Amar é sentir a alegria de se ver prolongado numa vidinha que começa a partir de outra à qual você deu começo...

Amar é sentir a alegria de se ver prolongado numa vidinha que começa a partir de outra à qual você deu começo…

Amar é o que todas as pessoas querem desde quando o bípede humano ficou ereto sobre dois pés. Mas até hoje não se sabe bem nem o que seja amar nem como fazer isto. Em 1970 Erich Fromm escreveu um livreto intitulado “A Arte de Amar”. Eu o tinha perdido entre um montão de outros em minha biblioteca desorganizada e que, por falta de espaço e local adequado, está lá no sótão sofrendo calor extremo e frio intenso, dependendo da época do ano. Só está inteira porque semestralmente eu jogo naftalina entre os livros e isto espanta o batalhão de traças que vive doido para devorar tudo. Hoje, enfastiado e irritado com a dor em minhas costas, subi as escadas e fui até o sótão só de teimosia. Estou de saco cheio de ficar deitado passando diclofenaco pomada e colocando compressa de água quente. Nada disto diminui a dor na coluna vertebral. Chove. Faz um friozinho gostoso, depois de quatro meses de um calor danado.  Mexi nos livros amarelados pelo tempo. Vi que minha biblioteca está totalmente desarrumada, coisa que não é minha, visto que sou cioso de meus livros e compulsoriamente organizado. Sei quem foi, mas já não tenho mais ânimo de reclamar por isto. Alguns de meus livros “desapareceram” como por encanto. Uma lástima, visto que não mais são publicados. Peguei o livreto do Fromm e comecei a relê-lo. E naquelas palavras ali grafadas está a enormidade da distância que nos separa dos velhos anos 70. Naqueles idos não havia telefone celular. Era mesmo o orelhão e o fixo que, graças à EMBRATEL criada pelos militares contra a vontade dos norte-americanos, espalhava-se rapidamente por quase todos os lares brasileiros e certamente por todas as empresas de pequeno, médio e grande porte. Em 1970 era apenas o início das Telecomunicações brasileiras, mas todo o povo estava eufórico. Não mais se dependeria de telefonista para fazer uma ligação interurbana, esta era a meta. Não havia o computador e o maior avanço era mesmo a máquina de datilografia elétrica recém-lançada no mercado e que fazia furor entre os datilógrafos. Não havia a TV cheia de salamaleques, como as de hoje. Cinema em casa nem pensar. Home theater era inimaginável. Se se quisesse ver um filme tinha-se de ir a uma sala de projeção, onde se podia, discretamente e com o coração aos pulos, trocar carícias um tanto exageradas para o ambiente. “A mão naquilo e aquilo na mão”; “a boca naquilo e aquilo na boca” eram feitos heróicos, com o coração disparado, a boca seca, as mãos frias e os olhos desesperados entre se fecharem por força da excitação ou vigiarem os que estivessem mais perigosamente próximos dos “afoitos”. Gemidos na hora do “ai”, “ui”? Nem em pensamento. Tinha-se que “chegar lá” e  trincar os dentes para não deixar que os gemidos delatassem a “pouca vergonha”, o que seria desastroso para a pobre moça. Para os homens a coisa ficaria apenas em alguma reprimenda, uma ida à delegacia para registro de ocorrência e pronto. Mas para ela…

Hoje, esta maravilha esconde perigos mortais.

Hoje, esta maravilha esconde perigos mortais.

E o Rio de Janeiro era uma cidade pacífica. Podia-se andar por suas praças e ruas a qualquer hora do dia ou da noite sem o perigo de se ser assaltado e assassinado a troco de nada. Entrava-se nos ônibus ou nos bondes com a certeza de que realmente se chegaria vivo à casa, sem ter de descer no meio do caminho sob a mira de revólveres ou fuzis Ak-47 para que homens e jovens imberbes embrutecidos até à alma pela droga ou pela violência gratuita colocassem fogo no transporte coletivo, como acontece atualmente em todas as capitais brasileiras. E não era somente no Rio que se podia andar com tranqüilidade por ruas e praças. Era em todas as cidades brasileiras, graças aos Militares, estes “infames” odiados e execrados pelos atuais Ladrões de Colarinho Branco que tudo fazem para enlamear a tomado do poder pelos verdadeiros brasileiros. Mas, como a mentira tem pernas curtas, os PETRALHAS e associados se colocaram a descoberto e temos aí mais um campeonato brasileiro: o da roubalheira desenfreada; o da bandidagem solta sem controle; o dos assaltos a mão armada em qualquer parte e a qualquer hora.

Carnaval, o império dos sentidos. Depois é só arrependimento para muitos e dívidas para outro tanto.

É disto que o brasileiro gosta e o MERCADO alimenta.

Naqueles tempos os valores sociais, religiosos e políticos eram outros. Ainda se vivia sob uma sombra dos modos vitorianos do século XIX. A “virgindade” da mulher tinha um valor exagerado. Não havia motéis e, sim, hotéis “duvidosos” onde os casais iam em busca do prazer filogenético do qual não poderão jamais abdicar, em que pese a enormidade de “consolos” criados para ambos os sexos depois daqueles idos. As jovens não podiam se exibir e serem provocativas como são, agora. Não podiam nem pensar em falar segundo o jargão dos homens. Tinham que ser “discretas”, “disfarçadas”, “casadoiras” etc, etc, etc… No entanto, elas, tal qual eles, não podiam fugir ao acicate do desejo e o velho fusca, para aqueles sortudos que os possuíam, quebrava um galhão para os casais mais bem aquinhoados. Certo que fazer sexo dentro de um fusca era exercício de contorcionismo digno de circo. Mesmo assim, à noite, as orlas marítimas ficavam ingurgitadas de Volks estranhamente se sacolejando furiosamente. Dizia-se, no dia seguinte e na gíria da ocasião, que se tinha ido “ver submarino”…

Não se ia para o hotel logo no primeiro encontro. Tinha de haver um tempo de namoro para que o casal tivesse tempo de se conhecer mais intimamente. Quase sempre os homens eram apresentados aos sisudos pais das jovens casadoiras e isto era um complicativo ao qual todos os machos faziam de tudo para fugir. Pai de donzela sempre foi o calo de adão dos “pepinos ululantes”. Tudo aquilo ainda rescendia à educação católica vitoriana. Mas já se davam os primeiros passos para o que Fromm descreve em seu livrinho – a Modernidade. Tinha havido um marco divisório entre os laços vitorianos da Educação e da Civilidade e os novos laços que a juventude rebelada dos anos 60 fizera “emplacar”: sexo, droga e rock’n roll. No Brasil dos anos 70 as ondas da rebeldia dos anos 60 na América ainda arrebentavam com força dentro dos lares de tradição vitoriana e o choque entre os jovens e seus pais era constante e, às vezes, violento. Eram os anos de rebeldia. Rebeldia contra tudo.

Continua em http://lavsiro1.wix.com/pensando-bem

E se você quiser comentar algo ou sugerir algo, contate-me pelo endereço:

http://lavsiro1.wix.com/pensando-bem#!contato/c1lhz.

Você também pode, no cabeçalho do WIX, clicar onde está assinalado na foto abaixo. Abrirá o correio eletrônico para que você envie seus comentários ou suas sugestões.

Clique no título assinalado pela seta amarela e pronto. Você terá à mão o correio eletrônico da página.

Clique no título assinalado pela seta amarela e pronto. Você terá à mão o correio eletrônico da página. Mande abrir a figura em outra guia para enxergar melhor.