Capítulo I – Terceira Parte

E continuemos a viajar na imaginação. É melhor que ver enlatados.

E continuemos a viajar na imaginação. É melhor que ver enlatados ou falar de polititica.

A primeira manifestação.

As moças acompanharam o mordomo pelo mesmo caminho por onde haviam entrado. Os passos dos três soaram lugubremente pelo grande salão vazio. Só então é que Mara se deu conta de quão triste era aquele lugar. Desceram as escadas e se dirigiram para o automóvel quando, de repente, um dos cães começou a rosnar. Mara olhou para a escada e não mais viu o mordomo. Estavam, portanto, à mercê das feras. O que poderiam fazer contra aqueles animais perigosíssimos?

            Os cães, com os pelos das costas arrepiados, avançaram devagar, fauces arreganhadas, baba escorrendo pela bocarra e olhos amarelos fuzilantes. Era a morte certa que vinha ao encontro das duas. Ludmila parou atônita. Olhou em volta, mas não viu vivalma. Meteu a mão devagarinho na bolsa, mas os olhos do maior dos dois cães se fixaram em seu braço e a fera pareceu compreender que dali podia sair algo perigoso. O rosnado tornou-se mais feroz e o animal avançou mais depressa, açulando, com isto, o seu companheiro menor, mas nem por isto, menos perigoso.

            — Ludmila — gritou Mara apavorada. — Pare!

            A outra não pareceu ouvir o grito angustiado da companheira. Sacou a pistola Beretta e disparou rapidamente contra os animais. Errou por pouco a testa do que vinha na frente, mas o atingiu de raspão na ilharga. Isto foi o suficiente para que o animal enlouquecesse. Dois potentes latidos, um salto feroz e o cão estava literalmente sobre Ludmila. Esta, pulou de lado, tropeçou e veio cair quase aos pés de Mara. O cão não fez falta. Mal tocou o chão e voltou-se disposto a estraçalhar as mulheres. Mas algo inusitado aconteceu. Mara estava de pé, olhando fixamente para a besta-fera. Não sentia medo. Ao contrário, estava esquisitamente serena. Um pensamento estranho lhe passou pela cabeça. Era uma ordem peremptória: “Ataque seu companheiro”. O cão parou em seco o avanço e permaneceu olhando nos olhos de Mara. Neste momento o outro cão passava pelo grandalhão como uma flecha em direção a Ludmila. Num átimo foi atacado e posto ao solo pelo companheiro. Engalfinharam-se numa briga feroz. Mara estendeu nervosamente a mão para a companheira e gritou:

            — Vamos aproveitar! Levante-se!

            Ludmila pôs-se de pé num salto e ambas correram para o automóvel onde entraram e fecharam os vidros. Os cães engoliam-se numa luta demoníaca e apavorante. Os rugidos eram ouvidos ao longe, mas estranhamente o mordomo não voltou para ver do que se tratava.

            Ludmila arrancou com o carro. Estava trêmula e quase não conseguia controlar o volante. Foi em ziguezagues que chegaram aos portões. Eles foram abertos pelo porteiro sem questionamento e Ludmila passou quase atropelando os colegas que tentaram aproximar-se do auto. Mesmo os policiais tiveram que se afastar correndo.

            Voaram pelas ruas como bêbedas. Nem mesmo prestaram atenção para onde iam. Finalmente, já no Recreio dos Bandeirantes, a motorista pareceu voltar a si e diminuiu a velocidade suicida.

            — Vamos procurar um bar e beber um gole. Estou precisando disto. — falou a ruiva. A voz ainda estava trêmula e esganiçada de nervoso.

            — Hum-hum — fez Mara, estranhando sua própria serenidade.

            Ludmila encostou o automóvel num barzinho aprazível à beira-mar e ambas desceram. Pediram uma cuba-libre, e ficaram em silêncio. Somente quando haviam engolido os primeiros goles é que a ruiva falou e sua voz estava rouca e trêmula.

            — Aquilo foi tentativa de assassinato, tenho certeza.

            — Eu também acho que sim — concordou Mara, com um suspiro.

            — Ainda bem que aqueles animais não se respeitavam muito.

            — É, ainda bem — a voz de Mara lhe pareceu distante, sem calor. Ludmila ficou a olhar para a colega por um momento, antes de perguntar:

            — Você está bem, não está? — Ludmila olhava a colega com o cenho franzido. Havia alguma coisa esquisita nos modos de Mara.

            — Sim, estou sim! — o olhar de Mara voltara a brilhar e a voz soou calorosa. Ludmila permaneceu escrutando a face da colega, mas não lhe notou nenhum sinal de alarma. “Acho que o susto foi demais. Aliás, esta experiência foi demais, para ela. A coitada não está acostumada a enfrentar certas situações. Espero não ter exagerado. Ficaria me sentindo culpada.”

            Calaram-se e beberam. O álcool aos poucos foi acalmando e pondo em ordem os pensamentos das duas.

            — Ludmila — chamou Mara —, aquela história de Polícia Federal… É verdade? Você é mesmo “tira”?

            Ludmila riu à vontade.

            — Eu convenci mesmo, não foi?

            — O que quer dizer com isto?

            — Eu não sou Polícia Federal coisa nenhuma. Foi um blefe e dos bons.

            — E a identidade?

            — Consegui com uns amigos a quem ajudo vez por outra nos seus problemas.

            — E o nome, a tal de Irina Hess. De onde tirou? Tem algo a ver com Hermann Hess?

            — Ah, isto é outra história. Mas tem, sim. Os Kamuratti são judeus e…

            — Que história?

            — Um dia eu lhe conto, tá bem? Não faz parte desta em que estamos metidas.

            — Por que não agora? Você me mostrou que tem vida agitada…

            — Porque temos de retirar este disfarce. Os Kamuratti têm mil olhos e eu não duvido que a esta altura estejam procurando por uma morena metida num carro alugado de placa LKV-8876, marca Ford, modelo Scort, cor vermelha, ano 94. Preciso voltar a ser ruiva e já.

            — E o carro?

            — Vou telefonar e mandar que venham apanhá-lo. Veremos isto daqui mesmo.

            — E como é que vamos embora?

            — De táxi, minha cara, de táxi. É para isto que um rádio-táxi serve, não é?

            — Bem… — Mara deu de ombros. Ela só precisava devolver o xale e os óculos escuros. Ficou sentada enquanto Ludmila ia ao banheiro com a maletinha. Em meia-hora estava novamente a Ludmila que Mara conhecia.

            — E então, como estou?

            — Está Ludmila, novamente.

            — E a seus olhos?

            — Como assim?

            — Mudou alguma coisa nos seus sentimentos de antipatia para comigo?

            — Bem… Pra falar a verdade, eu ainda não sei. Estou com a carantonha daqueles cachorros ferozes em minha frente. Você me fez passar por uma experiência danada de desagradável. Isto pesa contra você em minha simpatia.

            — Eu entendo… Eu também ainda os tenho na retina. Foi algo que a gente vai demorar muito a esquecer. Mas são ossos do ofício, minha cara.

            Ludmila sentou-se e terminou sua bebida. Eram quase onze horas e elas sentiram fome.

            — Vamos almoçar? — convidou a ruiva — Eu pago.

            — Tudo bem. Estou mesmo com muito apetite. Acho que foi o álcool… — disse Mara.

Os Asseclas

            Chamaram o garçom e fizeram o pedido. Mara preferiu peixe ao molho de camarão. Ludmila pediu polvo. Comeram em silêncio. Estavam acabando quando viram chegar o chofer que vinha apanhar o carro. Ficaram observando em silêncio. O homem deu uma volta em torno do veículo, verificando suas condições externas. Depois, com outra chave, abriu o carro. Abriu o porta-luvas e apanhou as chaves que Ludmila deixara lá dentro. Verificou minuciosamente o carro por dentro. Só quando se deu por satisfeito, anotou a quilometragem rodada e deu partida. Em pouco tempo sumia na pista.

            — Bem — disse Mara —, estamos a pé.

            — Por pouco tempo. O táxi deve chegar dentro de alguns minutos.

            — Enquanto isto, você bem podia me esclarecer alguns pormenores obscuros dessa história, não é? — insistiu a morena.

            — Com prazer. O que você quer saber?

            — Em primeiro lugar, aquela história toda sobre o tal Anteu, é verdade? Você esteve mesmo com ele num motel? Ele lhe pediu realmente a ajuda que você disse que ele tinha pedido? O homem está mesmo envolvido até o pescoço com drogas, escravas brancas, devastação da Amazônia etc, etc…? O Banco faz mesmo as remessas criminosas para Israel? Os nomes que você deu aos Kamuratti são verdadeiros, isto é, eles usam nomes falsos? E mais…

            — Puxa vida, vai devagar. Uma coisa de cada vez, sim?

            — Você não foi devagar comigo. Fiquei tão perplexa quanto o senhor Kamuratti e sua consorte.

            — Tudo bem. Vamos começar pela sua primeira pergunta. A resposta é não. Eu não estive com o tal Dr. Anteu num motel. Aliás, eu pessoalmente nem conheço o fulano.

            — E como é que podia dar tantas informações a respeito dele?

            — Karina. Ela, sim, esteve com ele. Foi por isto que se resfriou.

            — Então a Karina é que é a polícia?

            — Não há polícia coisa nenhuma. Aquilo foi história de última hora que eu usei para conseguir abrir um pouco aqueles espertalhões. Me deixe continuar, sim?

            — O.K., vá em frente.

            — Bom, deixe que lhe diga que eu já andava investigando o Banco Kamuratti. Estava atrás das remessas de dólares. Karina andava atrás do Anteu e terminamos por nos encontrar no meio da história, entende? Eu pensava estar mexendo com uma casa de maribondos pequenos, mas terminei descobrindo que estou metida em um ninho de cascavéis. Então, o que lhe vou contar ultrapassa o tempo de duas semanas. Pra falar a verdade, faz oito meses que estou seguindo este fio da meada e cada vez mais o novelo surge maior… Bom, mas vamos lá. Karina andava de namorico com o tal Dr. Anteu. Ele, parece, apaixonou-se mesmo por ela e andou fazendo algumas confissões em momentos de enlevo, compreende? Por exemplo: ele lhe contou que só veio a saber que o tal de Dr. Celso Cerqueira Lima era o marginal Kantor Antratos há coisa de duas semanas atrás. Confessou que usou de meios ilegais, como dar propinas e usar o peso de seu nome para despachar alguns caixotes, para a Bósnia e outros para a Sérvia, a fim de prestar um favor… regado a dólares, é claro, para o tal Celso. Também andou administrando o poder do governo de Rondônia e do Governo do Acre, através de telefonemas, para conseguir esfriar a ação do IBAMA sobre as madeireiras ilegais. Ganhou muitos dólares com a traquinagem. Explica-se: é judeu e judeu não dispensa dinheiro, ouro.

            — É, eu sei. Continua.

            — Tudo indica que nosso garoto não sabe nada a respeito do desmatamento desastroso que se vem causando na Amazônia. Parece que pessoalmente Anteu não conhece de perto aquela região brasileira. Se a viu alguma vez, foi do alto, de muito alto, a bordo de algum avião de carreira internacional… Mas voltando ao Kantor, ao tomar conhecimento de quem era aquele seu amigo, Anteu ficou desconfiado e começou a se perguntar a razão do disfarce. Então, tratou de conseguir uma vistoria em uma das caixas na aduana do Rio e ficou sabendo a respeito das armas. Compreendeu que corria perigo de vida e pediu ajuda a Karina. Não podia, obviamente, mexer-se sozinho porque despertaria a curiosidade dos pais e, como você viu, eles são perigosos. Ao que parece, ele não atentou para o detalhe de que Kantor não lida com contrabando de armas nem de drogas. O que eu mesma não entendo é como seu nome está ligado àquelas armas, mas a gente descobre.

Mara deu uma olhada atravessada para sua companheira e pensou: “Se ela está pensando que eu vou seguir com ela nesta aventura doida, está redondamente enganada”. Mas continuou de olhos fixos na colega, sem demonstrar sua recusa ao trabalho policial. Ludmila continuou sua narrativa.

            — No dia do seqüestro ambos foram raptados juntos. Karina foi jogada fora do carro em movimento. Os marginais queriam que parecesse um acidente. Por sorte, ela caiu dentro de um charco de lama e não se machucou como os danados desejavam. Mas ficou com um tremendo resfriado. Karina me contou a parte da história que conhecia. Eu fui investigar o resto. Com a ajuda de amigos da Polinter vim a saber de uma organização internacional que trafica armas do mundo todo e para o mundo todo. Preferiram não me dar o nome com temor de que eu o divulgasse indevidamente, mas não sou repórter investigativa à-toa… Quanto às armas, tudo indica que são enviadas para seus êmulos naqueles países. Parece que são mercenários a mando de uma terceira potência estrangeira… De algum modo, alguém, aqui no Brasil, está alimentando guerras e guerrilhas pelo mundo. Andei farejando uma tal de Vinnel Corporation, com sede em Fairfax, na Virgínia, EUA. Eu, na verdade, não sei bem como é que é a história. Esta Vinnel foi criada por militares reformados norte-americanos e se dedica à Guerra. Descobri que algumas armas fabricadas aqui são enviadas de contrabando para eles. Não fui muito fundo neste ramo de investigação. Não me parece que a Vinnel tenha importância direta no caso da Amazônia, embora, confesso, o surgimento de seu nome me deixou com a pulga atrás da orelha. O que sei é que o tal Kantor foi informado por alguém sobre a descoberta que Anteu havia feito. O meliante foi conversar com ele, na pele do colega Celso, e ficou sabendo da intenção de Anteu de comunicar tudo à Polícia Federal, saindo fora da situação. É por isto que acho que foi o Kantor o autor material do seqüestro de Anteu.

            — Autor material… Você quer dizer que houve um mentor para o seqüestro? Ele foi planejado por outra pessoa? — perguntou Mara, curiosa e interessada.

            — Creio que sim. Anteu andou descobrindo algo bem mais aterrador para ele. Segundo Karina, de uma semana para cá ele vinha andando muito nervoso e agitado. Num dia em que havia bebido um pouco mais da conta, deixou escapar que seus pais não se chamavam Kamuratti e sim outros nomes. Karina não entendeu a história. Anteu disse que seus genitores eram outros. Os Kamuratti apenas o haviam criado. Desconfio que foi o Kantor, na pele do Celso, que lhe passou a informação… Mas é somente uma suspeita. Depois da confissão, Anteu desconversou. Karina ficou alerta e tratou de investigar, mas não teve tempo de descobrir muita coisa. Somente fez com que Anteu se pusesse alerta e desconfiado. Eu, então, entrei na jogada. Através de amigos na Interpol consegui saber que os Kamuratti não eram de descendência italiana, como faziam a todo mundo crer. Na verdade, Kamuratti era o nome fantasia de uma antiga loja brechó que existiu na Cracóvia e que foi destruída, suspeita-se, pela ação de um grupo nebuloso. A loja pertencia a uma família de judeus, tinha o nome formado pela fusão de dois outros. O de um japonês, YOSHIO KAMURA, e o nome NICHOKALATTI, parece que uma congregação judaica de cunho religioso a quem o japonês ajudava financeiramente em agradecimento por ter sido salvo de um grave acidente e tratado pelos integrantes da NICHOKALATTI. Esta comunidade também foi varrida do mapa pelo tal grupo de conhecimento obscuro.

            — Por que você diz “de conhecimento obscuro”?

            — Porque não consegui descobrir quem era, o que fazia, nem o que tinha como objetivo o tal grupo. Era chamado por um apelido muito esquisito: NAHASH. Parece que todos, judeus e poloneses, tremiam só de ouvir este nome.

            — Uma seita “tong” polonesa? — indagou Mara.

            — Não sei, mas não era nem polonesa nem judaica. Pelo menos, nenhum membro destas raças que eu entrevistei soube dizer qualquer coisa a respeito. Apenas falaram dela aos sussurros, com certo receio. Disseram a mim que, antigamente, todos tremiam só de ouvir este nome.

            — E o que significa o nome: NAHASH?

            — Parece que significa algo assim como SERPENTE… ou coisa parecida. Na verdade, não me interessei muito por isto, mas soube, de um velho Rabi, que este nome designa a Kundaline, o fogo serpentino que, segundo os budistas, ascende pela nossa coluna vertebral etérica e é responsável pelo despertar de nossos chakras sagrados. Como eu disse, a tal NAHASH é representada por uma serpente emplumada. Uma espécie de dragão chinês, eu acho. O que eu procurava era descobrir a história dos tais Kamuratti. Ano passado, em minhas férias, fui à Polônia. Perambulei por entre sebos, entrevistei dezenas e dezenas de pessoas e, quando já desanimava, encontrei numa velhinha de quase noventa anos, uma informação importante. Ela havia conhecido o senhor Salomon Hammerstein, dono do brechó Kamuratti. Ela me contou que depois de ter sido misteriosamente incendiada e de ter seus donos perdido tudo o que possuíam, um tal senhor Johanz Modelstan Khahn comprara o terreno onde o brechó existira e no local construíra um banco. Era uma construção pequena e a mulher já não lembrava mais o nome do banco.

            A família Mondelstan é de origem judaico-polonesa. Não foi difícil descobrir a história dos Mondelstan, pois, entre os judeus, a árvore genealógica é de suma importância e é conservada cuidadosamente. Os Mondelstan eram da classe media alta e o banco, na verdade, era deles. Mas era muito pequeno e não ia lá muito bem das pernas nos idos de 1948, quando o filho mais velho do clã Mondelstan, um tal de Erich Mondelstan, passeando pela Hungria, conheceu a filha ricaça da família Fülsenthal. Não sei como se deu a história, mas casaram e fundaram o banco Kamuratti.

            — Parece uma história muito humilde para um potência como é o Banco hoje — comentou Mara.

            — Pudera. O Kamuratti contou com o apoio inconteste dos Rotschilds, minha cara.

            — É mesmo? Eu não fazia a menor idéia a respeito — espantou-se Mara.

            — Nem você, nem a maior parte dos não-judeus. O apoio sempre foi muito secreto.

            — E… e por que isto?

            — Não sei. Mas o Banco Kamuratti enveredou por outros caminhos, Mara, e os Rotschild se retiraram silenciosamente — disse Ludmila tamborilando os dedos no tampo da mesa, pensativa e com o olhar perdido no vazio.

            — O que quer dizer com isto? — indagou, curiosa, Mara.

            — Ainda não tenho provas; são somente suspeitas, por isto, amiga, prefiro não falar nada por agora. Ainda estou tentando juntar esse quebra-cabeças. A remessa de dólares, o Dr. Anteu e o contraventor Kantor… Tudo está muito esparso. Minha… nossa incursão na casa dos Kamuratti, hoje, foi uma provocação minha. Inclusive afirmar que o Kantor controla o contrabando de drogas para o exterior. Foi uma isca que, parece, Kamuratti não mordeu. Ou ele não sabe nada sobre o contraventor, ou não quis deixar transparecer que sabe. Resolvi cutucar a cobra na toca indo até lá. A esta altura o Sr. Kamuratti já deve saber que eu não existo na Polícia Federal.

            — Você, não. A tal de Irina Hess, não é?

            — Sim, sim, a Irina. A propósito, este sobrenome, Hess, eu o usei para provocar mais ainda a cólera dos Kamuratti. São judeus e detestam alemães. Detestam mais ainda o sobrenome Hess e você pode deduzir a razão.

— Hermann Hess, o carrasco alemão dos campos de concentração.

— Isto mesmo.

            — E o que acha que o Dr. Kamuratti vai fazer quando descobrir isto? Este… detalhe?

            — Vai-se mexer, minha amiga. Vai-se mexer e sair da toca. O sobrenome Hess não é amado entre os judeus.

            — Ludmila, seja sincera: nós corremos perigo? — Mara estava ficando muito perturbada com o rumo da conversa. A imagem dos cães lhe veio à recordação e lhe tirou de imediato o sossego que o ambiente trouxera para ela. E as confissões de Ludmila levaram-na para dentro de uma teia de intrigas da qual nem imaginava a origem, mas sentia que fosse qual fosse, era mortal.

            — Por enquanto, não — respondeu Ludmila observando um Camaro que acabava de estacionar. Dele saltaram quatro homens muito bem trajados que permaneceram ao lado do auto, observando a praia e tecendo comentários sobre qualquer coisa no mar.

            — Estou-me lembrando de que não tinha qualquer maquiagem nem peruca, nem nada que me disfarçasse — disse Mara, cada vez mais preocupada com a encrenca em que se vira metida.

            — Você foi fundo o tempo todo, Mara. E o xale escuro encobria muito bem o seu rosto. Eu não creio que tenham prestado muita atenção em sua presença. Eu fui quem mais incomodei. Comentei coisas perigosas e fiz lances altos como aquele da remessa de dólares para Israel.

            — E como foi que você tomou conhecimento disto?

            — O Banco Kamuratti paga um alto suborno ao fiscal do I.R. para que ele feche os olhos. Acontece que eu fiz alguns favores ao homem e…

            — Que tipo de favores, Ludmila? — Mara olhou a amiga censurosamente.

            — Nada do que você possa estar pensando, Mara. É verdade que os favores foram sexuais, mas eu só intermediei a coisa.

            — Como assim?

            — Coloquei a mulher que ele queria na cama dele. Só isto.

            — O porcaria não tinha competência para conquistar a mulher que desejava? Tinha de você fazer isto para ele?

            — Bem… Ela era casada, compreende?

            — Casada??? E você… Oh, Ludmila, que baixeza!

            — Depende do ponto de vista. A moral humana, Mara, é muito elástica, sabe? O que a horroriza pode perfeitamente ser encarado como o trivial por muitas outras pessoas. Veja, o fiscal está feliz com a amante. Ela, por sua vez, está felicíssima com ele. Até passou a agüentar melhor o marido! E tem mais: o marido é estéril. Ela sabia disto, ele é que não. Mas ela tinha temor de lhe falar a respeito, pois temia a reação do homem. Coisas de machões brasileiros. Com o amante ela pôde engravidar. O marido se sentiu realizado e tudo terminou bem. A criança é amada pelos três. No meu ponto de vista fiz muito bem em juntar os dois…

            — No meu, não — disse Mara, aborrecida.

            — Bom, o certo é que ele me deu a informação… Não diretamente. Eu concluí de algumas frases dele… pistas que deixou soltas no ar de propósito. A gente terminou acostumando-se a trabalhar assim. Eu lhe dou informações “sem querer dar” e ele faz a mesma coisa por…

            Ludmila teve a atenção voltada para os quatro homens. Caminhavam disfarçadamente pelo sol escaldante observando os autos.

            — O que foi? — sobressaltou-se Mara, voltando a cabeça para procurar o que prendia a atenção da companheira. Viu os quatro homens e um pressentimento ruim lhe passou pela cabeça.

            — Você acha…

            — Psssit! — fez Ludmila — Eu não tenho certeza, mas o mais lógico é que o Senhor Kamuratti tenha entrado em contato com a agência do Salomão para saber sobre o carro. Daí, mandar quatro marmanjos para aqui é o mais elementar. Eu devia ter previsto isto.

            — Mas você acha que são homens dele? — angustiou-se Mara.

            — Eu não sei… Podem ser. É esquisito quatro homens andando pela areia escaldante do sol de meio-dia vestidos de paletó e gravata e com sapatos sociais. Principalmente quando estão sondando os carros estacionados.

            — Acha que procuram por nós? — perguntou aflita, Mara.

            — Não, por nós, não. Mas… Pense comigo: você sabe que duas mulheres vieram para cá e aqui entregaram o carro alugado. Das duas uma: ou elas tinham outro carro esperando, aqui, ou estão aguardando táxi, não é? Se tinham outro carro, foram embora. Mas tendo saído afobadas pelo ataque dos cães… Teriam sangue frio suficiente para completar o plano ou…?

            — Ou…?

            — Ou teriam vindo aleatoriamente até este local e só então é que resolveram abandonar o carro? Se os marmanjos são os que estamos supondo, eles permanecerão por ali… Talvez venham até este bar, ou a um dos outros atrás, averiguar quem são os possíveis donos dos carros; talvez fiquem por aqui esperando a chegada de um táxi…

            — Meu Deus! E você pediu um táxi, não pediu?

            — Sim, e esta é minha preocupação. Se o táxi chegar e nós entrarmos nele é certo que despertaremos as suspeitas dos quatro ali. E eles nos seguirão para onde formos.

            — O que faremos? Eu estou-me sentindo muito mal. Nunca antes me meti numa camisa de onze varas, Ludmila. Mas em meio dia você me fez passar o diabo! — exclamou Mara sentindo o estômago se contrair. Aquilo lhe estava parecendo cenas de um filme de suspense.

            — Ainda não, meu bem, ainda não — disse Ludmila dando-lhe tapinhas no braço. — Espere mais um pouco e você vai ver o que é camisa de onze varas. Agora, ajude-me a pensar. E seja rápida. O táxi está quase chegando. Temos de encontrar uma saída e depressa!

            — E se não tomarmos o táxi e deixarmos que volte vazio?

            — Teremos despertado suspeita do mesmo jeito. Os brutamontes vão ter somente que esperar até que todos tenham saído. As duas bobocas que ficarem… Fácil, não?

            — Droga! Que entaladela!

            Ludmila olhou o salão. Havia somente um casal além delas, naquele bar. Talvez nos outros houvesse outras tantas pessoas. Ia ser como tirar doce de uma criança para aqueles quatro descobrirem as duas.

            — Ludmila, o táxi! Ele vem lá! — E Mara apontou angustiada para um ponto amarelo que surgia na curva a uns dois quilômetros de onde estavam.

            — Tem certeza que é ele?

            — Sim, pela cor. E tem qualquer coisa em cima da capota. Só pode ser a plaquinha… O que faremos?

            — Para grandes males, grandes remédios. Faça a cara mais séria e fechada que puder. Pare de tremer. Me siga e somente acene com a cabeça, entendeu?

            — Não.

            — Ótimo! Limite-se a fazer como estou dizendo.

Ludmila levantou-se indo direto para a mesa de um casal que aguardava a conta.

            — Boa-tarde. Podem-me dizer seus nomes?

            — O quê? — perguntou, surpreso, o rapaz.

            — Seus nomes, por favor — insistiu Ludmila, séria.

            — Mas.. Por que…?

            — Não questione. Faça o que estou pedindo. E rápido!

Enquanto falava. Ludmila estendia para o homem a carteira de Polícia Federal.

            — Polícia…? – espantou-se o jovem rapaz

            — Shhhhiit! Vocês estão vendo aqueles quatro homens lá?

O casal olhou, aturdido, para os homens que vinham aparen­temente descontraídos em direção ao bar.

            — Sim, senhora — falou o rapaz. — O que têm eles?

            — São terroristas. Nós estamos no encalço deles há algum tempo. Acontece que, agora, estamos em desvantagem e creio que somos a caça que procuram. Eles querem nos cercar. Se conseguirem, vai haver tiroteio e, possivelmente, feridos ou mortos.

            — Meu Deus! — exclamou assustada a moça. Mara reconheceu nela a ricaça Milena Forcis e tremeu. Ludmila complicava mais ainda a situação das duas. O rapaz só podia ser o Dr. Luís Filipe, o empresário da companhia de Táxis Aéreos Céu Azul e filho do Deputado Luís Filipe Nettus, o homem público mais em destaque no momento político do país. Será que a ruiva não sabia disto?

            —- Vocês têm um automóvel? — perguntou a falsa policial com voz firme.

            — Sim, senhora. É aquele Del Rey ouro estacionado lá! — disse o jovem, apontando para o único automóvel parado sob uma sombra rala.

            — Vocês vão-nos ajudar, certo? — impôs a repórter.

            — O que… o que devemos fazer? — tartamudeou a moça visivelmente assustada.

            — Vamos todos sair como se fôssemos velhos amigos. Descontraiam-se. Vocês nos dão carona. Eles não vão desconfiar de nada, pois não sabem ainda quem somos nós. Sabem somente que as pessoas que devem capturar são duas mulheres que estão aqui, aguardando um contato para dentro de… — Ludmila olhou o relógio — uns dez minutos. Conhecem o contato e é através dele que poderão chegar a nós.

            As duas mulheres sentaram-se à mesa junto com o casal e chamaram o garçom. Pediram a conta e o rapaz fez o pagamento às pressas. Levantaram e saíram em grupo contando piadas. Passaram pelos quatro homens que as olharam de soslaio, mas sem lhes dar muita importância, exceto um deles, um homem forte, alto, cabelos castanhos claro bem cuidados e beirando os trinta e três anos. Tinha nariz aquilino, bem feito, pele branca e usava anel de grau de advogado. Era peludo, de pelos claros, quase louros, o que contrastava um pouco com a cabeleira. Seu olhar penetrante e intenso cravou-se em Mara e rapidamente percorreu sua silhueta. A moça estremeceu quando seus olha­res se cruzaram por momentos. “Meu Deus, que maldade ele tem no coração“, pensou de si para consigo sem saber explicar-se porque sentia aquela vibração esquisita vindo do homem diante dela. “Ele nos fará grande mal” predisse mentalmente.

            A companheira do rapaz agarrou com mais força o braço dele murmurando baixinho:

            — Estão armados. Eles estão armados, meu bem.

            — Eu vi — disse o rapaz no mesmo tom de voz. — Mas demonstre naturalidade, por favor.

            Mara tropeçou num degrau e perdeu o equilíbrio, dando al­guns passos desordenados para o lado. Uma forte mão lhe amparou o corpo como se ela não tivesse peso. Era o homem de olhar terrível.

            — Está segura — disse ele com um sorriso que, ao invés de lhe suavizar o rosto, ao contrário, endurecia-lhe mais ainda os traços.

            — Não é sempre que uma mulher bonita me cai nas mãos — falou o desconhecido.

            — Eu… eu… obri… obrigada — tartamudeou Mara lutando contra o asco que o ser tocada pelas mãos fortes do homem lhe causava. Com um aceno impositivo de cabeça Ludmila fez o casal acompanhá-la até junto do homem.

            — Tudo bem, Magda? — indagou, abraçando a companheira pela cintura.

            — Co… como? — perguntou Mara, aturdida.

            — Você está be…?

            — Sim – cortou o homem, firme —, ela está bem. Muito bem. E vocês, estão bem? — Os olhos dele escrutinavam os quatro. Demorou um pouco mais em Milena Forcis e uma ruga lhe surgiu na testa. Conheceria a mulher? Se conhecia, fez que não.

            — Estamos, obrigada — foi a resposta tranqüila de Ludmila que sustentou o olhar de águia do homem, fixo nos olhos dela.

            — Não querem acompanhar-nos numa bebida? — convidou ele ignorando totalmente o rapaz.

            — Estávamos acabando de sair justamente após beber nosso drinque — disse Ludmila, tranqüila e com um sorriso brejeiro.

            — Bem, podiam voltar… se quisessem — insistiu o homem.

            — Tenho audiência em uma hora com o juiz de paz da primeira vara de família. Sinto muito, fica para outra vez, O.K.? — disse Mara surpreendendo totalmente Ludmila.

            — Advogada…? — perguntou o homem mostrando-se muito interessado.

            — Sim. E vejo que o senhor é meu colega de profissão — mentiu Mara tão convincente que Ludmila a olhou interrogadoramente.

            — Mas não lido com problemas afetivos — falou ele.

            — Qual sua especialidade? — interrogou Mara.

            — Direito Empresarial — disse ele de modo natural.

            — Em férias? — perguntou Ludmila.

            — Não. A negócios. E vocês, o que fazem por aqui?

            — O casal aqui é nosso cliente — mentiu Mara — e estamos a trocar informações sobre o assunto que vamos tratar daqui a pouco.

            — Ah… — e o homem olhou escrutinadoramente para o casal. Pareciam ter visto um lobisomem de tão amarelos que estavam. Ele os reconhecia pelo noticiário de jornais e TV’s e por já ter visto o rapaz no escritório de seu patrão, mas preferiu aparentar que não os conhecia. Eram muito íntimos de seu patrão.

            — O assunto parece grave, pela aparência de seus clientes — Mara julgou distinguir um tom zombeteiro na voz do homem.

            — E é. Coisa de pensão alimentícia… Sabe como é, né? Não deles, mas de parentes do rapaz…

            — Sim, sei… É sério… Desculpem-me. São casados? — havia dúvida na voz do estranho, mas Mara sentiu que era algo falso. Por que?

            — Não… — respondeu titubeante a jovem milionária.

            — Então…

            — Não é deles que falamos. É de um parente do rapaz — apressou-se a explicar Ludmila, antes que o casal inexperiente pusesse tudo a perder. O homem pareceu hesitar um momento. Olhava com olhar de fogo para o jovem que, a custo, lhe sustentou o olhar.

            — Tudo bem, então. Quando podemos-nos encontrar de novo?

            — Quem sabe amanhã, no fórum… — e Ludmila deu um sorriso brejeiro para o desconhecido que lhe retribuiu com um brilho nos olhos negros.

            — Excelente. Meu nome é Fratelli. Enrico Fratelli.

            — Laura Minori Santos e Magda Silva, minha colega de profissão e sócia no escritório.

             — Até à vista, senhor Fratelli. Foi um prazer conhecê-lo — e Mara acenou para o homem, fugindo ao aperto de mão dele e afastando-se apressada, seguida por todos. Os quatro homens ficaram a olhá-los até que tomaram o carro, justamente quando o táxi estacionava ao lado do automóvel.

            — O táxi! — exclamou Fratelli, esquecendo-se do grupo.

            — Como supúnhamos — falou um dos seus companheiros.

            — Cada um de vocês vai para a saída dos outros restaurantes e eu fico neste. Quando elas saírem aquele que estiver perto assovia. Vamos todos seguir o táxi. Dependendo do trajeto dele, nós forjaremos o acidente.

            Assim fizeram. Cada um postou-se na saída de um dos restaurantes observando o motorista do táxi. Este, consultou um papel e olhou para as fachadas. Decidiu-se por aquele onde estava Fratelli. Entrou e ficou olhando para as mesas vazias. Sem jeito, dirigiu-se ao homem encostado no portal.

            — Hei, senhor, por acaso viu duas moças saírem daqui em outro táxi..? Quero dizer… Eu fui chamado para apanhar duas moças…

            — Como eram elas? — indagou Fratelli, aparentemente despreocupado e interessado em ajudar.

            — Eu não sei. Elas disseram que estariam aqui, na mesa — e voltou a consultar o papel — mesa… 33. É, uma delas disse à central de recados que estariam aguardando aqui, na mesa 33.

            Fratelli sorriu. Estalou os dedos chamando o garçom. Quando o homem chegou, perguntou:

            — Pode-nos informar, por gentileza, para onde foram as duas moças que estavam aguardando um táxi sentadas à mesa 33?

            — Não, senhor, não posso. Quem serviu a 33 foi outro colega. Vou chamá-lo para os senhores. Queiram aguardar um momentinho, sim?

            — Certo — disse Fratelli e olhou para o taxista com um dar de ombros. Mas ficou esperando a resposta.

            Outro garçom veio até eles após alguns momentos.

            — Pois não?

            — Havia duas moças sentadas na mesa 33. Uma delas pediu que lhes mandassem um táxi. O motorista está aqui, mas elas sumiram. Você poderia informar para onde foram… quando saíram e se saíram em outro táxi? — falou Fratelli prestativamente.

            — Sim, senhor. Elas pagaram a conta juntamente com um casal que estava na mesa 54 e saíram com ele.

            — As moças eram uma alourada e outra, morena? — indagou Fratelli com cara de poucos amigos.

            — Sim — respondeu o garçom, assustado.

            — Quer dizer que elas já foram? — quis saber o motorista.

            — Foram. Acho que encontraram uns amigos.

            — Advogadas, hein? — disse Fratelli, afastando-se apressadamente e deixando os outros homens sem entender nada.