Um promontório pode ser assim, apenas um pequeno morro.

Um promontório pode ser assim, apenas um pequeno morro.

Primus viu muita gente de outras aldeias vindo para o ritual a Belenos. Mas ele e seu Mestre se mantiveram afastados da aldeia. Estavam sobre um promontório de onde podiam ver toda a aldeia de sob um grande carvalho cheio de visgo. Yehoshua sentava-se na postura do lótus e meditava. Havia um sorriso de felicidade iluminando-lhe a face. Primus observou-o por um longo tempo e, depois, deixou-se ficar olhando o movimento e a agitação na aldeia, onde o número de pessoas aumentava à medida em que o tempo passava.

Yehoshua abriu os olhos e o fitou. Seu sorriso desapareceu e ele pigarreou. Primus se voltou para o olhar e viu-lhe o semblante pesado.

Ele não ganhou sua auréola se deixando guiar por terceiros. Trilhou duras provas até obter sua aura de Santo dos Santos.

Ele não ganhou sua auréola se deixando guiar por terceiros. Trilhou duras provas até obter sua aura de Santo dos Santos.

— O que há? Por que me olhas desse modo… censuroso? O que fiz de errado?

— Tu te distrais olhando as crianças lá em baixo, quando devias agir como eu ajo: recolher-te ao Amor de nosso Pai. Aprende que tuas forças são vitalizadas e aumentadas cem vezes mais, quando teu espírito abstrai-se desta realidade fictícia e se deixa penetrar pela força da Verdadeira Realidade.

— E como posso fazer isto? Apenas fechando os olhos e me esforçando para que o Pai Celestial me note?

Yehoshua soltou uma gargalhada e foi entre risos que falou.

— Não aprendeste muito com tudo o que te tenho dito e mostrado, meu irmão. Ninguém, e quando digo ninguém é ninguém mesmo, aqui incluído o César de Roma, precisa se esforçar para ser notado pelo Pai. Ele esta em tudo o que vês, Primus. Está no ar que respiras, logo, Ele te penetra sempre que tu inspiras o ar para que tua vida elemental não se desprenda de teu corpo. Pelo ar ele retira os miasmas das doenças e te purifica. Ele também está na água que bebes e pela água ele também retira as impurezas de teu corpo. E o faz com todos os homens em qualquer parte deste Mundo. Ele não discrimina entre seus filhos, Primus. Aprende isto de uma vez. Diante de Seus Magnânimos olhos, tu e eu somos absolutamente iguais.

Primus baixou a cabeça e seu semblante deixou transparecer grande pesar. Seus olhos se encheram de lágrimas e uma correu pelos fios de sua barba. Yehoshua parou de sorrir e o encarou, sério.

— Issa, deve ser muito fácil para ti fechares teus olhos e imediatamente ires ao encontro da Felicidade que emana do Pai Celestial. Eu, contudo, tenho minha consciência pesada porque cometi muitos crimes. Sou um assassino de multidões. Aquele sangue que derramei estupidamente nos campos de batalha; aquele ódio que votei aos meus semelhantes apenas porque falavam outro idioma e não adoravam os mesmos ídolos que os romanos, nem obedeciam a vontade de César… Tudo isto, Issa, me atormenta e me faz sofrer com o arrependimento que me consome o ser.

Yehoshua estendeu a mão e a pousou suavemente sobre o ombro de seu discípulo. Com voz suave, mas firme, falou.

Ele era suave, mas era um Mestre que não aliviava as provas daqueles que escolhia para discípulos.

Ele era suave, mas era um Mestre que não aliviava as provas daqueles que escolhia para discípulos.

— Não entendo porque os homens acreditam que para que o Pai lhes perdôe o que erroneamente chamam de “pecado”, tenham de se esforçar e, até mesmo, impor-se dores e sofrimentos físicos e emocionais. Por que é tão difícil compreender que nosso Pai não deseja sofrimento aos Seus filhos? Se o homem não deseja dor ao seu filho, por que, então, acredita que o Pai o faz sofrer para que pague pelo erro inocente que comete? Tu foste pai. Quando teu filho errava e se machucava, tu o punias por isto? Tu te enraivecias contra ele, que já estava sofrendo a dor do machucado, e o punias pelo erro inocente?

Primus olhou nos olhos de seu Mestre, confuso.

— Hum? — Insistiu Yehoshua.

— Não, claro que não. Eu o abraçava e lhe pensava os ferimentos. Até, muitas vezes, sorrindo e brincando com ele, para que não valorizasse tanto a dor que estava sentindo. E ele, aliás eles, pois são três, terminavam sempre rindo junto comigo e logo, logo, estavam de volta às brincadeiras.

— Então? Se tu, que és uma criança diante de teu Criador, ages assim com teus filhos, por que Aquele que é o Pai de todos nós agiria diferente? De onde tu achas que aprendeste a ser assim, bondoso, com tua prole?

Primus pensou um pouco e sorriu.

A Culpa cega e tortura.

A Culpa cega e tortura.

— Não sei. Não fui criado por meus pais. Eles sempre estiveram demasiadamente ocupados com as questões de Estado… Talvez com a mulher a conta de quem nós ficávamos, mas do que me lembro, ela me punia se eu me machucava. Dizia que era para eu aprender a não fazer a traquinagem novamente…

— Todo homem traz dentro de sua Alma Imortal a Bondade do Pai, Primus. Ela só precisa que o homem aprenda a lhe dar espaço para que se manifeste. Nenhum homem nasce para matar. Nenhum homem nasce para ser tirano. Todos nascem com o germe da bondade no coração. Se se perdem, às vezes nem o fazem por responsabilidade própria, mas porque não lhe deram oportunidade de vivenciar a bondade do outro. Assim, não aprenderam a também serem bondosos. Os que se perdem fazem como tu estavas fazendo inda há pouco. Ficam olhando o mundo de ilusão e de aparências e lhe dando grande valor, tornando-o maior que a si próprio. Aprende, meu irmão, que o mundo humano nada tem de grande. Por maior que sejam as construções que façam, como as que fizeram os Faraós do Egito, elas não significam nada além de um evento passageiro. Por mais aprimoradas que sejam as Leis que criam, elas são absolutamente falhas. E por que? Porque quem as faz também é cheio de falhas e ilusões. Quem cria Leis para os outros obedecerem abriga no coração o desejo de mandar, de dominar, de ditar rumos, de se sentir importante por assumir os destinos de muitos, sem perceber que aqueles por quem assume a pesada canga não passam de acomodados preguiçosos que querem exatamente isto: encontrar quem se responsabilize por eles. E isto é errado. A vida se organiza harmoniosamente quando as pessoas estão em grupo. Se assim é com os animais, por que não poderia ser com o ser humano? E antes que me perguntes a razão da necessidade que tendes de ter chefes e dirigentes, eu te digo: pelo comodismo e por medo da responsabilidade de tomar decisões por si mesmo. Além disto, porque vive valorizando o que não tem valor; poque vive desejando o que pertence a seu próximo; porque vive correndo atrás de ilusão, o homem se perde de si mesmo e, fazendo isto, perde-se do Pai que está nele. O homem desviado da Senda da Honestidade, do Caminho da Fraternidade e da Vereda da Verdade desenvolve em seu coração o Medo. E o Medo é seu pior inimigo. Então, com medo de errar, ele precisa que outros lhe digam o quê e o como fazer. E isto o faz responsável pelos erros do seu semelhante, pois aquele que toma sobre os ombros a pesada carga de ditar a vida de seus irmãos tem muito maior probabilidade de errar. E já começa no erro, pois aceitou a canga que não lhe pertencia, mas ao medroso e preguiçoso. 

Quando qualquer irmão nosso desejar afastar-se deste mundo de ilusões em que está fatalmente mergulhado e se jogar nos braços do Pai, basta apenas que feche seus olhos, sossegue seu coração e seus pensamentos, respire com naturalidade e plenamente para receber o máximo da Presença Santa em seu íntimo. Assim, com o coração e a mente esvaziados e o corpo bem alimentado pelo alimento do ar sadio, logo ele perceberá que o peso em seu Ser vai-se esvaindo como se esvai o sono à chegada do Sol. E se continua se deixando ser consigo mesmo, livra-se facilmente dos liames que lhe prendem ao mundo exterior e que lhe parecem correntes inquebráveis. E é quando percebe a inefável presença do Pai que lhe sorri através do bem-estar que o invade todo. O Pai não se revela para lhe cobrar culpas, mas sim para lhe aliviar sofrimentos. O Pai, Primus, é Felicidade Pura. Ele não compreende nem aceita dor de qualquer espécie. Então, meu irmão, não fiques te crucificando à-toa, pois se Ele não te crucifica, por que tu te julgas com o direito de fazê-lo?

— Mas eu matei… Matei em nome de César. Matei por ordem de César… Não posso fugir a esta Verdade: eu tirei a vida de muitos semelhantes meus.

Nos campos de batalha ninguém é humano. Todos são animais.

Nos campos de batalha ninguém é humano. Todos são animais.

— Ninguém pode tirar a vida a ninguém, Primus. Tu fizeste tombar um corpo físico tão furioso e tão voltado para o ato de ferir quanto tu o estavas. Mas o Princípio Imortal, o Sopro Divino daquele que tombou diante de tua espada, este, nada perdeu. A ele tu nada pudeste fazer. Ele é nosso Pai em oposição a si mesmo em ti, compreendes? Ele se testa através dos homens, só assim pode apreender o quanto este necessita de mais ensinamentos para se compreender e crescer. É a mesma coisa dos pais terrenos com seus filhos. Eles precisam estar junto com os filhos e a eles opor suas verdades e suas certezas para descobrir o quanto aquele filhou cresceu em sabedoria e poder. Não dizem os homens que os filhos são eles mesmos renovados?

Primus permaneceu pensativo, totalmente introspectivo. Então, voltando à realidade externa, sorriu um sorriso de alívio.

— Tu sabes muito bem como tirar o peso de nossa alma, Issa. Eu me sinto leve como uma pluma, depois de me ter analisado segundo teu modo de ver as coisas. Obrigado.

— Não me agradeças. Estás vendo aquele rebuliço das crianças humanas lá na aldeia?

— Sim. Por que?

— À noite tu estarás sozinho para enfrentar as sete druidesas negras. Elas farão a jovem ingerir uma bebida hipnotizante, que lhe roubará a vontade e a fará agir sem resistência, encaminhando-se docilmente, levada pela mão de um druida, a se deitar na pedra sacrificial. Caberá a ti e somente a ti, em comunhão com o nosso Pai, impedir o assassinato sem, contudo, condenares nem julgares os que lá estarão entoando cânticos de modo frenético e até alterados pelo vinho. Tua fé será provada dentro de poucas horas. Se vacilares, se te deixares impressionar e por um momento sequer duvidares de teu poder, então, terás falhado e a jovem morrerá. Não podes permitir isto. És meu candidato preferido ao apostolado de meus ensinamentos, então, não me falhes.

Primus arregalou os olhos e ficou com a respiração suspensa. O susto quase o faz desmaiar. Seu coração disparou no peito e ele não disse o que queria — “sem ti, não vou conseguir” — porque o dedo indicador da mão esquerda de Yehoshua posou de leve sobre seus lábios.

— Cala-te e busca o Pai dentro de ti. Ele está aí. Confia nele e te entregues à Sua Vontade. Esta é tua fé. Pratica-a. Eu vou-me retirar para longe e tu ficarás sozinho com a responsabilidade de salvar a vida da jovem e ensinar sobre o Pai àquelas crianças lá em baixo.

E Issa ou Yehoshua levantou-se e desceu o promontório pelo lado oposto àquele que levava à aldeia. Primus ficou sozinho, um zumbido soando em seus ouvidos e a garganta seca, de ansiedade.

Nunca a consciência da solidão lhe pesou tanto.