CAPÍTULO II – A HISTÓRIA SE COMPLICA

Edifício Rio-Sul, RJ. Na entrada do Túnel Coelho Cintra, que liga Botafogo a Copacabana.

Edifício Rio-Sul, RJ. Na entrada do Túnel Coelho Cintra, que liga Botafogo a Copacabana.

Uma Semana Antes  

Negócio Escuso

 

Qüinquagésimo primeiro andar da torre no Rio Sul Center. É o entardecer de um quente dia de novembro de 1994. O imponente edifício é um dos maiores prédios comerciais no Rio de Janeiro. Com 168 metros de altura e 270 mil metros quadrados de área construída, o prédio impressiona pela beleza e harmonia de sua construção. Os dez primeiros andares são destinados ao Shopping Center, onde o carioca tem de tudo o que deseja e pode até se dar ao luxo de passear pelas belas galerias.

            Naquele entardecer o Sr. Kamuratti aproximou-se do janelão no lado sul da enorme e luxuosa sala de seu escritório e ficou olhando para Cobacabana, além do morro sob o qual passa o túnel novo, que liga Botafogo a Copacabana através da Avenida Princesa Isabel. Gostava da belíssima vista que dali descortinava. Principalmente ao enterdecer, quando a magia da noite começava a envolver a cidade e o povo voltava para suas casas ou delas saía para as diversões noturnas, ou simplesmente para um passeio descompromissado por aquela bela, mas tão desrespeitada cidade. A Light acendia as ruas e nos apartamentos brilhavam as cambiantes luzes das televisões — “o ópio do povo brasileiro, principalmente em se tratando das novelas idiotas” — pensou Kamuratti sorrindo sarcasticamente. “A televisão é nossa melhor aliada, mesmo quando quem escreve as histórias e os enredos das telenovelas não tenha consciência de para quê trabalha”, murmurou o banqueiro de si para consigo. Olhou o relógio e franziu o cenho. Não gostava de atrasos em seus compromissos e o pessoal deveria ter chegado há quinze minutos. Kamuratti, embora já impaciente, permaneceu olhando para o mar por entre os morros da Urca e do Pão de Açúcar que se apresentava, agora, com um azul-marinho muito bonito. Em alguns minutos dele só restaria uma cor negra profunda. Para além da orla de areia profusamente iluminada pelos grandes postes e suas potentes lâmpadas a mercúrio — que dali pareciam pequenos palitos — ­nada poderia ser vislumbrado a não ser as amareladas luzes de algum veleiro, de algum barco pesqueiro ou de algum navio entrando ou saindo da Baía de Guanabara.

            Um som suave e melodioso interrompeu a observação repousante de Kamuratti. Era o som da campainha. Kamuratti foi até sua mesa e olhou na pequena tela do circuito fechado. Na porta estavam os quatro homens que ele esperava. Premiu um botão e a porta se abriu. Os homens entraram.

            — Boa-noite, senhores — disse Kamuratti de onde estava, a uns dez metros da porta. O ambiente estava iluminado com luzes indiretas, mas que davam um tom muito repousante para a vista sem, contudo, perturbar a visão de nada. A sala decorada e pintada em tons preto, dourado e vermelho, formava desenhos de contrastes muito estimulantes.

            — Boa-noite, senhor Kamuratti. Desculpe-nos o pequeno atraso, mas o trânsito… — disse Enrico Fratelli e se encaminhou para per­to de Kamuratti, seguido pelos outros três parceiros.

            — Eu sei, eu sei — disse Kamuratti — vamos sentar-nos. Quero ouvir o que têm a me contar.

            Os homens tomaram assento nas confortáveis poltronas diante daquela onde Kamuratti se assentara.

            — E então? — perguntou o banqueiro.

            — O Dr. Anteu parece que descobriu alguma coisa — começou o homem chamado Fratelli. — Segundo averiguamos, ele pediu sigilosamente a um dos guardas alfandegários que abrisse um dos caixotes contidos no con­tainer vinte e três, de nossa… de propriedade da empresa. Só após gorda propina é que o homem consentiu em fazer o que lhe era pedido.

            — Mas naquele container não estão nossas encomendas? — indagou preocupado Kamuratti.

            — Sim. Mas nela também estão encomendas de outras empresas.

            — E o caixote aberto, era nosso?

            — Não. Era de outro remetente.

            — O que continha, então?

            — Armas. Fuzis-metralhadora leves — disse um dos outros três homens.

            — Como você sabe disto, Píndaro? —perguntou o banqueiro.

            — Eu permaneço no cais a cada plantão de 24 horas, senhor, e naquele dia eu era o supervisor de plantão para a vigilância. Quando per­cebi o Dr. Anteu se encaminhando na companhia do guarda alfandegário para o container, eu os segui sem ser visto. Assisti a tudo de onde estava. O Dr Anteu segurou uma das armas e falou durante algum tempo com aquele guarda. Ambos pareciam espantados. Abriram mais dois outros containeres, todos da sua empresa. Nos outros também havia muita arma. Vi granadas e lança-rojões, entre outras.

            — E… o que fez o Dr. Anteu, depois de descoberta tão interessante? — quis saber Kamuratti, aparentemente ignorando a informação sobre os containeres.

            — Seu filho, Dr. Kamuratti — falou Fratelli — deu a gorjeta prometida ao guarda e saiu apressado. Píndaro me ligou e comunicou-me o fato. Eu coloquei Fílio para seguir o Dr. Anteu. Ao mesmo tempo, mandei que Cícno procurasse descobrir de quem era aquela remessa ilegal de armas para o exterior.

O banqueiro ficou silencioso, pensativo. Parecia fazer algumas considerações íntimas. Seu olhar estava fixo no tampo da mesa. Então, levantando os olhos falou.

            — Quero ouvir o que tem Cícno a dizer — e os olhos de Kamuratti fixaram-se no homem ao lado de Fratelli.

            — Bem — começou Cícno —, eu contei com a ajuda de Píndaro. Ele me conseguiu as guias de exportação — cópias xerox, é claro — e vi que nelas havia uma remessa de 13 caixas contendo laranja e manga para a Bósnia. As guias estavam em nome de uma empresa dedicada à fruticultura no interior de São Paulo, a “FRUTIBRAS LTDA”.

            — Evidentemente você foi averiguar esta empresa, não é? — indagou Kamuratti fitando fixamente o seu empregado.

            — Sim, senhor. É de propriedade de um casal de bem concei­tuados comerciantes de São Paulo, os Silva Limma. Por três dias eu andei investigando a vida deste casal. Tudo em ordem. Não parecem ser contra­bandistas de armas…

            — Ora — cortou Kamuratti impaciente — nenhum contrabandista que se preze vai parecer aquilo que é. Como é que pode garantir que o tal casal não é contrabandista?

            — São pessoas tradicionais e conservadoras. Seus contadores são rigorosamente honestos e são fiscalizados diretamente pelos Silva Li­mma. As declarações de I.R. deles são absolutamente corretas e pagam todos os impostos em dia.

            — Isto é o melhor disfarce para quem age fora da Lei — fa­lou, cético, Kamuratti.

            — Sim senhor, mas o casal Silva Limma recebe em casa o secretário de justiça e muitos delegados federais. Não creio que…

            — E por que fazem isto? — perguntou curioso Kamuratti.

            — Eles têm dois filhos. Um é delegado de polícia e outro é chefe de gabinete na Secretaria de Justiça.

            — Bom, esta é uma vizinhança bastante incômoda para um con­trabandista. A menos que seja muito, mas muito hábil… — comentou Kamuratti ainda indeciso.

            — E tem mais. Sempre que vai fazer uma remessa, o casal faz questão fechada de que pelo menos dois agentes federais fiscalizem as embalagens das encomendas, verifiquem a carga nos caminhões e acompanhem até o porto o material. Eu verifiquei e eles nunca fecharam qualquer negócio com a Bósnia, nem com a Sérvia. Aliás, jamais comerciali­zaram com qualquer país comunista. Seus clientes mais assíduos são os Es­tados Unidos, a França, a Suíça e os paises baixo. Ultimamente consegui­ram fechar alguns contratos com o Japão e a China.

            — É… Parece que são mesmo honestos. Coisa rara, neste país — falou Kamuratti quase reflexivamente. — E como ficou a sua investigação? Se não eram evidentemente encomendas dos Silva Limma, de quem eram e como e quem usa a empresa daquele casal para acobertar a trapaça? 

            — Ainda não tenho certeza, chefe — disse Cícno — mas estou, desde ontem, na pista de um tal de Celso… Acho que é Cerqueira ou Limeira. Em uma das guias de exportação havia um carimbo meio borrado, mas ne­le eu li este nome. Ele não existe na empresa dos Silva Limma. No entanto, assina como exportador.

            — Pode ser um empregado dele, ora essa — disse Kamuratti.

            — Não, não é. Eu verifiquei o livro de empregados da FRUTI­BRAS. Fingi que era fiscal do INPS e foi fácil. O contador me mostrou os registros. Ninguém que se chame de Celso trabalha para os Silva Limma.

            — Suas investigações, então, estão neste ponto?

            — Sim, senhor.

O banqueiro ficou olhando novamente para o tampo de sua mesa. Murmurou baixinho, como se estivesse só: “Anteu revista containeres que contêm mercadorias de empresas nossas. Neles encontra encomendas que não fazem parte de remessas nossas. Não é de espantar, visto que com freqüência fazemos associação com outras empresas para preencher um container… Se em alguns deles há armas, isto não pode nos comprometer. Em um mesmo container há mercadorias de mais de duas ou três empresas diversificadas… O que intriga é que seja Anteu a despachar as armas… Acho que devia ter sido mais atento às atividades de meu filho.”

            — E posso perguntar em quê o que descobrir vai-nos interes­sar, Cícno? — indagou de repente, soturno, Kamuratti. Pegado de surpresa e sem entender bem o que o banqueiro queria realmente perguntar, Cicno gaguejou.

            — Eu… quer dizer… eu não sei bem, senhor. Mas creio que devemos deslindar tudo o que diga respeito à segurança do Dr. Anteu — Cicno estava sem jeito com a repentina e desconcertante pergunta de seu patrão. Kamuratti olhou-o silencioso, por um tempo e, então, disse:

            — Sim, concordo. Mas não acho que intrometer-se na casa dos outros seja o caminho mais indicado, não é?

            — Não creio que tenhamos de mexer na casa dos outros, se­nhor Kamuratti. Mas se soubermos claramente do que se trata…

            — Poderemos estar aumentando o problema que meu descuidado filho criou. Não, não quero que prossiga, Cícno. Sou banqueiro, não polícia federal. Sua investigação pode terminar despertando irritações que levarão a escândalo e não desejo isto.

            — Mas o Dr. Anteu…

            — Pode estar fazendo exatamente o que eu não desejo que se faça, meu caro. Anteu é um bom causídico, mas um péssimo herdeiro de banco e isto me preocupa. Talvez esteja trabalhando para alguém e investigando seja lá o que for, terminou por arranhar esta provável casa de maribondos. Principalmente se envolve as Forças Armadas. Ser um banqueiro poderoso e famoso é ter a pele social muito sensível. Vou dizer o que você e Píndaro vão fazer. Vocês vão contactar o segurança portuário e dizer-lhe que eu desejo meu filho longe dos negócios da tal FRUTIBRAS. Assim, quando ele voltar lá, não deve, de modo algum, aceitar abrir as caixas. Quero que ele esqueça este assunto e, se por acaso, resolver dar parte à Federal, deixe Dr. Anteu fora disto. Se não o fizer, vai-se haver comigo. Entenderam os dois?

            — Se é assim que quer… — disse Cícno, agastado.

            — É. É exatamente assim que quero. Agora, quero ouvir o Fílio. O que tem a me dizer, Fílio?

            — Bem, senhor Kamuratti, eu segui Dr. Anteu durante estes três dias. Desde que saiu do cais ele praticamente nada fez que fugisse ao seu dia-a-dia. Tambem não notei ninguém estranho rondando as vizi­nhanças nem do escritório dele, nem da residência nem do automóvel. Du­rante suas saídas para os restaurantes e mesmo para suas aventuras eu o segui fielmente. Nada observei que pudesse ser causa de alarma.

            — Isto é muito estranho, você não acha? — indagou Kamura­tti, cenho franzido.

            — Eu… Desculpe, senhor, mas eu não vejo em quê.

            — Píndaro — cortou Kamuratti — o que fez o segurança por­tuário depois de Anteu ter ido embora?

            — Nada, senhor. Eu colei com ele, mas não fez nada fora de sua rotina.

            — Mais estranho ainda — preocupou-se Kamuratti. — Escutem, pensem um só momento e verão que isto está esquisito. O segurança, pela reação que Píndaro descreveu, também ficou surpreso com o conteúdo das caixas. Comprovou que eram armas clandestinas e que estavam sendo despachadas para a Bósnia. Qualquer néscio pode perfeitamente concluir que o Pacote só podia vir das forças armadas brasileiras. E como estas não fazem comércio com suas armas, aquelas forçosamente tinham sido roubadas ou desviadas de algum modo de seu destino — o Exército, a Marinha ou a Aeronáutica. Por que, então, o segurança não deu parte? Por que preferiu o silêncio? Se tivesse dado parte, teria levantado a lebre. E se isto ti­vesse acontecido, alguém estaria atrás de Anteu e o fiscal… guarda alfandegário, sei lá, teria sofrido um acidente, não acham? Contrabandistas de armas não são piedosos com ninguém. E tem mais: as Forças Armadas logo estariam atrás de quem é que, de dentro delas, ajuda na subtração das armas. Isto poderia enredar meu filho numa intriga nada fácil de ser contornada.

            — É… — murmurou Cícno e os quatro homens se entreolharam.

            — O que eu acho — concluiu Kamuratti — é que o segurança alfandegário deve ter alguma relação com aquele que envia as armas. Deve é ter fingido surpresa para convencer Anteu, mas deve ter dado a informação ao interessado sobre a bisbilhotice de meu filho.

            — Então — falou Fratelli — por que o Dr. Anteu não foi mo­lestado? Fílio disse que não notou nada de suspeito e eu confio no traba­lho dele.

            — Talvez porque Anteu tenha pedido ao guarda que silenciasse sobre o conteúdo das caixas. Sendo quem é, um pedido dele é uma ordem para qualquer subordinado. De algum modo, isto deve ter feito o responsável pelo contrabando, se tomou ciência do acontecido, achar que Anteu não fosse perigoso… pelo menos por enquanto.Mas nada garante que meu filho não esteja sendo espionado discretamente. Grampos nos seus telefones são fáceis de colocar… É uma hipótese fraca, mas é a única que posso imaginar no momento. Talvez estejam preparando uma armadilha para o Anteu e tanto podem ser os contrabandistas quanto os agentes das Forças Armadas. O que não compreendo é por que não o têm sob vigilância. Aquela guerra entre sérvios e bósnios incomoda o mundo todo. E o Brasil não é um país que tenha história internacional no contrabando de armas para alimentar guerras, como é o caso dos Estados Unidos da América. As forças armadas brasileiras são pacíficas. Aliás, este povo todo não é um povo guerreiro. Tanto que nem mesmo defendem o território nacional contra a invasão de guerrilheiros e contrabandistas de armas internacionais. Penso que há mais caroço sob este angu…

            — Pode ser que o tenham sob vigilância de um modo não ostensivo, Sr. Kamuratti — disse Fílio. — Ele pode estar sendo vigiado através de um amigo íntimo, em quem muito confia. Uma pessoa assim, pode perfeitamente não despertar suspeita.

            — Você tem razão, Fílio; isto é muito plausível. Mas também significa que este suposto amigo já está plantado ao lado de Anteu há muito tempo, bem antes mesmo de ele ter descoberto o contrabando. Esta hipótese é que me inquieta. Anteu tem um bom punhado de amigos antigos, com os quais anda sempre junto e reparte bom tempo de sua vida. Mulheres, principalmente. E em intrigas de submundo e de guerra é burrice confiar em mulheres.

            — Bom, de qualquer modo nós podemos levantar a vida de cada um dos amigos de seu filho, senhor Kamuratti — sentenciou Fratelli. — Somos quatro e se dividirmos os amigos mais próximos do Dr. Anteu por nós, não creio que dê mais de três, se muito, para cada um. E podemos levantar rapidamente a vida de três indivíduos não prevenidos não é?

            Todos os outros três assentiram com um aceno de cabeça.

            — Creio que você está certo, Fratelli. Então, ponhamos mãos à obra. Não quero Anteu envolvido em confusão. Ele precisa aprender que um Kamuratti tem de passar como a sombra: sem ser notado. Eu não gosto do estilo de vida que Anteu vem levando. Expõe-se demais e expõe a mim e ao Banco, o que não é recomendável. Tenho de dar um jeito nisto e vou dar.

            — Começaremos logo amanhã — disse Fratelli.

            — De acordo — acedeu Kamuratti. — Mas não deixem que meu filho perceba nada. Ele pode sentir-se magoado comigo se souber que mandei vocês verificarem a vida de seus amigos.

            — E… E se descobrirmos quem é o indivíduo, o que faremos?

            — Nada. Venham comunicar-me tudo sobre ele. Decidirei quanto ao nosso passo seguinte. Se tivermos de tomar uma atitude, creio que ela será dirigida a Anteu, e isto deverá ser feito com toda a discrição e de tal modo a não levantar suspeita. O que faremos, durante este tempo, é manter a pessoa sob vigilância controlada e absolutamente discreta, entenderam?

            — Perfeitamente — disseram os homens.

            — Muito bem. Estou satisfeito. Podem ir.