Postura milenar de meditação.

Postura milenar de meditação.

Quanto tempo fazia que estivera ali, sentado, olhos fechados, recebendo mentalmente instruções esotéricas secretíssimas sobre a Condição Humana? Ele não saberia dizê-lo, mas quando a mão de Issa lhe pousou no ombro e sua voz suave lhe chamou pelo nome, abriu os olhos completamente ciente de que não mais era o romano que ali chegara, ignorante e temeroso. Pôs-se de pé e viu que tinha uma longa barba branca e que seus cabelos lhe caiam pelos ombros, também alvos como a neve. Tinha envelhecido, mas não se sentia fraco.

— Quanto tempo permaneci em meditação, Issa? — Perguntou, curioso.

— O suficiente, meu irmão. Agora, vem fazer tua primeira refeição deste dia maravilhoso. Então, vamos retornar à aldeia que deixamos faz muito tempo. Eles precisam de nós.

Primus sentou-se com seu Mestre e fez o desjejum: frutas silvestres, mel e água fria do riacho. Sem mais falarem, puseram-se de volta à aldeia que tinham deixado para que o Mestre preparasse seu discípulo. Caminharam em total silêncio e em total comunhão espiritual. Primus já não mais tinha dúvidas. Compreendia perfeitamente aquele homem que andava ao seu lado. Sabia o que Ele era e de quem era o Mensageiro entre os mensageiros. E sabia mais, muito mais. Sabia dos mistérios da Vida e das Ilusões do Mâyâ. Era um grande iniciado.

Uma aldeia celta.

Uma aldeia celta.

Encontraram a aldeia destruída. As pessoas perambulavam tristonhas, abatidas, magras e doentes. Os dois se encaminharam para a cabana onde sabiam vivia o Druida da tribo. Perguntaram por ele e souberam que estava muito doente e vivia, agora, sob os cuidados da Druidesa Mirtha. Foram até a cabana de Mirtha e viram o velho Druida combalido, apenas pele e osso.

— O que aconteceu aqui? — Perguntou Primus, condoído pela triste visão.

— Depois que vocês se foram nós fomos invadidos por um grupo de celtas conquistadores vindos do Sul. Eles não são nossos amigos. Vivem da guerra e da captura de outras vilas de onde retiram os jovens e os homens produtivos para serem escravos. Aqui vieram porque queriam o romano para matar. Como não soubemos dizer onde estavam, destruíram nossa aldeia, saquearam tudo e levaram nossos jovens, homens e mulheres, como escravos. Restamos nós, os feridos, os idosos e as mulheres que não serviam para a procriação. Nossa tribo está destinada à extinção. Faz tempo, muito tempo. Quando vocês dois partiram eu tinha sete anos. Hoje, tenho quarenta…

Na voz de Mirtha não havia nem ódio nem revolta. Falava de vagar, com resignação pelo destino cruel. Primus deixou-se cair em prantos e orou fervorosamente ao Criador, Pai de todas as coisas e de todos os homens, pedindo que permitisse a liberdade dos que tinham sido levados prisioneiros e seu retorno à tribo despedaçada.

Issa, olhos fechados, via Gabriel de pé diante de si. Aguardava suas ordens. O Arcanjo estava compungido diante da dor sincera daquele que um dia fôra um romano orgulhoso de sua vida militar.

— Primus irá em missão buscar os que foram levados daqui. Vamos com ele e faremos os milagres que sejam necessários para que os violentos libertem os prisioneiros. Então, protegê-los-emos no retorno a seus lares.

— Queres que eu devolva a saúde dos que estão enfermos, agora, aqui?

— Não. Farás isto em atenção aos rogos sinceros de meu discípulo, não em obediência a uma vontade minha. Agora, prepara-te. Ele se levantará e se determinará ir em busca dos que foram levados contra a vontade.

Pondo-se de pé e se sentindo invadido por uma onda de Poder que não compreendia, Primus colocou a mão sobre a fronte do velho Druida e ordenou, com voz forte e falando no idioma daquela gente.

— Em nome de nosso Pai Celestial eu te ordeno que fiques curado de todos os males de que padeces agora. E que tu possas prosseguir na manutenção da fé de teu clã, enquanto seguimos, Issa e eu, em busca dos que foram levados daqui. E os doentes, feridos, fracos e famintos façam fila diante de nós dois. Vamos restituir-lhes a saúde.

A aldeia se pôs em agitação frenética. Todos queriam receber de volta a saúde perdida, a fim de poder trabalhar na restauração da aldeia destruída. Enquanto os aldeões se agitavam, na cabana o velho Druida sofria uma transformação que deixou a todos perplexos. Seu corpo alquebrado adquiriu novamente as forças e ele se levantou sadio e tão forte como quando era à chegada de Issa e seu discípulo à aldeia. Maravilhado, o velho Druida tentou ajoelhar-se diante de Primus, mas este o susteve, segurando-o pelos ombros.

— Tu e eu somos iguais. Somos irmãos. Somos filhos do mesmo Deus. Não te ajoelhes diante mim, mas só diante d’Aquele que tudo pode. Ganhaste de volta o que já era teu desde sempre pela Vontade do Altíssimo. Agora, vai e levanta, com tua presença, a moral de teu povo. Traze todos diante de nós para que o Poder do Verdadeiro Pai vos cure e vos devolva as forças perdidas.

— Badbah nos liderará na guerra da vingança! — Gritavam, alvoroçados, os que ainda estavam em condições de andar e trabalhar. Primus olhou para Issa, com olhar decepcionado, mas seu Mestre parecia indiferente ao desejo de revanche que subitamente invadira os corações daqueles homens guerreiros desde mesmo o berço.

A aldeia se fez em fila e cada um foi passando sob as mãos estendidas de Issa e Primus. Aos poucos, os que já haviam sido abençoados, sentiam que alguma coisa estava mudando neles. A esperança retornava aos seus corações; a força, aos seus músculos e o ímpeto para o trabalho vinha novamente com força e determinação. Sentiam-se fortes, jovens e determinados. A alegria, depois que todos tinham sido abençoados, tomou conta daquela gente rústica e não demorou para que estivessem festejando, com o bardo entoando cânticos de guerra e vingança.

— O que faremos com esse ímpeto sanguinário que deles se apossa, Issa? Não foi isto que nos motivou a lhes trazer de volta as forças físicas e o ânimo perdidos.

— Não te agastes por isto, meu irmão — respondeu Issa, sem demonstrar constrangimento diante do que via. — Eles estão dentro de sua dimensão tempo-espaço e não são culpados por serem tal como são. Não se apressa a Natureza, nem a Natural, nem a Humana. Acostuma-te a isto.

— Mas vejo em suas auras que querem matar; querem guerrear. E isto é horrível! Será que não aprenderam nada com a invasão que sofreram?

— Não no sentido em que mo perguntas, Primus. Como eu te disse, eles estão no momento exato em que seus espíritos devem estar para poder avançar no Conhecimento e em Sabedoria. Paciência. Tu, em teu Espírito, estás séculos adiante deles, mas não te cabe julgá-los com o Conhecimento que eu te proporcionei. Tens que praticar a Compreensão, a Caridade e o Perdão e jamais julgar, pois só Aquele que Tudo Cria e Tudo Vê e Ouve pode fazer isto. E Esse, nós ambos desconhecemos.

O Druida aproximou-se com dois copos de vinhos para ofertar aos adventícios, mas eles declinaram da bebida e anunciaram suas intenções.

— Issa e eu vamos atrás dos que tão mal vos causaram — informou Primus. — Muitos já partiram para lugares mais agradáveis do que as aldeias de vosso povo e não mais retornarão tal e qual partiram. Mas acredita em mim, eles retornarão a vós e vos darão muitas alegrias.

Com exceção do velho Druida, ninguém mais, exceto, é claro, Yehoshua, entendeu a estranha fala daquele homem idoso, de barbas longas, olhos azuis e corpo rijo. Era o romano, sim. Mas estava muito velho, talvez aparentando a mesma idade que o Druida.

Ambos aceitaram as duas mulas com mantimentos, água límpida e roupas novas. Cumprimentaram o Conselho dos Idosos, composto por meia dúzia de Druidas menores, e partiram. Não falavam entre si e Primus não notou que estava no comando da dupla. Yehoshua se limitava a fazer o que ele decidia. O romano não estranhou conhecer tão bem os caminhos por onde, antes, nunca havia andado.

Cruzaram vales e subiram morros, parando para se alimentarem ou descansar conforme fosse a determinação de Primus. Finalmente, no quinto dia, viram a fumaça que subia das casas da aldeia a que demandavam.

— Nosso destino — disse Primus, apontando o dedo em direção de onde a leve fumaça acusava uma aldeia.

— Hum-hum — assentiu Yehoshua, cuja barba escura, agora, já despontava no rosto sempre jovem.

Os dois caminharam mais uns duzentos metros antes de se virem cercados por guerreiros mal-encarados, que lhes apontavam lanças de pontas perigosamente afiadas. Eram homens de pele clara, altos, corpos grandes, musculosos, barbados, com capacetes ostentando chifres de boi, pelos louros e olhos azuis ou verdes. Tinham expressão feroz tanto no olhar, quanto na expressão facial e eram ameaçadores e agressivos. Um deles, o que parecia ser o chefe do grupo, cutucou Yehoshua com a ponta de sua lança, fazendo seu braço sangrar. O jovem hebreu recuou com uma careta de dor e surpresa.

— Por que tu o feres se ele nada te fez? — Falou Primus, para quem se voltou a perigosa ponta da lança.

— Porque eu queria ver a cor de seu sangue. Estás satisfeito? Agora, andem, movam-se antes que eu decida deixar a carcaça de vocês aqui mesmo.

— Só morreremos quando seja a Vontade de Nosso Pai e este não é o nosso momento — rebateu Primus com voz forte e olhando diretamente nos olhos do agressor de Yehoshua. O homem soltou uma risada de escárnio e avançou com a lança pronta para trespassar o coração do velho diante de si. Mas alguma coisa como um fogo estranho naqueles olhos que o fitavam com intensidade o fez parar o ataque e hesitar. Qualquer coisa dentre de seu ser se mexeu como uma cobra e ele se sentiu estranhamente mal consigo mesmo. Parou o ataque e desviou o olhar para os seus comandados, ordenando:

— Vamos, andem. Levem-nos ao Chefe de sua aldeia.

A ordem dada com voz firme e olho no olho fez o guerreiro se desorientar. Hesitante, ele olhou para seus companheiros, mas estes desviavam os olhos, agastados. Então, em silêncio, abriram caminho para os dois viajores e seguiram atrás deles, em silêncio e guardando respeitável distância. Foi assim que foram conduzidos à casa do Chefe Bryan, que, em celta, quer dizer Forte e Virtuoso. O homem era jovem e um verdadeiro gigante. Tinha olhar de fogo nos olhos de um azul escuro impressionante. Seus bíceps pareciam feito de pedra. Embora Yehoshua fosse alto, Bryan ultrapassava-o em uns dez centímetros.

O Chefe mediu os dois de cima abaixo, com um olhar inquiridor. Então, fixando os olhos em Primus, estudou-lhe a face séria e indômita.

— És um druida? — Perguntou, voltando-se todo para o romano e ignorando o jovem a seu lado.

— Não, não sou.

— E de onde és?

— De todo lugar e de lugar nenhum. Sou um dos muitos Filhos do Criador a Seu serviço.

O chefe permaneceu sério, olhando interrogadoramente para a face de Primus, mas este continuava impassível.

— Não dizes nada que eu possa entender e isto não é bom para tua saúde — ameaçou o Chefe. — Quem é o rapaz que te acompanha?

— Sou o ajudante dele e, quando necessário, seu defensor.

Pirmus olhou para Yehoshua com espanto. O que seu Mestre queria dizer com aquilo?

O Chefe deu uma volta completa em torno de Yehoshua. Apalpou-lhe os músculos dos braços, os peitorais e as costas e veio postar-se diante do jovem hebreu.

— És forte, mas não me parece que possas enfrentar qualquer guerreiro celta. Nós somos bem maiores e muito mais fortes. Principalmente meus guerreiros. O que desejais aqui?

— Viemos buscar aqueles que foram trazidos da Aldeia do Druida Renan contra a vontade.

O Chefe pôs as mãos na cintura e perguntou, jocoso:

— E trouxestes quantos para vos ajudar? Há mulheres que já estão casadas com homens de minha aldeia e crianças que já são adolescentes pronto para a prova de guerreiros. Demorastes demais a vir reclamá-los.

— O tempo não tem importância. O que importa é que foram arrancados contra a vontade do meio de seus parentes e amigos. Fostes rudes e errastes segundo as Leis de Nosso Pai celestial. Está em tempo de corrigir vossos erros. Homens não podem ser escravizados por seus semelhantes, visto que somos, todos, irmãos e filhos do mesmo Pai.

O Chefe olhou para os dois e sorriu, meneando a cabeça negativamente. Não tinha entendido nada do que ouvira.

— Posso sugerir? —  Perguntou Yehoshua.

Ambos se voltaram para ele.

—  Reunamos todos os que foram trazidos à força e perguntemos quais deles deseja retornar à aldeia original. Só nos seguirão de volta os que assim o quiserem.

—  Ora, tolo, todos hão de querer. Eles sempre estão prontos para fugir. Tivemos de castigar alguns para que os outros aprendessem que este comportamento não é bem-vindo, entre nós. Além disto, hoje será a noite do segundo Solstício de Verão. Uma das virgens será sacrificada na ara de nosso cromlech, depois da festividade das fogueiras.

—  Por acaso, fostes vós quem lhe destes a vida? —  Perguntou Primus.

— Não. Nós não sacrificamos as nossas virgens. É para isto que trazemos as de outras aldeias. Não sei quem é o pai da jovem, mas isto também não tem importância. Ela foi preparada para o sacrifício e ele será consumado hoje, à noite, em homenagem a Belenos.

—  A vida é sagrada. Não cabe ao homem fazê-la cessar em ninguém. É um crime muito grande diante de nosso Pai Celestial —  disse Primus com voz forte e censurosa.

—  Se não quiserdes ficar aqui como escravo, voltai por onde viestes. Aqui, quem manda sou eu — falou ameaçadoramente, o chefe da aldeia.

—  Não tendes nem forças nem poder para tanto —  rebateu Primus, convicto. O chefe pôs as mãos na cintura e soltou uma tonitruante gargalhada. E foi entre risos que mandou que os homens prendessem os dois e os levassem para fora de sua casa. Mas Yehoshua levantou a mão em sinal de que desejava falar.

— Proponho —  disse ele, quase gritando —  que esperemos a hora do sacrifício. Se nosso Pai Celestial desejar demonstrar sua Força, vossa Druidesa não conseguirá realizar o assassinato inútil.

Houve um momento de silêncio. Então, os celtas se entreolharam.

—  Estás dizendo, meu jovem imprudente, que vosso Deus é mais forte que Belenos?

—  Belenos não existe. Há um só Deus e este é nosso Pai, de nós dois e vosso também. E Ele não aceita que seus filhos se matem em nome de fantasias tolas.

Com um rugido de raiva um dos celtas que os tinham escoltado atacou com a lança, batendo lateralmente em direção ao pescoço de Yehoshua. Queria quebrar-lhe o pescoço, mas foi surpreendido com a rapidez com que ele se defendeu servindo-se de seu bastão até ali tido como insignificante.

Uma chuva de ataques caiu sobre o hebreu que recuou de costas até fora da casa. Logo os combatentes foram cercados. Outro celta juntou-se ao primeiro para ajudá-lo contra o rapaz atrevido. Mas toda a aldeia boquiabriu-se com a habilidade do jovem no manejo daquele cajado rústico. Os dois celtas levavam a pior, pois com certeira pontaria o endiabrado desconhecido acertava-lhes as pernas. E assim foi durante curto tempo, até que eles caíram de joelhos com as pernas ardendo. Suas lanças foram-lhes tomadas das mãos pelo cajado que parecia vivo e voaram para longe. Os dois homens ergueram as mãos para se proteger das bastonadas, mas Yehoshua parou. Um murmúrio de surpresa se ergueu da multidão. Eles não entendiam porque o jovem não continuava atacando seus contendores. Yehoshua, então, falou.

—  Irmãos, não é pela força bruta que vos mostrais homens. O homem não o é, quando apela para a violência. Ao fazer isto, iguala-se ao cão, ao lobo, ao tigre e se rebaixa diante dos olhos d’Aquele que nos dispensa a Vida. Não estamos aqui para nos ferirmos uns aos outros, mas para honrar a Vida respeitando a vida que se manifesta nos seres vivos e nas demais formas deste mundo em que viveis, pois só Ela, a Verdadeira Vida, é valorosa em vós. Não devemos ferir-nos porque é a Lei: aquele que com a espada fere, com ela será ferido. Aquele que magoa seu irmão, será magoado por outro irmão. Aquele que causa dor, chamará a dor para si por suas ações perversas. Viemos para este mundo para aprender a praticar a Caridade e a Fraternidade, pois elas são as duas colunas do Amor Divino. O outro ser humano diante de vós é vosso espelho. O que a ele fizerdes de bom ou de mal, recebereis de volta pela sua imagem.

—  Mas do que diabo esse idiota está falando? —  Urrou o Druida da aldeia, abrindo passagem entre a roda de pessoas que ouvia calada e atenta as palavras do jovem guerreiro. Ele veio postar-se diante de Yehoshua, empertigado e o olhando ameaçadoramente.

—  Quem és, estrangeiro? De onde vens? Por que falas palavras vãs diante de meu povo? Vai-te e leva contigo esse velho imprestável, antes que eu vos reduza a pedra.

— Em verdade, em verdade vos digo: não tendes o poder necessário para isto. Só o Pai o tem e Ele não o dispensa a nenhum de seus filhos, pois ainda sois incompetentes para tanto.

O Druida acenou para uma jovem que trouxe um incensório que mais parecia uma bacia. Ali dentro havia um braseiro ardente. Aquilo foi colocado perto de Yehoshua que não moveu um só músculo. A jovem se afastou pressurosa e o Druida lançou lá dentro do braseiro um pó azul que logo se elevou em forma de fumaça densa e ardente. Todos recuram assustados, mas algo aconteceu que fez a multidão soltar exclamações de espanto. A fumaça enovelou-se toda ao redor do Druida e ali, como se se tivesse densificado, permaneceu girando devagar. Depois, subiu e se desfez ao alto, enquanto o velho Druida permaneceu parado, sem nem mesmo pestanejar.

—  Nosso Druida virou pedra! — Alguém exclamou e a multidão recuou rapidamente, distanciando-se do jovem feiticeiro. Só o Chefe da Aldeia permaneceu perto. Ele se aproximou de Yehoshua e falou.

—  Mostraste que és um grande e poderoso feiticeiro, jovem. Como te chamas?

—  Issa.

—  E o que devemos fazer com a estátua? Jogá-la ao rio para que seja levada para longe de nossa aldeia?

— Foi assim que fizestes com os outros falsamente petrificados?

—  É, sim.

— Não o fareis com o vosso Druida, pois, na verdade, ele não virou pedra. A fumaça que ele preparou com raízes e cascas de árvores, apenas enrijece os músculos e reduz a respiração. Ele, agora mesmo, nos ouve e treme de medo de ser também afogado, como fez afogar os que mandou atirar impiedosamente às águas do rio. Não, não. Esperemos até passar o efeito da fumaça. Ele voltará a si. Vai sentir muitas dores pelo corpo, mas bem que o merece.

— Que assim se cumpra —  sentenciou o Chefe voltando-se para os aldeões e lhes repetindo a ordem de Yehoshua. Depois, convidou-os a entrar de novo em sua casa e ali, sentados juntamente com os que integravam o Conselho dos Anciãos da Aldeia, voltou-se para Yehoshua e lhe perguntou onde ele aprendera a lutar com tanta habilidade.

—  Não aprendi a lutar. Exercitei-me intensamente para ter um corpo resistente e forte entre um povo que ama a seu próximo como a si mesmo. A Arte da Guerra, em tempos de paz, não deve ser empregada para disputas, rinhas humanas tolas. Essa Arte deve ser praticada como meio de fortalecer Mente, Corpo e Coração, caso contrário não presta para os desígnios de nosso Pai Celestial. Este corpo, que vos parece forte e duradouro, é tão só uma vestimenta do vosso espírito. Todos vós sabeis que quando ele cai, morto, o Espírito se vai, imortal. Não sabeis para onde, mas isto não é o principal. Sabê-lo-eis quando chegarem vossos momentos de partida. Eu vos digo, contudo, que irão para lugares felizes os que praticaram a Caridade e a Piedade entre os homens. Irão para lugares dolorosos os que foram maus e praticaram maldades com seus semelhantes. Pensai bem, quando a sede de sangue e a preguiça ou o comodismo vos impulsionar para a guerra de conquista e escravização, pois o senhor neste mundo, com certeza será o escravo nos Mundos de Meu Pai. O Pai Celestial vos deu braços, pernas e corpos fortes para que os useis em vosso próprio benefício e em benefício dos que vos são próximos e, não, para que tomeis de armas a fim de ir à cata de escravos para obrigá-los a executarem os trabalhos que vós mesmos podíeis ter executado. Se desejais ter alimárias que vos ajudem nas tarefas mais pesadas, domai as bestas dos campos e colocai-as a vosso serviço. Ou usai da inteligência que nosso Pai vos deu e criai instrumentos capazes de realizar tais trabalhos pesados. Mas respeitai a vida de vossos semelhantes porque a eles também foi dado o domínio sobre os animais no mundo. O irmão que maltrata seu irmão não merece senão a punição de seu pai. Pensai nisto.

— Falas muito nesse Pai que reside no céu. Nós nunca, antes, tínhamos ouvido alguém citá-lo. Conhecemos como o criador de todas as coisa e de todos os homens o Deus Bilé, que habita além do mar, além do horizonte, além do alcance dos homens. É a ele que tu te referes?

— Se desejais dar um nome ao Pai Celestial, dai-o. A Ele isto não tem importância. Mas regei vossos comportamentos pelas leis do Amor e da Fraternidade. Sêde caridosos entre vós e para com vossos irmãos de outros lugares. Praticai a gentileza com os estranhos ao vosso meio, reconhecendo neles vossos irmãos, filhos do mesmo pai. Evitai o derramamento de sangue entre vós e aprendei com os adventícios o que eles vos têm a ensinar e ensinai a eles o que sabeis, pois é assim que uma grande família deve agir. Não mateis, pois que isto implica na cessação da Vida e esta, irmãos meus, é sagrada porque vos é dada por Aquele Que Não Tem Nome e, no entanto, possui todos eles.

— Se dizes que esse Pai Celestial é dono de todos os nomes, então, ele é Bilé, a quem adoramos — cortou o velho Druida da tribo. — No entanto, Bilé, esse Pai a que tu te referes, jamais fez milagres gratuitos a nós, que tu dizes somos seus filhos diletos. Se não lhe rendemos as homenagens anuais que nos ensinaram que Ele exige, as maldições sobrevêm ao nosso povo. A chuva escasseia; o solo se torna pobre; a vinha míngua e somos dominados pelos guerreiros de outras tribos. Bilé, aprendemos, exige sacrifícios em sua honra, para que nos dispense seus favores. Como tu explicas isto, Issa?

A Sorveira, árvore que era utilizada pelos Druidas e Druidesas em muitos de seus ritos de magia e cura.

A Sorveira, árvore que era utilizada pelos Druidas e Druidesas em muitos de seus ritos de magia e cura.

— Sois filhos de um Deus, logo, também sois deuses. Mas como filhos, sois ainda crianças diante das inumeráveis Eternidades da Existência d’Ele. E crianças brincam e fantasiam, como fazem todos os homens da atualidade em todas as nações e tribos do mundo. Mesmo os poderosos romanos, criam panteões de Deuses em suas fantasias infantis. Bilé, como chamais ao Pai Celestial, não se incomoda com isto, mas incomoda-O o dardes valor exagerado às vossas crenças. Não fazeis isto para O agradar, mas para agradar a vós mesmos, aos vossos instintos primitivos. Em vossas orgias que dizeis sagradas, atirai-vos à bebida, à comida e ao coito de modo impulsivo e exagerado. Do mesmo modo, usando o nome de Bilé como desculpa, armai-vos e ides às outras aldeias medir forças com vossos irmãos de lá, dominando-os e os arrastando para vossa aldeia a fim de os submeter a trabalhos que não desejais fazer.

Folhas e frutos da sorveira.

Folhas e frutos da sorveira.

A mesma coisa fazem vossos filhos em suas brincadeiras. Fogem das responsabilidades buscando meios de fazer que seus irmãos as assumam. Eles não só vos imitam e convosco aprendem este modo recriminável de vida, mas também demonstram o quão primitivos ainda sois no Caminho da Iluminação Espiritual.

Bilé, o Pai Celestial, criou no princípio de tudo, antes mesmo da criação do homem sobre a Terra, as Leis Imutais da Natureza. Os fenômenos das secas ou das enchentes; da bonança e da fartura, assim como da penúria e da escassez, das doenças e das curas naturais, quer no campo que em vossas vilas, obedecem a tais Leis e elas são Sua Vontade. Ele sabe a razão de as ter feito e o motivo pelo qual toda a Terra estar sob o domínio delas. Se tendes fartura, a preguiça vos assoberba e vos voltais para o prazer, sem preocupação com o amanhã. Mas se vos assola a escassez, trabalhais duro para não passardes pelas agruras da próxima temporada, que não podeis prever se será ainda de escassez ou de fartura. E ao trabalhar, criais novos engenhos; tendes novas idéias de como se prevenir contra a dor, o sofrimento e o desespero. E é assim que Bilé põe vossos Espíritos Imortais a estudar e aprender os segredos que Ele escondeu em Suas Leis Imutáveis. Quando vós, Druidas e Druidesas, vos atirais às florestas e estudais as qualidades das plantas buscando descobrir como utilizá-las em vossos trabalhos de cura ou de magia, estais obedecendo, sem o saber conscientemente, à Vontade d’Aquele a Quem chamais Bilé. Quando vós, com vossas varas de sorveira, buscai água e metais escondidos na terra; quando da sorveira vos utilizais para fetiches e magias; quando usais as folhas da sorveira para convocar as Forças da Natureza a fim de que elas vos ajudem no trabalho com a terra, o plantio ou a localização de energias negativas sob o solo, fazeis a Vontade de nosso Pai Celestial, a Quem conheceis como Bilé.

— Então — disse o Druida —, estamos certos quando realizamos nossos apelos aos elementais dentro do círculo mágico servindo-nos do Freixo. Deves saber que o Freixo é uma planta do Sol e é, para nós, um Elemento Sagrado da Natureza Verde. As varas que fazemos de seus galhos, assim como suas forquilhas, que utilizamos em nossos rituais mágicos, são enfeitadas com sinais especiais, que descobrimos através de nossas concentrações mentais. Ensinaram-nos estes sinais os Elementais das Plantas. As varas de freixo nós as empregamos na magia curativa, geral e solar. Colocamos as folhas frescas do freixo debaixo das almofadas onde descansamos nossas cabeças ao deitar e com isto estimulamos sonhos reveladores de nosso futuro ou esclarecedores de sofrimentos ou acontecimentos passados que ficaram sem que tivéssemos a compreensão deles. Recolhemos as folhas de freixo sempre ao meio-dia e após um ritual de purificação de nossos corações e nossas mentes, e as levamos para um local ao ar livre onde possamos trabalhar sem sermos incomodado nem por parentes, nem por estranhos. Com uma espada ou uma faca, cujo metal foi preparado através de rituais de purificação especificamente para o exercício daquele trabalho, escavamos um círculo à nossa volta no chão. Nós o fazemos suficientemente grande para que possamos trabalhar dentro dele sem ultrapassar a linha protetora. Viramos-nos para o Este, segurando as folhas de freixo em ambas as mãos e de olhos fechados invocamos os elementais do seguinte modo: “Elementais do Este, governantes do Ar, dai-me conhecimento e inspiração”. Então, atiramos umas folhas para o Este. Viramos-nos para sul e invocamos: “Elementais do sul, governantes do Fogo, dai-me energia e mudança”. E atiramos algumas folhas do punhado que seguramos em direção ao Sul. Viramos-nos para Oeste e invocamos:”Elementais de oeste, governantes da Água, dai-me cura e amor.” E atiramos algumas folhas para Oeste. Viramos-nos para o Norte e invocamos: “Elementais do norte, governantes da Terra, dai-me prosperidade e sucesso”. E atiramos as folhas restantes em direção do Norte. Então, erguemos as mãos, concentramos-nos em Bilé e oramos assim: “Bênçãos para todos os que vieram em meu auxilio. Entre amigos é este contrato feito”. A seguir, apagamos o círculo mágico traçado e passamos a executar o trabalho que fomos fazer, certos de que os elementais invocados nos ajudarão a obter bons resultados. O que tens a nos dizer sobre este nosso costume?

— Há vários mundos dentro deste Mundo em que vivem todos os homens na Terra. Não é aconselhável que mexais com as entidades que vivem e evoluem em mundos diversos do vosso. É o caso das entidades a que chamais de Elementais. Eles têm seu trabalho a fazer e não tomam a iniciativa de vir até vosso mundo. Por que, então, ides perturbá-los onde vivem? Aqui onde viveis, tudo há de necessário à vossa disposição para que aprendais e cresçais em Conhecimento e Sabedoria. Não precisais ir perturbar dimensões que foram criadas veladas à percepção e ao conhecimento desta realidade.

— Mas se nada acontece sem o consentimento desse Pai que tu dizes ser Bilé, então, se penetramos no mundo dos Elementais é porque Bilé nos permite. Não cometemos erro, não estou certo?

— Não, errais. Tendes a liberdade de Conhecer, mas não tendes o direito de explorar senão aquilo que está dentro de vossa realidade. Não mexais com outros níveis de vida, pois correis o perigo de ter vosso próprio nível perturbado e sem poder defender-vos dos perturbadores.

Vêde. Podeis ir às dimensões bem mais sutis que esta em que viveis e podeis ver os que lá vivem. Mas é-vos proibido perturbar suas existências e seus progressos. Lembrai-vos de que sereis cobrados por vossas ações por Aquele que tudo vê.

— Cais em contradição, jovem Issa. Tu vieste a nós e perturbaste nosso modo de viver.

— Não, não fiz isto. Vós me abristes a oportunidade de dar a conhecer aos demais o que escondíeis como sendo poderes restritos a somente vosso conhecimento. Isto está errado. Os homens precisam aprender que os tesouros da terra pertencem a todos, independente de cor de pele, cor de olhos, lugar onde vivem ou qualquer outra aparente diferença entre vós.

— Hoje à noite, haverá um sacrifício a Belenos, no festival de Beltane. Dizes que Bilé, a quem chamas de Pai, condena o derramamento de sangue. Mas se não fizermos o festival e o sacrifício, não contaremos com as bênçãos de Belenos. O que me dizes disto?

— Que ides cometer um crime, um assassinato condenado pelo nosso Pai. A vida da pessoa que pretendeis sacrificar não vos pertence, mas ao Pai. E como podeis dar a Ele o que d’Ele já é desde o princípio?

— Não entendeste nada. Belenos não é Bilé…

— Quem não me compreendeu foste tu, Druida. Não há nenhum outro Deus que não o Pai Celestial. Tudo o mais é invenção inútil dos homens. Assim, Belenos é uma fantasia tão inválida quando uma estátua do Zeus grego. Cultuais, neste símbolo, vossos medos ancestrais e isto é errado. Combatei-os dentro de vossos corações e não cometais crimes imperdoáveis diante do Juiz dos Juízes. Não esquecei do que já vos disse: quem com a espada fere, pela espada é ferido. Esta é a Lei.

O Druida permaneceu calado, olhando fixamente e com o cenho franzido para o jovem hebreu diante de si. Então, falou.

— Se esse Pai, que tu dizes que a Ele damos o nome de Bilé, tem realmente poder, ele impedirá o punhal do sacrifício de penetrar o corpo da virgem destinada ao sacrifício.

— Que assim seja. Mas após nosso Pai impedir o crime, vós vos comprometeis libertar todos os que são da aldeia de onde viemos.

— Assim será.

Todos se levantaram. Os adventícios foram sentar-se sob uma grande árvore e ali permaneceram em meditação, indiferentes aos membros da aldeia.