Eu e minha netinha

Sou misantropo, mas adoro minhas netas.

É gozado. Quando a gente vive distante de outra realidade social tende a pensar somente dentro daquela realidade em que se vive. Eu não sou exceção. Vivo aferrado à realidade brasileira e dentro de um campo territorial físico mínimo, um losango de 25 m X 12 m, área do terreno onde tenho minha casa. E como sou fortemente misantropo a cada ano que passa, esta área se torna meu paraíso. Detesto sair de casa. Até meados do ano passado eu gostava de ir ao Flamboyant, um shopping que dista coisa de oito quilômetros de onde moro. Ia lá para observar a juventude – como se vestem, como interagem, como vivem e se comportam atualmente, enfim. Às vezes, também ia para assistir a um filme em 3D. Mas comprei uma TV 3D e um laptop também 3D e pronto. Mesmo sem jamais ter assistido a qualquer programa ou filme em 3D em qualquer destes aparelhos, pois para tanto teria de comprar a peça em 3D, pois não há transmissão assim em qualquer canal, pago ou não, meu interesse pelas ilusões do 3D desapareceram. Bastou ter a certeza de que posso, a qualquer momento que desejar, ter filme ou seja lá o que for em 3D para que eu perdesse de imediato meu interesse por esta ilusão da modernidade. Velhice ou… Depressão? Sei lá! E se quer saber, tô me lixando.

Filiei-me ao FACEBOOK já faz anos, incentivado por uma editora sem-vergonha, chamada 24X7, que ficou com um livro meu (A SOMBRA QUE VEIO DAS SOMBRAS) por três anos, vendeu vários exemplares (só para irmãos e conhecidos meus, vendeu uns 60 exemplares) e jamais me reembolsou em um único centavo. Eles diziam que eu devia também ajudar na divulgação de minha obra. Decepcionado, vencido o contrato, cancelei a autorização que tinha dado à 24X7 e desisti de publicar qualquer coisa em qualquer Editora virtual. Eu detesto, odeio mesmo, ser roubado ou passado para trás. A pecha de imbecil nunca me agradou.

O celular é a entidade mais importante na reunião dos jovens.

O celular é a entidade mais importante na reunião dos jovens.

Mas voltando aos tempos em que gostava de ir ao shopping ou ao centro da cidade perambular observando as pessoas. Um hábito que adquiri quando praticava a psicoterapia e estava “furiosamente” engajado no desenvolvendo uma teoria psicológica que idealizara. Pois bem, assisti à chegada dos I-PHONE, I-PODE, I-DROGA, I-DIABO, SMARTFONE, SMARTPESTE (para nordestinos), SMARTPORRA (para cariocas) etc… e vi, extremamente atento, a mudança radical no comportamento das pessoas, com destaque para os adolescentes. Eles estavam perdendo a capacidade de se comunicar ENTRE SI. Faziam isto pelas teclas destes aparelhinhos alienantes, a ponto de, algumas vezes, eu ficar sentado perto de uma mesa onde vários adolescentes se encontravam, dentro do shopping e observar, estarrecido, que eles não se falavam pessoalmente. Comunicavam-se pelo teclado daquelas coisinhas danadas. Vez que outra, um deles dobrava numa gargalhada e mostrava ao grupo o que seu colega, sentado bem a seu lado, lhe “torpedeara”.

Ninguém se fala, mas todos "falam" pelos celulares. Isto é que é solidão...

Ninguém se fala, mas todos “falam” pelos celulares. Isto é que é solidão…

Curioso, comprei um tal de Sansung S-III e passei a entrar no Face para ver o que acontecia ali. E dei de cara com uma linguagem horrível, que muitas vezes me deixava a ver navios porque não entendia nada do que lia. Uma algaravia danada de feia. E temi pelo português. E concluí que o GOOGLE e o TWITTER estavam mantando nosso idioma. Então, depois de muito tempo sem ir à minha “página” do Google, decidi dar um pulinho lá. E vi milhares de besteirol publicados pelos meus parentes e “amigos”.  Coisas estúpidas como um “Bom-diaaaaaaaaaaa! Meus amoooooorrresssss!”. Ou citações copiadas de algum lugar que logo era coberta por uma tonelada de estupidezas. 

Levei mais ou menos dois anos para retornar a freqüentar “minha página no Face”. Chegara à conclusão de que “o Face estava fazendo o povo burro”. Mas quando retornei, vi que a coisa havia mudado para melhor. Graças aos PETRALHAS, vejam só, pessoas mais sérias publicavam pequenos artigos revoltados contra o PTzão. Além do partidão e seus ladrões safados, o ENEM tinha colocado as orelhas de todos os estudantes brasileiros em brasas, pois o índice de críticas ao modo como redigiam virou um pão de açúcar em todos os jornais, revistas e noticiários. A turma avoada teve de pousar e compreender que não pode estender para tudo aquele modo arrevesado de se comunicar. Ainda estão muito longe de escrever no verdadeiro português brasileiro, mas que já melhoraram muito, já melhoraram mesmo.

Postura de Yoga que estimula o som do coração nos mundos sutis (Astral e Mental)

Exercícios estimulam os neurônios cerebrais e mantêm o cérebro jovem.

E é quando leio na veja uma reportagem especial, intitulada TCHIBUM, onde dei de cara com a pergunta feita pelo norte-americano e que virou romance escrito por ele mesmo. A mesma pergunta que eu me fizera por anos. Nicholas, segundo a reportagem, diz que “A internet está tirando minha capacidade de concentração e contemplação. Minha mente espera receber informações da forma como a internet a distribui, em uma suave transição de partículas”. Eu não entendi bem o que ele quis dizer com esta transição de partículas, mas é que devo estar alijado da miscigenação de minha língua com o inglês, o que, em outras palavra, significa que estou ficando cada vez mais alienado nos modismos da Comunicação. Não faz mal. O que me interessa falar ainda posso fazê-lo.

O artigo da Veja destaca um fato de grande importância: o cérebro tem de ser estimulado com desafios, exercitado com obstáculos intelectuais. Isto é verdade. Como qualquer músculo esquelético, o cérebro humano também necessita de sofrer exercícios intelectuais que devem ser apresentados como obstáculos a serem vencidos. Quanto mais se exercita, mais o cérebro humano retarda seu envelhecimento. Neste quesito, o Google está com nota inferior à mínima. Ele incentiva a preguiça mental e isto é um verdadeiro desastre.

A preguiça inibe a mente e enfraquece o corpo.

A preguiça inibe a mente e enfraquece o corpo.

A preguiça mental resulta numa incapacidade de conquistar amigos duradouros, que sejam capazes de acrescentar alguma coisa nova à já batida senda do nada de novo no front. Ninguém agüenta a mesmice de todo dia e de nossos amigos psicologicamente castrados. Viver em um mundo de alienados da comunicação rica, sadia, é encaminhar-se para a depressão e a solidão – e a reportagem coloca muito bem isto. O pior de tudo é que a escravidão aos celulares invade até mesmo os lares. Marido e mulher perdem a capacidade de conversarem entre si, principalmente quando o “fogo do desejo” apagou, e compensam o vazio de que se vêem tomados lançando-se para fora de suas solidões através da telinha de seus celulares. E tome what’s up! E tome bisbilhotice pelo Google atrás de alguma coisa que os faça rir e sentir que ainda vivem, que ainda valem alguma coisa, mesmo que somente para si mesmas.

O facebook nos mostra claramente aquele tipo “ativo” que, em verdade, é um ser tremendamente passivo, conforme disse Fromm e eu coloquei no post anterior a respeito do DILEMA DO AMOR. O “escravo do Google” é um ativo buscador de… NADA! Corra para onde correr, termina quase sempre no vazio do “Bom-diiiiiaaaaaaaaaa!” e nada mais. Ou, o que para mim é pior, termina lendo com indiferença aquelas menagens robóticas de religiosos evangélicos que estão alienados mais ainda da realidade em que todos vivemos. Eles citam a Bíblia ipsis literis, sem adaptação nem reflexão enriquecedora sobre aquilo que postam. Um vazio doloroso na maioria das postagens. Por debaixo das postagens aparentemente idiotas, há um grito mudo de “Socoooooorrrrrrooooo! Estou soziiiiiiinhoooooo!”.

E está, meu amigo. E está.

Se você leu O DILEMA DO AMOR – 5, terá visto que atirar-se ativao-passivamente em busca de algo que o preencha enquanto PESSOA só o fará esgotado emocionalmente e com forte tendência à depressividade. A fim de escapar da armadilha do Google, seja um INDIVÍDUO. Coloque a si mesmo como seu alvo primordial; o terreno a ser exaustivamente explorado e descoberto. O Google pode-lhe apresentar informações ricas, excelentes para seu enriquecimento, mas você  tem de escapar da escravização de sua PESSOA ao VAZIO EXISTENCIAL GRUPAL. Permita que as boas informações cheguem ao INDIVÍDUO que é você. Um leitor meu escreveu que gosta de me ler quando vai deitar. Já na cama, banhado e alimentado, toma de seu laptop e lê meus artigos. Depois, reflete sobre as informações que neles estão contidas e encontra muita coisa que o ajuda a se enriquecer e, melhor, acalmar sua sede de ampliar horizontes. Este leitor põe sua INDIVIDUALIDADE acima de sua PESSOALIDADE. Escolhe o que é bom no Google e aproveita o máximo daquilo que encontra à disposição de todos.

Eu posso não ser bom para você, leitor. Isto não tem importância para nós ambos. O que importa é que procure no Google alguma coisa que se coadune com suas necessidades INDIVIDUAIS. Não sei se aprovo os esforços que alguns grupos fazem para se manterem “desligados”. Isto não me parece um esforço destes INDIVÍDUOS, mas sim das PESSOAS que são e que, angustiadas, percebem que estão sendo estraçalhadas pelo Mercado Cibernético. Alguém está ganhando e muito, com suas alienações. .