Não gosto de pessoas. Não gosto do barulho que fazem quando juntas. Não gosto da má-educação dos jovens atuais e, pior, detesto a má educação dos adultos que se julgam ricos. Prefiro o sossego de minha casa a estar com essa gente.

Não gosto de pessoas. Não gosto do barulho que fazem quando juntas. Não gosto da má-educação dos jovens atuais e, pior, detesto a má educação dos adultos que se julgam ricos. Prefiro o sossego de minha casa a estar com essa gente. Gosto de mata; gosto de praia (de preferência vazias, como as da Paraíba). Mas definitivamente detesto aglomeração de humanos.Nada há de mais desumano do que os humanos.

Eu estava em uma acalorada discussão com minha parceira sobre minha teimosia em não sair para lugar nenhum. Ela discorda frontalmente que eu tenha prazer em ficar dentro de casa e não sair durante semanas, às vezes meses mesmo. Não brigávamos, defendíamos posições contrárias. Ela tinha sido convidada por nossa filha para ir ao autódromo assistir à corrida de carros de uma fórmula qualquer — nunca memorizei nada além do nome Ayrton Senna. Depois que o mataram, desisti de assistir à Fórmula 1 e a partir daí não mais fui capaz de memorizar as subdivisões que têm surgido nesta doideira a que chamam de esporte. Ela me dizia que lá estariam expoentes das corridas de carros e citou vários nomes dos quais não mais me recordo. Eu não gosto de gastar meus neurônios memorizando informações inúteis para mim e, neste momento, nada me é mais inútil que os nomes dos corredores atuais. Ela me dizia que o filho (ou o neto, sei lá) do Ayrton estaria correndo juntamente com o neto de seu maior adversário de outrora. Não me despertou interesse. Eu lhe respondia que detesto aglomeração de gente; detesto a zoeira imbecilizada que fazem etc… quando Orozimbo entrou em casa e, sem dizer nada, abancou-se em seu toco e nos ficou observando.

Ele ficou apenas nos observando. Já está acostumado a nos ver medindo forças, sempre em posições opostas no que quer que fosse.

Ele ficou apenas nos observando. Já está acostumado a nos ver medindo forças, sempre em posições opostas no que quer que fosse.

— Você não pode querer passar o resto de seus dias metido dentro de casa, sozinho. Nós só temos dois filhos e quando minha filha me pede que vá ter com ela, eu vou com o maior prazer — dizia minha parceira.

— Eu também a atendo quando ela precisa de mim. Até aí não há vantagem sua — rebati, folheando o novo exemplar de VEJA que tinha acabado de trazer pra casa lá de dentro de nossa caixa de correspondência.

— Não é só quando ela precisa de que a ajudemos em alguma coisa — disse minha parceira. — Ela não quer ir sozinha ao autódromo. Quer companhia.

— Olha o céu — rebati. — Vai chover e não demora. Lá não tem cobertura, senão em uma pequena porção destinada a “otoridades polititicas” e sua trupe de puxa-sacos. Eu não sou “otoridade” nem puxo saco de nenhum deles. Não conheço os figuraças que vão correr e o prazer que têm em arriscar suas vidas é somente deles. Não vou ter prazer nenhum. E, ainda por cima, vou gastar dinheiro comprando água mineral para poder me dessedentar. Talvez até não encontre onde sentar, pois até os lugares destinados a idosos já deverão estar com as bundas de jovens mal-educados ocupando-os. Não, não. Prefiro não me submeter a uma crise de revolta pela falta de consideração e respeito dos jovens de agora para com os mais velhos. Não faz três dias quase saí no tapa com um fazendeiro adulto feito, forte, que, no entanto, parou sua FORD F-150 zerinho na vaga destinada a idoso. Arrogante, desceu da camioneta olhando por cima os coitados que, como eu, tentavam estacionar nas vagas que a Lei determina que sejam nossas. A última que havia livre, no supermercado, e onde eu pretendia estacionar, ele tinha tomado. Fiquei fulo. Se você não estivesse lá, o diabo ia sair da garrafa. Não vale a pena desgastar minha reserva emocional com a má-educação e a violência de gente daquela laia. Fico em casa. Não me molho, não vou ser claque de ninguém, não vou me submeter à barulheira dos idiotizados, não vou ter de assistir a futilidade dos que vão lá para se pavonear porque são fazendeiros ou empresários ricos, não vou ver pé-de-chinelo que só vão lá para se sentir um tiquinho assim também importante porque está de mistura com a empáfia dos que são vazios de qualquer coisa boa, não vou ficar surdo com o ronco dos motores e não vou sair de lá irritado, cansado e, talvez, gripado porque tomei um banho de chuva sem razão.

 — Você está ficando irascível e intolerante — disse ela, postando-se diante de mim, faces afogueadas. Ela adora uma discussão de nada e por nada. Está sempre pronta a jogar no time contrário. Às vezes, isto nos coloca em confronto sério, mas sempre passa. — Até deixou de ir ao cinema no shopping — ela disse, me cutucando.

Celular, a praga do momento. É como o mosquito da dengue: está em todo lugar e isola as pessoas.

Celular, a praga do momento. É como o mosquito da dengue: está em todo lugar e isola as pessoas.

— E deixei mesmo! Aqui, nesta cidade, também a juventude já está aprendendo a má educação dos cariocas. Sujam as salas de cinema com sacos de pipoca e garrafas pet; colocam os pés nos encostos das cadeiras onde a gente está sentado; dão empurrões no encosto destas cadeiras, quebrando-os gratuitamente sem qualquer razão para isto; riem alto e falam sem parar; acendem seus malditos celulares e nos perturbam a vista com aquela porção de vaga-lumes piscando e nos ofuscando até durante a projeção; e fazem tudo o que a má educação dita como sendo “modernismo”. Não sou desta época e não gosto de ser perturbado num local onde se vai para assistir a um filme. Por isto comprei uma TVzona de 50′, terceira dimensão, e um sonzão cinematográfico, com “sunrounde” e tudo. Tenho filme quase de graça na Netflix e outras que tais. E tenho a vantagem de sustar o filme na hora em que preciso ir fazer alguma coisa, como ir ao banheiro ou tomar um copo d’água. Melhor: não tenho a juventude de mal-educados sociais a me perturbar a paciência.

Positivamente detesto feira-livre.

Positivamente detesto feira-livre.

A discussão não era pra valer. Era mais uma medida de força entre convicções diferentes. Ela gosta de aglomeração. Gosta de se embarafustar pelo meio da turbamulta e zanzar por ali, como é o caso de ir às feiras-livres de roupas. Eu acho um horror. Ela, adora. Estamos sempre em polos opostos nestas questiúnculas. Ela se diverte com ficar perguntando preços e experimentando roupas e sei lá mais o quê, sabendo bem que dificilmente vai comprar. Diverte-se até em ficar zanzando por entre as gôndolas dos supermercados, olhando preços e “novidades”, sem qualquer motivação para comprar. Eu me irrito com a perda de tempo e o cansaço de andar ao léu. Em supermercado sou objetivo: vou lá, pego o que preciso comprar, dirijo-me ao caixa, pago e venho embora. Rápido e rasteiro. Sou misantropo e ela é antropófila. Sou objetivo e ela é dispersiva. Gosto de ficar calado e apenas observar. Ela gosta de falar sobre qualquer coisa, desde que esteja ouvindo a própria voz. Fala pelos cotovelos e se se observa, vê-se que faz isto no meio da maior algazarra devido mesmo à sua tendência extroversiva. Opina sobre tudo, discorda sistematicamente das opiniões do outro só para criar um clima de falação. Isto é exatamente o contrário do que gosto e de como sou. Observo muito e falo pouco, pouquíssimo mesmo. Fujo das aglomerações e do burburinho irritante. E corro às léguas das detestáveis “músicas sertanojas”, as “sofrências” dos paulistanos, miadas por idiotas que pensam que cantam. Pior: que acreditam que têm voz. Horrível!

Finalmente ela estava pronta. Despediu-se, prendeu a cachorra no canil para que não fugisse quando tirasse o carro da garagem (e eu a soltei imediatamente após) e lá se foi para seu mundo vazio de valor, mas barulhento e irritante como os gritos das gralhas.

Finalmente, Orozimbo falou e me pediu um copo de café amargo. Atendi-lhe o pedido e o deixei sozinho na varanda, pitando seu pito e soltando suas cusparadas na grama. Vim para dentro de casa ler a VEJA. Ele demorou um pouco e também veio para dentro. Sentou-se no sofá e me perguntou:

— Home, o qui diabo é essa tar de “estartapi”?

— O quê? Não entendi. De onde você tirou esse nome esquisito?

— Véi uviu ele numa cunversa qui iscuitava entre Felício e uns dotô impalitozado.

— E por que não perguntou a eles o que isso aí queria dizer?

— Ora, pru qui vancê é qui é o cabeção, num é?

— Não. Cabeção quem tem é baiano. Eu não sou da Bahia.

— Tá bão… Mas o qui é esse negóço qui eles falô, a tar de “estartapi”?

— Sei lá! Deve ser um novo tipo de vírus que vem por aí. Tem tanta doença nova sendo importada da África que nem dá pra gente ter tempo de se acostumar com uma e já outra está chegando.

— Cuma essa qui se chama de dengue? No meu tempo, home, dengue quiria dizer pessoa requebrada, melindrosa, chameguenta, num sabe? Agora, virô nome de duença, cruz credo!

— Não é da dengue que estou falando, que esta já está velha. Falo da nova praga conhecida por chicungunya, que tortura a gente por meses.

— Cruz credo! Véi uviu falá qui ela põe a pessoa pra andá curvado cuma um véio só de tanta dô. É verdade?

— Não sei e não quero saber, Orozimbo. Quero mais é que ela e o mosquitinho danado fiquem bem longe de mim.

— Véi tombém…

E ele ficou pensativo. Então, de repente se levantou e se despediu.

— Pra onde você vai? — Perguntei.

— Véi vai lá no postim sabê se eles já tem vacina pra tar de “estartapi”. Se num tivé, véi vai discubri uma mezinha pra curá ou, pelo meno, pra aliviá as dô qui esse troço deve trazê pra nóis.

E ele se foi sem esperar por minha pergunta: como é que vai pesquisar uma mezinha se nem sabe o que diabo é esse negócio de nome esquisito?

Fiquei matutando por um momento sobre o que seria mesmo a tal de estartapi”. Devia ser algum nome em inglês, pelo som da palavra, mas eu não estava nem um pouquinho voltado para ir pesquisar o negócio.

Fosse lá o que fosse, não fazia parte de meu mundo. Pronto. Resolvido.

E voltei à leitura das fofocas polititicas a VEJA.