CAPÍTULO II – A HISTÓRIA SE COMPLICA (Quarta Parte)

Às vezes a gente se sente impelido a fazer algumas coisas, a adotar certos comportamentos, que nos levam a riscos que nem imaginávamos...

Às vezes a gente se sente impelido a fazer algumas coisas, a adotar certos comportamentos, que nos levam a riscos que nem imaginávamos…

O Tigre Persegue a Presa

            Dezoito e trinta. Sentado em seu automóvel Enrico Fratelli aguardava pacientemente que algo acontecesse. Anteu havia entrado num hotel. Estava acompanhado do tal Cel­so e de um homem de aparência eslava. Embora não tivessem desaparecido de vista há mais de vinte minutos, Fratelli já sentia como se o tempo decorrido fosse de mais de hora. Ele era homem de ação, não de espionagem e vigilância. Queimava de impaciência e de curiosidade pa­ra ir lá dentro descobrir mais alguma coisa, mas temia pôr tudo a perder. Se isto acontecesse, Kamuratti iria ficar uma fera e Fratelli não que­ria a ira do seu patrão voltada contra si. Kamuratti era um polvo de muitos tentáculos. Poderia alcançá-lo no fim do mundo, se assim o desejasse. Consultou o relógio talvez pela centésima vez. Bocejou. Espreguiçou-se e estava quase resolvendo agir, quando viu o carro de Glauce passar. Seu enfado cessou instantaneamente. Também sumiu seu interesse pelo trio que até aquele momento lhe tinha prendido a atenção. Ligou o carro e seguiu, devagar e de faróis apagados, atrás do automóvel da médica. Ela não no­tou que era seguida. Entrou calmamente na garagem e não deu importância quando viu pelo retrovisor que outro carro quase colado ao seu também ali entrava. Às vezes, algum jovem fazia esta gracinha. Aproveitava a abertura automática da porta da garagem para penetrar junto com o outro car­ro. Uma demonstração de habilidade.

            Glauce estacionou na sua vaga e vislumbrou o automóvel es­tranho parando cinco vagas além da sua. Estranhou. Aquela vaga era de um senhor sisudo, morador do quinto andar. E o carro dele não era aquele. Ficou um momento aguardando para ver quem desceria do automóvel, mas como a pessoa demorasse, deu de ombros e dirigiu-se para o elevador. Sua curiosidade poderia ser-lhe embaraçosa, se a pessoa notasse que ela estava aguardando para vê-la. Afinal de contas, o senhor sisudo bem que po­deria ter trocado de automóvel, por que não?

            O elevador chegou e ela entrou. Abriu a bolsa e estava procurando a chave quando um estranho também conseguiu entrar no elevador a tempo de impedir que as portas se fechassem. Glauce assustou-se, mas o sorriso simpático daquele homem forte e muito bem vestido tranqüilizou-a e ela voltou a rebuscar na bolsa à procura das chaves.

            — A senhorita não é a Dra. Glauce, é? — perguntou com voz sonora o homem.

            — Co…? Oh, sim, sou sim — disse Glauce, olhando-o curio­sa.

            — Permita que me apresente. Sou Eurico Fragoso. A senho­ra tratou de um amigo meu, há alguns dias. Fez um grande trabalho no braço dele — disse Fratelli.

            — O que tinha o seu amigo? — indagou, curiosa, Glauce.

            — Sofreu uma ruptura dos tendões da mão esquerda. Acidente de automóvel. A senhora e sua equipe fizeram a intervenção cirúrgica — informou Fratelli todo sorriso.

            — Bem.., Na verdade eu faço uma dezena de intervenções durante a semana. Acho que não me lembraria de seu amigo, desculpe — dis­se Glauce. O elevador parou no seu andar e ela saiu. Fratelli fez a mesma coisa, de modo natural.

            — Parece que vamos para o mesmo andar — disse ele, ainda com aquele sorriso cativante.

            — É… — Glauce, sem compreender o motivo, sentiu-se apreensiva. Eram quatro apartamentos por andar. O hall era pequeno, lo­go, o simpático estranho não podia demorar muito para localizar aquele a que se dirigia. Glauce parou um instante rebuscando a bolsa, vigiando de esguelha o homem. Este, olhava os números nas portas como se procu­rando um especial. Retirou um cartão do bolso e consultou cada porta a olhar o cartãozinho na mão. Estava de costas para Glauce. Ela aprovei­tou para encaminhar-se para o seu apartamento, mas antes que o fizesse o celular soou dentro da bolsa. Atendeu-o ali mesmo. Era Aquiles, mas Glauce fingiu estar recebendo uma chamada urgente do hospital.

            — Sim?… Ah, é você? … Oh, está bem. Estou indo agorinha mesmo… Não, não.  Eu estava chegando… Não precisa. Eu estou des­cendo. Até logo.

            O elevador ainda estava no andar. Glauce apertou o botão e as portas se abriram. Ela entrou e o homem simpático fez a mesma coi­sa.

            — Acho que errei de edifício – disse ele, com um ar emba­raçado — Este não é o Edifício Gerânios, pois não?

            — Não — respondeu ela, aliviada — este é o “Miosótis”. O Gerânios é ao lado, à direita.

            — Oh, que maneira desastrada de chegar a casa — comentou o rapaz. — Eu aluguei o apartamento 1402 no “Gerânios”…

            — Ora, que coincidência — comentou Glauce impulsivamente ­— Seu apartamento tem o mesmo número do meu — mal o disse e já se arre­pendia.

            — É mesmo? Isto pode significar sorte para mim. A pro­pósito, vou precisar de sua ajuda para sair da garagem. Eu aproveitei a sua carona para entrar nela e… Bem, não tenho o comando para o portão e, sem ele, fico preso aqui. Vai ser difícil explicar como vim parar na garagem, não é?

            Glauce riu, descontraindo-se. — Sim, tem razão, Mas saia como entrou: atrás de mim.

            — Obrigado — disse Fratelli. O elevador chegou ao andar da garagem e ambos saíram dele. Cada qual se dirigiu para o seu automóvel.

            Já na rua, Fratelli manteve-se acompanhando o carro da mé­dica por algum tempo, sabendo perfeitamente que era observado por ela através do retrovisor. Sabia que a moça estava tensa, desconfiada e confusa. E era sua intenção manter aquela situação por mais tempo. O au­tomóvel dela acelerou e aumentou a distância entre eles. Fratelli soltou um riso mau e também acelerou, quase indo bater no pára-choque traseiro do automóvel de Glauce. Ela estava assustada. Tinha os  olhos presos no retrovisor e a manobra do homem quase a fizera perder o controle de sua direção. O carro por pouco não desgovernou e bateu na lateral de um ônibus. O coração de Glauce disparou e sua boca ficou seca. Relanceou os olhos procu­rando um guarda de trânsito, mas não havia nenhum à vista. O automóvel de seu perseguidor emparelhou com o seu. Assustada, Glauce olhou para den­tro dele. Sorridente, lá estava o homem.

            — Hei, doutora — gritou-lhe ele – boa sorte! Vou entrar na próxima rua. Nós nos veremos qualquer dia destes. Não esqueça: meu nome é Eurico!

            O automóvel dele fez uma curva rápida, embarafustando-se pela rua lateral e desaparecendo de vista. Glauce suspirou aliviada. Seu nervosismo decresceu. “Puxa vida, estou começando a ver coisas” dis­se de si para consigo. “Também, com o banditismo que assola esta cidade é impossível a gente não desconfiar de certas situações…”. Consul­tou o relógio, Tinha tempo. Estacionou o auto e fez uma ligação para seu noivo.

            — Aquiles?

            — Sim, sou eu. O que aconteceu?! Eu não entendi nada! Você parece que me confundiu com alguém do hospital… Onde está?

            — Desculpe, querido. Eu estou voltando para casa. A liga­ção estava ruim. Pensei que fosse o enfermeiro-chefe me chamando de vol­ta. Estava preocupada com um paciente meu e…

            — Tudo bem, acho que entendo. Eu passo por aí para pegá-la.

            — Ótimo! Vou tomar um banho. Estou muito cansada. Tchau!

            Glauce retornou ao apartamento, mas desta vez olhou cuidadosamente para ver se havia algum auto estranho atrás de si. Nada. A rua estava tranqüila.

*   *   *

            Eram vinte e duas horas em ponto. Fratelli entrou no rico escritório de seu patrão. Ele estava lá, sentado atrás da escrivani­nha, parecendo muito atarefado com uns papéis.

            — Entre e sente-se, Fratelli — disse Kamuratti sem se dig­nar a olhar para o subordinado, que lhe obedeceu a ordem em silêncio. Após quase meia-hora, pacientemente aguardada em quietude completa por Fratelli, Kamuratti deu-se por satisfeito e passou a lhe prestar atenção.

            — Muito bem. Então, o misterioso Sr. Celso está-se metendo com o Anteu ­— disse o banqueiro, olhando incisivamente para o assecla.

            — Sim, Senhor Kamuratti — respondeu Fratelli sem se mover.

            — E.,. Sabe dizer se Anteu conhece a verdadeira identida­de do bicheiro?

            — Ele é um banqueiro de bicho, senhor. Eu não posso afir­mar que o Dr. Anteu saiba disto. Mas…

            — Mas…?

            — Mas não acredito que desconheça o fato totalmente.

            — Você tem razão. Anteu não desconhece esta particularidade de seu amigo. Descobriu isto faz pouco tempo. No entanto, há outras… variáveis que eu não quero que meu filho descubra, pelo menos por agora. Você vai encarregar-se de uma missão estranha, mas necessária. E advirto que o sigilo deve ser absoluto.

            — O senhor sabe que eu não costumo quebrar segredos — disse Fratelli, com voz monocórdia.

            — Sim, mas é bom sempre lembrar que a indiscrição pode resultar em conseqüências dolorosamente funestas — disse com voz soturna o banqueiro. E passou a informar sobre o que devia ser feito. Falou durante quase uma hora, sem ser interrompido pelo assecla, que o escutou com toda atenção.

            — Compreendeu tudo? — finalizou Kamuratti.

            — Sim, senhor.

            — Alguma pergunta?

            — Não, senhor. Não sou pago para fazer perguntas, mas para executar ordens.

            — Então, mãos à obra.

            Fratelli levantou-se, cumprimentou Kamuratti com um leve e quase imperceptível curvar de cabeça e saiu a passos firmes e longos. Já passava da meia-noite, mas o assecla não se dirigiu para casa.

*   *   *

Um Desconhecido no Baile

            O local era pesado. A barulheira, enorme. A freqüência muito ruim, constituída por indivíduos jovens, arruacei­ros, adeptos do “funk” e da pancadaria. O baile estava no auge. A turba­multa rodava o salão ao som alucinante de uma música  cheia de in­sultos e palavrões. A droga rolava à solta. O bairro é Madureira, no Rio de Janeiro. Sentia-se o perigo no ar, como se a atmosfera fosse fei­ta de pura nitroglicerina a qualquer momento pronta para explodir. Tem­perando o ambiente de tensão, o calor fazia o suor escorrer pelos corpos luzidios e musculosos. Um homem branco, jovem e de musculatura trabalhada pela “malha­ção” atacou uma negra de belo corpo. Meteu-lhe a mão pela calcinha, en­quanto suas línguas se embolavam dentro das bocas como cobras em luta. Na mesa ao lado, um mestiço caía quase em coma sobre o pó que estava aspi­rando do tampo sujo da mesa. Um jovem rodopiava feito doido no meio do salão, pernas e braços para o alto e as costas no chão. Em torno dele outros quatro se esmeravam em saltos acrobáticos e pulos mortais, soltando gritos selvagens. Àquilo chamavam de baile “funk”. Na verdade, era a pu­ra sucursal do inferno na Terra.

            Ninguém deu a mínima atenção ao homem barbudo, cabelo encarapinhado, um feio corte de navalha na face direita e um bigode maltratado debaixo do nariz de abas largas. Era alto, muito forte e coberto de colares no pescoço. Foi direto para o balcão apinhado de maus elementos. Meteu-se entre eles, empurrando-os com maus modos e despertando logo a irritação daquela gente perigosa.

            — Hei – protestou um negro jovem, mas muito mais troncudo, muito mais volumoso que o recém-chegado — tá a fim de quê, cumpade? Se liga!

            — Sai fora — rugiu o homem mal-humorado.

            — Tu vai se dar mal — gritou o negro, mais para ser ouvido do que por raiva.

            — Não vou não. E se você for esperto e me ajudar num negó­cio, nós vamos é nos dar bem — respondeu o homem, também aos gritos.

            — Que qui tu tá querendo falá, cumpade? — e em volta do negro musculoso já se formara um pequeno grupo, pronto para cair de pau no intrometido.

            — Preciso de cinco machos decididos. Alguém aí tem bagos? — disse, rude, o homem.

            — Tá querendo verificar, é? — ripostou debochado um dos outros mulatos que haviam fechado uma roda em torno dos dois.

            — Tô. Mas não tô a fim de botar a mão no saco de ninguém ­— falou o homem mal-encarado, olhando de frente para o jovem arrogante.

            — E se eu quiser qui tu pega aqui no Esperidião Amim, heim cumpade, o quê qui tu vai fazê? Vai me encarar, vai? — desafiou o jovem.

            — Não. Eu te mando pro inferno — foi a resposta seca e du­ra. Os jovens arruaceiros se entreolharam e soltaram uma gargalhada em uníssono.

            — Pois o carecão aqui do negão tá esperando, chapa. Cumé qui é, tu vai ou num vai pegá no “ferro” do cara?

            O homem voltou-se para o mulato debochado, que mordiscava um palito olhando-o com desdém. O rapaz tinha várias tatuagens pelo cor­po e, com elas, várias cicatrizes, recordações de lutas em que andara se metendo.

            — Que foi que disse, moleque? — perguntou, fechando o  so­brolho. A  roda  abriu-se instantaneamente e os dois homens foram deixados cara a cara. Como num passe de mágica um canivete automático surgiu na mão do mulato.

            — Aí, cumpade, eu tô a fim de cortar fora os teus penduri­calhos. Vai ver que tu nem tem as coisas, né?

            O jovem começou a rodar devagar em torno do estranho, girando a arma branca à frente do corpo com um sorriso maligno na boca.

            — Vou começar avivando essa cicatriz qui tu tem aí neste focinho de porco, chapa! — e o jovem deu o bote. O canivete passou a milí­metros da face do estranho, mas ele se moveu muito mais veloz. Com a mão esquerda desviou o braço atacante e com a direita acertou o queixo do agressor com um “upper-cut” de meter inveja a Mike Tayson. O rapaz tatuado subiu quase meio-metro do chão e seus dentes saltaram da boca fazendo-se acompanhar de um jato de sangue rubro. O rapaz estatelou-se no chão desacordado antes mesmo de lá chegar. Seu canivete rodopiou no ar, mas a mão do homem o apanhou quando ainda estava subindo. O estranho rodopiou, espantosamente rápido, descrevendo uma helicoidal sobre si mesmo e indo parar a ponta da arma entre as pernas do negro forte, espetando-lhe os testículos abaixo do pênis que levava o nome do homem público mais care­ca do país. O negro empalideceu e soltou um berro, mais de susto que de dor, pois a ponta da arma não lhe rasgara o saco escrotal.

            — Quem é que tá a fim de ver a cor dos escrotos do crioulo aqui? — gritou o homem para os espantados rapazes.

            — N I N G U É M! – bradou o negro em desespero.

            — É, cumpade, ninguém quer ver o negão capado, não — disseram em coro os companheiros do assustado negro.

            — Tudo bem, então. Não costumo capar um porco chorão, mes­mo — debochou o homem, pondo-se de pé e lançando a arma em direção a um dos rapazes que, assustado, desviou-se e a deixou ir cair longe.

            — Agora, quem é macho pra me seguir num negócio que vai dar um bocado de grana pra todos? — o homem olhava penetrantemente nos olhos de cada um dos espantados e emudecidos dançarinos.

            — O… o que é que você… o senhor quer de nós? — gague­jou um dos rapazes.

            — Como eu disse, preciso de cinco machos. Mas quero machos mesmo, homens capazes de encarar a morte sorrindo. O negócio vale cinco mil reais, um mil para cada um. O que me dizem?

            — E o que é que a gente tem de fazer pra ganhar esta bola­da? — indagou o jovem que falara antes, desconfiado.

            — Um seqüestro — foi a resposta seca.

            Houve um breve silêncio, com os rapazes entreolhando-se assustados e desconfiados.

            — O senhor é do Comando Vermelho? — quis saber um dos jovens.

            — Não. Eu ajo sozinho… Quer dizer, eu trabalho para al­guém que paga bem — foi a resposta do homem.

            — E quem é ele? — quis saber outro jovem.

            — A curiosidade matou o gato. Você é gato? — e o homem, olhou de modo ameaçador para o curioso.

            — Des… desculpe — tartamudeou o rapaz, baixando os olhos desconcertado.

            — Eu vou sair. Estarei num Gol preto, estacionado na segunda quadra, à direita desta pocilga. Os que topam a parada devem sair um a um, a intervalos de três minutos, não menos, e ir direto para o meu automóvel. Estamos entendidos? — E o homem deu meia-volta e se retirou, dei­xando a audiência desconcertada a se entreolhar indecisa.

*     *     *

 Um Homem em Agonia

            Eram vinte e uma horas quando Anteu apanhou Karina para sair. A noite estava surpreendentemente fresca, para um dia que havia bei­rado os quarenta graus. A moça vestia um conjunto rosa, de saia preguea­da e curta, blusa simples e de costas de fora. Sua maquiagem era adequada para a ocasião e, como sempre, ela dava aquela saudável e sempre bem-vinda impressão de frescor e pujança que refrigeram a alma de quem a vê. A vida, nela, parecia explodir em cada poro, a cada segundo, em cascata de luz e esperança.

            — Você está simplesmente deslumbrante — saudou-a Anteu as­sim que a moça surgiu na portaria do edifício.

            — Obrigada — e com um gesto simples e encantador, ela pe­gou o braço do rapaz e desceram para a rua. Anteu sentia-se como se fosse levando uma rainha. Aliás, Karina sempre o fazia sentir-se assim, o rei da situação. Aquilo lhe era profundamente agradável.

            — Adoro tê-la a meu lado e ver o olhar de inveja dos ou­tros homens — comentou Anteu olhando de esguelha para dois outros homens que passaram por eles e não se incomodaram de se virar para olhar Karina.

            — Obrigada — riu ela, coquete — é sempre bom ouvir isto.

            — Quando você vai aceitar ser minha garota? — disse ele en­quanto lhe abria a porta do carro.

            — Quem sabe? — respondeu a moça, evasiva.

            — Só você é quem pode responder a esta pergunta — disse o banqueiro após tomar seu lugar atrás da direção do Taurus. — E então…?

            Karina olhou-o com um sorriso brejeiro e desconversou.

            — Vamos? A noite está convidativa. Que tal relaxar e gozar este frescor, hum?

            Anteu ficou escrutando-lhe o semblante por alguns segundos, mas a moça olhava natural e determinadamente para a frente. Finalmente o banqueiro deu a partida no automóvel.

            O carro rolou pelo Leblon e Karina admirava as fachadas coloridas de neon dos bares e das casas comerciais. Havia ainda muita gen­te andando pelas ruas e avenidas, mas dentro em pouco o Rio estaria recolhido e só os notívagos perambulariam pelas suas ruas semi-desertas. Nisto ela gostava do Rio de Janeiro. Era uma cidade grande com jeito e ares de cidade interiorana. Em São Paulo, como em New York isto jamais aconteceria. A noite e o dia já não eram mais respeitados pelos seres humanos. Como formigas incansáveis eles trabalhavam todo o tempo, revezando-se na estúpida faina de sobreviver à dura luta por um lugar ao sol, às vezes apenas pelo direito de poder respirar. Ela lembrou Marina Colassanti em sua crônica “Eu sei, mas não devia”. Nela, a jornalista retratava a dura realidade do citadino que se vai acostumando às situações duras que o viver social submete a todos e os obriga a abdicar aos pouquinhos de si mesmos e da vida. O Taurus subiu a Niemayer, passou diante do imponente e bem localizado Hotel Nacional e rolou pela orla marítima indo parar em São Conrado, diante de um agradável restaurante repleto de pessoas tagarelantes, como são os cariocas. Eles desceram do carro, entraram e buscaram uma mesa junto à parede dos fundos, embora Karina gostasse mais de sen­tar perto da mureta que dava para fora. A moça nada disse, pois estivera observando furtivamente o seu acompanhante e lhe notara a tensão no ros­to. Boca crispada, pigarro nervoso a curtos intervalos e os nós dos dedos es­branquiçados pela força desnecessária com que segurava o volante de direção hidráulica do automóvel, Anteu não mais trocara uma palavra com ela desde que dera partida no carro. Karina procurara dar a impressão de es­tar despreocupada e descontraída, mas estava, em verdade, muito alerta e atenta. Percebera que Anteu também a olhava de esguelha, principalmente para as suas pernas, com as coxas tentadoramente à mostra. “Hummm — pensou a repórter — “vai ser duro manter o lobo afastado, hoje. Acho que exagerei na dose…”

            O garçom trouxe as bebidas. Anteu tomou seu suco de melão em silêncio, olhar perdido em algum lugar entre seu rosto e o tampo da mesa. Karina bebericou o Martini seco, atenta ao estado de espírito de seu companheiro. Anteu soltou um suspiro e olhou para fora, em direção à escuridão que ocultava o mar.

            “Parece que eu não sou o menu principal de seus pensamentos na noite de hoje” — pensou a repórter sentindo-se aliviada. — “Menos mal, pois não estou disposta a brincar de gato e rato, agora.”

            — Desculpe-me — falou com voz rouca, Anteu — eu não estou uma boa companhia, hoje. Dá pra notar, não é?

            — Não se agaste por isto — respondeu ela com sinceridade e um sorriso cativante na face de olhos brilhantes.

            — Quer que eu a leve de volta? — e no rosto dele Karina pôde adivinhar um pedido de súplica para que dissesse não.

            — Oh, não! De modo algum. A noite está começando, meu caro amigo. Nós mal chegamos. As coisas vão melhorar, calma! — E a repórter o olhou com aquele olhar cálido de que ele sempre gostava.

            — Bem… é que eu estou mal, hoje. Estou mal, mesmo. Quer saber do que mais? Acho que não devia ter ido apanhá-la para sair… Estou-me sentindo como um peixe fora d’água…

            — Anteu, os amigos não devem ser procurados somente nas horas boas da gente. Se não, para que valeria tê-los, não é? — E a moça sorriu com simpatia.

            — Amigos… — E Anteu ficou um momento a olhá-la perscrutadoramente. — Karina, você acredita mesmo que neste mundo enlouquecido, onde, mais do que nunca, o homem é o lobo do homem, há alguém que se possa considerar e ser considerado amigo de outro?

            A moça olhou bem dentro dos olhos do homem e percebeu ne­les uma angústia espantosa. Involuntariamente pousou a sua linda mão rosada sobre a mão branca, de dedos gordos e peludos do companheiro.

            — Eu sou sua amiga — disse com sinceridade, ainda que es­tranhando este arroubo de amorosidade, pois não era muito chegada ao companheiro, não. 

            — Sim, sei disso. Mas você também é uma repórter… — res­pondeu Anteu com um sorriso amargo na face — Uma boa repórter — frisou com um ar distante, como se ela não estivesse ali.

            — E uma repórter não pode ser amiga? — perguntou Karina sustentando o olhar nublado dele e lhe devolvendo outro, cálido e acolhedor.

            — Não, não pode — respondeu ele, com pessimismo. — Não de gente como eu.

            — E um banqueiro… Pode um banqueiro ser amigo?

            — Esta classe de pessoas é que não pode mesmo ser amiga de ninguém — disse o homem, com um leve estremecimento que não passou des­percebido à repórter. — Banqueiros têm uma barra de ouro no lugar do coração. Amam o ouro; vivem pelo e para o ouro e morrem por ele. O resto é apenas o resto.

            Anteu curvou o corpo para a frente apoiando-se todo nos cotovelos fincados no tampo de plástico da mesa. Seus olhos fitavam o mar­tini no copo diante de Karina e havia um ar de introspecção, neles.

            — Seu pai é um banqueiro; você é banqueiro; sua família é tradicionalmente constituída de banqueiros… Já pensou nisto? — Provocou a repórter. Alguma coisa a espicaçava na postura de seu companheiro. Ela sentia que um furo jornalístico estava por um fio. E se lembrou da irmã. Isto fez que se sentisse perturbada. Sim, estava ali para enganar o herdeiro e lhe tirar alguma notícia bomba para o jornal. Reprimiu sua consciência e, com um profundo suspiro, acariciou as mãos do companheiro.

            Anteu permaneceu silente. Com a ponta do dedo indicador apoiada no queixo de seu companheiro, Karina obrigou-o a olhá-la de frente.

            — E então? — insistiu.

            — É por isto que eu disse o que disse — respondeu o homem, soturno.

            — Posso concluir que você… não é meu amigo? — falou suavemente e pausadamente a repórter.

            — Talvez… Quem sabe? — ele lhe lançou um olhar pesado.

            — O que quer dizer com “talvez”? — O coração de Karina bateu forte. Estava próxima de tomar conhecimento de algo que podia ser uma notícia retumbante. O ar de dúvida e culpa que percebia nos olhos e no corpo de seu acompanhante lhe dizia isto.

            — Eu também, acho, devo ter uma barra de ouro implantada no lugar do coração. Ainda não tenho a certeza, mas creio que mais dia me­nos dia vou descobrir que não gosto de nada, exceto do maldito metal amarelo e de seu reflexo, o papel moeda. Aí, então, minha cara, ai de quem confiar em mim. Brutus, Judas, Calabar serão pinto diante do monstro em que me vou transformar.

            Anteu transpirava abundantemente e seu olhar se tornara duro e presente. A repórter começou a suplantar a mulher. Ali havia algo e o faro não lhe enganara nunca. O homem certamente estava entupido com alguma coisa séria. Quem quer que tivesse a estatura financeira de um Kamu­ratti não se angustiaria com ninharias.

            — Eu não creio que você… — a presença do garçom fê-la interromper o que ia dizendo. Fizeram os pedidos. Ela, estrogonofe de ga­linha; ele, camarão frito. Quando o homem se afastou a moça voltou a falar.

            — Eu dizia que não creio que você tenha um pedaço de metal no lugar do coração. Você é um ser humano, como eu… como qualquer pes­soa no mundo. você sente…

            — Não, não, minha cara repórter — interrompeu ele veemente — eu não sei bem o que seja sentimentos. Aliás, só conheço aqueles que me surgem quando meus interesses são contrariados. Aí, sim, sei o que é sentir raiva e… e… e avareza. Eu…

             — Ouça — disse Karina, erguendo a mão para impor silêncio. — Você tem sentimentos, sim. Está confuso com alguma coisa que o per­turba e isto é natural… quero dizer, ficar confuso em tais momentos é o comum entre as pessoas. E emoção, confusão afetiva… tudo isto são coisas do coração. Um pedaço de metal não  sente, meu amigo. Agora mesmo eu vejo que você está angustiado. Só um ser humano se angustia. Só um ser humano experimenta isto.

            Anteu suspirou e recostou-se. — Você é uma boa moça, Kari­na. É por isto que gosto de sua companhia.

            A voz dele estava sumida.

            — Então, que tal gozarmos a companhia um do outro… Aproveitarmos o frescor da noite para relaxar, hum? Os problemas sempre têm soluções.

            — Será? — disse o homem e a moça pensou ter percebido certo tom de sarcasmo amargo na voz dele.

            — É, sim. Seja lá o que lhe esteja esquentando os miolos, o melhor mesmo é colocar o assunto em “stand by”, não acha?

            O sorriso dela era muito sedutor e sua sensualidade, pro­vocadora. Isto agiu como um choque capaz de fazer com que Anteu saísse de seu estado depressivo e sorumbático.

            — Não vai perguntar o que me preocupa?

            — Não.

            — E por que não?

            — Não é da minha conta — disse Karina bebericando aparen­temente despreocupada o seu Martini seco.

            — Estou estranhando. Onde foi parar a repórter curiosa?

            — Você convidou a mim, Karina, não à repórter, não foi?

            — Bem… acho que sim.

            — Pois sou eu quem está aqui. Ouça, não queira a repórter. Ela é muito chata. Ela, sim, não tem coração.

            — Tudo bem. É que eu pensei que repórter fosse como médico e sempre estivesse a postos…

            — E somos — disse Karina — quando estamos de serviço. No momento estou em lazer… Ou não?

            — É, creio que você está certa.

            Houve um silêncio. Karina continuou a fazer um afago  na  mão de Anteu e a olhar firme nos olhos dele. Seu acompanhante estava-se debatendo entre falar e não falar sobre o que lhe angustiava. A repórter sentia que o momento era crucial para ele e seu faro lhe dizia que era necessário ser muito cautelosa para não o inibir. Um conflito se formava em seu ser. A sua parte profissional exigia dela que lançasse mão de tu­do a seu alcance para abrir os segredos do homem. A sua parte humana, ao contrário, lhe azucrinava a consciência, cobrando-lhe respeito pelos sentimentos alheios. Ambas, contudo, impunham-lhe que quebrasse aquele silêncio antes que se tornasse por demais opressor. As gotículas de suor que bailavam na testa de Anteu eram sinal do angustioso conflito em que ele se debatia. Por que — indagava-se a repórter — por que ele se abalara a escolher a ela para companhia, naquela noite? Anteu podia esco­lher entre duas dúzias de mulheres ricas e, algumas, até mais bonitas que ela. Sabia que ele não era de se apegar a nenhuma mulher, pois que as tinha às dúzias com um estalar de dedos. O fato de lhe ter dado preferência tinha uma razão. Qual? Karina só encontrava uma resposta — a sua profissão. Ele não buscava a mulher. Queria a profissional que ela era, mas devia estar querendo esta profissional com os mesmos desejo e cuidado de quem quer sentir a maciez da pele do tigre, mas teme perder a mão pelo gesto imprudente.

Continua…