Gosto de ser introspectivo e tenho forte tendência a ser "arrumadinho". Não em roupas, para as quais não ligo a mínima.

Gosto de ser introspectivo e tenho forte tendência a ser “arrumadinho”. Não em roupas, para as quais não ligo a mínima.

Alguém que me leu me perguntou: Uma pessoa passiva, isto é, contemplativa, como o senhor colocou em seu artigo, pode amar de verdade? Eu fiquei um tempo calado tentando me lembrar do assunto de que aquela pessoa falava. Até porque era a primeira vez que eu a encontrava e só me localizei quando ela me disse que era leitora fiel de minhas publicações no blog. Declinei de perguntar de onde ela me conhecia. Estávamos no supermercado e qualquer caixa bem poderia ter-lhe indicado a mim, algum dia passado.

— A senhora entendeu a passividade a que me referi? — Perguntei por minha vez.

— Claro. O senhor se refere aos que são tendenciosamente introspectivos, como o senhor mesmo se define. Os introspectivos são pessoas que vivem “olhando para dentro de si”, não é?

— Não o tempo todo, mas sim, podemos dizer que sim. E devo acrescentar que uma pessoa introspectiva gosta de observar seus próprios pensamentos, suas idéias, sensações, intenções, reações emocionais e pensamentos em geral. Ele conversa mais consigo mesmo do que com os outros. Mas isto não significa que viva alienado da realidade exterior. E se assim é, não há razão para que não ame verdadeiramente.

"Uai! Complicou. Será que eu sou assim?"

“Uai! Complicou. Será que eu sou assim?

— Concordo, mas creio que o introspectivo, mesmo que não o seja senão de modo leve, ama mais a si mesmo que ao outro. Estou certa?

— Não. Está redondamente enganada. O introspectivo ama mais à vida e ao seu semelhante que os extrospectivos. Estes, vivem saltando de um pensamento para outro; de uma reação emocional para outra; de uma sensação para outra e raramente se dão conta das mudanças internas que sofrem. Por isto mesmo, não se fixam em nada ou se fixam muito pouco naquilo que realmente impressiona à suas Pessoas. Mas quando o fazem, quando fixam atenção naquilo que impressionou tanto à Pessoa quanto ao Indivíduo que são, dedicam atenção integral ao que os impressionou. E tendem a ser fiéis a isto com bastante intensidade.

— A propósito, qual é a diferença que o senhor faz entre Pessoa e Indivíduo? O senhor não definiu bem claramente estes dois termos… Desculpe dizer isto.

A Pessoa vive mais pela aparência do que pelo sentimento. Ela é o suporte básico do Mercado de Consumo.

A Pessoa vive mais pela aparência do que pelo sentimento. Ela é o suporte básico do Mercado de Consumo.

— Bom… eu acho que fui claro, mas vou atender ao seu pedido. Pessoa é a capa, a fôrma social que nos enfiam da cabeça até os pés. É a Educação Social, que recebemos desde os ensinamentos de nossa mãe até àquele que a Sociedade nos impõe através de Leis escritas ou não. É, em suma, aquilo que a Psicologia define como Condicionamento Social. A Pessoa tem de estar de passo certo com a mole humana com a qual convive e, dentro desta, tem de escolher valores e modismos que lhe agradam sem desagradar totalmente à maioria. Deve vestir-se desta ou daquela forma, segundo a moda dite. Deve comportar-se deste ou daquele jeito; deve falar conforme com a maioria; deve, enfim, obedecer ao que a mole humana em que esteja inserida aceita como o bom e o certo. Já o Indivíduo procura agir não segundo os modismos passageiros, mas sim de conformidade com o que realmente lhe satisfaz. Ele procura sentir-se bem consigo mesmo e não liga muito para o que a maioria pensa ou quer ou exige. Sempre busca um meio-termo, um modo de estar satisfeito consigo próprio e, até certo ponto, com a mole humana ao seu redor. Dou-lhe um exemplo. Estou em casa trajando calças jeans rasgada à altura dos joelhos. É velha, desbotada, mas está limpa. Minha mulher resolve que devemos ir ao supermercado. Prontifico-me a ir com ela, mas ela exige que eu troque de calça. Não troco. Estou muito bem como estou e não tenho nenhuma vontade de trocar de calça. De meu ponto de vista, vai-se ao supermercado comprar coisas de primeira necessidade, alimentação de preferência, não desfilar moda. Já prestei atenção ao fato de que ninguém se incomoda com o como alguém está vestido, quando se encontra dentro de um supermercado. Nem mesmo dentro do Carrefour ou do Wallmart, tidos e havidos como “de bem”. Além do mais, já notei, é moda entre os jovens vestir calças jeans velhas ou envelhecidas de propósito e também rasgadas nas pernas. Por que só a minha deve ser censurada? A gente termina por se desentender e, ou ela vai sozinha, ou ninguém vai.

Mulheres e homens histéricos frequentemente deflagram brigas odiosas.

“Ou você troca de roupa, ou não sai comigo!” Com um indivíduo, isto não funciona.

— E por que não entram num acordo? Precisam ser teimosos um com o outro?

— Bom, ela é fortemente Pessoa e eu sou fortemente Indivíduo. Além do mais, como caçula de uma família muito grande, ela é exigente, mandona e impositiva. Eu, como filho mais velho que teve de tomar a responsabilidade pelos irmãos aos ombros muito cedo, não gosto de que me imponham nada. E como dois bicudos não se beijam…

Minha solene desconhecida – eu não lhe perguntara seu nome e ela também não se dispusera a dizê-lo – ficou calada por um tempo. Caminhamos entre as prateleiras. Eu, buscando atentamente o que queria; ela, absorta, pensando no que ouvira.

— Os Indivíduos não costumam amar verdadeiramente, pois não?

Virei-me para ela e sorri.

Eu e minha netinha

Eu amo as pessoas, não suas aparências.

— Depende do que entende por amor. Eu amo verdadeiramente aos que escolho amar. E creio que todo Indivíduo ama de verdade. Já o Pessoa… Bom, destes eu tenho dúvidas de que sejam capazes de amar de verdade. Podem até ser mais incendiados, mais “furiosos” durante o incêndio. “Furiosos”, aqui, quer dizer ciumentos, possessivos. Mas passado o fogo da paixão, esfriam e esquecem rapidamente e pulam para outro “amor” tão logo este novo lhe desperte a paixão, o desejo. Há os doentes que querem ficar com dois, três, quatro e por aí vai. Mas são Pessoas desequilibradas, socialmente não sadias.

Ela voltou ao mutismo. Quando eu já me dispunha a afastar-me para ir a outra fileira de gôndolas ela me seguiu.

— Eu poderia entender que o senhor acha que o ser Pessoa é eminentemente extrovertido e o ser Indivíduo é eminentemente introvertido, não é?

— Sim, desde que não leve isto a extremos. Quero dizer, o extremista introvertido não é uma pessoa. É um desequilibrado tanto quanto o extremista Pessoa…

— Sei, o “caminho do meio” de que tanto o senhor gosta de falar.

— Exato.

Novamente ela se manteve calada, mas sempre ao meu lado. Eu quase a esqueci, voltado que estava na procura do que viera comprar. Então, ouço-a falar de novo.

Um homem se dependura perigosamente sob uma pedra e sobre um enorme precipício. Ele dirá que se sente absolutamente livre...

O Pessoa faz isto como exibicionismo; o Indivíduo faz isto para se estudar quanto aos seus limites. Ele não se exibe para ninguém. Ele se testa.

— Modernamente, senhor, ser ativo é empregar esforço dirigido para a consecução de objetivos. Por exemplo: o objetivo de criar bem os filhos, afastando-os das drogas e, se possível, das más companhias; ou o motivo de batalhar para ascender a postos mais remunerados na empresa em que se trabalha. O senhor afirma em seus artigos que o emprego da energia em esforço para alcançar alvos sociais constitui passividade, não atividade. Eu entendi isto. O senhor diz, parafraseando Erich Fromm, que as metas sociais são passividades, isto é, são impostas às pessoas. Posso entender que, por exemplo, a prática de um esporte radical, como o montanhismo ou o paraquedismo, são atividades livres, pois são escolhas individuais, não impostas pelo Social.  Mas acho que tanto a Pessoa quanto o Indivíduo podem, perfeitamente, praticar tais esportes. Isto me parece confuso.

Parei e me voltei para ela. A mulher ainda não percebera que já estava-me enchendo o saco.

Testando limites ou se exibindo?

Testando limites ou se exibindo?

— Escute. Tudo no mundo é dual. Paraquedismo tanto quanto montanhismo podem ou não, ser atividades exploradas pelo Mercado. Se um ser Indivíduo escolhe praticar qualquer delas, não o fará, certamente, visando aparecer na mídia e se tornar um astro festejado pelas multidões; não escolhe ganhar dinheiro com isto. Faz porque gosta e pronto. Faz por prazer íntimo e, certamente, porque estará se analisando quanto às suas reações de medo e prazer íntimos. Estará avaliando seu grau de coragem para descobrir seus próprios limites. Rarissimamente irá além dos limites do razoável, colocando-se em perigo só para chamar a atenção. Isto, não fará mesmo. Acima de tudo, o ser Indivíduo se respeita e se guarda. Não falará sobre o que faz, com ninguém, a menos que seja provocado, quando, então, será sucinto. O ser Indivíduo não gosta de expor seu íntimo. Já o ser Social, se busca praticar qualquer tipo de esporte radical, encontra um meio de aparecer na mídia e ganhar dinheiro com o que faz. Age com sua atenção voltada para o exterior, buscando avaliar a quantos impressionou com sua façanha. E até se coloca em riscos desnecessários, fazendo o que se costuma chamar de “o desafio de seus limites”. Isto certamente o colocará nas capas de revistas e em programas sensacionalistas de TV. E tendo seu nome e sua “coragem” cantados aos quatro cantos, logo aparecem patrocinadores e dinheiro, que é seu objetivo. Então, e aqui é Fromm quem fala, tal ser é um ativo-passivo, visto que tudo o que faz é em função de uma meta social financeira. Não faz por si, pelo prazer de se sentir. Faz para obter e quando se faz algo para se obter, é-se invariavelmente escravo daquilo que se deseja. O ser Indivíduo não costuma ser escravo de coisas, de objetivos sociais ou de alguém. O ser Indivíduo coloca-se sempre como objeto de estudo e observação. E se busca ascender em algum patamar social tem motivos íntimos, não revelados a ninguém. Isto, sim, lhe dá prazer: o descobrir-se em seus mais recônditos lugares emocionais e psicológicos. É, eu diria, um fã do “conhece-te a ti mesmo”.

— Este conceito de atividade, que o senhor abordou muito bem em seu último artigo, pois é disto que o senhor está falando em todos eles, foi muito claramente colocado por Baruch Spinoza. Como o senhor deve saber, Spinoza foi um dos grandes racionalistas do Século XVII. Ele diferenciava os afetos em ativos e passivos, ou seja, em “ações” e “paixões”.  Segundo sua filosofia, quando um ser está exercendo um afeto ativo é senhor deste afeto. Neste caso, como dono do afeto, o ser humano executa uma ação. Mas se o ser humano está exercendo um afeto passivo, isto é, uma paixão, este ser humano está sendo impelido a e é objeto de motivações de que ele próprio não tem consciência… Estou sendo confusa?

Meneei a cabeça, negativamente.

— Obrigada. Então, continuando, no exercício de uma paixão ou afeto passivo, o ser humano é impelido por forças subliminares, inconscientes mesmo. Por exemplo: ciúme, inveja, ambição e sentimentos como estes, são forças das quais o ser humano não tem como escapar, pois agem a partir de seu inconsciente, quero dizer, suas motivações encontram-se além de seu limiar de consciência. O oposto a tudo isto, na visão de Spinoza, é o Amor. O Amor é uma Atividade, um afeto ativo e é um erguer-se acima das fraquezas. Então, ainda segundo Spinoza, não se cai em Amor, mas exerce-se o Amor volitivamente. Cai-se em paixão, que é um afeto passivo porque suas razões mesmas estão além da percepção do ser humano. O Amor é ativo, logo, consciente, porque sua Natureza é doar-se, é dar-se e ninguém faz isto compulsivamente, mas volitivamente. O que o senhor acha disto?

— A meu ver, senhora, o Amor não tem motivação objetiva, clara, volitiva. Suas raízes estão além do inconsciente mesmo. Além de quaisquer ações desviantes humanas. Pode-se inibi-lo no ser humano através de ensinamentos ou condicionamentos sociais doentios, mas não se pode extirpá-lo do Espírito mesmo da própria humanidade. Ele requer acima de tudo amadurecimento da Alma Social, aquilo que comumente se chama de Personalidade e eu, de Identidade. Sem um amadurecimento profundo; um amadurecimento que impõe o desapego às futilidades sociais, como o vasto conhecimento sobre coisas mutáveis; insubstantivas; o desapego às definições que nada definem, senão atrapalham; o desapego ao culturalismo exibicionista, universitário, enfim, o desapego de tudo o que é modismo e que vive se enovelando sem evoluir para o que realmente interessa e tem profundidade, sem tudo isto, não se pratica o Amor. Spinoza está certo. Amar é doar-se; é dar-se ao outro, ainda que se colocando em risco diante do Social. Amar é mergulhar fundo no outro para trazer de lá de dentro, do mais escuro de seu Ser, aquilo que Deus lhe deu de mais valioso e que o Social enterrou sob um monturo de valores inúteis. Amar, senhora, é ser silenciosamente corajoso ou corajosa para arriscar-se dentro do outro a fim de salvá-lo de si mesmo. Doar roupas porque delas já não mais necessitamos não quer dizer desapegar-se do fútil e do inútil; doar dinheiro quando se o tem de sobra, também não. Nada disto quer dizer doar-se. Pode até ser um modo de se exibir e de estar dizendo “dou isto porque posso adquirir coisas melhores”. Desapegar-se não é isto. Dar não significa abandonar algo, sacrificar-se livrando-se de algo de valor íntimo ou fútil. Dar vai além. Dar vai aos limites da Caridade; ao extremo da Compaixão. E enquanto o ser humano não entender o que querem dizer estes dois vocábulos, não poderá amar. E agora, se me permite, está ficando tarde e este não é o local adequado para filosofar. Posso continuar a fazer minhas compras?

Ela deu um sorriso divertido, assentiu com um aceno de cabeça , estendeu-me a mão e me disse que era Mestra de Psicologia e estava muito contente por ter-me conhecido. E se afastou sem me dizer seu nome.

E até agora não lhe sei o nome, embora ela saiba o meu, pois está no meu próprio blog. Não faz mal. E agora, que minha irritação se dissipou, peço à minha culta interlocutora que me perdôe. Eu sou Indivíduo, e como tal gosto das coisas nos seus lugares e supermercado definitivamente não é lugar para filosofar. Um abraço a ela, onde quer que esteja.