CAPÍTULO II – A HISTÓRIA SE COMPLICA (Segunda Parte)

Karatecas no dojô.

Karatecas no dojô.

Sonho Megalomaníaco

            O grupo saiu sem mais delongas. Kamuratti permaneceu um longo tempo sentado, perdido em seus pensamentos. Depois, parecendo despertar, e com um longo suspiro levantou-se, foi até o barzinho discreta e estrategicamente colocado num ângulo da grande e luxuosa sala, e se ser­viu um drinque. Voltou à janela e permaneceu observando a cidade, agora com a noite já totalmente sobre ela. Os carros deslizavam lá em baixo e o som de seus motores chegava amortecido, na forma de um zumbido surdo e trepidante. Vez que outra uma buzina indicava alguém mais apressado ou mais impaciente — comum nos motoristas das cidades grandes. Kamuratti ficou muito tempo  apreciando o espetáculo de cima da torre do Shopping Center. Empoleirado ali em cima tinha a sensação gostosa de que a cidade estava a seus pés. E sonhava intimamente que ela era sua; seus moradores todos eram seus serviçais. Ele era o imperador do Rio de Janeiro. “Ainda hei de adquirir o direito de explorar esta cidade, das entranhas da terra até o mais alto das nuvens” pensou, antegozando o fato. Voltou à sala, a­panhou um charuto havana, acendeu-o e retornou à janela, aos sonhos megalomaníacos com que gostava de se embalar. “Eu mandarei varrer dos morros toda a bandidagem. Ninguém fará senão o que eu determinar. Todos pagarão para viver… É, é isto mesmo. Cobrarei tudo. Ninguém usará um túnel co­mo aquele ali sem pagar o devido pedágio; ninguém tomará banho numa pra­ia como Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, São Conrado, Barra, sem pagar para entrar nela. E pagará por hora. Todos os estacionamentos serão meus e seus usuários serão meus clientes. Vou mandar acabar com estes maldi­tos flanelinhas, um bando de vagabundos ganhando um dinheiro que não me­recem. Penduram um pano velho no braço freqüentemente nem flanela é e ficam descaradamente tomando dinheiro dos donos de veículos. Eu mando sumir com eles… Vagabundos! E as praças? Todas minhas! Ninguém poderá ir passear em nenhuma praça se não pagar para entrar nela ou para sentar em um banco de jardim. Tudo na cidade será pago. Este povo vagabundo, preguiçoso e descuidado vai aprender a dar valor às coisas que lhes são da­das para desfrutar. Quem sujar a rua com papel de cigarro ou outros, pa­gará uma pesada multa, porque serão meus carros de limpeza que manterão, é claro, a cidade limpa. A minha cidade!” E sem se dar conta disto, Kamuratti riu satisfeito. “Os aeroportos serão meus e nenhum avião poderá pou­sar ou decolar sem pagar uma taxa de aluguel do meu chão. Nenhum passa­geiro permanecerá nos salões sem pagar por minuto uma taxa de utilização do meu espaço. A mesma coisa será feita nos terminais rodoviários. Todos pagarão, do ônibus ao passageiro. Eu ganharei sempre. Mesmo quando esteja dormindo, estarei ganhando. Os políticos serão meus serviçais mais graduados. Prefeitos e governadores serão meus capatazes. Eu dominarei tan­to a política deste Estado que serei aquele que nomeará as pessoas indi­cadas para estas funções. Votarão as leis que eu quiser; aprovarão pro­jetos de meu exclusivo interesse. Tudo será meu, somente meu!”  E Kamuratti soltou uma estrondosa gargalhada de satisfação diante de tão belo quadro. Mirou o charuto ainda pela metade em sua mão e o jogou janela a­baixo, deliciando-se em ver a brasa rodopiar pelo espaço e ir diminuindo até explodir em mil fagulhas ao se chocar com o pavimento dez andares abaixo, no Shopping Center. “Tomara que tenha acertado a cabeça de um daqueles por­cos”, pensou maldoso.

            Satisfeito e bem-humorado, o banqueiro resolveu ir para ca­sa. Tudo corria às mil maravilhas. Tudo dentro do que planejara. Tran­cou a mesa, ligou os alarmas e saiu assoviando “Hava Naguila”.

 

O Kohai Violento

            Enquanto Kamuratti dirigia seu Ômega CD ouvindo no toca­-fitas o “Heveinu Shalom Aleichem”, em um sofisticado clube de praticantes de artes marciais Fratelli acabava de entrar no dojô trajando um kimono de karateca. Concentrado dedicou-se a fazer os exercícios de aquecimento sem prestar a mínima atenção aos companheiros. Gostava, amava a arte de matar com as mãos desarmadas. E era por isto que se tornara o mais aplicado e o melhor aluno de shidoshi Kimura, para desgosto deste. O mestre japonês não ensinava karatê com o objetivo de matar, mas sim co­mo uma arte de manter o corpo saudável, a mente ágil e a emoção contro­lada. Os temíveis golpes deveriam ser treinados tão-só como um meio de o praticante desenvolver uma percepção atilada, um reflexo ultra-rápido e total isenção do sentimento de medo ou de ódio. O aluno que assim fi­zesse o karatê experimentaria o indizível prazer de se sentir senhor de si mesmo. Olharia o fraco com complacência e o forte com altivez. A nenhum, entretanto, humilharia jamais. Não tremeria diante de nenhum perigo nem se curvaria frente a qualquer desafio. Kimura tinha 65 anos, era nono dan de Ai-ki-dô, décimo dan de judô, décimo terceiro dan de jiu-jitsu e sétimo dan de karatê. Era campeão oriental nestas artes, mas nun­ca machucara seriamente a nenhum de seus oponentes. Sempre que participara de um campeonato, seus adversários sentiam-se não somente honrados em combater com ele, como também seguros de que não seriam lesionados. E era o seu sonho passar esta filosofia a todos os seus alunos. A maioria seguia-a quase naturalmente, pois os brasileiros não tinham índole combativa. Possuíam a alegria contagiante que lhes legara o sangue africano, o que fazia deste povo o mais comunicativo e o mais feliz da Terra. Mas Fratelli, justamente ele, o melhor dentre todos, não dava a mínima importância aos ensinamentos filosóficos e humanitários do mestre. Dizia abertamente que arte marcial era a arte da guerra e na guerra mata-se pura e simplesmente. Quem não pudesse praticá-la, então, que ficasse em casa. Os que iam para o dojô deveriam ir preparados para matar ou morrer. O shidoshi olhava preocupado para seu a­luno mais aplicado. Ele praticava, agora, as técnicas de atemi. Seus socos eram rápidos, precisos e violentos, mesmo no saco de pancadas. A cada seiken o pesado saco era jogado para trás como se fosse cheio de plumas. O shidoshi captava o prazer sádico de Fratelli com os violentos gol­pes que aplicava no saco. Em um ser humano um só daqueles golpes arre­bentaria todos os órgãos internos do tórax como se fossem bananas madu­ras. Pulverizaria as costelas como se fossem de papelão e arrebentaria a medula espinhal como se fosse de geléia. Fratelli deu-se por satisfeito. Passou do saco-de-pancadas para o makiwara. Tomou a base kiba-dachi (cavalo) concentrou-se e disparou a mão direita lateralmente. O estalo foi como o de um chicote, mesmo o punho tendo-se chocado com o enrolado de cordas. O shidoshi já o vira quebrar três aparelhos daqueles. Ele  batia tanto com a faca da mão quanto com o punho fechado e as costas da mão voltadas para o makiwara. Os golpes se sucediam rápidos e numa seqüência cadenciada perfeita. Foram cinqüenta “shutos” com cada mão. Quase sem interrupção Fratelli mudou da base Kiba-dachi para a base Zenkutsu-dachi e passou a treinar seiken (soco) com a mesma violência. Mais cinqüenta seikens com cada punho e passou ao empi. A pancada com o cotovelo é uma das mais fortes do karatê. Seu treinamento requer habilidade e precisão caso contrário o discípulo pode machucar a própria coluna vertebral. No caso de Fratelli, ele era perfeito. “Seria bonito se não fosse tão che­io de maldade” pensou o Shidoshi. Ele esperou pacientemente que todos os alunos terminassem seus aquecimentos. Eram todos faixas-pretas e Kimura gostava de lhes ministrar os treinos. Se não fosse a ovelha negra chamada Enrico Fratelli tudo seria como o shidoshi sonhara.

            Finalmente todos se reuniram em formação no centro do do­jô e cumprimentaram o mestre. Kimura, antes de iniciar os ensinamentos, mais para Fratelli do que para os outros, falou.

            — A arte do karatê-dô nasceu de modo sangrento e veio do sa­crifício de mais de uma centena de escravos por parte de um príncipe, há cinco mil anos cristãos. O príncipe, para descobrir os pontos vulnerá­veis do corpo humano, após ter observado cuidadosamente os combates dos animais e dos pássaros, enfiava longas agulhas nos seus escravos e ob­servava quando elas lhes causavam a morte. Foi assim que se descobriram os pontos vitais do corpo humano. O príncipe ensinou aos monges budistas a sua técnica de combate a mãos limpas e eles se tornaram os maiores com­batentes da antiguidade, na China. Os monges aperfeiçoaram as técnicas descobertas pelo príncipe e as sistematizaram num código a que denominaram de I-Chin-Sutra. Os chineses aprenderam o I-Chin-Sutra e criaram, a partir dele, o Kempô. Três séculos mais tarde, um militar chinês, peri­to em Kempô, chegou a serviço na ilha de Okinawa. Ali divulgou o Kempô e os habitantes da ilha passaram a estudar e aperfeiçoar as técnicas ensinadas pelo chinês, criando o sistema que denominaram de Okinawa-tê, is­to é, “as mãos de Okinawa”. A ilha foi invadida pelos japoneses que proibiram os nativos de portarem armas. No entanto, “as mãos de Okinawa” se impuseram e passaram a ser respeitadas pelos nipônicos. Em 1869 nasceu, em Okinawa, o mestre Funakoshi-Gichin. Ele se dedicou ao estudo e à sistematização do “Okinawa-tê” e de seus estudos nasceu a nobre arte que hoje os senhores praticam — o karatê-dô. Em 1925 o mestre passou a ensinar o Karatê-dô nas Universidades de Tóquio, não somente como uma arte de matar, também como uma arte marcial aprimorada na filosofia Zen. E é assim que nós, aqui, praticamos o Karatê. Nossa arte nasceu na Índia e causou muito derramamento de sangue, até chegar a sua atual forma. Hoje nós, os mestres que a ensinamos, não fazemos isto com uma filosofia de morte. Nós a ensinamos para que o aluno aprenda a vencer o pior inimigo do homem: o animal assassino que traz dentro de si mesmo. Devemos res­peitar o corpo de nosso oponente, pois sem o empréstimo que ele faz de seu corpo para que possamos treinar, jamais poderíamos aperfeiçoar-nos. Somos fisicamente iguais. Os pontos fracos que nosso opositor tem nós também temos. Ferir de morte o nosso companheiro é cometer suicídio, pois ferimos a nós mesmos. A vitória em combate é pura ilusão. Aquele que hoje deixamos caído no dojô, vencido por nossa habilidade, pode muito bem vir a ser o vencedor do próximo encontro. E neste próximo encon­tro, nós é que podemos estar caídos como ele já esteve antes. Por isto, queridos filhos, jamais deveis orgulhar-vos de haverdes saído vencedo­res em um combate. Humildemente estendei vossa mão ao adversário momen­taneamente derrotado e o ergais com bondade e solicitude. A vossa dignidade de hoje permitirá a ele que também seja digno quando vos vencer. A vitória só se dá no íntimo de cada um. Ela é silenciosa e nunca é vista por ninguém, nem mesmo por aquele que a sente. Ela prescinde de luzes e aplausos. Ela se dá na solidão e no silêncio. Para encerrar, quero lem­brar a todos vocês que a única Vitória a permanecer para sempre é a que se consegue sobre a Ignorância. A Ignorância é a raiz do Medo e o Medo, por sua vez, é o combustível que alimenta a violência. Passemos, agora, à nossa lição de hoje.

                        E o Shidoshi entregou-se com prazer a explicar os golpes e contragolpes mortais da fascinante arte do Karatê-dô. Todos se aplica­vam e se esmeravam no aprendizado. A aula foi bem, até quando chegou o momento do jiu-kumitê (combate). O shidoshi observou de soslaio o seu aluno-preocupação, Enrico Fratelli. Ele estava vermelho e muito suado, graças aos exaustivos treinos daquela noite. Mas estava perfeitamente pronto para bater. Isto preocupava Kimura. Havia, entre os alunos, um médi­co nordestino, natural do Ceará. Era jovem, entusiasmado, muito técnico e aplicado. Mas seu treinamento profissional levava-o ao exagero de ja­mais aplicar golpes em partes capazes de causar dor, muito menos de le­sar, mesmo que de leve, o seu oponente. Pois este mesmo médico, no pe­núltimo jiu-kumitê acertara um Yoko-gueri-kikomi em Fratelli. E o apli­cara tão bem e com tanta precisão que o fanfarrão desmaiara. O próprio médico socorreu o companheiro. Mas este, ao despertar, repelira-o com a violência de sempre, redobrada pelo ódio de ter sido atingido. O shidoshi sabia que Fratelli ansiava por se defrontar com o companheiro a fim de ir à forra. Todos temiam isto. No jiu-kumitê os combates  eram sempre a duplas. O vencedor de uma dupla combatia contra o vencedor de outra, até que um só ficasse invicto. Isto levava sempre à confirmação do que o shidoshi frisara, naquela noite, antes de iniciar a aula. O vencido de um dia era o vencedor do outro dia, às vezes contra aquele mesmo que o derrotara. Isto visava manter nos alunos o espírito de humildade, evitando a tendência ao orgulho e à violência que o sentimento de poder dava aos neófitos na nobre arte do Karatê-dô. O shidoshi temia que o médico viesse a ter de defrontar-se com Fratelli. Havia a possibilidade, pois ambos  eram muito aplicados e muito bons.

            A primeira dupla foi rápida, Mauro, um mulato baixo e atar­racado, bloqueou todos os seiken aplicados por Jonas. Este, um jovem cla­ro, era muito hábil no uso das técnicas de kawashi-wasa (defesa) e forte, quando se tratava de utilizar as mãos. Mas não era hábil naquilo que mais destaca o karateca, a arte de empregar as técnicas  Ashi-wasa (pernas) e perdeu o embate com um belo mae-geri aplicado por Mauro.

            No segundo combate, Mauro liquidou o Lima com um golpe direto no plexo solar, mas no terceiro encontro perdeu com um ushiro-geri que lhe aplicou o Joca. Este, combateu com segurança contra o novato José — assim chamado por ter pouca experiência de combate e competições. Travou uma luta equilibrada com o Luis, derrotando-o após o terceiro encontro e tam­bém venceu o Lauro no segundo encontro. Campeão de sua chave foi para o combate com o médico Aquiles.

            O shidoshi sabia que Lauro era bom e rápido com as pernas. No entanto, não era páreo para Aquiles. Após uma bela troca de golpes no primeiro encontro, Aquiles derrubou seu oponente no segundo encontro com um chute circular que lhe atingiu a cabeça.

            Durante o jiu-kumitê o shidoshi observou que Fratelli manti­nha extremo cuidado na aplicação dos golpes. Seu primeiro combate ele venceu com um belíssimo seiken dado em contra-ataque na face de seu oponente. Fratelli poderia facilmente ter-lhe quebrado o nariz, mas preferiu desfe­rir o soco no lado esquerdo da face, atirando o oponente atordoado sobre o dojô. O segundo combate, Fratelli venceu com um preciosíssimo yoko-tobi­-gueri, um salto em pleno ar com uma perna esticada e outra dobrada. Não que fosse necessário, mas o homem gostava de exibir sua performance. O shidoshi constatou que, mais uma vez, o seu pupilo-problema podia ter ferido o companheiro gravemente, mas evitou a pancada violenta do pé na cabeça do outro. Preferiu atingi-lo de raspão, jogando-o de costas no dojô e caindo de pé ao lado dele, dando fortíssimo pisão no tatami próximo à cabeça do rapaz caído, indicando que se fosse para valer, ali ele teria morrido. O kiai que soltou, naquele momento, foi vibrante como o rugido de um leopardo. O terceiro combate Fratelli venceu com um golpe de pura exibição. Partindo de uma base zenkutsu-dachi fez um giro rápido como uma cascavel e ficou de costas para o seu oponente. Antes que aquele percebesse o que estava acontecendo, Fratelli aplicou-lhe o ushiro-gueri. O ponta-pé dado para trás tem um efeito demolidor e pode ser absolutamente fatal. Mas para es­panto de todos, Fratelli sustou o calcanhar no justo momento em que seu pé tocava o ponto situado sobre o lado lateral do peito esquerdo do compa­nheiro, a quatro dedos abaixo do mamilo. Ele ficou ali, parado, fazendo o kiai poderosíssimo soar na sala da academia. O quarto combate Fratelli o ganhou com um empi de velocidade controlada, mas forte o suficiente para lançar o companheiro desacordado no dojô. O shidoshi socorreu o rapaz que, felizmente, nada de mais grave sofrera.

            Agora estavam ambos, Aquiles e Fratelli, frente a frente, à espera do momento de lutarem.

            Um pesado silêncio foi tomando conta da atmosfera ambiental da academia. Sentia-se a eletricidade da tensão no ar. O caçador se con­trolara para poder ficar frente à caça e ali estavam. Fratelli olhava para o médico com um sorriso malicioso nos olhos, embora seus lábios perma­necessem firmes e cerrados fortemente. Aquiles estava aparentemente calmo e seguro de si. Sabia que o companheiro tinha más intenções, mas julgava­-se protegido porque estavam diante do shidoshi. Ele não seria estúpido o su­ficiente para se arriscar a ser mandado embora da academia. Por isto, Aquiles olhava para Fratelli tranqüilamente. Kimura levantou-se de seu banquinho e encaminhou-se para os vencedores da noite. Eles, em sinal de respeito, ajoelharam-se e colocaram as testas no tatami. Era uma tradição nipô­nica que Kimura fizera questão de manter entre seus alunos. O shidoshi ajoelhou-se ao lado dos vencedores e bateu palmas duas vezes. Os alunos ergueram-se e se mantiveram sentados sobre os calcanhares, de cabeças curvadas e mãos espalmadas sobre os joelhos. Kimura, então, falou.

            — Hoje tivemos uma exibição de técnica apurada e de controle emocional soberbos. Agora deveria haver o combate final para termos o vencedor da noite. Ele não se dará.

            Fez-se um longo e pesado silêncio. Kimura mandou que os lutadores se cumprimentassem e se retirassem do dojô. Aquiles obedeceu, mas Fratelli permaneceu sentado ereto, não respondendo ao cumprimento do ou­tro. Isto era um insulto a Kimura, um insulto absolutamente intolerável. O shidoshi estreitou os olhos de tal modo que pareciam fechados, a não ser pelo brilho que saía deles pela estreitíssima fenda entre as pálpebras.

            — Por que não cumprimenta seu colega? — indagou o shidoshi.

            — Porque eu quero o combate — respondeu Fratelli determina­do. — Se não combatermos aqui, no dojô, brigaremos lá fora. E lá, não ha­verá regras.

            Kimura soltou um poderoso rugido. Fora ofendido em sua hon­ra de mestre. Fora desobedecido. Aquele aluno precisava de uma punição. O shidoshi ficou de pé num salto. Quase que como se ligado a ele, Fratelli saltou pondo-se também de pé. Os movimentos foram quase síncronos.

            — Você quer combate? — e a voz do shidoshi soou surda.

            — Sim.

            — Combaterá contra mim — sentenciou o japonês.

            — Como desejar, shidoshi — respondeu Fratelli — mas, depois, o médico lutará comigo.

            — Não! — disse o shidoshi, irritado.

            — Sim — teimou Fratelli —, a menos que o senhor me liquide.

            Erguendo-se e curvando-se respeitosamente diante do shidoshi, Aquiles falou.

            — Mestre, meu companheiro deseja combater comigo. Sei que o ímpeto dele o levou a cometer uma ofensa inqualificável contra a sua autoridade, mas eu peço, humildemente, que me conceda a honra de lutar em seu lugar.

            — Não — respondeu, determinado, o shidoshi. — Fratelli me desrespeitou. Se eu não lhe der uma lição, ficarei mal comigo mesmo. Não se­rei mais digno de minha posição de mestre nas artes marciais. A discipli­na é inviolável entre nós. Minha honra não tem preço.

            — Não quis ofendê-lo em sua honra, mestre — falou Fratelli, sem humildade nenhuma —, porém o senhor me negou um combate sem razão aparente. A regra da academia é a luta final para que haja um vencedor. Como poderei saber se sou o melhor da noite, se o senhor me tira a oportunida­de? Eu quero o combate não para insultá-lo, mas para cumprir a regra.

Combate de faixas pretas.

Combate de faixas pretas.

            — Combaterá contra mim — sentenciou o shidoshi e fez um sinal com a mão mandando que Aquiles se afastasse e os deixasse a sós no centro do dojô. Aquiles obedeceu. O shidoshi cumprimentou o aluno e se posicionou em guarda. Fratelli começou a rodar cuidadosamente em torno do mestre. Estava atento. Seu coração batia forte de alegria. Há muito desejava bater­-se contra Kimura. Desejava saber o quão bom era e, sendo ele o mestre, Fra­telli sentia-se livre para atacar com toda a potência. Kimura sabia que o discípulo tentaria matá-lo. Atacaria com fúria e toda a potência de que se sentisse capaz. Era um homem perigoso e já conhecia o suficiente do karatê para matar mesmo alunos avançados. Por isto, observava-o globalmente captando cada mínimo movimento de seu corpo. E foi esta sua capacidade sutil de perceber, quase antever o ataque que o salvou. Como um relâmpago o aluno atacou. Rodopiando sobre si mesmo, Fratelli lançou o calcanhar con­tra a cabeça do shidoshi. Tinha a certeza absoluta que o acertaria. Podia até sentir o impacto e o crânio do mestre estalando sob o seu calcanhar. E estava antegozando a vitória quando seu pé zuniu no vazio, pois Kimura já não mais estava lá. Fratelli mal pôde ver o shidoshi quase colado entre as suas coxas, mas sentiu perfeitamente as mãos dele, uma segurando-lhe a coxa que girava no ar dirigindo a perna para o ponta-pé mortal e a outra segurando-lhe a cintura. Os toques foram suaves, como se o shidoshi estivesse tocando o corpo delicado de uma mulher. No entanto, Fratelli se sentiu impotentemente levantado sobre a cabeça do mestre que o jogou rodopiando de encontro à parede. O choque foi violento e doloroso. O aluno tombou sobre o dojô desajeitadamente e, nem mesmo tinha acabado de cair, percebeu o shidoshi vindo sobre ele do alto, punhos prontos para martelar. Mas Fratelli o surpreendeu. Não era o melhor aluno à-toa. Seu corpo — mais por reflexo do que por ato consciente — rodou rapidíssimo e o livrou do ataque. O shidoshi tocou o dojô fração de segundo após o aluno ter-se posto de pé e con­tra atacar. O golpe foi certeiro e violento. Foram dois rapidíssimos e violentíssimos seiken dirigidos ao tórax do mestre. Acertaram em cheio e Fratelli esperou vê-lo tombar sem fôlego. Mas nada disto aconteceu, para espanto do aluno. O mestre cambaleou e se deixou cair de costas para num movimento contínuo ficar de pé e barrar o avanço de seu aluno com um certeiro mae-gueri-kikomi.

            O ponta-pé frontal, dado no plexo do adversário com o calcanhar, pode matar. Mas o mestre não tinha a intenção disto. Dosou a pancada de modo a somente retirar o fôlego de Fratelli. Em seguida aplicou­-lhe o “shutô” (quina da mão) em bem dosada força, no lado externo es­querdo do pescoço, atingindo-lhe a parte média do músculo esternocleido­mastóideo. Fratelli sentiu violenta dor e a consciência lhe fugiu. Tombou como um saco vazio e ficou ali, estendido no dojô, sem que o mes­tre o socorresse.  Aquiles fez menção de se levantar de onde estava para ir socorrer o companheiro, mas foi detido por um imperioso gesto do shidoshi.

            — Ele voltará a si por seus próprios meios — disse Kimura. — Sentirá muita dor e não moverá o pescoço por algum tempo. O suficiente para pensar duas vezes antes de me desacatar. Vocês estão dispensados.

            Os alunos começaram a se retirar, impressionados com o combate que haviam assistido. Se o respeito pelo mestre havia duplicado, o medo a Fratelli decuplicara. Compreenderam que ele era um assassino instintivo. Tentara matar o shidoshi. Atacara com toda a violência de que era capaz. Nenhum deles teria condições de escapar com vida num combate para valer, contra Fratelli.

            Todos já haviam saído para o chuveiro quando Fratelli deu os primeiros sinais de que estava recobrando os sentidos. Uma profunda, lancinante dor no pescoço o fez soltar um gemido. Com muito cuidado mexeu a cabeça para a direita e para a esquerda. A dor aumentou de intensidade. Pestanejou e olhou em volta. Não viu ninguém. Estava sozinho. “Perdi o combate”, pensou de si para consigo. “Perdi. Nem mesmo vi como foi. O shidoshi é poderoso. Ainda terei muito o que treinar para po­der medir-me com ele”. Fratelli sentou-se com dificuldade. Trincando os dentes fez uma vigorosa massagem no pescoço. A dor diminuiu. Continuou a massagear o local da pancada até quando sentiu melhora. Foi para o chu­veiro quando todos já estavam saindo de lá. Tomou uma chuveirada demora­da e depois fez trinta minutos de sauna seca, a quase 60° de temperatura. A dor no pescoço melhorou muito. Da sauna foi direto para a massagista e se entregou às mãos de fada da moça. Quando foi embora já estava bem me­lhor. Podia mexer com a cabeça e a dor, quase não mais a sentia.

            “Estarei bom quando matar Kimura” — pensava Fratelli à di­reção de seu carro — “então, serei superior a ele. E quando isto aconte­cer, aqueles bobocas se verão comigo.”

Continua…