Nós somos máquinas de comunicação vivas.

Nós somos máquinas de comunicação vivas.

Eu era criança quando ouvi meu pai conversando dizer o que encabeça este artigo. Nunca mais me esqueci daquela oração. Também nunca soube se ela fôra dita por outra pessoa, mas encontrei muitas frases semelhantes, o que me levou a compreender que este conhecimento transcende o tempo e a épocas. É do conhecimento humano, creio eu.

Há quem atribua a oração a Rui Barbosa. Pode ser. Afinal, ele foi senão o, ao menos um dos mais inteligentes, eruditos e cultos homens de nosso passado.

E começo este artigo com a oração acima porque desejo ampliar o assunto que abordei no artigo passado, referente à IMPRENSA LIVRE.

Sandra Annenberg, expoente da Comunicação, mostrando vários momentos em que exercia esta Arte diante das Câmeras da Rede Globo de TV.

Sandra Annenberg, expoente da Comunicação, mostrando vários momentos em que exercia esta Arte diante das Câmeras da Rede Globo de TV.

Vivemos, os psicólogos e os comunicadores, através da língua falada, escrita, televisiva e computadorizada. Ela é nosso chão, a base de nosso trabalho. E ambos, psicólogos e comunicadores, buscamos a Liberdade. O primeiro, a liberdade aprisionada dentro de seu cliente, soterrada sob uma carga de fantasias irreais, expectativas desarrazoadas, emoções inadequadas, comportamentos desestruturados e imaginação desconectada da realidade objetiva. Nós, Psicólogos, procuramos, dentro de nossos limites, visto que também somos humanos e temos os nossos desequilíbrios íntimos psicafetivos e emocionais, trazer à superfície da Consciência do nosso cliente sua Liberdade de Ser Consigo Mesmo, o Conhecimento de seus limites sem que, por isto, se sinta diminuído diante de si, de seu auto-juízo de valor. Buscamos fazer que ele encontre seu bem viver consigo, antes de viver com as estereotipias do Social.

Alguém, excelente comunicador, fez esta blague com o Lula e comunicou uma opinião generalizada entre os não petistas sobre ele.

Alguém, excelente Comunicador, fez esta blague com o Lula e comunicou uma opinião generalizada entre os não petistas sobre o Líder do PT.

Já os comunicadores buscam formar opiniões. A rigor, todos somos comunicadores, mas há os que são especializados e transformam a comunicação em um meio de ganhar a vida, o pão-nosso-de-cada-dia. São, entre outros, os jornalistas, os chargistas, os cartunistas e demais trabalhadores na Imprensa escrita, falada, fotografada e televisiva. Estes empregados da Imprensa vivem da manipulação de estereótipos, conceitos e preconceitos grupais. Voltam-se para utilizar-se do arsenal de tais criações sociais para formar opiniões de massa. Assim, criam verdades que só o são porque se tornam a crença de muitos por força do trabalho dos Comunicadores. 

Uma vez transformada em Profissão, a Comunicação tem regras a serem seguidas e obedecidas. Entre elas, Comunicar a Verdade dos Fatos. Não manipular nem direcionar as massas. Apenas comunicar o fato tal e qual foi visto ou vivenciado. Para tanto, com muita freqüência, o Comunicador Profissional deve ir à cata dos dados que, reunidos, dão-lhe o fato e uma certeza aceitável de que possui um quadro do processo que investiga o mais próximo possível da realidade. Mas na atuação de sua profissão, o Comunicador nem sempre obedece a esta Norma Ética. Não há como comunicar um fato, uma ocorrência, sem necessariamente induzir a audiência a formar uma opinião a respeito do que lhe é comunicado. Ninguém é uma máquina criada para receber programas pré-formados e, depois, trabalhar segundo o que este lhes determina. As pessoas pensam constantemente. Inferem, deduzem, acrescem, suprimem, colorem, enfim, moldam a mensagem do Comunicador segundo os estereótipos de massa, em primeiro lugar e, em seguida, segundo suas próprias convicções e seus conceitos de juízos íntimos e pessoais, suas necessidades e carências, suas expectativas irreais e suas frustrações. 

Ziraldo, um dos mais expressivos cartunistas do Brasil. Um Comunicador genial.

Ziraldo, um dos mais expressivos cartunistas do Brasil. Um Comunicador genial.

Tanto o Psicólogo quanto o Comunicador trabalham no infinitesimal, ou seja, aproximam-se sempre do Real, mas jamais o alcançam. Portanto, em terapia assim como em comunicação a realidade não é exposta totalmente, verdadeiramente, mas sim através de um esboço inferencial, ou seja, uma descrição que permite aos outros formarem um quadro mental daquilo que esses profissionais buscam transmitir-lhes; mas os receptores interpretam as mensagens recebidas de ambos estes profissionais servindo-se da coleção de seus próprios conhecimentos, de suas próprias cognições e convicções, que nunca lhes permitirão formar uma imagem ou um quadro processual exatamente igual àquele que os profissionais psicólogos e comunicadores lhes tentam transmitir. E a dificuldade está exatamente no processo, visto que todo processo é mutável por Natureza. E nada na vida humana é fixo. Tudo é processual, isto é, está em constante mutação, em constante modificação de suas partes. 

Ambas as profissões, a de Comunicador e a de Psicólogo, emaranham-se em milhares de diferenciações ditadas por linhas de atuação e áreas de trabalho. E quanto mais se desenvolve a área da Propaganda e do Marketing, mais se exige do Comunicador e do Psicólogo dedicado a estas áreas que são basilares do Mercado. E é aqui que começa a distorção da Objetividade Normativa destas duas profissões.

Eis uma Propaganda do cigarro Hollywood associando-o ao Sucesso e à Liberdade.

Eis uma Propaganda do cigarro Hollywood associando-o ao Sucesso e à Liberdade.

O Psicólogo que se empenha na complementação do trabalho de Propaganda e de Marketing, áreas eminentemente da Comunicação de Massas, é obrigado a abdicar de parte de sua Ética Profissional. Por que? Porque o objetivo do Marketing é criar necessidades nos clientes nas várias áreas do Mercado. Então, o Psicólogo deve estudar o ambiente social de camadas da população de determinadas localidades para definir-lhes as carências, as frustrações e os desejos, mesmo aqueles mais subliminares, isto é, os que estão abaixo do limiar de percepção daquele nível social que estuda e pesquisa. Trazer estas descobertas para o laboratório de estudo de Marketing e, junto com o Comunicador, estruturar chamadas de propaganda que despertem os consumidores para os produtos criados com a finalidade de suprir sua falta no Mercado de Consumo, isto é, satisfazer os desejos latentes e subjacentes nos indivíduos, ou os criados pelo Marketing, e sanar as frustrações das pessoas na área comercial.

O Marketing extrapola esses limites quando impõe necessidades que ele mesmo cria no mercado de consumo, o que faz com mestria através da Propaganda. O exemplo mais gritante está na venda de carros “do ano”. Na verdade, muito pouca coisa de valor mudou de um modelo do ano anterior para o novo modelo do ano atual. Um novo tipo de desenho da lanterna traseira; um farol de xenônio, com luz ofuscante para o infeliz que vem em sentido contrário, mas muito satisfatória para os que se encontram atrás da direção… e assim por diante. A Propaganda se encarrega de levar o cliente, adredemente trabalhado pelo Marketing, a se convencer de que tem necessidade daquele “bem comercial”. A finalidade de todo este trabalho é o Lucro e a manutenção do Mercado. 

Instalações de um Laboratório de Marketing.

Instalações de um Laboratório de Marketing ou “LABORATÓRIO DE CRIATIVIDADE”.

É da competência do Psicólogo que trabalha no Marketing, ajudar na criação de necessidades nas pessoas. Necessidades que nem sempre são saudáveis para elas e, até mesmo, podem levá-las à morte dolorosa, agoniada e de longa duração. Foi o caso do trabalho no Marketing e na Propaganda dos vários tipos de cigarros, antes que estes fossem criminalizados.

Havia uma propaganda do cigarro Hollywood que é marcante como exemplo. Um lugar belíssimo, arborizado, entre o Pão de Açúcar e a Urca; muito verde e, voando sobre este verde luxurioso, aves bancas, garças plainando lindamente em contraste com um céu azul. E surge o mar azul-esverdeado. Sobre aquelas águas claras, várias velas brancas, enfunadas e banhadas por um sol brilhante, dando vida alegre ao verde-azulado das águas marinhas.

As velas utilizadas na propaganda do cigarro Hollywood.

As velas utilizadas na propaganda do cigarro Hollywood.

O quadro dava de imediato uma gostosa impressão de liberdade. A objetiva aproximava-se velozmente de uma daquelas velas e rapidamente aparecia a figura de um homem de corpo perfeito, trabalhado, sorriso feliz, dentes branquíssimos, de pé, segurando a barra de controle da embarcação. O homem e seu veleiro sumiam para dar lugar a uma mensagem falada. Esta cena rápida, do homem feliz e livre, era a que mais ficava gravada na mente de quem via a propaganda e chamava a atenção de qualquer pessoa. Mas a mensagem que se seguia era uma armadilha subliminar psicológica mortal: “Ao Sucesso com Hollywood!“. Ou seja, um psicólogo trabalhara junto com um Comunicador Social especialista em Marketing para ASSOCIAR belas paisagens (=liberdade) e ícones de posse e sexo (=o veleiro e o homem de corpo trabalhado, frustrações da maioria das pessoas que passam a vida dando duro para sobreviver e o máximo que possuem é uma vaga apertadíssima dentro de um ônibus incomodamente lotado), ao ato de fumar um cigarro marca Hollywood. Esta é uma ação totalmente anti-ética no ponto de vista do exercício da profissão de psicólogo. Ele está trabalhando para matar e o faz consciente de que possui armas das quais os outros não têm como se defender. O tabagismo foi criminalizado e o trabalho do Psicólogo nesta área foi extinto, ou quase. Mas não se extinguiu o trabalho do Marketing e a propaganda de outros venenos “sociais”, como o álcool, continua de vento em popa. E o Psicólogo segue junto com o Comunicador buscando atender às exigências do Mercado, ignorando ou calando fundo a consciência de que está atacando pessoas indefesas e condenando-as a uma vida de dores, sofrimentos e até mesmo à morte. O que vale é o sucesso de vendas de determinada coisa e, mais que isto, o Lucro, o combustível que mantém o Mercado vivo e milhares de emprego em existência. Um círculo infernal, não é mesmo?

Sandra Anenberg, exímia comunicadora que usa o corpo e a expressão facial como meios contundentes de vender a "notícia" e formar opinião das massas que a ouvem.

Sandra Annenberg, exímia comunicadora que usa o corpo e a expressão facial como meios contundentes de vender a “notícia” e formar a opinião das massas que a ouvem.

Agora, vamos para a Comunicação de Massa. Nesta, o Comunicador precisa pouco da ajuda do Psicólogo. Principalmente na Comunicação Televisiva. Claro que não pode prescindir da Psicologia, pois no que diz respeito ao Ser Humano, não há como dispensar esta belíssima e perigosíssima Ciência. No mínimo o Comunicador terá de ter estudado o livro de Pierre Weil, intitulado O CORPO FALA. Sim, nós falamos através de nosso corpo. Falamos através das cores de nossas roupas. Falamos através da moda que adotamos nas roupas que trajamos. Falamos na expressão de nosso olhar, no rictus facial que adotamos, no modo como andamos, no modo como nos sentamos, no estilo de corte de nossos cabelos, no suor que suamos em determinadas situações, na velocidade de nossa fala, na escolha das palavras que usamos para nos comunicar e no modo como estamos respirando… Enfim, até quando estamos dormindo estamos falando e nos comunicando. NÓS SOMOS COMUNICADORES POR EXCELÊNCIA.

E o Mercado se serve disto à larga, treinando e explorando pessoas para induzir comportamentos de massa através da formação de opinião em multidões. O exemplo mais destacado de profissional na Arte da Comunicação de Massa é Sandra Annenberg, repórter do noticiário da TV GLOBO. Ela passa do sorriso alegre, feliz, quase infantil, a uma expressão de catástrofe numa rapidez que só quem não está atento a isto, não percebe. Usa o corpo, principalmente a cabeça, para enfatizar e estimular as massas a adotar tal ou qual reação emocional relativamente a alguém ou a um grupo determinado de pessoas. Isto é uma qualidade profissional extremamente valorizada pelo Mercado de Consumo, mas nem sempre é ético, nem sempre é humano, como no caso dos dois jovens condenados porque dispararam irresponsavelmente um rojão no meio de uma multidão, na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Como resultado, a morte de um cinegrafista da rede BAND de TV. 

O simpaticíssimo Diretor e apresentador do noticiário mais assistido no Brasil: O Jornal Nacional.

O simpaticíssimo Diretor e apresentador do noticiário mais assistido no Brasil: O Jornal Nacional.

O leigo não observa o jogo comunicativo de que se serve com mestria a Sandra Annenberg. Mas qualquer bom psicólogo pode perceber o que eu percebo. E censuro, pois me parece anti-ético o que ela faz em determinadas instrumentações de seu próprio corpo para a formação da opinião pública. Sei que já é quase inconsciente, automático, seu modo de apresentar as notícias. Ela passa do riso descontraído, da postura de “não é, papai?“, que ela adota quando olha rindo para Willian Bonner, seu Diretor e parceiro na apresentação do Jornal Nacional, a uma postura de censura grave, acusadora, com a uma expressão de horror na face e no olhar, para soltar a notícia que deseja transformar num ato catastrófico e formar uma opinião negativa naqueles que a vêem e ouvem. Mesmo que não induza a audiência através das palavras, fá-lo através da comunicação corporal- facial.

Eu não creio que um Comunicador, buscando audiência furiosamente, deva ultrapassar os limites da Neutralidade. A Liberdade de Imprensa deve ser seguida de muito perto pela Isenção de Manipulação na formação da Opinião Pública. Que o fato fale por si; e que cada pessoa forme sua opinião livremente. Muitas vezes a Imprensa é responsável subreptícia pelas explosões sociais que bem podiam ser evitadas. Mas isto é o que o Mercado quer, pois a agitação social dá IBOP e o IBOP  VENDE revistas, jornais, livros e a imagem do órgão divulgador da notícia bombástica. E dá emprego a centenas de pessoas… cegas.

Foi por isto que não concordei com o esforço da Mídia Televisiva para manter os dois jovens tolos na roda da tortura física e psicológica. Eles também têm família que os amam (e que não são mostradas na TV, pois isto se conflitaria com o esforço para manter a opinião pública focada num só objetivo: a condenação dos dois monstros assassinos). Como arremedo de Cristo, eles pagam sozinho a culpa que é de todos, suas famílias sofrem em silêncio e ostracismo, pois suas aparições reduziriam a venda de revistas e jornais e arrefeceriam o incêndio da Opinião Pública Manipulada pelo Marketing.   

Eu não sei como o leitor pensa a respeito, mas eu penso assim.