CAPÍTULO II – A HISTÓRIA SE COMPLICA (Quinta Parte – Final)

 

Na Praia do Pepino descem belas asas deltas. Mas ali também se desenrolam histórias de medo ou de alegria.

Na Praia do Pepino descem belas asas deltas. Mas ali também se desenrolam histórias de medo ou de alegria.

O Perigo Chega de Repente

            — Como é ser um Kamuratti? — disse ela, suavemente e com um sorriso encantador no rosto juvenil.

            — O… o quê? Desculpe, eu… eu não ouvi direito — tar­tamudeou atrapalhado, Anteu.

            — Eu perguntei como é ser um Kamuratti — respondeu, cân­dida, a repórter.

            — Bem… quer dizer… Sabe que eu nunca havia pensado a respeito? — confessou ele realmente surpreso.

            — Que tal pensar nisso… agora? — convidou, melíflua, a repórter.

            Anteu suspirou e endireitou-se na cadeira.

            — Ser um Kamuratti — repetiu ele reflexivamente — Como é ser um Kamuratti… — parecia degustar cada palavra, cada sílaba, e parecia descobrir atrás delas uma infinidade de dados impossíveis de se­rem verbalizados em toda a sua profundidade.

            — Sim – insistiu Karina — como é ser um membro de tão formidando clã? Como é que um Kamuratti vê o mortal comum? Como é que per­cebe os problemas do mundo… A fome, a guerra, a criminalidade? Como é que se sente enquanto mortal? Como encara o fim… A morte?

            Anteu sorriu um sorriso sem calor.

            — Um Kamuratti — disse ele — jamais encara o fim… A morte. Ele não a vê, não a sente, não lhe toma conhecimento se quer saber. Um Kamuratti se perpetua na descendência. Cuida para que seus descenden­tes lhe herdem toda a carga intelectual, financeira, moral e social. É por isto que é insensível à morte. Ela não lhe causa qualquer impressão. Ele é todo poderoso. É um Deus entre os deuses. O mortal comum é… é… é nada para um Kamuratti. Um mortal comum só é notado por ele se tem algo que possa ser tomado ou se pode ser usado nalgum jogo de interesse e no qual, é lógico, o Kamuratti sempre ganha. O mundo? Ora, o mundo é a vaca leiteira em que os Kamuratti ordenham o leite que bebem a grandes goles — o ouro. Guerras, fome, miséria, crimes, tudo só tem interesse e desperta a atenção dos Kamuratti se dali ele aufere lucro. A vida dos outros, do que quer que seja, só tem importância para um Kamuratti se ele a pode usar em benefício próprio. Enfim, ser um Kamuratti é ser um imortal sem coração, sem entranhas, sem…

            O garçom trouxe a comida e Anteu calou-se. Karina perce­beu, então, duas coisas simultaneamente. A primeira, que seu coração estava disparado e que, também ela, suava. A segunda, que seu parceiro estava afogueado. Ela olhou para a bolsinha mimosa sobre a mesa, displi­centemente esquecida, largada entre ela e Anteu e onde o gravador de profissional captava cada palavra de seu acompanhante. A opinião do herdeiro dos Kamuratti sobre o clã era notícia retumbante, principalmente quando emitida naquele teor. Mas como publicá-la sem perder o amigo e, quem sabe, ganhar um poderoso inimigo? De qualquer modo, aquilo era u­ma boa notícia que qualquer jornal gostaria de publicar. Comeram em silêncio, cada qual com um turbilhão de pensamentos desencontrados e sentimentos conflituosos a se chocarem nos corações. A repórter, a contragosto, tinha de admitir que, no fundo, não estava inclinada a entregar, assim, de mão beijada, a notícia ao jornal. Ao que parecia, as opini­ões de sua irmã sobre ética, sentimentos e estas coisas, afinal tinham corroído suas convicções profissionais e a percepção deste fato a a­borrecia, pois verificava, agora, que estas convicções nunca haviam, a bem da verdade, sido muito fortes. Por um momento, perdida em suas re­flexões, chegou a quase ignorar seu companheiro que a observava de ra­bo de olho. Finalmente, quando Anteu, após pedir licença, acendeu o havana — o que surpreendeu Karina pela impropriedade do local — a moça retornou à tática da provocação.

            — Você fez uma descrição… “sui genĕris” do que é ser um Kamuratti. Acredita, mesmo, nisto, ou será que só o disse para me im­pressionar?

            Anteu olhou-a sério a princípio, sorrindo em seguida e finalmente explodindo em franca gargalhada. Karina desconcertou-se dian­te daquela reação.

            — “Sui… sui genĕris ” — disse Anteu Kamuratti entre ri­sos. — Qual nada, minha cara, os Kamuratti não têm nada de “sui genĕris” se quer saber. Na verdade, creio que eles não são humanos.

            — E… E o que são eles?

            — Máquinas de pensar, Monstros! Tudo o que há de…

            Anteu parou em seco. Seus olhos fixaram-se por instantes na porta, atrás e à direita de Karina. A moça percebeu sua alteração e olhou para o espelho à sua frente e atrás do companheiro. Muitas pessoas estavam passando pela porta de entrada e nenhuma delas lhe pareceu suspeita.

            — O que foi? — indagou curiosa.

            — Não… nada. Você… Você se incomoda se sairmos?

            — Não, mas…

            — Então vamos. — E Anteu fez um discreto sinal de cabeça para o garçom, deixando sobre a mesa uma nota que dava para pagar três vezes a despesa feita. Levantou-se tomando cuidado para ocultar ao má­ximo o rosto, curvando a cabeça e elevando um pouco os ombros. Puxou a cadeira para que Karina se levantasse e quase a arrastou pela mão em direção a outra porta de saída no lado oposto àquele por onde certamente algo — ou alguém — o impressionara. Karina  ainda  relanceou  o olhar para aquela parte do salão da qual Anteu Kamuratti obviamente fugia, mas não conseguiu perceber nada de anormal. Não lhe pareceu que alguém em especial os olhasse. Não notou ninguém que se trajasse nos mesmos padrões de Anteu. Ao contrário, eram pessoas aparentemente comuns, trajando jeans e blusas esportivas. A maioria jovens despreocupados e ba­rulhentos. Um ou dois casais classe média e só.

            — Espere, Anteu, espere! — e Karina parou, obrigando seu acompanhante a fazer a mesma coisa.

            — Vamos! — insistiu ele com urgência no tom de voz.

            — Não! – exclamou ela decidida — Eu só vou se me disser, bem claro, do que é que estamos fugindo. — A moça resistia teimosamen­te aos puxões que Anteu lhe dava no braço.

            — Eu digo, mas depois. Agora, vamos! — disse ele, agoniado e francamente ansioso.

            Karina obedeceu, apreensiva. Andar na companhia de Anteu já era perigoso. Rico, famoso, era alvo fácil para um atentado e o Rio de Janeiro não estava para brincadeira. As Falanges e os Comandos atacavam sem aviso prévio. Quase arrastando a moça pelo braço, Anteu se desculpou.

            — Perdoe o mau jeito, mas é que entrou alguém que eu não quero que me veja aqui.

            — Quem é? Eu conheço? Não vi…

            — Não, não conhece e não importa. Vamos sair daqui, por favor.

            O homem caminhava a passos largos e Karina seguiu-o em silêncio, mas sua cabecinha queimava toneladas de fosfato rememorando, relembrando cada fisionomia das que pudera captar. De todos, só os dois casais mereceriam alguma atenção, mas pareciam tão comuns… A não ser que… O homem vestia paletó. A mulher trajava-se discretamente. Seria este casal? Paletó à noite no Rio de Janeiro e não sendo praticante de alguma das seitas evangélicas fanáticas que por toda parte enxameava, era de desconfiar. Em pleno verão dificilmente um habitante da cidade, a mais bela do mundo, iria para um bar de destaque e à beira-mar vestido formalmente. E era duvidoso encontrar um fanático evangélico com esposa e tudo, na sexta-feira entrando num bar alegre e barulhento para beber e comer. Principalmente um bar descontraído, que a mocidade costumava freqüentar.

*     *     *

No Motel

            Entraram no automóvel e começaram a rodar em direção à Barra da Tijuca. A iluminação feérica do elevado que costeava a lapa e punha em retirada as trevas, lançando-as para o oceano, emprestava um ar de mistério à noite amena. Lá em baixo, a uns quinze metros, o mar arrebentava-se em ondas soturnas contra a pedra. Karina observava sem ver o deslizar do viaduto sobre suas cabeças, remoendo as imagens dos rostos entrando no bar. Em sua memória cada vez mais o homem de paletó, com a mulher vestida à classe média, tornava-se mais figura enquanto os outros freqüentadores se apagavam no fundo da recordação, constituindo, todos juntos, um fundo difuso.

            — Karina — chamou Kamuratti.

            — Sim? — alertou-se a repórter.

            — Você deve estar intrigada com o meu comportamento, não está? — A voz dele era pesada, contida.

            — Estou, sim. Não vou negar que estou mesmo.

            — Bem, acho que você merece uma explicação…

            Anteu olhou apreensivo para o retrovisor. Acelerou até os cento e quarenta e continuou lançando olhares furtivos ao espelho retrovisor.

            — Estamos sendo seguidos? — indagou a repórter, apreensi­va e sem se voltar no assento, evitando confirmar com os próprios olhos aquilo que temia.

            — Eu não tenho certeza… — disse ele, hesitante.

            — O que pretende fazer? — o medo começou a invadir a moça que, não obstante, procurava manter controle de si e não deixar transparecer seu estado emocional.

            — Você se incomoda de irmos para um motel?

            — Por que? — estranhou a repórter. “Se ele armou isto pa­ra me comer, vai-se dar mal” — pensou Karina, raivosa.

            — Desculpe o mau jeito, mas é que lá vamos encontrar mais privacidade para conversarmos. E, acredite, é o de que mais preciso neste momento.

            — Só isso?

            — Juro! Eu… eu quero fazer um trato com você.

            — Que trato?

            O Kamuratti observou atentamente o retrovisor, antes de responder.

            — No motel eu conto. Agora, preciso me livrar do automó­vel preto que nos segue. Segure-se e não tenha medo. Sei dirigir.

            Anteu acelerou o automóvel que respondeu incontinenti. Pelo espelhinho no quebra-sol Karina observou outro carro também aumentar imediatamente a velocidade. “Então, não foi armação. Há um doido nos seguindo. Mas por que?

            O automóvel ziguezagueava fantasticamente, passando pelos outros carros como se eles não estivessem ali ou estivessem parados. Karina se viu numa cena holiudiana e sentiu o coração bater na garganta.

            — De quem estamos fugindo? — ela estranhou sua voz esganiçada.

            — De um inoportuno olheiro. Acho que de meu pai — foi a intrigante resposta de Anteu.

            — Olheiro? De seu pai? Quer explicar melhor…

            — Depois! — E o carro fez uma manobra rápida, rabeou pe­rigosamente, derrapou, mas obteve novamente o rumo certo. Anteu demonstrava uma impressionante habilidade ao volante. O outro carro tinha cada vez mais dificuldade de o acompanhar e ia perdendo terreno. A velo­cidade do automóvel de Anteu era suicida. Passava dos duzentos quilômetros por hora.

            — Santo Deus! — exclamou Karina — onde você aprendeu a dirigir deste jeito?

            — Fui piloto de provas e “playboy” aficcionado de pegas, no Alto da Boa Vista, quando passava pela adolescência. Você está segura, não tema.

            A corrida continuou alucinada por mais meia-hora. O per­seguidor desapareceu de vista. Anteu diminuiu a velocidade e enveredou por ruas escuras ou mal iluminadas e terminou na Avenida Brasil.

            — Para onde… — começou a perguntar Karina, mas foi cortada pelo companheiro.

            — Para um motel. Um motel simples, barato, onde ninguém, creio eu, pensaria em me encontrar com você.

            Karina calou-se. Anteu embarafustou pela entrada de um motel de segunda categoria e logo estavam no apartamento simples. A saleta, a cama redonda ladeada de espelhos até no teto e o banheiro com hidromassagem. Anteu ficou na saleta e sua atitude desarmou a companheira que estava pronta para armar um escândalo. Ele convidou-a a sentar, foi ao frigobar e apanhou uma cerveja e dois copos.

            — Aceita?

            — Sim, obrigada.

            Serviu as bebidas em silêncio. Sentou-se e bebeu placida­mente a sua. Só na segunda garrafa é que finalmente o homem pareceu haver conseguido colocar os pensamentos em ordem.

            — Karina — começou ele com voz pausada e frases medidas ­— você é uma repórter. Uma boa profissional. E eu sei que coloca o exercício de sua profissão acima de tudo. Não a censuro. Só se chega a ser bom em qualquer coisa se se pode passar por cima dos limites, mesmo que isto implique dor para amigos, parentes ou outras pessoas íntimas. O próprio Jesus, de cima da cruz, dizia a sua mãe: “mulher, eis aí teu filho, e indicava João… ou Pedro… sei lá” qual deles. E dizia ao seu apóstolo: “ho­mem, eis aí tua mãe”. Acho que com isto queria deixar bem claro que os laços parentais, mesmo os mais fortes, rompem-se quando o indivíduo tem de cumprir com aquilo que se determinou fazer. Eu não sou religioso e não vejo a Jesus como o Filho de Deus ou coisa que tal. Para mim ele é somente um homem que lutou denodadamente pelo seu ideal. Um homem espe­cial, é verdade, mas um homem como outro qualquer… de carne e osso.

            — Curioso que um judeu como você cite Jesus. O seu povo, pelo que se sabe, não é muito dado a dar crédito a Ele.

            — É verdade. Para o meu povo, como você diz, Jesus não passou de um baderneiro e contraventor. Nem mesmo profeta ele é considerado entre os ortodoxos. Mas eu o cito não como um Deus ou filho de Deus e, sim, como um homem. O que foi no seu tempo é quase impossível saber-se com certeza. Muita coisa foi criada e inventada sobre ele. Muita coisa foi colocada em sua boca pelos pa­gãos que o adoram como a um Deus. Eu não posso saber a verdade. Nem eu e a­credito que ninguém. Sei que o homem a quem vocês denominam de O Salvador, para alguns dos sábios de minha raça não passou de um bandido. Nem mesmo era judeu de sangue, pois há quem afirme que nasceu ariano.

            — Jesus, um era ariano? — admirou-se sinceramente a repórter. — E aquela genealogia que a Bíblia cita? Não é verdadeira?

            — Não sei ao certo, não sou de ler Bíblia. Mas até onde sei e segundo os sábios em Israel, não é. Ele nada tinha com a linhagem de David e não sei dizer de onde veio esta história. Se tinha linhagem nobre, since­ramente, era de descendência não judaica. Ao menos foi o que me ensinaram a respeito de Sua história.

            — Um pesquisador de peso, o Dr. Holger Kersten, teólogo alemão, cita a hipótese de Jesus ter sido a encarnação de um Bodhisattva porque Ele foi a perfeita encarnação do ideal do Budhismo Mahayana, naquela época. Outros afirmam que Ele foi uma projeção do próprio Buda Maitreya. O que seu povo acha disto?

            — Eu não sei, sinceramente. Não entendo nada de budismo… Ou de qualquer outro “ismo”, se quer saber. O que sei é que Jesus discordava e muito, de todos os dogmas judaicos. Diz-se que ele dizia ter vin­do contrapor o homem a seu pai, a filha à sua mãe e a nora à sua sogra. Dizia, também, que se alguém não  odiasse seu pai e sua mãe, seus irmãos e irmãs, não era digno d’Ele. Isto fere frontalmente os conceitos judaicos de família. No judaísmo, pai e mãe estão acima de qualquer coisa no grupo familiar, devendo ser respeitados e venerados até à morte. Os laços de sangue são absolutamente indissolúveis. Mas para o homem Jesus isto era exatamente contrário aos seus ensinamentos. Não foi à-toa que despertou a ira dos sábios e dignitários do Templo, àquela época.

            — Bem, Ele tinha de ser coerente com sua própria doutrina — disse a repórter, totalmente envolvida pela discussão — Ele pregava o desapego e o desinteresse por toda e qualquer coisa mundana. Pais e família são coisas mundanas, não são? Além do que os laços de família tornam as pessoas egoís­tas, pois em nome do sangue… pelo laço de sangue de que você acabou de fa­lar, muitos atos puramente egoístas são cometidos no mundo. E Jesus comba­tia sem trégua o egoísmo, para Ele, o pior mal da humanidade.

            — É… — E Anteu permaneceu calado, perdido em pensamentos. Karina, ainda que ansiosa, permaneceu aguardando que ele voltasse do devaneio. Aquela discussão, totalmente fora do que ela esperava, havia-a envolvido muito, pois era interessante saber como pensava um judeu sobre o Homem mais fala­do, venerado e desconhecido de todos os tempos. O homem que sua raça odia­ra tanto a ponto de condenar a uma morte horrível e em condições humana­mente humilhantes.

            — Karina — falou Anteu, após algum tempo — vamos deixar o seu Jesus de lado, por enquanto, certo? O que desejo falar tem pouco a ver com Ele… eu acho.

*     *     *

O Rapto

            Ele a olhou incisivamente, alerta, totalmente aqui e agora. Karina desconcertou-se diante da mudança.

            — Bem… como você quiser — disse ela, hesitante.

            — Eu quero que você me prometa que o que viermos a conversar aqui, ao ser publicado — e eu sei que será — não tenha a fonte revelada. Promete isto?

            Ainda sob o impacto da mudança brusca, Karina respondeu.

            — E se eu não prometer?

            — Então, vamos embora e você me esquece — foi a resposta decidida, que se fez acompanhar de um olhar gélido em um par de olhos carregados. A repórter espantou-se diante daquela mudança súbita do homem. Cautelosa, resolveu dizer que concordava com ele, sabendo no íntimo que seria muito di­fícil cumprir com a promessa.

            — Tudo bem, eu prometo — disse ela, cruzando os dedos nas costas.

            — Ouça bem — disse Anteu, grave — se quebrar sua palavra eu não dou um centavo por sua vida.

            — Está-me ameaçando? — perguntou incrédula e espantada, a repórter.

            — Não — disse Anteu, calmo. — Estou-lhe prevenindo. O perigo não vi­rá de mim. Eu não seria capaz de tocar em um fio de seu cabelo, mesmo que você me traísse.

            Karina ficou a olhar para o companheiro, em silêncio, mas prescrutadoramente. Por fim, perguntou:

            — Diga-me, se é você quem faz as revelações, por que serei eu aquela que vai correr perigo? Se eu publicasse a fonte de minhas informações o perigo deveria vir para ela, não?

            — A lógica deveria ser esta. Mas você é quem terá quebrado o segredo, compreende? Além do mais, sou um Kamuratti. Sou o herdeiro não somente do banco, mas de outra coisa que você nem pode desconfiar. Uma tradição e uma… Uma maldição.

            Karina ficou a olhar para o companheiro em silêncio e tentando captar toda a profundidade do que ele lhe dizia.

            — É assim tão terrível o que você quer dizer-me? — indagou ela.

            — Eu… bem, acredite: é sim.

            — Tudo bem, eu agüento o tranco. Do que se trata?

            O homem reclinou-se na cadeira a olhar o rosto de Karina, como se a estudando. A moça ficou a olhar também para ele. Aparentemente estava serena, embora por dentro estivesse extremamente agitada e curiosa.

            — Primeiro, diga-me: você acredita que haja outra vida depois da morte? Acredita em… bruxarias… em feitiçarias… essas coisas?

            Karina espantou-se de verdade. Ficou perplexa. Olhou para Anteu e o viu com novos olhos. Aquele homem todo poderoso acreditaria mesmo naqui­lo? Tê-la-ia trazido para o motel para falar disto? Se fosse verdade, en­tão, certamente estava precisando com urgência de um psiquiatra. O automó­vel que os perseguira e do qual tão habilmente havia fugido era verdadeiro e deste mundo. Não tinha nada de sobrenatural. Iria Anteu falar realmente de um assunto tão fora de propósito?

            — E então? — instou ele — Estou esperando.

            — Errr… Bem, há os afoxés, os candomblés, as umbandas… — ela falava quase por falar, pois sua cabeça estava confusa.

            — Eu sei, eu sei — disse ele com um tom de impaciência na voz — Mas eu quero saber é sobre coisas bem mais profundas… mais sinistras… Bem além disto… destas crendices infantis…

            — Co… como assim? — o espanto crescia na repórter.

            — Eu falo de algo bem mais terrível, compreende? Falo de bruxas de verdade… Seres que são indestrutíveis… Que não morrem nunca.

            Ele falava a sério e não estava doido, Karina podia ver isto. E o seu espanto ia no auge.

            — Algo assim como… vampiros? — tentou a moça, incrédula.

            — Não… quer dizer… mais ou menos… – Anteu parecia atrapalhado para explicar o que desejava que a repórter compreendesse.

            — Anteu — disse a repórter, decidida — eu não estou entendendo aon­de você quer chegar. Mas se vem-me dizer que estamos aqui para falar de sobrenatural…

            — Não se trata de sobrenatural. Trata-se de algo que no momento a Ciência não explica… Bem, deixa pra lá. Vejo que você não acredita mesmo nisto.

            — Não, não acredito. Não sou de me preocupar com o amanhã, entende isto? Não sei, e talvez ninguém saiba, se há vida após a morte. Mas sou de opinião que, como todos vamos morrer, todos saberemos disto quando che­gar a hora. E como isto é inevitável é perda de tempo ficar lucubrando so­bre o tema. Estamos vivos, agora. Vivamos, portanto. Se houver algo após a morte… bem, então há. Se não houver, pelo menos a gente não perdeu tempo à-toa. Viveu bem o tempo que teve para viver, compreende? Agora, quanto a bruxas… feiticeiras… vampiros… seres que morrem mas não estão mortos e coisas semelhantes, francamente, não creio em nada disto. São criaturas, ou coisas, oriundas das nossas fantasias infantis e eu creio que a Psicanálise tem uma explicação muito convincente para isto. Esta história toda me parece uma manobra sua para fugir ao assunto real. É ou não é?

            — Como assim? — Anteu escutara calmamente Karina falar.

            — Ora, o carro que nos perseguiu ainda há pouco é deste mundo e não tinha nada de sobrenatural. Você está escapando pela tangente pa­ra não falar dele, não é?

            — É assim que você julga?

            — Não julgo nada. Eu percebo claramente que você quer escapar de falar do incidente. Por que, hein Anteu? Eu tenho o direito de saber, afi­nal também estava no carro e passei um susto danado, ora.

            Anteu guardou silêncio por algum tempo, olhando com um sorriso enigmático para a repórter. Depois, disse:

            — Você tem razão. Eu tentei… Não pode me condenar por isto, não é?

— Creio que não. Agora, que tal não perdermos mais tempo, hum?

            — Bem…

            — Que tal deixar de rodeios e ir direto ao assunto! — insistiu encorajadoramente a repórter. Um sorriso cativante lhe iluminava a face.

            — Você está certa. Vamos mesmo ao que interessa. Eu só estava divagando para ganhar um pouco de tempo, nada mais. Mas quero reforçar meu pedido: não revele a sua fonte de informação. Invente o que puder e quiser, mas não cite meu nome.

            — Fique tranqüilo quanto a isto.

            — Ótimo. Agora me diga: você conhece o Celso Cerqueira?

            — O banqueiro de bicho? Claro! É a estrela número um do meu traba­lho — e Karina não conseguiu disfarçar a satisfação que o rumo da conversa tomava agora.

            — Eu o conheço há uns quatro meses… Talvez seis, não mais. Durante todo este tempo eu o considerei apenas um colega de profissão, advogado co­mo eu. Nos últimos cinco meses eu o ajudei no despacho de alguns caixotes e outras pequenas encomendas para a Europa. Usava meu prestígio… o nome dos Kamuratti para conseguir livrar a mercadoria da amolação e da demora adua­neira, compreende? alguns dólares — dele, é claro — ajudavam muito… Você me entende?

            — Sim, você subornava.

            — Hum-hum, isto mesmo, isto mesmo. Aqui no Brasil isto é mais fácil do que em qualquer outra parte do mundo.

            — Pode ser. Temos-nos tornado muito venais de uns tempos para cá. A vergonha cívica, o sentido de nacionalismo,a honra patriótica passaram a ser apenas substantivos abstratos entre nós. Culpa da política de desestru­turação por que vem passando a Nação há mais de quarenta anos. Eu suspeito, até, de que há um plano sinistro para acabar com este país ainda imberbe. O ensino, a língua, os valores sociais, morais e religiosos estão sendo sistematicamente esfacelados… Mas continue, por favor. Minhas opiniões pessoais não importam agora. ­

            — Importam, sim. Você não faz idéia do quanto está certa no que suspeita. Só que não é só o seu país que está passando por este processo horrível, não. Toda a America Latina sofre isto. E a Europa, não demora, vai passar pela mesma agrura, ou até pior.

            — Há um plano para… Ora, Anteu, você está querendo brincar comigo. Vai querer dizer que há uma organização oculta que deseja arrebentar com os países da America Latina e da Europa, é?

            — Não. Eu não estou afirmando tal coisa. Mas vamos voltar ao Celso?

            — Vamos. É mais objetivo.

            — Há alguns dias o Celso me procurou. Parecia um tanto aflito. Precisava despachar umas caixas de frutas para a Bósnia e outras para a Sérvia e a delicada situação daqueles países, disse-me ele, punha todas as enco­mendas sob suspeita. Além do que, a demora na papelada era inevitável. E­le me disse temer que a encomenda estragasse. Pediu-me que, pela oitava ou décima vez, atuasse interferindo na Alfândega. Eu o atendi. Até a­quele momento eu não me interessava pelas Guias de Exportação. Ele me dava os números dos documentos e eu agia. Mas no caso específico daquela remessa para a Sérvia necessitei de ter as guias em mãos. A aduana havia acusado problema no peso declarado. Levei as cópias dos documentos para o banco, a fim de pedir um aditivo com a correção necessária. Mas houve uma complicação com os números da Guia. O final da cópia xerox que eu tinha em mãos diferia do original. É bem verdade que a xerox estava ruim e o número 5 podia ser facilmente confundido com o 6. Quando comuni­quei o fato ao Celso ele ficou estranhamente agitado. Pediu que eu pagas­se qualquer quantia para liberar o documento sem mais delongas. Embora estranhando aquela urgência atendi o seu pedido. É claro que houve reembolso por parte dele.

            — Espere, meu amigo, desde quando os Kamuratti fazem favores a uma pessoa fora do clã? — estranhou a repórter.

            — Desde nunca — foi a resposta incisiva —, mas é que eu não sou um Kamuratti de sangue e…

            — Você o quê…? — espantou-se Karina.

            — Depois eu falo disto — impacientou-se Anteu — Eu fiquei curioso e resolvi, nem mesmo sei por que, averiguar a tal remessa. E sabe o que é que eu descobri?

            — Nem imagino…

            — Não era fruta coisa nenhuma. Eram armas.

            — Armas?! Fuzis, metralhadoras… essas coisas?

            — Sim. Armas das forças armadas.

            — Então, o Celso, além de contraventor do jogo do bicho, também é contrabandista de armas, hein?

            — Sim, é. Mas o que estranhei é que ele trabalhe para uma firma insignificante. A FRUTIBRAS LTDA é uma empresa sem projeção nenhuma. No entanto, uma firma honesta.

            — Ora, uma cobertura ideal, a meu ver — disse Karina.

            — Eu acho que há alguma coisa a mais nesta história… Sinceramente, não creio que o Celso tenha cacife para enveredar pelo caminho do contrabando de armas. Ainda mais, internacionalmente.

            Uma chave girou na fechadura da porta. Anteu sobressaltou-se e se pôs de pé justamente quando dois homens irromperam na saleta. Algo como uma lâmpada de fósforo explodiu no ar cegando o casal. Karina não viu o que se passou a partir daquela luz forte. Alguma coisa foi enfiada em sua ca­beça e uma mão rude a pôs de pé. Quase no mesmo instante um soco à altura do plexo lhe tirou o fôlego e lhe sufocou o grito na garganta. Ouviu duas pancadas abafadas, um gemido e uma queda. Depois foi brutalmente em­purrada para fora e teve de mexer-se com rapidez para não cair, pois mãos rudes a fizeram parar, girar, chocar-se contra a parede e ser empurrada e puxada com brusquidão, terminando por ser jogada dentro de um carro que arrancou cantando pneu. Karina recuperou a voz quando o carro já voava pela rua. Seu pensamento estava em seu amigo. O que teriam feito com ele?

            — Anteu? — gritou, mas a resposta foi um soco no rosto que lhe a­tingiu o lado direito e quase lhe fratura o malar. Uma voz grosseira lhe gritou:

            — Calada aí sua cadela!

            A dor e a desorientação intensificaram o medo em Karina. Quem lhe batera bem podia ter-lhe arrebentado o nariz. O indivíduo, quem quer que fosse, não estava ligando a mínima para ela, e isto significava que sua vida estava por um fio.

            — E o cara? — a voz era dura, mas era de um homem jovem.

            — Vai dormir até o embarque — alguém respondeu e a voz era de um adulto feito.

            — E a zinha, o que vamos fazer com ela? — uma terceira voz, também de um jovem. O nariz de Karina farejou o cheiro de homens suados.

            — Vai voar! Agora! JOGA!

            Karina sentiu-se empurrada violentamente para fora do carro. No e­xato momento em que seu corpo voava para o choque mortal com o asfalto u­ma mão rude lhe arrancava o capuz. A moça nem pôde gritar. O choque foi violento, mas não com o asfalto ou o meio-fio. Ela caiu dentro de um charco de lama e capim. Karina era praticante de jiu-jítsu e sabia amortecer o im­pacto da queda. Isto livrou-a de sofrer sérios ferimentos e fraturas, mas não impediu que bebesse daquela água poluída. Chuviscava ainda e a repór­ter engasgada, tossindo e cuspindo lama, arrastou-se para a margem da es­trada. Fazia muito frio. Ela tiritava.

Apenas a escuridão da noite a recebeu, envolvendo-a num abraço na­da reconfortante…