Ele é meu bom amigo, mas fica brabo à-toa.

Ele é meu bom amigo, mas fica brabo à-toa.

A manhã está chuvosa. Não aquela chuva pesada, mas uma chuva preguiçosa, que cai de mansinho e torna a temperatura fria. Estou deitado na rede na varanda, leindo a VEJA. São sete trinta da manhã e minha companheira já saiu para seu trabalho. Mal fechei o portão e a campainha é acionada. Sem me incomodar com quem poderia ser e sem entrar em casa para ver pela TV, premi o controle e o portão se abriu. Entra Orozimbo com uma enxada sobre o ombro e um chapéu de palha na cabeça.

— Bom-dia, home. Veio veio tumá café cum vancê. Entonce, trate de se mexer qui véi tem pressa.

Levantei-me sorrindo e fiz que largasse a enxada e entrasse para tomar o café da manhã. Preto, sem açúcar e com meia bisnaga de acompanhamento.

— Por que você está com aquela enxada, lá fora? — Perguntei. Ele engoliu o pão, tomou um gole de café e me respondeu.

— Véi vai ajudá uma dona qui mora duas quadras abaixo desta aqui, num sabe? O terreno dela tá cheio de mato e a dona é véia e gorda. Num dá conta do selviço. E cuma anda dando mosquito pra daná pur estas banda, véi decidiu ajudá. Foia de mato acumula água e o mosquito da dengue aporveita isto pra pô os ovo dele.

— Você anda de paquera com a velha, é? — Provoquei.

— Eu, heim! A muié é feia qui dói, sô. E é munto véia. Mar se sustenta de pé. Nhor não, véi num se passa pra muié qui anda caindo os pedaço.

Ele terminou de tomar o café, pegou sua enxada e lá se foi. Já era meio-dia quando voltou. Vinha contente. Tinha limpado todo o terreno da tal idosa.

Gosto quando ele vem-me fazer companhia, mas sempre que posso azedo seu humor.

Gosto quando ele vem-me fazer companhia, mas sempre que posso azedo seu humor.

— Tô de vorta e vou armuçá cum vancê. E aviso qui tô cuma fome danada.

Parei o artigo que transcrevia do livro para o blog e fui esquentar nosso almoço. Há sempre comida sobrando em minha geladeira. Ele comeu com vontade e, depois, sentou-se e acendeu seu pito. Não sem antes exigir mais um copo de café sem açúcar.

Não aceitou ver televisão e fomos lá para a varanda. Também não quis a rede. Preferiu sentar no seu toco. Eu sempre o tenho ali, pois sei o quanto ele gosta daquele pedaço de tronco de árvore. Pitou satisfeito e depois da terceira baforada, entabulou uma prosa.

— Home, vancê já parô pra pensá qui esse negóço de atração de um home pur uma muié vem desde mermo o tar de espermatozóide?

Virei-me para ele, admirado. Falara o nome corretamente. Perguntei onde aprendera sobre aquilo e ele, todo orgulhoso, me disse que seu netinho estava danado de sabido e ensinava as coisas a ele. E prosseguiu entusiasmado.

— Veja vancê, o home fode a muié e…

— Correçãocortei eu. — Não diga “fode” que é muito feio e não é o nome correto.

— E quá é o correto? — E ele me olhou curioso.

— Copula. O homem copula com a mulher.

— Ele ficou um tempo com o cenho franzido, pensando. Então, com um riso de satisfação, disse:

— Tá certo. Copular quer dizer pular junto, né não?

Orozimbo e seu inseparável pito. Além deste adereço, ele não dispensa o chapéu de palha, quando o sol está queimando.

Orozimbo e seu inseparável pito. Além deste adereço, ele não dispensa o chapéu de palha, quando o sol está queimando.

Foi minha vez de olhá-lo com interrogação no olhar. Mas ele tratou de explicar.

— Ora, meu netim me ixpricô qui quando se diz cooperar, a gente tá dizendo que arguém tá trabaiando junto com a gente, intendeu? Colocar o tar de prefixo “co” antes da palavra quer dizer isto mermo. E meu netim tá sabendo das coisa, né?

Eu ri. Ele tinha um bom professor em sua arucaia. Concordei com sua explicação.

— E apois. O home, quando copula cu’ma muié, os dois danam de pulá junto, né mermo? Ora ele pru riba, ora ela pru riba e tome pulo!

E ele soltou aquela gargalhada de corpo inteiro, de plena satisfação. Eu adorava vê-lo rir.

— E daí? — Perguntei.

— Daí qui o tar de espermatozóide sai do saco dele…

— Não sai do saco dele — cortei-o de novo. — Sai de seus testículos.

— Vancê tá iscroto, hoje, né não? — Irritou-se meu velho amigo.

— Escroto é outro nome para testículo, você sabia?

— Num sabia e num quero sabê, ora bolas! Véi qué dizê o qui pensa. Vancê vai deixá?

— Bom, só estou ajudando.

— Uma ova! Vancê tá me atrapaiando. Deixa o véi continuá a prosa, tá certo?

— Vá em frente.

— Entonce. O tar espermatozóide sai dos iscroto do home e já vai doidim, doidim, atrás do ovo da muié…

— Deixa eu lhe dizer mais uma coisa. Não há um ovo, ainda. Há um ovócito fixado no útero da mulher.

Orozimbo me fuzilou com um olhar assassino.

— Pru qui cargas d’água vancê tá inventando nome novo pro danado do ovo da muié, heim, peste?

— Eu explico, já que você gosta de saber das coisas bem sabido. No final de cada 28 dias, um ovócito desce dos ovários pelas trompas e se fixa no útero da mulher. Quando ele se fixa ali, a mulher está pronta para procriar.

Orozimbo permaneceu me olhando com um olhar duro, mas não disse nada. Então, depois de uma baforada, perguntou com voz soturna:

— Véi pode continuá ou vancê vai tê mais coisa pra dizê?

— Agora, não. Prossiga.

— Acho que pode prosseguir.

— E apois… — Ele ficou parado olhando pra frente. Passou a mão direita sobre a carapinha, suspirou e se voltou para mim.

— O qui era mermo qui véi ia falá? Vancê atrapaiô tanto qui véi isqueceu, droga.

— Você ia dizer que a atração do homem pela mulher vem desde quando ainda se é espermatozóide.

Ele me olhou carrancudo. Levantou-se, bateu o cachimbo na perna, raivoso. Soltou um sonoro “merda!” e se foi danado da vida, gritando:

— Peste! Vancê é um peste fio duma… duma… só não digo pruqui eu respeitava munto sua véia. Mas vancê é fio da otra, tá sabendo?

As últimas palavras foram ditas aos gritos, lá do meio da rua.

Eu sabia que quando a raiva passasse, ele voltaria como se não se lembrasse da raiva de agora. Eu gostava mesmo de irritar meu amigo.