para se sentar e apontou com o indicador da mão esquerda uma pedra diante de si, para Primus. Este obedeceu, silencioso.

— Muita coisa aconteceu diante de teus olhos e sei que estás não somente assustado como também com medo de mim — disse Yehoshua, fitando seu companheiro nos olhos. — Julgas-me um feiticeiro e temes que eu tenha algum acesso de ira contra ti e te transforme… sei lá, num sapo, por exemplo.

Primus o olhava sério e com os maxilares crispados, sinal da grande tensão de que estava tomado. Yehoshua sorriu um sorriso leve e descontraído.

— Eu te asseguro que, primeiro, não sou nenhum mago; segundo, não sou dado a iras irracionais por qualquer coisa irrisória; terceiro, estás mas seguro em minha companhia do que na companhia de todas as legiões romanas. Não me temas. Não é isto que eu desejo de ti.

— E o que desejas de mim… Mestre Mago.

Os Druidas eram magos que viviam para estudar as forças energéticas da Terra e dos Elementais da Natureza.

Os Druidas eram magos que viviam para estudar as forças energéticas da Terra e dos Elementais da Natureza.

— Não sou nenhum mago, eu já to disse. Não me chames assim. Chames-me de Issa que é o nome pelo qual sou conhecido por aqui.

— Eu… está bem, Issa. Podes responder-me uma pergunta?

— Queres saber se já estive por aqui, antes de agora, não é?

O romano assentiu com um aceno de cabeça.

— Já. Faz tempo. Vim na companhia de um grande comerciante de meu povo. Era bem jovem. Conheço o bastante dos costumes bárbaros dos celtas para retornar, agora, a fim de corrigi-los.

— E por que me trouxeste contigo?

 — Porque pretendo deixar-te aqui para prosseguir minha missão.

Primus permaneceu calado, olhando fixo para Yehoshua. Então, com um suspiro, voltou a falar.

— Tu és judeu. Os judeus têm um modo de vida religioso complexo, que desconheço totalmente, mas sempre ouvi coisas estranhas a respeito do modo como vivem, misturando religião e política, tudo num único balaio de gatos. Não posso ser teu discípulo. Sou romano. Meu modo de vida, minhas crenças, tudo em mim é diferente do de teu povo e também deste povo bárbaro daqui. É certo que vi que fazes coisas maravilhosas e sem explicação. É certo que o Deus a quem chamas “papai” é poderoso. Muito mais que Júpiter a quem rendemos homenagem e adoramos. Ao menos em mímica, porque, assim como eu, muitos legionários não têm muita fé nele. Nunca vi nada parecido com o que fazes em nome de teu pai ser feito por alguém em nome de Júpiter. Este é um Deus Guerreiro, rancoroso e vingativo. O teu Pai, como tu O chamas, parece ser um Deus pacífico. Eu não estou acostumado com esta idéia. É difícil para mim imaginar alguém que não seja vingativo. Por tudo isto, não creio que seja a pessoa adequada para ser teu emissário junto a este povo bárbaro, por quem só sinto desprezo.

— És sincero, Primus e a sinceridade é uma jóia rara entre os homens. Isto já é um qualificativo para ti diante de mim. Também és corajoso e no Reino de Nosso Pai Celeste não há lugar para covardes e fracos. Este é outro qualificativo para ti diante de mim. És justo e não aplicas teu senso de justiça somente aos outros, mas a ti também. Pude comprovar isto, ontem. Este é mais um qualificativo para ti diante de mim.

— Falas como se fosses uma autoridade. No entanto, não vejo que tenhas posses nem riquezas que te dêem tal status.

Ele era poderoso porque era um Budha.

Ele era poderoso porque era um Budha.

— Ninguém é rico pelo que possui, meu amigo, mas sim pelo que pode dar. Quanto mais um  homem tem para dar, mais rico ele é diante de nosso Pai Celeste. E digo nosso porque, aprende de uma vez por todas, Ele também é teu pai.

— Perdoa-me, Issa, mas tu não tens nada para dar.

— Não?! E o que foi que dei, por concessão de nosso Pai, ontem, aos feridos na batalha estúpida entre ti e os bárbaros? Que riqueza terrena poderia comprar aquilo que foi distribuído de graça? E o que foi que te dei, também ontem, quando estavas todo quebrado?

Primus permaneceu calado. Seus olhos fitaram o solo e ele assim permaneceu por um longo tempo, durante o qual Yehoshua se manteve desenhando em silêncio no pó a seus pés. Ele desenhava o Bel-beu budista.

— Tudo bem — falou, por fim, Primus. — Tu me deste algo precioso: minha saúde de volta. E ainda me deste dentes novos. Os meus já andavam muito estragados. Isto foi um milagre. Mas, segundo tuas próprias palavras, não foi um milagre teu, mas dessa entidade que desconheço e a quem dizes ser nosso Pai, teu e meu.

— E Ele o é. Não somente nosso Pai, mas de tudo o que há na Terra e da própria Terra também — ripostou Yehoshua, sério e olhando dentro dos olhos de Primus. Este, sustentou o olhar fixo de seu Mestre sem se agastar.

— Bom — disse, o romano —, estou nas tuas mãos. Trouxeste-me para cá não sei por quê artes mágicas e quando eu contar a alguém que fizeste isto…

— Não contarás.

— E por que não?

— Porque irias chamar demasiada atenção sobre mim. Não é o que quero, agora. Quando minha hora chegar, tudo será feito de conformidade com a Vontade de nosso Pai Celestial. Por enquanto, devo permanecer nas sombras. Desconhecido do teu imperador. Além disto, Primus, nunca mais voltarás a pisar solo romano.

— O que queres dizer com isto?

— Que morreras nestas plagas em que agora estamos, defendendo teu ministério.

— Ministério?!

— Sim. Serás um Ministro meu pregando minha mensagem a todos os povos ignorantes que vivem nestas paragens.

Primus se pôs de pé e caminhou lentamente ao redor, mão segurando o mento, ar de preocupação.

— Tenho mulher e filhos. O que queres que eu faça em relação a eles? Que os abandone para te seguir?

— Sim. É isto que tu farás.

Primus parou diante de Yehoshua e o olhou, sério.

— Gosto de ti, Issa. Sei que és poderoso. Mas o que me pedes não posso fazer. Amo minha família e sou capaz de dar a vida em defesa de minha mulher e meus filhos.

— Isto é nobre de tua parte, Primus. Mas acredita em mim: nosso Pai cuidará para que nada lhes aconteça.

— Neste momento, Issa, tenho certeza de que já estão na mira do General comandante da tropa à qual eu pertencia. Temo pela vida de todos eles, pois Roma não perdoa a família de desertores. E eu o sou. Se, entre eles, eu também for considerado desertor, e o serei com certeza, pois é o que deve estar acontecendo, minha família será dizimada de modo cruel. Estou angustiado por isto, Issa. Não tens culpa em minha decisão de te seguir, eu o sei. Mas…

Yehoshua se pôs de pé e pousou a mão no forte ombro de seu companheiro.

— Vou mostrar-te que não tens porque ter medo pela segurança deles. Nosso Pai sempre vela pelos seus servos, meu amigo. Vou levar-te a ver o que aconteceu lá, depois do retorno de teus companheiros.

Um redemoinho pareceu tomar conta da Mente de Primus e ele se viu rodopiando violentamente. Quando a tontura passou, viu que estava no Pretório do General Quintus. Diante dele estavam dois decuriões que ele bem conhecia. Um dos dois, o mais velho, relatava algo. Primus se esforçou para ouvir o que era dito.

— … Primus, senhor, foi devorado pela leoa. Dele, restou somente este capacete ensanguentado e amassado pelas presas da fera, o qual vos trago como prova de sua morte. Além de mim, meu companheiro, que aqui está para dar testemunho de minhas palavras, também viu e viveu o que aconteceu.

— Ninguém mais estava junto com vossa decúria, comandante? — Perguntou o General, um homem alto, tremendamente forte e com feição dura. Seus olhos de águia pareciam escrutar até o âmago de seu subordinado.

— Não, senhor. Estávamos sozinhos no deserto. Estávamos exaustos pelo combate em que tínhamos participado.

O General passeou diante de seus subalternos. Depois, parou e se voltou para eles. Sem falar, mirou demoradamente a face de cada um dos dois. Então, voltou a tomar lugar em seu assento e de lá sentenciou.

— Que sejam prestadas as homenagens fúnebres ao valoroso Primus e que sua família seja amparada pelo tesouro romano. É assim que determina o Divino César. Quando um soldado nosso morre no cumprimento de uma missão, a família dele deve ser colocada sob a proteção de Roma. Ide, agora. Providenciarei que meu escriba rediga o documento necessário ao que aqui determinei em nome de César.

Novamente o redemoinho e eis que Primus se viu de volta ao bosque.

— Meu companheiro mentiu. É um comandante valoroso, mas mentiu ao seu superior. Por que?

— Ele se defendeu de morte certa e injusta, Primus. Se dissesse que tu tinhas desertado e que não tinhas sido capturado para a devida punição, teriam sido, os dois, destituídos do posto de comando  e reduzidos a escravos. Além disto, teriam sido, os dois, entregues a uma escola de gladiadores, para que morressem na arena de algum Circo de Roma. Um destino que não mereciam. Também eles têm famílias que desejavam proteger. Eles disseram a César o que César queria ouvir, meu amigo. Orgulhoso em demasia, César, na pessoa do General, não admitiria o que chama de covardia. Nenhum soldado romano pode sofrer a pecha de covarde, pois isto atinge, acreditam eles, a honra do Imperador. Teus companheiros optaram por fazer o que julgaram o melhor para todos.

Primus permaneceu quieto, pensativo. O que lhe acabara de acontecer era mais um dos incríveis milagres que aquele judeu tinha o poder de realizar. Mas o que mais o impressionava era o que seus ex-companheiro de armas tinham decidido fazer. Mentiram ao representante de César e Primus sentia uma certa alegria porque eles haviam insultado o tirano bem nas barbas do General, sem que este desconfiasse de nada. Era uma vingança das vidas que tinham tirado em nome de um homem que nem sequer sentira remorso diante das dores que espalhava pela terra.

A postura em padmasambhava, a primeira luta de Primus com seu corpo.

A postura em padmasambhava, a primeira luta de Primus com seu corpo.

— Agora entendo porque me disseste que eu já não mais tinha família. Se retornasse a Roma eu os condenaria à morte inexoravelmente, enquanto eu mesmo seria mandado para o Circo… Condenaria à minha família, aos meus dois companheiros e às suas famílias também… Estou, então, preso a ti. O que queres que eu aprenda para fazer?

— Muita coisa terás de aprender e muita coisa terás de mudar em tua formação, em tua educação. Mas quero que me acompanhes e me ouças. Aprende comigo o que esta pobre gente não compreenderá senão depois de muitos esforços meu e teu.

— Assim o farei, Issa. Ensina-me e eu aprenderei.

Issa sentou-se e pediu que seu discípulo fizesse a mesma coisa.

— Vou ensinar-te o princípio da Meditação. Agora senta-te como eu. Esta postura, padmasambava, ou a Flor do Lótus. Não é difícil. Com um pouco de treino tu te acostumarás. Ela é boa para manter tua coluna vertebral ereta. Vamos treinar?