Muitos são céticos quanto a quele Ele tenha realmente andado sobre as águas. é que não fazem idéia de Seu Incomensurável poder.

Muitos são céticos quanto a que ele Ele tenha realmente andado sobre as águas. É que não fazem idéia de Seu Incomensurável poder.

Caminharam em silêncio e por um longo tempo. Primus se esforçava para acompanhar os passos elásticos de seu mestre e o conseguia galhardamente. A mata se tornara cerrada e em dado momento Issa parou e ergueu a mão esquerda espalmada. Primus entrou em alerta. Alguma coisa tinha posto Issa de sobreaviso e quase imediatamente a este seu pensamento o Mestre voltou-se para a margem direita da trilha e se embrenhou por ali sem fazer ruído. Primus o seguiu atento e totalmente alerta. Não demorou para ouvir homens falando em céltico, mas alguma coisa era diferente na pronúncia e na entonação das palavras. Compreendeu que era um dialeto diferente daquele da aldeia de onde vinham e não percebeu que mesmo assim estava entendendo o que ouvia. Vinham atrás dos estrangeiros e encaminhavam-se para a aldeia de onde tinham saído. Só agora é que o romano percebeu a sabedoria de Issa. Ele como que adivinhara a visita que lhe parecia indesejável.

Afastaram-se da trilha e desceram até uma pequena clareira. Issa sentou-se sobre uma grande pedra sob a qual águas límpidas e gélidas corriam com um leve murmúrio por entre pedras brancas em seu leito estreito.

— Como sabias que eles se aproximavam? Como sabias disto até mesmo antes de sairmos da aldeia?

— As intenções precedem os intencionados, meu amigo. Sou sensível a elas. Não vinham por mim, mas por ti.

— Por mim?! Como, se não me conhecem?

— Chegou-lhes aos ouvidos que eu viajava na companhia de um romano.

— Agora entendo… Minha origem é também minha desgraça por aqui. Vês como não posso ser teu mensageiro?

— Por tão pouco já concluis isto? — E os olhos cor de caramelo fixaram os olhos negros do romano.

— Tinham intenções belicosas… Não tinham?

— Muito belicosas. O Exército romano quase varreu da face da terra a tribo deles. Tiveram de fugir à noite, para muito longe a fim de não serem exterminados.

— Ah, sei… E agora, se me pegam, querem descarregar em mim todo o ódio que outros lhes despertaram…

— Estás com medo? — E havia um tom de divertimento na voz de Issa.

— Sim, estou. Não me agrada ter um bando de selvagens querendo meu couro pelo que não fiz a eles.

Issa nada disse. Apenas apontou uma pedra diante de si e convidou seu companheiro a se sentar ali, com um simples gesto de cabeça. Primus obedeceu, suspirando com desânimo.

— Fazes parte do Karma coletivo de Roma, Primus. E farás parte dele enquanto tiveres de retornar a esta dimensão.

— Dimensão? Karma coletivo de Roma? Eu não estou entendendo, Issa.

— Eu sei. E te trouxe até aqui para te ensinar sobre o Karma. Agora, esquece o grupo que te procurava. Ninguém saberá dizer onde estamos e mesmo que retornem, farei que não possam ouvir nossas vozes e passem ao largo de nós. Crês em mim?

— Já te vi fazer coisas bem mais complicadas que esta. Se um Druida pode esconder sua aldeia numa nuvem de neblina, o que não podes tu fazer? Não, não. Eu não duvido de ti. Vamos esquecer aqueles homens e vamos ouvir o que tu desejas falar, pois tenho curiosidade sobre isto.

Ele é o que nós já fomos éons atrás, no passado distante.

Ele é o que nós já fomos éons atrás, no passado distante.

— Ótimo. O assunto não é simples. Agora, ouve-me. O mundo em que tu vives e todos os homens e bichos também, não é plano e nenhum dos deuses de que ouviste falar têm ou tiveram vida como o imaginas. Deles eu te falarei em outra ocasião. Neste momento quero falar-te sobre a conseqüência de se estar aprisionado em Bel-beu, o nó indissolúvel que prende tudo a tudo.

E Issa desenhou a figura do nó indiano. Apontou-o com o dedo indicador da mão esquerda e voltou a falar.

O Bel-Beu, símbolo budista que simboliza o nó infinito, que não tem princípio nem fim e no qual todos estamos aprisionados, humanos ou não; animais, vegetais e minerais.

O Bel-Beu, símbolo budista que simboliza o nó infinito, que não tem princípio nem fim e no qual todos estamos aprisionados, humanos ou não; animais, vegetais e minerais.

— Esta é somente uma representação muito grosseira de Bel-beu, o nó cósmico, além do Tempo e do Espaço, que a tudo prende em si e a tudo irmana indiferente da forma que tenha. Isto quer dizer que tu e esta pedra são um, compreendes? E assim é com o riacho, a árvore e os animais que ouves nesta mata. Em nada diferes deles, por mais diferente que tua forma e a desta pedra, por exemplo, aparente ser.

— Eu sou feito de carne e esta pedra, Issa, é de pó endurecido. Como podemos ser iguais?

— Porque a substância que a forma é a mesma que forma tua carne e a de todos os homens   disse Issa, pacientemente. — Neste momento apenas aceita o que te afirmo. As Formas que tu enxergas são apenas isto: formas. Elas são necessárias para abrigar inúmeras modalidades de vida que nosso Pai Celestial cria com um objetivo específico.

Primus coçou a cabeça, em dúvida. Era-lhe muito difícil apreender aquelas idéias que lhe pareciam totalmente desconexa da realidade que via e tocava. Como uma pedra podia ser igual a ele? Como a água do riacho podia se igualar a ele? Como uma árvore podia ser igual a ele? Issa olhava-o com olhar penetrante e um vínculo de preocupação na testa. Então, estendendo ambas as mãos tomou as do romano entre as suas.

— Tenho que violar certas Leis para que tu me possas entender e te tornares realmente meu discípulo. Mas te advirto que o que vais ver e vivenciar agora não deve ser comentado com ninguém, entendes?

Primus acenou dubitativamente com a cabeça, num gesto de assentimento. Então Issa pôs-se de pé e o tomou pelas mãos. Imediatamente Primus se viu sendo elevando sobre o solo e as matas e se distanciando rumo ao céu. Arregalou os olhos de espanto e mirou no rosto de seu companheiro que, impassível, o observava.

— Estou sonhando… delirando… ou o quê? Eu me sinto flutuando e subindo… Mas isto não é possível! Eu não posso voar!

— É possível porque assim eu o quero, Primus. Eu posso tudo. Até mesmo posso contrariar tua falta de fé.

— Mas vejo meu corpo lá embaixo, junto com o teu. Como pode isso?

De lugares como esta nebulosa podem estar chegando à Terra espíritos reprovados no programa da Evolução. Quem sabe?

E Primus viu tudo isto bem de perto e sem roupas especiais.

— Não vens com teu corpo carnal. Vens comigo, em Espírito. Só que ainda estás com a consciência embotada pela Matéria de teu corpo. Por isto não tens a consciência da verdadeira realidade que, agora, vivencias comigo. Observa e sente.

E Primos se viu entrando pelas nuvens e pensou que ia encontrar Júpiter e todo o séquito de deuses em que lhe fizeram acreditar desde quando era criança. Mas não viu nada, exceto aquelas nuvens muito frias que pareciam feitas de fumaça. Não tinham consistência.

— Elas são feitas de água, Primus. A água que evapora das folhas das árvores nas florestas  e a água que evapora dos rios, dos riachos, dos lagos e das lagoas, assim como dos mares. Aqui não há Olimpo, apenas nuvens feitas de gotículas de água. Água que, quando estas gotículas se juntam devido ao frio, tornam-se pesadas e caem na forma de chuva. Os homens descobrirão sobre isto daqui a um milhar de anos e o que tu vês como impossível, será, para a humanidade do futuro, tão comum como beber água quando se tem sede.

— E os raios? O que são os raios?

E Primus viu as tempestades solares.

E Primus viu as tempestades solares.

— Energia. Uma energia que os homens ainda não conhecem, mas que, no futuro, vão descobrir e usar para modificar radicalmente suas cidades e suas vidas. Estas nuvens tão transparentes e quase intocáveis, quando sobem muito levadas pelo vento quente que vem lá de baixo, condensam-se e se juntam, formando enormes blocos de gelo. Quando estes blocos, soprados pelos ventos, se chocam entre si liberam uma energia poderosa que tu vês como raios, olhando lá de baixo. O estrondo do choque dos gigantescos blocos de gelo dão o trovão que assusta a todos lá na terra. Mas na verdade deviam temer o raio, pois é este que mata. O trovão não faz qualquer dano a nada nem a ninguém.

E Primus passou ileso por dentro de uma Cúmulus Nimbus.

E Primus passou ileso por dentro de uma Cúmulus Nimbus.

Houve um como que sacolejo e Primus se viu dentro de uma nuvem de tempestade. Ali tudo era violento. O vento soprava em todas as direções, mas na maioria soprava para cima e tudo subia impelido por sua força descomunal. As nuvens se condensavam e o frio se tornava quase insuportável. Então, montanhas de gelo que pareciam não ter fim revoluteavam no espaço como se não tivessem peso, tangidas pela fúria do vento incontrolável. E eis que aquelas montanhas geladas se chocavam e delas se desprendiam fogos de cor azul incandescente. Primus sentiu um tremendo calor. Um calor como jamais havia experimentado. E logo a segui um estrondo fez tremer todo o seu corpo, que pareceu ir-se desfazer. Buscou Issa com os olhos, apavorado, mas este apenas sorria.

— Não temas. Teu corpo espiritual não pode ser atingido pelas descargas energéticas que vês na forma de fogo azulado, nem os grandes blocos de gelo te poderão esmagar. Nada aqui te pode tocar.

E Primus se viu acima das nuvens e ali a luz solar era belíssima. Extasiou-se. Mas percebeu que continuava a subir, a subir, a subir… O azul do céu começou a escurecer estranhamente e ele percebeu que ali em cima o frio era indescritível. Olhou para baixo e arregalou os olhos. Não mais havia a mata nem o riacho. Apenas via uma enorme bola azul que girava no espaço, solta, totalmente solta. As nuvens eram manchas brancas ao redor de uma bola azul belíssima, que flutuava na escuridão do Espaço. Seus olhos buscaram ansiosos a face sorridente de Issa. Este lhe apareceu, agora, totalmente iluminado em uma diáfana luz cor-de-rosa belíssima. A boca de Primus se entreabriu. Sabia que era Issa, mas também sabia que ele não era humano. Era alguma coisa muito diferente, que jamais poderia descrever. Quase sem fôlego perguntou:

— Quem… quem… és tu? Por que te vejo tão diferente?

Maitreya se manifestava através do homem perfeito conhecido por YEHOSHUA ou ISSA. Este foi o Mistério da Vida de Yehoshua.

Maitreya se manifestava através do homem perfeito conhecido por YEHOSHUA ou ISSA. Este foi o Mistério da Vida de Yehoshua.

— Eu sou o filho predileto de nosso Pai Incognoscível, Primus. Sou o Budha Maitreya e de verdade não vivo neste corpo físico que conheces como Issa ou Yehoshua. No entanto, irmano-me à sua Consciência Espiritual e através dela me faço presente pelas palavras e pelos ensinamentos deste homem especial. Este mistério que não compreendes é conhecido entre os Monges himalaios como adumbrar, que quer dizer possessão espiritual leve. Em outras palavras, Issa ou Yehoshua recebe, em sua Mente Espiritual, minhas idéias e as transforma em sentenças de conhecimento para ensinar aos homens. Minha é a Vontade dele. Meus são os ensinamentos dele. Mas dele serão as dores pelas quais terá de passar para ultrapassar o Portal da Divindade. Não te assustes comigo. Eu não faço mal a ninguém.

— És… És um Deus? Um Deus maior que Júpiter e todos os deuses do Olimpo, juntos?

Issa soltou uma gargalhada, divertido.

— Tu passaste pelas nuvens e não viste nem a sombra do tal Olimpo. Viste os raios e viste de onde eles nascem e não viste nenhuma mão de um Deus empunhando-os. Por que, ainda assim, tu mencionas-me tais fantasias? Isto aqui é real, Primus. Pouquíssimos são os homens que já chegaram até aqui na condição em que nós estamos. Abandona aquelas historinhas fantasiosas e crê na Realidade que te mostro. Aquela pequena bola, que tu, agora, poderias ter na palma de tua mão, é a grande Terra onde os dramas humanos se desenrolam. Este espaço imenso que vês e que é pura escuridão, é o Corpo Sagrado de nosso Pai Celeste. Nós estamos literalmente dentro de nosso Pai. Tu não o sentes, mas Ele sabe muito bem que aqui estás e se isto acontece é porque Ele assim permitiu.

A Terra, agora, tinha o tamanho de um grão de feijão. E ao redor, no Espaço, o maravilhado romano via inúmeros grãos como aquele de onde viera. Todos brilhando maravilhosamente no Espaço sem fim.

— Isto realmente existe? Eu não estou sofrendo de uma ilusão criada por teu poder?

— Não, não estás. Isto que vês é realmente a realidade que os homens ainda desconhecem. Mas eles virão a descobrir esta realidade num futuro distante deste tempo em que nós dois nos encontramos agora. Tudo o que vês é a Criação do Pai Celestial. E tudo isto está n’Ele, assim como Ele está em tudo. Até em ti, em teu Espírito Imortal, pois Ele é tu e tu és ele. Ele é cada um destes pontos que vês e cada um destes pontos é Ele. Este é o Mistério da Criação. Vês aquela fornalha incandescente lá ao longe? Aquilo lá é a estrela a que chamas Sol. É dela que emanam inúmeras energias que sustentam a Vida nas formas terrestres. Sem as energias daquela estrela, nada poderia viver sobre a Terra.

Primos olhava deslumbrado para o Sol. Era amedrontador visto dali de onde estavam, ma mesmo assim era belíssimo, indescritível.

— Agora, vou levar-te para uma dimensão além, muito além desta em que estamos.

E Primus sentiu leve tontura e uma espécie de aguda dor de cabeça o acometeu. Mas logo passou. Abriu os olhos e não mais viu nem estrelas nem sol nem terra. Tudo ali tinha um brilho ofuscante, prateado-dourado. Notou que estava dentro de uma espécie de bolha e esta parecia nascer da mão espalmada de Issa.

— A bolha é para te proteger, pois nem em Espírito tu poderias chegar até aqui sem minha proteção. Estamos bem próximos do Pai Celeste, de Seu Coração Cósmico. Olha para aquele imenso balão. É translúcido, não é?

— E é enorme… — murmurou Primus olhando para o tal balão que lhe parecia ser feito de um cristal mil vezes mais brilhante que os que ele conhecera na Terra.

— Como tu chamas àquele balão? — Perguntou Primus, extasiado.

— Aquele balão chama-se Mônada Humana. Olha para tua nuca.

Quase imediatamente Primus viu sua nuca, embora não pudesse entender como aquilo era possível. E viu que lá de dentro saía um fio de luminosidade quase cegante, uma luminosidade levemente dourada. Aquele fio se estendia pelo espaço em direção ao balão que Issa lhe dissera chamar-se Mônada. Parecia sumir dentro do balão

— Este fio que viste saindo de tua nuca chama-se Sutratma. Olha com atenção e verás que ele contém várias formas humanas presas a si, como roupas num varal. Só que são formas sutis, levíssimas, que parecem flutuar sob o impulso de uma brisa suava.

Sim, Primus viu aquelas formas translúcidas presas ao tal Sutratma.

— O que são?

— Aquelas formas são os registros de tuas Personalidades, daquelas pessoas que já foste inúmeras vezes, na Terra. Cada uma daquelas formas tênues contém todos os mínimos registros de tudo o que sentiste fisicamente e emocionalmente quando as tiveste na forma de corpos terrenos. E nelas também estão os registros do que pensaste e do que fizeste quando as tiveste como corpos densos, na Terra. São a biblioteca de tua História Cósmica. Nunca serão destruídas e tu poderás consultá-las quando quiseres, mas daqui a muitos e muitos milênios de evolução espiritual. Não agora. Agora, apenas escreves mais um livro de tua história. Aquelas formas são teus livros e eles jamais se dissolverão. Eles contêm todas as tuas experiências, por mais amargas ou mais doces que tenham sido, assim como todas as emoções que sentiste até hoje e todos os pensamentos que pensaste desde quando foste criado pelo Pai Celestial.

As informações de Issa penetravam em Primus de um modo intenso, indelével. Ele sentia que jamais as esquecerias, assim como jamais esqueceria o que estava vendo e vivenciando. Era indescritível. Maravilhoso.

— Por que me mostras todas estas maravilhas, Issa?

— Porque é meu desejo que me entendas profundamente a fim de não duvidares de mim, mesmo quando estiveres sofrendo muito sob o jugo da ignorância de  teus irmãos. Pois tu sofrerás, Primus. Sofrerás porque és meu enviado à escuridão das almas daqueles com quem deverás trabalhar. Para que tua fé seja inabalável, eis que te desvendo o que pouquíssimos tiveram o privilégio de conhecer. Agora, vamos retornar à terra e ao local onde estávamos antes de vir para cá.

E Primus se viu descendo… descendo… descendo… até que estava novamente de pé diante de seu maravilhoso Mestre.

— Não fales nada, meu amigo. Vai, senta-te naquela pedra e revê mentalmente o que tu viste comigo, viajando pelas Dimensões do Espaço, onde homem nenhum jamais chegou e não tão cedo chegará. Assegura-te daquelas verdades antes que possas prosseguir no que eu te desejo ensinar.

E Primus sentou-se e meditou por horas e horas sem se dar conta do tempo…