Quando ele fica aperreado, dana-se a pitar feito uma locomotiva.

Quando ele fica aperreado, dana-se a pitar feito uma locomotiva.

Orozimbo chegou encafifado. Testa franzida, ar de preocupação, pito soltando baforadas e mais baforadas nervosas. Ele se abancou sem pedir licença, fincou os cotovelos nos joelhos e ficou calado, baforando seu pito, olhar fixo no morro à frente, na estrada que leva a Senador Canedo. Como eu já o conheço há bastante tempo, respeitei seu silêncio e lhe dei o indefectível copo de café amargo. Ele o aceitou sem comentários e sem me olhar. Vim para dentro de casa escrever meu artigo diário, desta vez abordando o modo como os POLITITICAS nos usam, a nós, aposentados, como gato morto para bater na cabeça de seus adversários. Nenhum deles pensa em nós, mas de nós se lembram quando travam suas guerrinhas mesquinhas por vantagens apenas pessoais ou partidárias. A Nação ter ido às ruas só os açulou para se garantirem e tirarem o máximo de vantagem pessoal e partidária. Não fez que se mexessem de verdade em favor do povo brasileiro.

Afinal de contas, são polititicas e não podem passar disto. Que lástima…

Comeu preocupado com alguma coisa, olhar perdido no espaço e gestos automáticos.

Comeu preocupado com alguma coisa, olhar perdido no espaço e gestos automáticos.

Eu até me esqueci de meu amigo. Só às 12:35 horas foi que ele se decidiu a me chamar a atenção. Estava com fome e queria almoçar comigo. Esquentei a comida e comemos em silêncio. Eu bebi uma cerveja enlatada. Ele, uma limonada.

O almoço foi um ritual de silêncio. Orozimbo continuava com aquela rusga na testa, sinal de que estava preocupado com alguma coisa. Finalmente, depois do repasto, fomos assistir o noticiário local e nacional.

E meu velho amigo, mudo.

Finda a fofoca nacional, sem grandes novidades, nós nos sentamos para conversar. Finalmente, ele parecia ter encontrado um modo de se abrir.

— Home, vancê cunhece arguma Lola aqui pur estas bandas ou pelas bandas lá perto da iscola de meu netim?

— Não. Por que?

— Bão, é qui urtimamente meu netim anda numa agitação só. Ele e os mulequim amigos dele. Todos falam na tar de Lola e pelo qui véi intendeu, esta muié num presta.

— E por que não? O que você julga que ela é?

— Uma quenga.

— Uma quenga… Puta?

— É. E véi num gosta nada dos mulequim andar às vorta cum’a quenga, ora. Meu netim tem só sete aninho. Num tá im tempo disto.

— É, mas o Arturzinho nasceu em dois séculos depois do seu, meu velho. Tudo, agora, mudou. O mundo virou verdadeiramente uma aldeia global. O que ainda faz diferença são os idiomas, mas eu já li em algum lugar que logo, logo, teremos computadores que traduzirão para o idioma de seu possuidor qualquer língua em que ele esteja se comunicando. Tanto falada quanto escrita. E isto, de conformidade com a gramática da língua de seu dono e da língua do interlocutor com quem ele fala. Então, esta barreira deixará de existir. As pessoas não precisarão mais aprender tantos idiomas. Bastar ter consigo um computador ou um celular-computador e falará e será entendido no mundo todo. As informações chegam aos borbotões às crianças. Muitas, eu, como psicólogo, sou contra que lhes esteja ao alcance, pois ainda não têm desenvolvimento psico-emocional para compreendê-las e apreender toda a profundidade e alcance que tais informações têm para seus destinos. É o caso da tão idolatrada “opção sexual”, a qual a TV GLOBO se esmera em alardear por todo o nosso país e pelos países para os quais vende suas novelas amorais. A Globo quase que adora o eufemismo masculino e o machismo feminino. Um insulto à nossa tradição cultural. Soube, até, que o Ministério Público andou dando uns puxões de orelhas nela por causa do exagero de duas atrizes velhotas que aparecem como lésbicas “certinhas” e “agarradinhas” ao vivo e a cores. Eu não assisto a TV Globo nem com um revólver na testa, exceção quando se trata do noticiário, pois as outras são uma lástima neste assunto. Fora daí, desligo imediatamente meu aparelho ou vou para outros canais ver filmes, pois outra coisa que detesto é a lenga-lenga sem-vergonha dos pastores evangélicos vendendo Deus e Cristo como gado em açougue.

— Ora, home, lá na arucaia do véio num tem esse negóço de TV, não. Mas meu netim tem munto amigo qui tem essas medras, num sabe? E ele véve no meio desses colega. Ansim, num tem cuma eu controlá a educação dele. E, agora, aparece esta tar de Lola que tá mexendo cum eles todos. Véi se admira munto de que os pais dos otro mulequi, num prestá atenção a isso. E se a muié for mermo uma quenga, que tá insinando o qui num presta pra mininada?

— Bom, eu não vejo a coisa por aí. A tal de Lola pode ser alguma nova cantora ou atriz ou algo assim, que surgiu na TV. Uma “estrela meteórica”, como acontece aos montes. E se for isto, logo, logo, a molecada vai-se esquecer dela ou substituí-la por outra “estrela meteórica”. Afinal é disto que o Mercado Televisivo vive. Nada de velharia. Tudo tem que ser novinho estalando. Até as moças.

Orozimbo ficou me olhando de cenho franzido. Então, falou com ar de espanto.

— E apois num é qui vancê acertô? Véi uviu o Rodriguim, um dos amigo de meu netim, dizê qui a tar Lola vai parecê na tevelisão… televisão… sei lá!

— E então… Se ela vai aparecer na TV deve ser uma nova “estrela” de telenovela que a Globo vai explorar até o osso. A petizada logo, logo, vai-se desinteressar dela.

— Entonce, véi tá mais aliviado. Num se tratando de uma quenga, tá mió, né não?

— É. A propósito, você sabe o sobrenome dessa jovem atriz?

Ele pensou um pouco e respondeu, titubeante.

— Acho qui é… é Pamuza… Pacusa…

— Não seria… Palusa, não?

— Isso aí. Lola Palusa.

Caí na gargalhada. E expliquei o que era a tal Lola Palusa – um festival de rock que ia acontecer por estes dias no Rio de Janeiro.

Lolapalluza

Festival de rock lollapalusa.

— Rock? Aquela música de doidos que fica tentando jogar fora a cabeça, sacudindo ela furiosamente?

— Ela mesma, meu amigo.

— Entonce véi continua contra o netim dele se metê cum essa gente, ora. No meio deles só tem droga e prostituição. Meu netim tem de istudá pra sê gente, não pra tumá droga e sacudir o pescoço furiosamente tentando jogá a cabeça fora. Vai que ele consegue uma disgraça desta? Eu, hein!

Ele se levantou, despediu-se e se foi. Notei que estava mais aliviado. Só não queria era dar o braço a torcer.