Capítulo III – Surge Uma Luz (Segunda Parte)

Os perseguidos corriam por esta estrada, em direção à cidade.

Os perseguidos corriam por esta estrada, em direção à cidade.

Segunda manifestação

 O carro do polícia arrancou atrás do camburão. O rapaz, tão logo se viu livre, abriu a porta do carro e manobrou para sair dali. As mulheres voltaram a ocupar os seus lugares aliviadas. A posição entre os bancos era extremamente desconfortável e Mara já sentia falta de ar devi­do à forma como estivera acocorada. O calor as fizera suar em bicas.

            Luis Filipe enveredou por entre o fluxo de metal e tinta e logo atravessavam a ponte sobre o canal próximo à Ilha da Gigóia, tomando a direção do Alto da Boa Vista.

            — Escutem, moças, quando se aproximaram de nós vocês perguntaram nossos nomes. Contaram uma história tão espantosa que não nos apresentamos. Agora, é hora das apresentações. Meu nome é Filipe. Luis Filipe Nettus Filho. E esta é Milena Fórcis, minha noiva. Rica socialite das rodas da alta classe. Até há duas horas tínhamos uma vida calma como a de qualquer cidadão desta cidade… dentro do que é possível, é claro. Vocês duas, porém, viraram nosso dia da semana de pernas pro ar. Quem são vocês?

            — Eu já disse… — começou a falar Ludmila.

            — Disse e mentiu — cortou o rapaz. — Se vocês fossem mesmo polícia, teriam saído do carro quando aquele policial interveio na confusão em que nos meteu. Mas vocês ficaram quietinhas aí. Posso saber o que está acontecendo?

            Mara olhou para Ludmila. Por ela, abria logo o jogo. De­testava mentir e, afinal, o rapaz as ajudara bravamente, mesmo correndo perigo de vida. Ludmila meneou negativamente a cabeça, ao adivinhar a intenção da colega.

            — Vamos, meninas, aquele homem disse que trabalhava para o Kamuratti. Nós ambos conhecemos o banqueiro. Você e sua amiga nos disseram que eles eram terroristas. Quem está mentindo nesta história toda?

            — Eles — falaram as duas ao mesmo tempo.

            — Desçam — e o rapaz freou o carro.

            — O quê? — surpreendeu-se Ludmila.

            — Eu disse desçam.

            — Mas… mas aqui? Na subida da serra? — protestou Mara.

            — Sim senhora. Espiões não fazem o meu gênero. Mentirosas, menos ainda. Desçam. Aqui é fácil pegar um táxi. Aqueles homens podem ser realmente o que diziam, mas podem perfeitamente ser do Comando Vermelho ou da Falange. E Milena é rica. Eu, também. Não gostaríamos de passar pela experiência de um seqüestro, Meu futuro sogro é cardíaco. Não quero a morte dele, compreendem? Se Milena viesse a ser raptada, certamente que nós não o teríamos em nosso casamento.

            — Mas nós… — ia começar a falar Ludmila, mas o rapaz a cortou impaciente.

            — Desçam, são surdas?

            — Se vocês não fizerem o que meu noivo está mandando, começo a gritar até que o carro esteja cercado — ameaçou Milena.

            — Tá certo… tudo bem… fique calma. Já vamos descer. De qualquer modo, queremos agradecer o que fizeram por nós. Vocês foram muito corajosos. Acreditem: se precisarem de qualquer coisa na polícia…

            — Não — cortou o rapaz — depois de hoje, eu quero mais é  distância  de polícia.     Adeus, donas!

            E arrancou com o carro, sumindo logo na curva adiante. Milena, após ajeitar-se no banco do carro, olhou para o namorado e disse:

— Tenho a impressão de que conheço uma daquelas moças. Acho que é uma repórter social. Das que vivem torrando a paciência da gente querendo fotos e mexericos para colocar em seus jornais…

— Pode ser… Nós não somos muito de viver no badalado meio social, por isto, não tenho bem na memória o rosto delas.

— É… Mas a morena não me pareceu estranha…

— Acho que você pode mais conhecer esse pessoal do que eu – disse Luís Filipe.

*    *    *

— Bem — disse Mara — estamos novamente a pé. E agora?

— Táxi! — exclamou Ludmila — vamos parar um táxi e logo estaremos no jornal. A propósito, ali vem um. TÁXI! TAAAAXIIII!

 Mas o motorista não parou. Olhou-as, mas não parou.

 — Filho de uma cadela sarnenta! — gritou a frustrada repórter. — O desgraçado nos olhou e não parou, pode uma coisa dessas?

Logo depois da curva, na Estrada das Paineiras, subida para  a Floresta da Tijuca, o táxi estourou o pneu.

Logo depois da curva, na Estrada das Paineiras, subida para a Floresta da Tijuca, o táxi estourou o pneu.

— Eu queria que o pneu dele estourasse… — disse Mara com raiva, punhos cerrados e olhar fuzilante preso no carro que dobrava na curva logo adiante. Mal acabara de falar e ouviu-se um estrondo. O táxi rabeou perigosamente, perdeu a direção, subiu a calçada e foi chocar-se violentamente contra um Monza Classic que estava entrando na garagem de uma mansão. Mara empalideceu. Ainda estava atônita, fitando o acidente, incrédula, quando foi arrastada pelo braço, por Ludmila, que lhe gritava:

 — Vamos logo Mara, antes que aquele ali também vá embora…

            Como uma autômata Mara se deixou arrastar. Como é que po­dia ter visto o táxi sofrendo o desastre, se ele estava além da curva que encobria a visão delas?

            O táxi que as conduzia passou ao lado do acidente. Total­mente espantada, Mara viu que o táxi estava justamente como havia visto quando ele sofrera o acidente aparentemente longe de seus olhos. Como é que aquilo era possível?

            “O cão. Eu ordenei que ele atacasse o seu companheiro e ele o fez. Agora, o táxi. Eu desejei que o seu pneu furasse… E ele furou. Não podia ser coincidência? Não. Não podia. Era coincidência de­mais num só dia…”

            — Você viu aquilo? — perguntou Ludmila — Ainda bem que ele não parou para nós. Olha só onde estaríamos metidas, agora. Que sorte a nossa, não foi?

            — Hein…? Oh, sim, sim. Uma grande sorte… eu acho.

            Como dizer a sua companheira de que desconfiava que havia sido ela, Mara, a causadora do acidente?

            — O que há com você? Está pálida… — observou Ludmila,

            — Eu… acho que foi… foi tudo, sabe? Tudo, mesmo. — Mara se esforçava para manter controle sobre suas emoções. Sentia que suava nas mãos e no corpo todo. Um suor pegajoso, incomodativo. A súbita tomada de consciência de que podia ter realmente causado aqueles  efeitos inexplicáveis no cão e no táxi a deixavam quase descontrolada.

            — Eu sei, eu sei. Acho que devo um pedido de desculpas a você. Mas, como pôde ver, o assunto é por demais escabroso e perigoso. É necessário muito cuidado e, também, saber guardar sigilo. A Karina não saberia fazer isto. Se fosse ela em seu lugar, tão logo chegasse à redação já corria para a máquina para contar tudo, tim-tim por tim-tim. E colocaria tudo a perder, além de colocar nossas cabeças na forca, compreende? Nada do que vimos e passamos é prova. Tudo parecerá circunstancial, num tribunal. O que eu quero é dizer que isto só pode ir para as páginas do jornal quando tivermos algo realmente forte, sólido.

            — Por que você cismou comigo? Por que me escolheu? Não sou boa para enfrentar situações de tensão — disse Mara, contrariada.

            — Não sei dizer ao certo. Alguma coisa… talvez a famosa intuição feminina, me dizia que você era a pessoa melhor indicada para ser minha companheira neste trabalho. Escute, Mara, na verdade ninguém está pronto para enfrentar o perigo, até quando se depara com ele. Foi assim comigo. É assim com todo mundo. Você não é exceção.

            — Mas não sou a pessoa melhor indicada para trabalhar com você. Não sou forte para isto. Não estou acostumada a violências. Não estou acostumada a lidar com homens como  aqueles. Minha vida sempre foi quieta, pacífica. Mesmo as badalações sociais, quando posso, evito. Não gosto de entrevistar pessoas fúteis…

            — Desculpe, Mara, mas não é o que a sua analista me disse — cortou Ludmila, surpreendendo a outra.

            — Como?! Você sabe da existência dela… quero dizer…? — Mara ficou boquiaberta.

            — Sim, eu sei. Mas não se zangue comigo, por favor. Eu descobri isto sem querer.   Acontece que fui procurar ajuda com uma analista. E por coincidência fui exatamente a sua.

            — E… E por que foi procurar uma analista?

            — Bem… tenho mais uma indiscrição de minha parte para lhe confessar. Mas só farei se você prometer não se zangar comigo. Também prometo contar-lhe o meu segredo. Assim, ficamos quites. Tudo bem?

            Mara olhou desconfiada para Ludmila. Se a ruiva estivesse mentindo…

            — Está bem. Fale.

            — Eu fiquei sabendo que você também freqüentava a analista um dia em que cheguei mais cedo. Você saía de lá. Fiquei curiosa e perguntei diretamente a ela se você era sua cliente, mas ela não me respondeu. Disse apenas que sua clientela era confidencial. Aí, eu passei a vigiar você. Até que tive a certeza de  que  realmente  você freqüentava a analista que eu escolhera. Aí… bem, fiquei curiosa para saber do que você se tratava.

            — Ela lhe contou?? — Mara se espantou.

            — Não, claro que não. Eu… Eu dei um jeito de bisbilhotar o arquivo dela.

            — Mas é computadorizado. Tem sistema de segurança… senhas…

            — Sou expert em programas, esqueceu? Afastei-a de lá com a ajuda de um colega policial e acessei os arquivos. Aí, descobri sobre os seus pesadelos…

            — Então… você sabe? Contou a alguém? Se o fez…

            — Não sou tão venal, Mara. Também estou freqüentando a analista, esqueceu? E também tenho problemas semelhantes aos seus.

            — Você… você também tem aquele pesadelo…?

            — Não, não é pesadelo. É algo esquisito…

            — Como assim?

            — É difícil de explicar…

            — Como assim? Não sabe dizer do que sofre?

            — Não é bem um sofrimento.

            — Então, o que é?

 

O dilema de Ludmila

            — Eu… Quando estou muito cansada, muito estressada, sofro algo que não sei o que é. De repente tenho a visão… uma impressão… algo como estar em dois lugares ao mesmo tempo, compreende? Estou em casa e simultaneamente estou num local que me parece uma ilha… Há coqueiros. E há brisa… praia… sol brilhante… Mas há medo no ar. Um medo muito… muito grande… Aí eu vou entrando em pânico. Começo a suar. Tento livrar-me daquela impressão, mas não consigo. As imagens de onde estou e de on­de parece que estou se superpõem. Chego a perder o sentido de realidade e penso que enlouqueci. Já aconteceu isto dentro do jornal. Foi horrível.

            — Santo Deus… Deve ser enlouquecedor…

            — No princípio, era sim. Agora, já controlo mais a situação e quando a coisa começa a acontecer sigo a orientação da analista.

            — E qual é ela?

            — Devo relaxar a mente e concentrar-me toda na visão.

            — Você faz isto?

            — Faço.

            — E o que acontece?

            — As imagens vão sumindo… sumindo… e a coisa cessa.

            — A analista tem alguma explicação para isto?

            — Ainda não… pelo menos, não que eu saiba.

            — Você falou que o local de sua… sua visão parece uma…

            — Uma ilha. Uma ilha estranha…

            — Você vê alguma… alguma praia…?

            — Não. Sinto que existe, compreende isto? Mas não “vejo” a praia. Só sei que se trata de uma nesga de areia entre pedras negras…

            — Pedras vulcânicas?

            — Sim, agora que você falou isto, sim, é assim que sinto.

            — Ludmila, você leu alguma coisa sobre meu pesadelo?

            — Li. Não o pesadelo completo, mas algumas suposições que a analista fez sobre ele. Suas interpretações são muito técnicas, mas eu não fiquei muito convencida, não.

            — Minha ilha… Você acha que é a mesma sua?

            — Não sei. Sinceramente, não sei.

            — A praia. A praia que você “sente” que existe. Você a descreveu igualzinha à que eu vejo.

            — Mara, você já tentou a hipnose?

            — Não.

            — Pois acho que devíamos fazer isto.

            — Juntas?

            — Sim. Por que não? Se a ilha é a mesma…

            — E se não for?

             — Tudo bem. Cada qual faz a sua hipnose. Eu não quero fa­zer isto sozinha. Sinto que com você perto vou achar-me mais segura. E não pergunte o motivo. Eu não sei.

            — Pensando bem… Acho que você tem razão. Se você estiver por perto eu também não vou sentir-me tão desamparada…

            — Você quis ir para o “Mausoléu” para pesquisar, não foi?

            — Você sabe disto, também?

            — Sim. Sou repórter policial, não se esqueça.

            — Você é mais perigosa do que imaginei.

            — Não para você, colega, não para você.

            — Está certa. Quero ir para a Seção de Pesquisas Históri­cas e Arqueologia justamente para isto.

            — É… Pode ser que dê certo. O que procura, exatamente?

            — Aí é que está. Eu não sei quase nada sobre o tal lugar… A ilha, compreende? Nem mesmo em que lugar ela poderia se encontrar no o­ceano. Pesquiso algo que não sei o que seja. Uma ilha cuja imagem está aqui, no meu cérebro, na minha recordação. Mas não tenho a mínima idéia de sua localização no oceano.

            — Você acha que esta ilha existe?

            — Eu… Sabe que nunca havia pensado nisto? Na verdade, jamais me preocupei com isto. Para mim é como se ela estivesse ali, na pró­xima esquina.

            — Na próxima esquina é a redação. Vamos saltar logo. Nossa conversa vai ficar para depois.

            — Já chegamos? Eu nem tinha notado.

            — Já. Você paga a corrida? Estou sem trocado.

            — Tudo bem. Ah… e pago o salto de seu sapato, também.

            Ludmila sorriu e Mara, pela primeira vez, não achou que o sorriso da outra fosse porque o Diabo estivesse em festa. Saltaram e se dirigiram para o elevador.

            — Ludmila — perguntou Mara — como vamos fazer a reportagem do seqüestro? Na verdade, não cobrimos nada daquilo…

            — Logo você vai aprender, não se preocupe. Essas histórias, os seqüestros, são todos padrões. A gente dá um telefonema para “O DIÁRIO DA MANHÔ e nossos colegas de lá nos passam tudo. Seqüestro, Mara, já não constitui novidade, assim, não nos importamos de passar informações, com­preende? Nós modificamos alguns detalhes sem importância, e pronto.

            Mara olhou para a colega com mais respeito. Apesar de sua aparente displicência, Ludmila era muito esperta. E tinha várias faces.

Continua...