Capítulo III – Surge Uma Luz (Primeira Parte)

 

Os perseguidos corriam por esta estrada, em direção à cidade.

Os perseguidos corriam por esta estrada, em direção à cidade.

A perseguição, a intromissão e os destinos que se unem

             O casal estava nervosíssimo. A moça olhava o tempo todo para trás, como se quisesse adivinhar em qual carro estariam os seus perse­guidores. Ludimila e Mara sabiam que o carro era um Camaro, mas não o viam seguindo o Del Rey.

            — Escute — falou a ruiva — não siga por estradas desertas. Procure andar seguindo o máximo de tráfego.

            — Por que? — indagou, nervoso, o rapaz.

            — Se aqueles homens nos seguirem, e eu acho que vão se­guir, não virão com boas intenções. Lugares desertos são ótimos para acidentes e atentados. Eu não quero servir de alvo para pistolas assassi­nas.

            — Ai, meu Deus! Moça, a senhora tem certeza de que eles virão com a idéia de nos matar? — a companheira do rapaz estava francamen­te apavorada e Mara gostava cada vez menos da situação. A ricaça tinha influência até junto ao Presidente dos Estados Unidos. Quando descobrisse o que estava acontecendo; em quê encrenca sua amiga a havia metido…

            — Tenho. Este carro não corre mais do que isto, não? — instou Ludimila, ansiosa.

            — Estou a quase 160. É o limite dele — respondeu o jovem Luis Filipe.

            — Por que você não se acalma? — perguntou Mara — deste jeito vai terminar por nos levar à indigestão. Eu já estou…

            — Shhhiiittt! — fez Ludimila, imperiosa. Mara calou-se e acompanhou o olhar da colega. Lá atrás, bem distante ainda, viu o Camaro. Reconheceu-o pela cor laranja de sua pintura. Vinha ziguezagueando e ultrapassando todos os demais automóveis como se eles não existissem.

            — Estão vindo! — exclamou a bela morena, aflita.

            — Meu Deus, o que vamos fazer? — choramingou a milionária companheira do rapaz.

            — Calma, gente, calma! — disse o jovem, escrutando o cami­nho à frente — o pedaço mais deserto é este que estamos passando. Depois vem a Barra. Há muitos carros à beira-mar. Eu tenho um plano. Vocês duas, abaixem-se no fundo do carro.

            — Como? — perguntou Mara, atônita.

            — Não pergunte — disse Ludimila — obedeça!

            Ato contínuo as duas estavam espremidas entre os bancos. O rapaz diminuiu a velocidade do Del Rey e misturou-se à fila de autos que começava a engrossar à medida que se   aproximavam dos primeiros edifícios e condomínios imponentes. Havia dois outros automóveis da mesma cor e modelo que o deles. O rapaz intrometeu-se entre os dois. Avançavam, agora, à velocidade média de cinqüenta quilômetros por hora. No automóvel da frente ia um casal.

            — Meus óculos de sol — pediu ele. Sua companheira entregou-lhe o que pedia sem entender muito bem a razão do pedido.

            — Ótimo! Agora, aquele boné que você me deu.

            — Onde está?

            — Veja no porta-luvas.

            Sim, estava lá, todo amarrotado. Ele jamais imaginara que um dia viesse a usá-lo. Tinha a cor vermelho berrante e, em amarelo, o dísti­co: “SOU SENNA”. Ele era fã do corredor recém-falecido, mas não a ponto de usar uma coisa idiota daquelas. Agora, aquilo era bem-vindo. Podia ajudar­-lhe a safar-se e a todos daquela situação esdrúxula. Não era crível que em plena Rio de Janeiro, final do século XX e princípio do XXI, ele se visse metido numa aventura típica do James Bond. Ainda achava que as moças a quem dava carona eram paranóicas. Não podia crer que estivessem sendo seguidas por espiões. Talvez alguns marginais do Comando… E se isto fosse a verdade, então, todos estavam correndo risco de morte. Quando aquela gente indicava alguém para ser a “bola da vez” era muito difícil es­capar. O que aquelas duas intrometidas teriam feito à gang? E por que o destino o escolhera para estar naquele restaurante na mesma hora que elas? “Se escapo ileso, prometo que irei ao Terreiro de Pai Joaquim para lhe agradecer e prometo nunca mais zombar de espiritismo”. Não era religioso, mas aceitava mais o espiritismo a qualquer outra das religiões vigentes e creditadas socialmente. Pastores eram gananciosos e descarados; vendiam milagres a granel pela televisão. E padres mentiam pelos cotovelos com aquela história de transformar em mendigos de Deus aos católicos e os manter nesta condição horrível a vida toda. Assim ele via as religiões exotéricas. Sempre vigiando o retrovisor, colocou o boné e ordenou à namorada:

            — Você também, abaixe-se. A moça o olhou surpresa.

            — Não pergunte nada — disse ele — apenas obedeça, rápido!

            Viu o Camaro. Estava a uns dez carros atrás dele e avan­çava rápido. Fazia ultrapassagens perigosas, mas quem quer que o dirigia era muito hábil.

            — Meu bem — falou o rapaz — mantenha a mão no acelerador en­quanto eu tiro as calças. Quando eu disser “aperta”, você calca o pedal devagar; quando eu disser “folga”, você desacelera. Entendeu?

            — Você vai fazer o quê? — espantou-se a jovem milionária.

            — Estou de calção de banho, não se preocupe. Agora, obedeça. Os caras estão a seis carros atrás de nós. Não custa muito e vão estar em cima da gente.

            A moça, tremendo de medo, obedeceu-o. O rapaz con­seguiu desnudar-se rapidamente entre três “apertas” e três “folgas”. Depois, abriu a camisa no peito, ligou o rádio bem alto e sentou-se o mais relaxado que pôde, mastigando um chiclete que não existia. Era forte e tinha músculos bem trabalhados. Dava a impressão de ser um boa vida como muitos que existem naquela cidade maravilhosa.

            O Camaro encostou atrás do primeiro Del Rey. O rapaz fez uma ultrapassagem arriscada e avançou três carros antes de ser obrigado a vol­tar a sua fileira. O Camaro precipitou-se atrás dele, mas ao ultrapassar o auto do casal, hesitou.

            — Diabo! — exclamou Fratelli — É um imbecil sozinho. No car­ro de trás há um casal. Vamos pará-los e verificar o carro.

            — Não vejo ninguém no banco de trás — disse um dos asseclas.

            — Podem estar abaixadas para nos despistar — disse Fratelli. — Luis, mantenha aquele “play-boy” sob vigilância. Vamos olhar tudo que for Del Rey prata ou ouro. Elas não nos escapam. Franco, pise no freio e force uma batida.

            O motorista observou o carro atrás. Deu um espaço ao automóvel da frente para que se adiantasse uns trinta metros e, então, acelerou. O Del Rey atrás o acompanhou. Então, Franco freou súbito. O Del Rey não pôde fazer a mesma coisa e, cantando pneus, chocou-se na traseira do Camaro. O trânsito parou e muitas buzinas impacientes se fizeram ouvir. Os facínoras saltaram e cercaram o Del Rey rapidamente. O casal, assustado, não saiu de dentro do carro. Fratelli verificou a traseira do automóvel. Ninguém. Ali só havia o casal de meia-idade.

            — Desculpe-nos, senhor — disse, educadamente — aqui está o meu cartão. Atrás está o endereço de meu mecânico e o telefone de minha se­guradora. Eu cubro todos os danos e não se preocupe. Foi tudo culpa de meu motorista. Vamos!

            Tão rápido como haviam surgido, os homens se foram deixando o casal a olhar aparvalhadamente para o retângulo amarelo em suas mãos.

            O Del Rey do “play-boy” estacionou numa vaga à beira-mar. Lugar estratégico. Muito movimento. Não havia outra vaga por perto. Um rapaz despreocupado e trajando apenas calção de banho saltou do auto e foi abrir o porta-malas. De lá retirou um guarda-sol de praia. Devagarzinho o Camaro aproximava-se. Seus ocupantes observavam atentamente o rapaz.

            — E então? — perguntou o motorista — o que fazemos? Parece que é somente um carinha qualquer vindo caçar…

            — Parece, mas vamos verificar. Será rápido. Uma olhada dentro do carro e pronto. Não há muito onde uma pessoa se esconder dentro de um automóvel. Se elas estão lá, só podem estar abaixadas e espremidas en­tre os bancos.

            O Camaro foi estacionado bem atrás do Del Rey do rapaz, de modo a lhe impedir qualquer manobra de escape. Fratelli ordenou que os ou­tros ficassem dentro do carro e saltou sozinho. Do Del Rey o jovem também saltou e se encaminhou para a traseira do automóvel, aparentemente sem tomar conhecimento do facínora, que era um homem forte, corpo bem-feito. Devia ser um desportista.

            — Está vindo de onde, cara? — indagou à queima-roupa o bandido parando perto de Luis Filipe. Este o olhou surpreso.

            — O que disse? — perguntou, observando os homens dentro do carro estacionado atrás do seu.

            — Eu perguntei de onde você está vindo — disse Fratelli avançando para o Del Rey. O rapaz intrometeu-se entre ele e o carro, impedindo-o de se aproximar de modo a poder olhar para dentro do automóvel.

            — Que pergunta besta é essa, me’rmão? Quem é você?

            — Trate de responder, camaradinha, se quer ficar inteiro. — O jovem compreendeu que estava correndo sério perigo. Não era de briga. O que fazer?

            — Estou vindo de casa, droga. Qual é? Você é o dono daqui?

            — Cala a boca, panaca. Quem está no seu carro?

            — Mas que diabo você tá querendo, cara? — o rapaz elevou a voz, tentando despertar a atenção de quem pudesse ouvi-lo. Naquele momento passava uma família — um homem, dois rapazes, duas meninas e uma mulher jovem. Luiz Filipe esperou chamar a atenção deles, mas não foi muito feliz em seu intento. O homem só  lhes  deu  uma  rápida olhada e seguiram to­dos rumo à areia da praia.

            — Saia da Frente! — rugiu Fratelli, impacientando-se.

            — Quem diabo você pensa que… — o jovem não completou a frase. Um tremendo empurrão que quase o faz voar, jogou-o ao chão. A pancada no peito lhe tirou a voz e lhe encheu os olhos d’água. Fratelli deu dois passos para a frente quando ouviu a voz imperiosa:

            — Parado aí, ou leva bala! É a polícia!

            Surpreso, o facínora olhou por cima da capota do automóvel ao lado do Del Rey. Um homem forte, atarracado, pelos grisalhos no peito e na cabeça, olhar de águia, decidido, apontava-lhe uma respeitável quarenta e cinco direto para a cabeça. A arma estava engatilhada. Cuidadosa­mente, Fratelli ergueu as mãos até à altura dos ombros.

            — O que é que há? — perguntou, raivoso, mas controlando-se. Luis Filipe percebeu a  ajuda. Agradeceu ao seu anjo de guarda e exagerou na tosse e no fingimento da dor.

            — Vire-se de costas, ponha as mãos na capota do automóvel e abra as pernas. Ande, OBEDEÇA! — gritou o polícia e Fratelli compreendeu que ele não estava para brincadeiras. Olhou nos olhos do homem e viu que corria sério perigo. Ele atiraria mesmo, ao menor sinal de vacilo de sua parte.

            — Calma, parceiro. Sou advogado… — começou a falar.

            — Cala a boca e põe as mãos na capota, já! — os dedos do homem apertaram a arma e Fratelli temeu que ele disparasse. Tratou de obedecer.

            — Os seus comparsas — ordenou o policial — mande que fiquem no carro. Ao menor sinal de movimento eu atiro primeiro em você, depois, ne­les.

            Furioso, mas impotente, Fratelli ordenou, com um sinal de cabeça a seus homens, que não se movessem. Tomou a posição que o policial lhe ordenara. Luis Filipe levantou-se ainda tossindo. O polícia deu a volta cautelosamente ao carro e se colocou fora do alcance de um pontapé de Fratelli, frustrando-lhe a intenção. Sem mesmo pestanejar e olhar fixo no assecla dos Kamuratti, falou para o rapaz.

            — Você está bem, meu jovem?

            — Si… sim, senhor. Só um pouco dolorido no peito.

            — Isto passa. Faça-me um favor. Pegue o microfone no meu automóvel. Vire a chave para o alto e fale o seguinte; “aqui é o três-meia­-cinco pedindo reforço. Av. Sernambetiba, Barra, em frente ao Caça e Pes­ca. Suspeitos retidos num Camaro cor laranja. Cinco. Estou só. Repito: necessito de reforço urgente.” Você entendeu? 

            — Sim senhor.

            — Ótimo, faça isto, agora.

            Fratelli olhou com ódio para o policial.

            — Escuta aqui, ô cara, eu já disse: sou advogado…

            — Cala a boca! O Comando Vermelho também tem advogados a serviço deles. E eu não gostei de sua cara. Portanto, não se mexa e fique calado!

            — … e trabalho para o Sr. Kamuratti – concluiu Fratelli, quase gritando e ignorando o que o policial dizia. 

            — Eu vou verificar sua história, mas enquanto a patrulha está a caminho, quero todos quietos, entendeu? A Falange e o Comando têm andado muito ativos por aqui, nestes últimos meses e vocês me parecem bastante suspeitos.

            — Mas não estávamos fazendo nada… — protestou o advogado.

            — Não mesmo? E o soco no peito do rapaz, como se explica?

            — Foi um equívoco. Outro Del Rey de mesma cor nos deu u­ma fechada e quase nos joga fora da estrada. Nós o confundimos com o car­ro do moço aí. Foi só isso!

            — Isto só faz com que eu suspeite mais de vocês. Um cidadão decente não iria perseguir e agredir outro, só porque ele lhe deu uma fechada. Num trânsito desses, isto é comum — ripostou o policial.

            Fratelli afastou as mãos de cima da capota do carro num gesto involuntário para se explicar. O polícia não teve dúvidas: disparou um tiro por cima da cabeça do facínora raspando-lhe os cabelos. Fratelli encolheu-se de susto e empalideceu. O homem podia ter-lhe varado a testa a bala.

            — QUIETO! — gritou o polícia — Se afastar as mãos de cima da capota do carro vai levar bala. E falo sério, entendeu? E vocês, aí no Camaro. Um a um, cuidadosamente, saiam e venham colocar-se aqui. Todos na mesma posição deste sujeito. VAMOS! SAIAM!

            Os capangas obedeceram. O tiro inesperado os desconcertara. Fratelli trincava os dentes com tanta força que os maxilares pareciam querer saltar de seu rosto. Se tivesse a mínima chance de pôr as mãos naque­le policial idiota matá-lo-ia tão rapidamente que ele nem perceberia. Os quatro comparsas se enfileiraram ao seu lado e o olha­vam como que perguntando “o que fazemos, agora?” Ele meneou a cabeça em negação, numa resposta muda: “nada”.

 

Sentença de Morte

 

Uma sirene irritante se aproximou. O “camburão” parou ao lado do Camaro. Quatro policiais armados saltaram e os cercaram.

            — Eu… eu posso ir…? — indagou o rapaz, preocupado. Como explicaria as mulheres encolhidas no carro?

            — Não. Você, também, fica. Se esses homens forem bandidos ­— e eu penso que são — vou precisar de sua queixa para metê-los atrás das grades. E agora, todos para o camburão, vamos!

            “Que entaladela” — pensou o rapaz.

            — Espere um pouco — disse Fratelli. Eu sou um advogado e não vou entrar num camburão à-toa. Pode atirar, se quiser, mas não vou me rebaixar a isto.

            — Você — disse o policial — me dê a sua identidade. Mova-se devagar, senão…

            Fratelli obedeceu. O policial recebeu-lhe a cédula de iden­tidade. Os outros policiais revistavam os homens impotentes. De Fratelli tomaram um trinta e oito e a beretta que sempre trazia atrás, no cós das calças. Dos outros, recolheram a “infantaria”.

            — Ei, detetive, eles têm um arsenal. Cada um leva uma sete-meia-cinco e alguns têm até armas nas pernas — disse um dos policiais re­cém-chegados.

            — Algemem todos — foi a resposta seca.

            — Espera aí! Eu sou um advogado! — protestou Fratelli. Era a primeira vez, desde que tinha vindo trabalhar para os Kamuratti, que se via em uma situação tão vexatória.

            — O Celso Cerqueira também é — disse o detetive. — Ele também anda cercado de mercenários armados até os dentes e sem licença para isto. O curioso é que ele própria é advogado e não anda armado, mas você, que também se diz advogado, não somente anda armado como cercado de gente mal-encarada e armada até os dentes. Não convence, cara. Mostrem o porte de armas. Todos!

            — Não temos —— disse Fratelli, soturno.

            — No camburão. Estão detidos por porte ilegal de armas.

            — Mas… — quis protestar Fratelli. Um tapa de mão aber­ta estalou-lhe na face.

            — Calado, “seo” calhorda! — gritou-lhe o polícia que lhe ba­terá sob o olhar indiferente do detetive — para o camburão, já!

            Fratelli fuzilou o seu agressor. Daria a alma ao diabo por uma única chance de poder pôr as mãos nele, agora. “Você está morto, des­graçado”, murmurou em italiano.

            — Tá dizendo o quê, idiota? Tá dizendo o quê? — E o policial enfiou a ponta do cassetete no abdômen de Fratelli. Um homem normal ter-se-ia dobrado de dor, mas aquele era o melhor aluno de Kimura. A arma do policial encontrou uma parede de aço e, apesar da força com que fora lançada contra Fratelli, não conseguiu fazer nem mesmo com que o furioso homem balançasse. O polícia fitou-o nos olhos, espantado. O ódio e um riso misterioso naqueles olhos lhe fizeram sentir um calafrio na boca do estômago. Havia morte, ali. Morte que lhe olhava direto como o olhar do gato para o rato acuado. O policial sentiu-se mal e recuou involuntariamente, engolindo em seco.

            — Entrem no camburão — ordenou Fratelli, sempre olhando fixamente para o polícia, que “desmontara” à sua frente. O homem parecia ter tido sua força vital sugada por aquele  olhar infernal. — Estes senhores da Lei vão ver com quem se estão metendo — completou o facínora. Seus homens obedeceram e ele foi o último a fazer a mesma coisa. Ficou próximo à porta da viatura e quando o policial que o agredira veio fechá-la, como uma cobra as mãos de Fratelli o aberturaram e o ergueram do solo como se ele fosse de pluma. Rosto no rosto e olhos nos olhos, o furi­bundo assassino rosnou:

            — Meu carro, ‘seo’ merda! Se sofrer um arranhão, não somente você morre. Morrem todos. Eu me encarrego pessoalmente disto, entende o que digo?

            Tomado de surpresa e se sentindo absolutamente à mercê do seu agressor, o assustado policial só pôde balbuciar:

            — Sssi…ssim, senhor… So…solte-me! Es…está me… me machucando…

            — Você é meu, idiota. Nós vamos encontrar-nos em breve! E antes que os companheiros acudissem o pobre policial dependurado nas suas manoplas, Fratelli o soltou com um safanão, jogando-o ao solo. O detetive olhou-o nos olhos e se aproximou.

            — Agressão à autoridade. Muito bem, advogado, você está-se complicando cada vez mais. Continue assim. Você vai ótimo! — Ironizou o detetive de polícia que o tinha detido.

            — Vá à merda! — rosnou Fratelli.

            — Não, não vou. Mas gostaria de fazê-lo comer um pouco do excremento de que sua boca vive cheia… advogado.

            Os dois homens se olharam firmemente. Fratelli tinha difi­culdade de se controlar para não saltar em cima de seu desafeto.

            — Você se intrometeu num assunto que não lhe diz respeito. Vai arrepender-se por isto — falou entredentes.

            — Ameaça-me? Você está-me fazendo uma ameaça?

            — Sim. Vou matá-lo — rosnou Fratelli.

            — Isto, eu quero ver — disse com um sorriso o polícia.

            — Não vai ver. Não terá tempo.

            — Vamos-nos encontrar, rapaz. Prometo-lhe que vamos-nos encontrar novamente.

            — Reze, antes. Não lhe darei tempo para isto, quando esti­vermos frente à frente.

            — A mãos limpas? — o detetive sorria, zombeteiro.

            — Claro. Mas se você estiver armado não fará diferença. Eu o acertarei de qualquer modo — Fratelli fitava sério seu desafeto.

            — Isto é o que veremos. Sabe? Gosto de gente valente. Gosto de uma boa briga… Espero que você saiba brigar, senão…

            E o detetive de polícia afastou-se entrando em seu carro. De lá, gri­tou para o rapaz:

            — Pode ir tomar o seu banho, moço. A gente já tem motivos de sobra para deter esta corja. Tenha um bom dia!

            — O senhor também, detetive.