Ele não desperdiçava oportunidade de ensinar.

Ele não desperdiçava oportunidade de ensinar.

Foi uma semana duríssima para Primus. Primeiro, teve de se acostumar com a postura padmasambava. Depois, teve de aprender a respirar com as mãos postas sobre a cabeça, forçando o ar a subir e a descer pelo seu corpo. Para tanto, tinha de fazer que seu pulmão fosse enchido primeiramente na parte superior e, depois, forçar o ar a descer para a parte inferior até que seu abdômen estivesse estufado. Enquanto isto, batalhava para não pensar. Algo que lhe parecia ser impossível. Naquela manhã ele estava entregue aos exercícios, um diante do outro, quando o venerando Druida da aldeia veio ter com ambos. Parou a uma distância respeitosa e esperou pacientemente que os dois parassem com aqueles exercícios que para ele eram estranhos e destituídos de significado. Quando, finalmente, Yehoshua deu por findo o primeiro tempo, os dois se levantaram e se voltaram para o Druida.

— Perdoai-nos nossa falta de cortesia, Druida — pediu Yehoshua curvando levemente seu tronco sem tirar os olhos dos do ancião. — É que não podíamos interromper o que fazíamos. Em quê podemos ser úteis?

O Druida não disse nada. Aproximou-se e depositou uma cesta cheia de pães, vinho, carne assada e frutas frescas.

— Não sei como podem permanecer tanto tempo sem se alimentar. No entanto, em minha aldeia, os hóspedes são bem tratados. É nosso costume, do povo celta. Aceitai nosso alimento.

Na Natureza na se cria, nada se Perde... E Ele sabia bem aproveitar o que estivesse ao seu alcance para divulgar seus ensinamentos.

Na Natureza na se cria, nada se Perde… E Ele sabia bem aproveitar o que estivesse ao seu alcance para divulgar seus ensinamentos.

Yehoshua, aliás Issa, caminhou até a cesta e demonstrando grande alegria apanhou-a do solo e retornou até onde seu companheiro permanecia de pé, sem compreender o que os dois falavam. Issa olhou-o e sorriu um sorriso de espanto.

— Ora, eu me esqueci de que não compreendes a língua celta. Mas isto é um pequeno detalhe que sanarei agora.

E ele tocou seu dedo indicador da mão esquerda na garganta do romano. Um ponto sobre o pomo de Adão. Primus sentiu como se um relâmpago riscasse seu íntimo e ouviu um forte estalo em seus ouvidos. Imediatamente ouviu o Druida dizer:

— Tu podes fazer que ele me compreenda, assim, apenas tocando-lhe a garganta com teu dedo?

— Sim — respondeu Issa em celta. — E se quiserdes e me derdes licença, também farei que compreendais e faleis a língua do romano.

Druidas, líderes de suas comunidades.

Druidas, líderes de suas comunidades.

— Pois seja — disse o Druida descendo até próximo daquele a quem conhecia como Issa. Este tocou-o na garganta e os olhos do ancião se arregalaram de susto.

— O que foi isto que aconteceu em minha cabeça?

— Um relâmpago e um estalo em vossa cabeça? — Perguntou Primus em latim.

— Sim, isto mesmo — respondeu o Druida antes de se dar conta de que falava a língua do estrangeiro.

— Ótimo, ótimo — interrompeu Issa esfregando as mãos de contentamento. — Agora que todos podemos entender-nos mutuamente, que tal nos alimentar? Participareis deste acepipe, venerando Druida?

— Não, Issa. Eu já estou alimentado. Mas gostaria de aprender contigo a fazer este milagre que a nós fizeste agora mesmo.

— Eu vô-lo ensinarei, prometo. Agora, setai-vos conosco e esperai que nos alimentemos para, depois, conversarmos.

O Druida assentiu com um aceno de cabeça e se sentou em silêncio, vendo os dois comerem animadamente. Notou que Issa não tocou na carne assada, mas comeu com apetite o pão e as frutas e bebeu com gosto o vinho que o ancião trouxera para eles. Depois de alimentados, demonstrando grande alegria, Issa exclamou:

— Que bom! Eu nem tinha percebido que já estamos há muito tempo sem alimentação. Graças vos damos por vosso cuidado para conosco, Druida. A vós e às vossas aldeãs que certamente prepararam esta cesta.

Com um aceno discreto de cabeça o Druida assentiu com a suposição de Yehoshua. Este, levantou-se e foi sentar-se numa pedra mais alta do que aquelas onde Primus e o Druida estavam. Ali, ficou em silêncio, orando ao Pai celestial, olhar perdido entre as copas das árvores. Enquanto isto, Primus e o Druida conversavam animadamente. Este, queria saber como é que Primus, legionário romano, tinha decidido ficar como discípulo de Issa. E a narrativa do romano chegou ao ponto em que seus colegas decuriões haviam mentido ao General comandante sob cujas ordens eles serviam. O Druida ouvia tudo atentamente e quando o romano falou da falsa história contada pelos decuriões ao seu Comandante, ergueu a mão e se voltou para Issa.

— Issa — chamou em voz alta — ouvi o que este romano me contou sobre a mentira de seus companheiros ao comandante deles. Entre o meu povo, tal qual entre os romanos, os mentirosos são punidos severamente. Mentir é roubar; é enganar o outro para obter vantagem e isto é covardia execrável. O que me dizes sobre como teu Pai encara a mentira, ainda que dita em defesa de vidas? Ele sanciona mentir?

— Druida — disse Yehoshua voltando-se para seus companheiros —, Ele não é somente meu pai. Ele é nosso pai. O pai de todos os seres humanos, pois a todos gerou e deu vida. É por isto que a todos chamo irmão. Não sou melhor nem pior que qualquer outra pessoa, independente de nação ou religião.

— Que seja! Eu não aceito essa tua idéia, mas não vou discutir isto contigo. Ao menos, não agora. O que coloco aqui é uma questão de suma importância para mim e, creio, para teu discípulo também. Esse Pai a que tu te referes sanciona a mentira?

— Não existe isto a que denominais mentira. Nosso Pai não condena a mentira porque Ele não entende isto que inventaram os homens em seus conceitos mesquinhos.

— O que meus companheiros fizeram e tu me mostraste, Issa, foi uma grande mentira deles. Não podes negar isto — contestou o romano. Então, como podes dizer que a mentira não existe?

— Porque ela não existe no céu, meu irmão. Nosso Pai ignora o conceito de mentira ao qual dais tanto valor. Mas Ele dá valor ao que há por detrás desse conceito.

— E o que há por detrás dele? — Perguntou o Druida, levantando-se e indo sentar-se aos pés de Issa, seguido pelo romano, agora muito interessado no debate entre os dois sábios.

— A intenção. O propósito As condições dilemáticas que criaram a situação que gerou o comportamento a que chamais mentira — respondeu Issa.

— Explica-te melhor, Issa — pediu o Druida, no que foi acompanhado por um aceno de cabeça do romano.

— Tomemos o acontecido entre os companheiros de Primus e o General comandante. O que os subalternos fizeram foi dar ao sanguinário e arrogante General romano uma situação na qual seu orgulho e seu egoísmo se sentiram recompensados. Disseram a ele o que ele esperava ouvir. A intenção daquele que falou não foi enganar o General, e o propósito claro do narrador foi defender sua própria vida e a vida de dezenas de outras pessoas que seriam punidas cruelmente se ele tivesse falado o que acontecera naquele momentoso dilema. Sua intenção surtiu efeito. O General ficou satisfeito e mandou, como devia ser o natural, proteger a vida da família de Primus. Com isto, não voltou sua ira irracional contra os dois subalternos que não tinham cometido nenhuma falta, e a narrativa daquele subalterno evitou que a ira sanguinária e irracional do General atingisse suas famílias e parentes. A decisão do General, por sua vez, sossegou o coração de Primus e o fez colocar-se ao meu serviço sem angústias nem resistências. Então, diante do Juízo de nosso Pai, não houve crime, visto que a intenção e o propósito do subalterno não foi causar prejuízo ao General, mas sim defender o bem mais precioso que há entre os homens: a vida de inocentes daquela situação complicada.

Além disso, irmãos meus, ao sustar ações perversas do General, o subalterno livrou-o do karma pesadíssimo que assumiria estupidamente por interferir com os destinos traçados para aqueles a quem, por arrogância e apego a valores inúteis, teria interrompido o fio da Vida. O subalterno livrou o General de ter de enfrentar uma condenação bem pior que aquela a que submeteria inocentes, aqui, neste mundo. Livrou-o de ser um assassino pior do que já o é. Em contrapartida, deu-lhe a oportunidade de agir caridosamente, ainda que não de modo intencional, para com aqueles que ficaram sem o amparo de seu chefe, a família de Primus, e isto lhe amenizou o karma pesado que vem acumulando em sua vida.

Não vos prendais ao imediatismo de vossos juízos, caros irmãos. Por trás de uma ação humana há processos que nem de leve eles podem considerar porque desconhecem as Leis do Pai Celeste. Mesmo que nem de longe aquele que contou uma história que não retratava o acontecido nesta dimensão densa em que vós e eu vivemos neste momento, tivesse a intenção de livrar o General do cometimento de crime maior ainda do que já vinha cometendo por sua ignorância e sua arrogância, o que submeteria seu Espírito a grandes dores, o subalterno livrou-o de um karma mais pesado e, com isto, ganhou certo crédito ou darma diante do Juiz supremo.

Torno reafirmar que o conceito de mentira não existe na Dimensão Celestial. Só o Pai sabe das intenções e os propósitos de uma ação humana e estes não são do conhecimento nem mesmo daquele que os comete.

— Mas quando a intenção é enganar e o propósito é obter lucro indevido em qualquer terreno — ripostou o Druida —, então, Issa, há mentira e tu não podes negar isto.

— Que fatos levaram àquela situação? O homem não age senão estimulado por algo do qual pode ou não, ter consciência. Um juízo perverso, nascido de circunstâncias várias, nem sempre percebidas claramente, pode induzir um pensar e um agir desviados, Druida.  E se o pensar e o agir estão sob a direção de tais regentes desconhecidos e que fogem ao controle da pessoa, pode-se acusá-la de ser uma mentirosa em um fato que narra ou engendra? Sob grande ansiedade e medo, um homem pode negar-se àquilo que seria uma verdade transitória, mas satisfatória no momento e naquele dilema. No entanto, Druida, ele não pode fugir a si mesmo e, passado o momento de agonia e fraqueza, sentirá em sua consciência a mão pesada de seu próprio Juízo. Ele não precisará que outras mãos menos certas pesem sobre si, já martirizado por sua própria consciência. O Pai concede a cada espírito humano seu próprio tribunal e deste ninguém escapa. Então, não se deve nem julgar nem acusar alguém por algo que nos pareça desonesto e imoral.

— Mas isto não é se omitir da responsabilidade de manter uma comunidade em harmonia? — Questionou o romano. — Esperar que a consciência de cada um regule o comportamento de todos de modo a se encontrar um equilíbrio na convivência social é dar amplo espaço para que o caos se instale, Issa.

— Eu não disse que os escolhidos para comandar uma comunidade e impor modos de convivência harmoniosos entre todos sejam deixados de lado, Primus. Há necessidade de líderes em todas as comunidades humanas. Mas tais líderes devem pautar-se pelo que seja o mais próximo da Fraternidade, da Justiça, da Moral e da Ética. Deve levar sua comunidade a agir com cooperação, a se relacionar com justiça sem castigos exagerados. E o cidadão daquela comunidade deve obrigatoriamente também cumprir sua parte, pois todos os homens são líderes de grupos de outros homens. Um cidadão é pai e, com isto, é líder de sua família. O irmão mais velho da família é líder entre os mais novos. Enfim, de um ou de outro modo, toda pessoa exerce liderança entre os membros de sua comunidade. Então, todos devem pugnar para praticar a fraternidade e a justiça entre seus liderados. Assim, a comunidade total fica mais fácil de ser liderada pelos que tenham sido escolhidos para tal espinhosa tarefa.O Druida sabe muito bem do que estou falando, já que é líder em sua comunidade.

Fez-se silêncio por um momento. Então, pondo-se de pé,o ancião tomou dos utensílios em que trouxera os alimentos e, voltando-se para Issa, disse:

— És sábio, homem do além-mar. E dizes verdades que devem ser pensadas e muito bem ponderadas. Agora, vou-me de volta ao seio de meus companheiros. Que Beltane, o Fogo Sagrado, te ilumine sempre.

Ele se retirou com passos tão leves que parecia flutuar. Primus ficou silencioso, pensando no que tinha acabado de ouvir. Certamente aqueles novos conceitos que seu Mestre tinha acabado de enunciar deviam ser por ele apreendidos, mas tinha a convicção de que não ia ser nada fácil conseguir tal proeza.

Olhos fechados em meditação, Yehoshua observava os pensamentos e os conflitos de seu novel discípulo…