O amanhecer era sempre frio na floresta onde estava a aldeia celta.

O amanhecer era sempre frio na floresta onde estava a aldeia celta.

Manhã cedinho na aldeia celta. Mesmo assim, todos eles estavam de pé já entregues ao desjejum e se aprontando para a lide do dia. O céu azul e o brilho da luz do sol prediziam um dia quente. Junto a eles, sentados no chão e em um círculo só de homens, todos muito altos e muito fortes, de pelos louríssimos até no corpo todo, com fartura de bigodes e barbas, faziam uma algazarra enorme. Quem não os conhecesse pensariam que todos brigavam entre si, mas na verdade trocavam idéias sobre o que pretendiam e necessitavam fazer naquele dia, ao mesmo tempo em que sugeriam aos outros idéias de como fazer para realizar suas tarefas com menos esforços e menos cansaço.

Primus, sentado ao lado de Issa, mantinha-se discretamente silencioso e atento ao que ali era dito. Aqueles homens não eram os monstros que lhe tinham feito acreditar seus comandantes. Eram gente comum, que, em que pese o aspecto feroz até nas vestimentas, buscavam trabalhar  e cumprir com seus deveres e obrigações segundo suas Leis e seus costumes. Nisto, não diferiam muito dos romanos. Lembrando-se de seus combates contra outras aldeias e as mortes que por lá deixara, Primus sentiu-se mal e perdeu o apetite. Issa olhou-o significativamente nos olhos e o romano percebeu que aquele homem poderoso tinha lido seu íntimo. Baixou os olhos incomodado.

Um riacho era sempre o local preferido de Issa para ensinar a Primus.

Um riacho era sempre o local preferido de Issa para ensinar a Primus.

Quando todos se tinham retirado, Issa pôs-se de pé e com um aceno de cabeça chamou o romano para segui-lo. Encaminharam-se para o local retirado, às margens do riacho e mal se tinham sentado surgiu o ancião Druida que, sem ser convidado e sem pedir licença, também se sentou ao lado deles.

— Sobre o quê vamos ouvir Issa falar, hoje? — Peguntou o ancião com o olhar mirando os troncos das árvores do outro lado do riacho.

Houve um silêncio após sua pergunta. Ele esperou um longo tempo e, então, como nenhum dos dois estrangeiros dizia nada, decidiu falar.

— Ontem, Issa, tu nos falaste sobre a ilusão que é o conceito de mentira, conceito que, até onde sei, é universal e serve para muitos juízos de valor sobre pessoas. Conceito que pode jogar a honra de um homem na lama da vergonha e até condená-lo à morte. Mas nos confundiste quando mostraste que por detrás deste conceito há coisas que se devem considerar, mas que não temos conhecimento delas. Por exemplo: há o karma. Como nos explicas isto?

Eis a estátua de um dos maiores avatares que já nos visitaram. E Ele não pôde falar a respeito da Vida que há no mundo da Vida.

O Buda sempre esteve presente na vida de todos os humanos sob as mais variadas formas de manifestação. Até como Issa ou Yehoshua.

Issa permaneceu silencioso por um longo tempo. Parecia pensar. Então, com um suspiro, voltou-se para o Druida e o questionou.

— Sabes o que é o karma, Druida. Este conceito há em tua religião. Por que, então, me questionas sobre ele?

— Porque, penso eu, tu tens mais a informar além do que conhecemos sobre o karma. Além do mais, teu discípulo precisa conhecer este assunto. Vejo, pela sua expressão, que ele ou sabe bem pouco, ou nada sabe. Entre nós acreditamos na existência do Círculo de Keugant, ou Círculo do Vazio. Nele está o Todo, o Desconhecido, o Invisível. Nele estão os Arquétipos de tudo o que está por vir. É o Início de Tudo e nele não se pode penetrar nem enquanto vivo, nem enquanto morto. A seguir, temos o Círculo de Abred, onde vivemos enquanto encarnados. Há que se esforçar para sair deste círculo e ascender para o de Guenwed, de onde nosso espírito pode sair da roda das encarnações. Somos os Ários porque acreditamos que somos filhos do elemento Ar e que é por isto que ansiamos subir para Guenwed.

Também somos, enquanto pessoas encarnadas, filhas de Ram, o Carneiro Solar, o que rompe as trevas da ignorância e derruba as muralhas da rudeza espiritual e, assim, adentra o terreno da Sabedoria e da Liberdade. Enquanto filhos de Ram, somos pessoas que lutamos para nos ajustarmos às virtudes de Ram, ou seja, pelo sacrifício e pela tenacidade em nossos propósitos vencemos as adversidades. Temos três Leis fundamentais e elas são: 1 – Obedecer às Leis Divinas. O Pai de Tudo é a Inteligência Absoluta, aquela que tudo conhece e tudo cria e nada há acima de si. 2 – Demonstrar interesse sincero pelo bem do grupo a que pertencemos. É necessário respeitar os limites de cada um e de cada clã. É necessário proteger e defender, até com a própria vida, os que integram nosso clã e trabalhar dentro do clã para o bem-estar de todos. 3 – É preciso ser corajoso e enfrentar sem esmorecimento as agruras da vida, pois a todas elas corresponde uma alegria em Guenwed, antes da libertação total. É preciso desenvolver a inteligência para saber calar quando for necessário, e falar quando seja imperativo. Mas dizer sempre a Verdade, pois a Mentira condena o espírito à prisão de Abred. Finalmente temos o Círculo de Guenwed, o Círculo da Bem-aventurança, da Beleza e da Felicidade Perfeitas. É o Círculo da Luz Branca, onde cada ser nasce da Vida Una. A idéia que temos de Karma diz respeito ao Círculo da Purgação ou Círculo de Abred. Aqui, cada fracasso no esforço de ser como Ram, faz que não se acesse as portas de escape de Abred e estas portas são quatro: a do Sul, a do Norte, a do Leste e a do Oeste. Cada porta está em um dos braços de nossa cruz. Elas delimitam as quatro virtudes pelas quais um celta pode escapar da prisão em Abred. A virtude da Verdade corresponde à Porta do Norte; a Virtude da Coragem corresponde à porta do Sul; a Virtude da Justiça corresponde à Porta do Leste; e a virtude da Bondade corresponde à Porta do Oeste.

Um druida na coleta do visgo.

Um druida na coleta do visgo.

O Druida calou-se e olhou para seus companheiros. Issa, desenhava na areia a seus pés e parecia absorto. Primus olhava-o de cenho franzido, parecendo apreender tudo o que ele dissera. Finalmente, Primus falou.

— Estou espantado com vossa religião, Druida. Entre os romanos vós sois tidos como bárbaros brutais, que não têm nenhuma humanidade e vivem para guerrear. No entanto, acabo de ouvir sobre uma organização religiosa muito bonita e complexa. Acho que não dissestes tudo o que há para se conhecer em vossa religião, mas compreendo que ela tem segredos que não devem ser revelados a estranhos, não é?

— Exatamente, romano — concordou o Druida com um aceno de cabeça. — Minhas atividades, assim como a dos Bardos e a dos Ovates não devem ser do conhecimento de estranhos à nossa comunidade. Cada uma destas classes de nossa organização social-religiosa tem missões bem definidas a cumprir em prol do bem de nosso clã. Os Bardos cuidam do estudo e do desenvolvimento da Música. Mas não a música vulgar, comum, e sim da descoberta do Poder que se oculta em cada nota, em cada tom musical. O Som tudo cria e tudo destrói e os Bardos buscam acessar os segredos desta poderosa força que permeia toda a Natureza, inclusive a do Homem. Haja vista que temos o dom da fala e esta nada mais é que a modulação do Som para a formação de palavras. E a palavra tanto pode trazer a paz quanto a guerra, tudo depende de como seus sons sejam usados. A flauta é o instrumento predileto dos Bardos para a criação de sons mágicos, capazes de curar até doenças físicas e mentais. A sonoridade da voz humana é de extrema importância nos estudos dos Bardos, pois acreditamos que há segredos nos sons que emitimos e que ainda não dominamos. Os sons da Natureza, como o do marulho das águas nas pedras do regato, ou do ribombo poderoso do trovão, ou aquele da água que despenca nas cachoeiras; o som do canto dos pássaros; o som das tempestades, enfim, todos os sons têm algo mágico neles que os Bardos buscam detectar, estudar, ordenar e definir com clareza. Acreditamos que o som emitido em determinada vibração e tonalidade altera inclusive a estrutura mental da pessoa, podendo ou elevá-la ou destruí-la e lançá-la para as partes mais densas de Abred. Muito descobrimos a este respeito, mas nossas descobertas jamais serão reveladas aos estrangeiros e aos de má intenção.

O Ovate estudava a guerra, mas sabia de Magia também.

O Ovate estudava a guerra, mas sabia de Magia também.

O Ovate é como a serpente, cujo veneno pode tanto matar quanto curar. A Serpente é o símbolo do Conhecimento e este tem duas portas. Uma, da Destruição, da Guerra, da Morte; a outra, da Construção, da Paz e da Vida. O Ovate domina, portanto, a arte da guerra, o manejo das armas – espada, lança e arco e flecha, além da maça, do machado e de outras armas que criamos para nos defendermos. O Ovate é o Mestre que tanto prepara para o combate, quanto ensina para a Vida Criativa e Pacífica. Na Magia Druida, o Ovate estuda e procura descobrir o poder da Mente para controlá-lo e dele se servir em suas atividades.

E temos os Druidas. Entre eles, estou eu. Trabalhamos com os mistérios da religião; procuramos conhecer e nos harmonizarmos com as forças da Natureza, os Elementais da Natureza e as linhas de forças da mãe Terra. Somos os Magos por excelência. Posso, quando quiser, esconder toda nossa aldeia de um ataque romano, por exemplo.

— E como podes fazer isto? — Interessou-se Primus. O Druida o olhou demoradamente e, então, apontando o dedo em direção das casas dispostas em círculo, disse: Observa!

Primus olhou para o lugar. O tempo estava claro, a luz do sol a tudo iluminava e punha a nu aos olhos de qualquer um. Mas quando o Druida começou a traçar estranhos desenhos no ar, com a mão direita estendida em direção à vila, ao mesmo tempo em que murmurava algo numa lingua totalmente desconhecida de Primus, uma neblina foi-se elevando do solo e se adensando até que a visão não conseguia ir além de dois metros daquele que olhava. Primus esfregou os olhos e os arregalou, tentando enxergar alguma coisa, mas a densa neblina o envolveu e ele sentiu grande frio. Nada podia ser vislumbrado, senão a névoa branca. Depois de curto tempo, ele ouviu a voz do Druida soando forte e emitindo sons sem significado para seus ouvidos. Uma espécie de oração, talvez. E na medida em que ele orava, a névoa se desfazia e logo a claridade da luz solar brilhava sobre tudo e todos. Pasmo, o romano olhou assombrado para aquele idoso ao qual, agora, respeitava e temia. Ele acabava de demonstrar ser um mago de grande poder.

O Bardo pesquisava os segredos do Som e seu emprego na vida celta.

O Bardo pesquisava os segredos do Som e seu emprego na vida celta.

— Agora — disse o Druida, que tal ouvirmos Issa falar sobre o Karma?

Issa, contudo, pôs-se de pé e disse uma frase curta.

— Em outra ocasião. Agora, Primus e eu temos algo a fazer. Perdoa-nos Druida, mas tu não podes vir conosco desta vez.

Sem se mostrar ofendido, o Druida ergueu-se, curvou a cabeça levemente ante Issa, rodou nos calcanhares e retornou à aldeia. Depois que sua figura havia desaparecido por entre o arvoredo, Issa virou-se para Primus e lhe ordenou:

— Vem.

E os dois seguiram em direção oposta àquela da aldeia em que tinham ficado até ali.