CAPÍTULO II – A HISTÓRIA SE COMPLICA (Terceira Parte)

 

Cantina Tarantella, onde se come os melhores pratos feitos com frutos do mar, à beira-mar da bela praia da Barra da Tijuca.

Cantina Tarantella, onde se come os melhores pratos feitos com frutos do mar, à beira-mar da bela praia da Barra da Tijuca.

Um Mau Presságio

            Naquela noite ele não foi para casa. Estava deprimido. Não digerira a punição que o shidoshi lhe aplicara. A humilhação diante dos imbecis da academia era demais. Para Fratelli, todos eram uns asnos, inclusive o shidoshi. “Arte Marcial é para matar. Quem gosta de balé que vá pa­ra o Teatro Municipal aprender coreografia. No dojô deve-se lutar para valer.” Um guarda trilou insistentemente o apito. Era com ele. Parou o automóvel de mau humor. O policial aproximou-se, cumprimentou-o e lhe pediu os documentos. Depois amolou-o revistando o carro para, então, aplicar-lhe uma multa por avanço de sinal. Fratelli saiu dali mais irritado e beligerante do que antes. Estava odiando o policial e lhe memorizou a face para, em outra ocasião, se vingar dele. Havia, em seu peito, um ódio a tudo e a todos, que ele não conseguia controlar nem sabia de onde vinha tanta raiva que, às vezes, o desorientava. Esta condição lhe irritava, pois constantemente vivia lutando consigo mesmo para se controlar. Talvez fosse patológico. Talvez ele fosse um assassino doentio, um psicopata sem cura. Mas era seu inferno íntimo, particular, aquela condição de estar sempre a ponto de explodir. Não tinha como se livrar daquilo e isto o desesperava.

Rodou sem destino. Terminou no “Tarantela”, na Barra da Tijuca. Permaneceu tamborilando os dedos na direção do automóvel, confuso, invadido por um furacão de emoções desencontradas, onde o ódio e a raiva ao shidoshi se misturavam com aquela raiva surda, violenta, dirigida ao guarda importuno. Finalmente, inspirando fundo e soltando o ar com força, decidiu descer do carro e se encaminhar para o belíssimo restaurante.

Tomou uma mesa no lado de fora do salão, no segundo andar. A brisa do mar era suave e fresca e isto lhe fazia bem. Ele não queria estar perto de ninguém e ali estava longe da maioria dos freqüentadores presentes no momento. Sua mesa era a mais isolada, mas situada próximo à amurada, deixando que descortinasse uma bela vista da orla marítima ainda selvagem e virgem. Da escuridão além lhe chegava aos ouvidos o quebrar das ondas na areia, como se convidando algum incauto a uma aventura perigosa nas águas traiçoeiras devido à forte correnteza da corrente marinha que passava pelas costas do Rio de Janeiro.

A Barra da Tijuca à noite.

A Barra da Tijuca à noite.

Não poderia dizer quanto tempo ficou ali olhando, sem ver, o mar no escuro. Bebericou uma sangria e comeu um Fetuchine aos quatro queijos. A irritação estava quase no fim, quando viu o automóvel de Aquiles parando no estacionamento. Pôs-se imediatamente em alerta. Lembrou-se de que era costume de seu “inimigo” freqüentar o “Tarantela” nos dias pares da semana. E ali estava ele para jantar, como de costume. O que levara Fratelli até a­li? O inconsciente ou o destino? Para ele tanto fazia. Chamava de “sorte” aquele encontro inesperado. Como um animal de tocaia permaneceu quieto e observando o casal. A moça era muito bonita. Cabelos claros, olhos escu­ros e corpo muito bem cintado, tinha pernas longas, curvas sensuais e que terminavam em nádegas arrebitadas, mas não exageradas. Os seios so­bressaiam na blusa colada, de malha. Os mamilos apareciam, sinal de que e­la sentia frio. “O ar refrigerado” — pensou Fratelli com um sorriso. — “O automóvel tem ar refrigerado“. Ele se dedicou a observar minuciosamente a acompanhante do detestado companheiro de dojô. Era jovem, esbelta, corpo bonito, lábios carnudos e muito bem pintados. Nariz afilado e sorriso en­cantador. “Bela potranca” — pensou o homem excitando-se ainda sem o perceber — “uma cavalgada de primeira linha…” — Este pensamento lhe trouxe a fantasia erótica. E a fantasia lhe trouxe um plano.

O Bairro do Leblon, à noite, no Rio de Janeiro.

O Bairro do Leblon, à noite, no Rio de Janeiro.

Eram vinte e três horas quando Aquiles deixou a namorada na portaria do edifício “MIOSÓTIS”, no Leblon. Beijaram-se e ele permaneceu olhando a moça entrar em casa. Depois, foi embora, feliz com aquele jantar. Glauce, irmã de uma repórter, em nada parecia com a mana. Era discreta, suave e amorosa. Cursava o último ano de mestrado em medicina e estava no último período da residência. Falava pouco da família e Aquiles achava engraçado que ela nem ao menos lhe houvesse dito o nome de sua fu­tura cunhada, nos seis meses em que se conheciam. Pretendiam casar assim que ela terminasse sua residência, o que ocorreria dentro de seis meses. O jovem Aquiles estava muito feliz com a noiva. O modo pacato, discreto e compreensivo de ser de Glauce casava muito bem com as maneiras refinadas, educadas e um pouquinho misantropas de Aquiles. Os pais de sua noiva moravam no Rio Grande do Sul e eram donos de vinícola. Aquiles estivera com eles duas vezes. Eram descendentes de italianos — o que tornava os modos de ser de Glauce muito sui generis. Eles falaram muito de Karina, a irmã jornalista de Glauce. Pelo que eles havia dito, Karina era totalmente contrária a Glau­ce. Nela, o sangue italiano havia dominado plenamente. Irrequieta, impaciente e estouvada. “Vou gostar de conhecer a moça” — pensou Aquiles, sor­rindo, “um contraste que vem bem estimular nossas vidas. Repórter polici­al… O que fará uma pessoa destas? Será que sobe morros e… e faz reportagens beócias como aquelas do “Na Onda do Crime”, do Canal 13? Se faz, bem… pelo menos terá coisas interessantes a contar.” E foi mergulhado nestas divagações que o jovem chegou a sua casa. Guardou o carro na garagem, entrou e foi direto para o chuveiro. Banhado e perfumado, consultou a secretária-eletrônica para ver se havia algum recado. E foi aí que sua felicidade e alegria daquela noite ficaram perturbadas. No aparelho não havia qual­quer chamada ou qualquer recado de paciente — o que era raro — mas Aquiles, quando ia desligá-lo, ouviu, súbito, uma gravação. Após o sinal da secretária, uma voz sussurrada e, por isto mesmo difícil de identifi­car, dizia: “Quando passeava por uma gruta da Acrópole, em Atenas, a Jovem Creúsa, bela donzela, foi violentada por Apolo, o belo deus do ca­lor e da vida… Cuidado com Apolo…”

            Aquilo deixou o médico perplexo. Não tinha nenhum nexo e, no entanto, deixara-o tenso. Ouviu por mais de uma dezena de vezes a estranha mensagem sem compreender onde quem a deixara queria chegar. Não conhecia nenhuma Creúsa. Não conhecia nenhum Apolo. Não era médico psiquiatra para receber mensagens de algum neurótico em crise. Tomado de um pressenti­mento mau, ligou para Glauce. A moça atendeu com voz sonolenta.

            — Alô?

            — É você, meu bem?

            — Aquiles?! O que houve? Eu já estava dormindo…

            — Bem… Nada. Tudo em ordem?

            — Por que me telefona para perguntar isto? É claro que es­tá tudo em ordem… O que houve?

            — Bem… Eu… — Aquiles não sabia o que dizer. Era impos­sível que qualquer coisa tivesse acontecido com sua amada. O prédio onde possuía seu apartamento era muito bem guardado. Possuía alarmas e câmeras de vigilância e ela morava no décimo quarto andar. Não era lógico temer que algo lhe houvesse acontecido… E no entanto, uma angústia con­frangia-lhe o peito.

            — Meu amor… O que há? — insistiu Glauce.

            — Senti saudades — mentiu o rapaz, rindo mais de vergonha de si mesmo do que pela mentira que dizia.

            — Que bom. Mas… que tal irmos dormir? Já é tarde e tere­mos um dia cheio, amanhã.

            — Você está certa… Durma bem.

            Aquiles desligou o aparelho. Tudo estava bem com sua amada e, no entanto, seu peito continuava pesado, fechado, angustiado. Revirou-se na cama quase a noite toda, sem conciliar o sono.

*   *   *

O Tigre na Caçada

            Cícno e Fílio seguiram as pessoas que lhes foram destinadas por Kamuratti. Por três dias estiveram colados nelas. Mas nada, absolutamente na­da de suspeito conseguiram levantar.

            Fratelli também nada descobrira sobre duas das pessoas sus­peitas. Mas um tal de Celso lhe despertara o instinto. Era um homem polido, educado, bem falante e um advogado bem sucedido. Amigo de Anteu, parece que trabalhavam juntos em alguns casos de destaque. Fratelli conseguiu com habilidade e discrição, e, lógico, através de gordas propinas, saber de quase todos os processos em que ambos os advogados trabalhavam. E ne­nhum deles tinha nada de suspeito. Acidentalmente, contudo, quando estava na cantina do Fórum, onde muitos advogados se reuniam comentando os pro­cessos de que cuidavam, ouviu a palavra FRUTIBRAS. Procurou descobrir de qual boca havia ela saído. Na mesa estavam quatro homens conversando. O assunto era exportações e pelo menos dois deles mencionaram novamente aquela firma. Davam-na como um exemplo de correção.

            — Com licença — intrometeu-se Fratelli — ouvi vocês mencio­narem a FRUTIBRAS. Não é uma firma em que o Dr. Anteu tem negócios?

            — Eu não sei — disse um dos interpelados.

            — Eu, também, não — confirmou outro.

            — Nem eu — ecoou um terceiro.

            — Quem lhe disse que o Dr. Anteu tem negócios com a FRUTI­BRAS? — indagou o quarto advogado.

            — Não, ninguém particular. Certo dia eu estava no eleva­dor e ele entrou. Conversava com outro advogado e falavam sobre a tal firma que vocês citaram. Parece que estavam muito bem impressionados com ela — mentiu Fratelli.

            — O colega é especializado em quê? — indagou um dos homens.

            — Direito Empresarial — respondeu Fratelli.

            — Oh, entendo o seu interesse na FRUTIBRAS. Mas, meu amigo, se o Dr. Anteu está na jogada, desista. Os donos da empresa não vão trocá-lo por outro advogado, disto temos a certeza. O Dr. Anteu é muito respeitado pelos seus clientes e eles confiam muito no trabalho dele e de sua equipe — disse o mais velho dos quatro outros advogados.

            — Bem… a gente sempre pode tentar. Quem sabe, há algo que se possa fazer…? — disse Fratelli, simpático.

            Todos riram. Fratelli pediu licença e se levantou. Havia notado, observando de soslaio, que o tal Celso estava sentado próximo a eles e estivera o tempo todo atento à conversa. Olhava de modo direto para ele como se quisesse gravar suas feições. Levantara-se tão logo Fratelli dera por encerrada a conversa e saíra muito rápido. Bem, podia não ser nada e ele talvez perdesse tempo em seguir o homem, mas por via das dúvidas…

            Celso foi direto para o rico escritório de Anteu. Fratelli, é claro, não tinha como entrar lá, mas aquele comportamento lhe pôs um elefante atrás da orelha. E foi por isto que tratou de levantar a vida do homem. Mas justamente aí foi que a coisa ficou complicada. O tal Celso não era fácil de ser rastreado. Embora advogado e estando quase todo o tempo no Fórum, não cuidava de nenhum processo em particular. Era escorregadio, excelente na arte de “desaparecer” e por várias vezes deixara Fratelli perdido no reboliço daquele labirinto. Uma vez, Fratelli o seguira pela cida­de. Mas tivera o azar de ser parado por uma patrulha policial e, quando finalmente se desembaraçou dela, o homem havia sumido. Fratelli começou a desconfiar de que havia uma coincidência muito estranha entre as batidas policiais e aquele homem. Sempre que ele o seguia, invariavelmen­te a polícia, de um ou outro modo, interferia em seu caminho e o tal Celso escapava.

            Fratelli tinha influência no DETRAN, o Departamento de Trânsito. E foi lá, através de um informante, que veio a descobrir a verdadeira identidade do homem que já o intrigava há quase três dias. Ele era um banqueiro de bicho, o mais rico e o mais influente entre os grandes testas-de-ferro do crime organizado. Aquilo o preocupou. Será que o filho do patrão sabia quem era o seu amigo? Se sabia, andaria metido com os crimes na cidade? Fratelli resolveu que era hora de informar ao Sr. Kamuratti. De um telefone público fez a chamada para o banqueiro. Este atendeu.

            — Sou eu, Fratelli — identificou-se o advogado — acho que tenho notícias interessantes.

            — Pois informe — disse, seco, Kamuratti.

Fratelli contou o que sabia a respeito do tal Celso. Kamuratti não o interrompera nem uma vez. Ao final, disse impositivo:

            — Venha, hoje, às vinte e duas horas, ao meu escritório. Venha só.

            Fratelli olhou o relógio. Eram dez horas e vinte minutos e ele não tinha muito que fazer. O Celso estaria, como sempre, zanzando pelo Fórum, aparentemente muito ocupado, mas na verdade fazendo apenas a cena habitual. Talvez tomasse informações sobre o andamento dos proces­sos que lhe interessavam sobre jogos ou sobre alguns de seus asseclas. Até que tivesse recebido orientação específica do Sr. Kamuratti nada ti­nha a fazer. Estava contente. Desde que viera ficar a serviço da família, nunca fôra colocado em trabalho leve.  Ficou de pé olhando para a rua onde uma mole humana suava e se agitava no calor do verão carioca. Uma jovem de mini-saia e cabelos a la Elba Ramalho, sapatos pretos de modelo infantil lhe chamou a atenção. A moça logo sumiu de vista, mas sua imagem ficou na mente de Fratelli. E foi graças a ela que terminou por se recordar da noiva de seu desafeto. O homem consultou novamente o relógio. Agora, eram dez horas e vinte e oi­to minutos. Ela se chamava Glauce Pinheiro Lauriel e trabalhava no hospital escola, na Urca. Quando saia de lá, à noite, atendia num consultório. Fazia especialização em neurocirurgia, mas era também uma excelente clí­nica geral. Tanto que estava quase conseguindo ser chamada para uma das mais conceituadas clínicas da cidade para assumir a direção da área de cirurgias. Fratelli riu de si para consigo. Colocou mais um cartão no telefone e ligou o número do hospital. Logo ficou sabendo que a Dra. Glauce não estava de plantão  naquele dia. Talvez estivesse na residência. Lá lhe informaram, contudo, que Glauce havia tirado o dia para sair. Talvez houvesse ido visitar o noivo, o Dr. Aquiles. Fratelli ligou para a clínica onde Aquiles trabalhava e era Diretor da Área Médica. Não, Glauce não havia chegado lá. Ele somente se identificou como um paciente da doutora, mas não deu seu nome. Disse que telefonaria depois. À falta do que fazer, Fratelli decidiu vigiar Anteu e o tal Celso.

O Almoço das Irmãs

            Glauce encontrava-se, naquele momento, diante da portaria da redação de “EL MONDO” e aguardava a irmã. Tivera a sorte de encon­trar Karina na redação. Geralmente ela estava pela rua, atrás de alguma notícia ou pesquisando uma informação. Teve de esperar trinta minutos antes de ver a irmã sair do elevador.

            — Puxa vida! — exclamou Glauce, sorrindo. — Como você é difícil, mana.

            — Não mais do que você — respondeu a bela moça de esta­tura mediana, olhar arguto, sobrancelhas espessas, mas muito bem trata­das, corpo de linhas acentuadas, esbelto e firme de musculatura. Boca e nariz eram quase cópias perfeitas daquelas partes na irmã médica. A re­pórter era levemente mais baixa em altura e seus cabelos eram de um castanho mais escuro. Enquanto a médica estava, como de hábito, toda de branco, a repórter trajava um leve vestido azul-claro sem mangas e com um decote muito forte. O tronco dos seios sobressaía de modo provocan­te e era perfeitamente visível que não estavam presos por sutiãs. Calçava sapatos com saltos tipo Luis XV, um tanto fora de moda, mas que punham em destaque um par de pernas de meter inveja a Vênus.

            — Então, o que a traz aqui? — indagou Karina, após beijar a irmã nas faces.

            — Estou de folga e só vou encontrar o meu noivo à noite. Daí pensei em almoçarmos juntas. Que tal? — convidou Glauce.

            — É uma excelente idéia, mana — respondeu, satisfeita, a repórter — Temos um bocado de coisas a falar.

            Pouco depois elas saíam conversando animadamente. Tomaram um taxi e foram zanzar pelo Rio Sul. Ali, tomaram lugar numa agradável e refrigerada lanchonete e pediram uma refeição rápida. Enquanto espera­vam, conversavam.

            — E então —, indagou Karina — o noivado está mesmo de pé?

            — Claro — disse Glauce. — E nos casaremos assim que eu terminar minha residência. Daqui a seis meses, para ser mais exata.

            — E aonde vai ser a festa?

            — Não vai haver. Queremos algo discreto. Aquiles é um ho­mem retraído e não gosta de festas. Eu quero que façamos a coisa lá na vinícola. Nossos pais, acho eu, vão gostar.

            — Eu aprovo a idéia — disse Karina, tomando um gole do copo de chope gelado.

            — Você vai estar lá, não vai? — quis saber Glauce.

            — Claro que vou. Preciso conhecer este cunhado misterioso e não terá melhor oportunidade que esta. Afinal de contas eu não sei se depois disso a gente vai encontrar-se mais vezes. Temos trabalhos seme­lhantes quanto ao tempo em que nos toma, mas dessemelhantes quanto aos interesses e objetivos. Acredito que nunca iremos estar ao mesmo tempo, no mesmo local, não é?

            — Não sei, não. Meu futuro marido é ortopedista. Quem sa­be, um dia…

            — Ele venha a tratar de minha perna quebrada por uma bala? — riu a repórter.

            — Não, mana, não desejo que isto aconteça — rebateu Glauce, constrangida.

            — Era brincadeira. Mesmo porque, se acontecer, o jornal tem sua equipe médica, sabia?

            — Quem falou em perna quebrada foi você, não eu — disse rindo a médica.

            — É, tem razão… E onde pretendem passar a lua de mel?

            — Em uma ilha, mas não vou revelar qual seja — brincou a médica, brejeira..

            — E por que não?

            — Para que não tenhamos uma equipe de seu jornal atrás de nós — zombou Glauce. Ambas riram. O garçom substituiu os copos de chope gelado. As moças continuaram a bebericar até quando o almoço foi servido.

            — Parece bom — disse Karina.

            — Veremos logo — falou a médica. Houve um silêncio entre as duas e Glauce percebeu que sua irmã queria dizer alguma coisa, mas parecia hesitar. Enfim, decidiu-se.

            — Sabe com quem estou saindo? — perguntou a repórter.

            — Não. Não tenho tempo para bisbilhotar sua vida — foi a resposta divertida de sua irmã.

            — Conhece… ou já ouviu falar dos Kamuratti? — E os olhos da repórter perscrutaram atentamente a reação facial da médica, mas esta não demonstrou surpresa nem outra emoção qualquer.

            — Não — foi a resposta simples e dita sem entonação emocional. Karina levou uma garfada à boca e comeu, em silêncio. Então, voltou a falar.

            — Você é mesmo desligada, mana. Os Kamuratti são os donos do Banco Kamuratti.

            — Você está saindo com um banco inteiro? — brincou Glauce.

            — Não, claro que não. Eu saio com Anteu Kamuratti — e Karina estava séria. Sabia que sua irmã era discreta e tinha certos preconceitos com aventuras passageiras. Tradição da educação familiar que ambas tinham recebido.

            — O herdeiro? — admirou-se Glauce, depois de um silêncio durante o qual estudou cuidadosamente o rosto da irmã.

            — Sim. Ele mesmo — e Karina não ousou olhar nos olhos de Glauce. Desconfiava que ela interpretaria tudo erradamente.

            — Um golpe do baú? Tome vergonha…

            — Nada disto, sua boboca. Ele é um homem interessante. Um judeu… Descendente, para ser mais exata. Mas alguém que não é muito a­pegado às tradições da raça.

Glauce permaneceu calada, olhando para a irmã e com uma porção de alimento no garfo suspenso a meio caminho da boca. Então, falou com entonação de alívio.

            — Ainda bem que não é um golpe. Mas… Judeu? — Disse a médica, dando início ao almoço com bom apetite.

            — Por que? — indagou Karina, seguindo-a.

            — Eu não conheço bem os judeus, mas acho que se trata de um pessoal esquisito. Só uma vez tratei de um paciente judeu e não foi uma experiência boa, com relação à família. Eles me pareceram muito… Como direi? Muito racistas… separatistas… preconceituosos. Acho que é isto.

            — Bem, concordo que parecem esquisitos para os nossos cos­tumes. Mas nossos ancestrais, os tupis, também pareceram esquisitos aos nossos descobridores. Eles devoravam seus vencidos…

            As duas riram sem se olharem.

            — E quem foram os nossos descobridores, posso saber? — Provocou a médica.

            — Dizem que os portugueses — falou Karina de boca cheia.

            — Mentira. Muito antes deles os vikings já andavam por es­tas terras. E bem antes deles, os egípcios e, há quem afirme, os atlan­tes. Ultimamente, afirmam que também os esquimós, de quem nossos indígenas herdaram suas características genéticas — rebateu Glauce demonstrando um bom conhecimento da História que a História não conta.

            — É, em matéria de História, nosso País é uma mentira só — filosofou a repórter. — Isto que você diz não se encontra nos livros didáticos, só em museus e em livros que não são indicados para os adolescentes. Para eles, a mentira assentada há séculos como verdade. Acho que é por isto que este país é como é.

            — Por isto sugiro que deixemos de lado esta parte e volte­mos ao seu judeu — falou rindo, Glauce.

            — Tudo bem. Anteu é um advogado brilhante. E uma companhia muito interessante, se quer saber. É fino no trato, suave no falar e muito cor­dato. Uma excelente companhia.

            — Você está mesmo apaixonada por ele, está? — e Glauce parecia muito surpresa.

            — Eu não disse isto — apressou-se a desfazer o mal-enten­dido, a repórter.

            — Bem, mas o seu entusiasmo…

            — É profissional. Só profissional.

            — E como se explica um entusiasmo profissional neste caso?

            — Simples. Ao que parece, Anteu não concorda muito com os métodos dos Kamuratti no que tange a negócios.

            — E daí?

            — E daí, acredito que vou descobrir uma grande reporta­gem, ora essa — disse Karina, tornando a encher a boca com apetite.

            — Você está-me dizendo que está usando o tal de Anteu para conseguir um “furo” jornalístico, é isto? — censurou a médica.

            — Sim… Quem sabe? Parece que Anteu quer contar-me algo. O quê, eu nem desconfio. Mas quando ele está menos tenso deixa escapar que discorda frontalmente com certas… Certos negócios do Banco. Desconfio, não estou certa, de que são negócios não muito éticos, se me entende.

            — Karina — e Glauce parou de comer para falar olhando mui­to séria para a irmã – você não sente que pode jogar o tal Anteu em uma situação muito delicada, se vier a publicar o que quer que ele lhe confidencie?

            — Não. Talvez ele deseje mesmo que eu publique a coisa. Só que de modo a não comprometê-lo, é claro.

            — E há como fazer isto?

            — Pode ser. Tudo vai depender da importância do que tenha a me revelar.

            — Ele não está apaixonado por você, está?

            — Não sei, e não me preocupo, se quer saber.

            — Acho horrível você não levar em consideração os sentimentos dos outros.

            — E quem disse que eu não os levo?

            — Ora, você parece estar jogando charme em cima do pobre homem — disse Glauce, contrariada.

            — Não, engano seu. Eu não me comporto coquetemente com ele­ — rebateu Karina. — Se se apaixonar… é problema dele, não meu.

            — É… Nossos conceitos de ética são mesmo muito diferentes — disse a médica.

            — Não vamos entrar por este caminho. É espinhoso. Que tal…

            — Que tal o quê? — quis saber Glauce.

            — Que tal a gente pegar um filme? Dizem que o JURASSIC PARK é muito interessante. Vamos?

            — Bem… Tá bom. Eu preciso mesmo me distrair. Não vou a um bom filme há muito tempo — concordou a médica.

            As moças terminaram o almoço e continuaram conversando ain­da por algum tempo. Depois, saíram para dar uma volta pelas lojas enquanto esperavam a hora do filme começar.

Continua…