Druidesas colhendo ervas para seus caldeirões.

Druidesas colhendo ervas para seus caldeirões.

A agitação na aldeia ia num crescendo. A população quase dobrara em poucas horas. Sete mulheres montando cavalos pretos saíram em disparada em direção à floresta. Trajavam balandraus negros e tinham as cabeças cobertas por um capuz também negro. Vistas de onde estava Primus elas pareciam algo tétrico e de mau agouro. O romano engolia em seco e tinha as mãos suadas. De seu pensamento não se afastava a inquietante pergunta: “Como poderei interferir com aquela gente perigosa? 

Andava angustiado de um para outro lado sem saber bem o que fazer. Sentia-se frágil e aterrorizado sem a presença de Issa perto de si. Agora compreendia que toda sua força vinha-lhe daquele homem descontraído, sempre sorridente e sempre com as palavras certas para dizer nas ocasiões necessárias ou perigosas. Ele não era um erudito. Não tinha a instrução de um Sábio. Sempre fôra um soldado romano, desde quando se lembrava de seu passado.

Caiu sentado sobre a pedra de onde se levantara fazia pouco tempo. Deu as costas à aldeia e permaneceu angustiado, confuso, sentindo-se invadir por um temor quase irracional.

Pensou em fugir, mas tão logo o fez e já se arrependia de sua covardia. “Mas”, tentava justificar-se, “sou novo na filosofia… ou religião… ou seja lá que nome se possa dar à pregação de Issa. Ouvindo-o, tudo parece fazer sentido. Mas era só ficar longe dele para que a pessoa se sinta confusa, desorientada. Eu estou assim. Será que seus outros discípulos também sofrem ou sofreram o que eu sofro, agora?” 

Um enorme sentimento de vergonha assenhoreou-se de seu coração e Primus chorou amargamente. Não seria capaz de dizer quais sentimentos o avassalavam, sabia apenas que estava no meio de um furacão insuportável de emoções desencontradas. E sem se dar conta, orou em silêncio:

“Oh, Pai Celestial, sou tão novo nos Teus ensinamentos… Ensinamentos que Issa prega e que, ouvindo-lhe as sábias palavras ditas através de uma firmeza inabalável e daquele olhar sempre alegre, parecem tão fáceis de entender e de nelas se crer. Mas agora, que estou sozinho, eis que me perco em dúvidas e velhas crenças me assomam à lembrança como fantasmas vingativos. Eu não quero trair meu Mestre Issa, mas por vosso santo Amor, não me abandoneis vós também. Nunca, antes, experimentei o quanto é terrível a solidão, mesmo tendo-se tanta gente por perto. Sei que esta é minha prova. A prova de que mereço ser o mensageiro Vosso e dele entre essa gente rude, violenta, aguerrida e sanguinária. Gente que me detesta só porque sou um romano. Não me vêem como irmão, mas como inimigo, como eu também os via quando era ignorante das Verdades Ocultas e, no entanto, tão à vista de todos. Muitos dali não nos viram juntos, Issa e eu. Muitos me verão pela primeira vez e meu tipo físico não nega minha origem. Além de que certamente se lhes falarão de mim com rancor. Não vou encontrar aceitação nem compreensão entre eles, quando chegar a hora. Por isto eu tremo e fraquejo. Mas se Issa disse a verdade, e eu creio firmemente que sim, pois nunca o vi mentir ou torcer os fatos, Vós, meu Criador e meu Pai, podeis ouvir-me. E se vos dignais fazê-lo agora, dá-me a paz de que preciso; armai-me com a coragem que me foge covardemente e fazei de mim um Homem como Issa. Mesmo tremendo de medo e fraquejando de covardia, eu irei lá e tentarei fazer o que me foi ordenado. Mas se não puderes me atender porque sou um miserável pecador, atende-me pela vida de alguém que vai ser sacrificada inutilmente. A Vida és Tu, senhor, quem a dás. Que a jovem escolhida para ter seu coração arrancado do peito pelo punhal ritualístico seja poupada e defendida não por mim, que sou fraco, mas por Ti, porque és justo e Forte”.

Folhas de freixo. Eram utilizadas pelas druidesas na criação de bebidas mágicas.

Folhas de freixo. Eram utilizadas pelas druidesas na criação de bebidas mágicas.

Primus não via Gabriel de pé junto ao grande carvalho, olhando-o condoído. Por ordem expressa de Yehoshua não podia interferir nem na mínima ajuda para aquele pobre homem que se sentia tão desamparado, quando, na verdade, sobre ele descia inefável luminosidade rósea tão tênue e suave que mais parecia uma fumacinha quase imperceptível. Sim, O Pai o ouvia. O Pai estava com ele e lhe acudiria no momento oportuno. Mas ele tinha de passar por aquela agonia até ser provado em sua força, em sua determinação, mais do que em sua coragem. Ah, se a ele fosse dado antever a agonia mil vezes maior que Issa enfrentaria em alguns anos… Se ele pudesse sofrer a decepção do abandono e da injustiça humanas para com um Deus nobre e bondoso como Issa… Ah se ele pudesse ouvir os soluços que seu Mestre choraria em agonia quando fosse chegada sua hora. Se pudesse vê-lo suar sangue de tanto medo e angústia pelo terror ao que dele se aproximaria inexoravelmente naquela noite fatídica que lhe sobreviria dentro de alguns anos… Ao menos Primus não tinha a certeza de que seria torturado e assassinado como o mais vil dos humanos, sem que nada tivesse feito para tanto. Não experimentaria em toda sua crueza a ingratidão dos que ele tinha ajudado às centenas. Nada é mais aterrorizante entre os homens que saber a hora e o modo como serão mortos. Nada é mais aterrador do que ter a certeza de que se está sendo injustiçado friamente por interesses mesquinhos. Issa beberia sua taça? Gabriel tinha dúvidas. Não lhe era dado saber o futuro do Mestre dos Mestres, mas tinha uma certeza: bastaria que ele emitisse um só pensamento de pedido de socorro e ele, Gabriel, com toda sua falange desceria como a maior praga que os perversos desatinados daquela terra de ingratos poderiam vivenciar. Melhor seria para todos eles nunca terem nascido na Terra…

Ao meio-dia as Druidesas retornaram, mas Primus, absorto em si mesmo, revendo sua vida e seus erros do passado, confessando-se ao Criador, angustiado e cada vez mais pedindo fervorosamente pela vida da moça que, em que pese nunca ter visto, sentia ter para com ela imenso amor protetor e fraternal, não as viu descer de suas montarias quase correndo.

Tronco do freixo. Era tido como possuidor de grandes propriedades mágicas, só manipulável pelas druidesas virgens e iniciadas.

Tronco do freixo. Era tido como possuidor de grandes propriedades mágicas, só manipulável pelas druidesas virgens e iniciadas.

As Druidesas traziam folhas e raspas do tronco de freixo embrulhadas num grosso pedaço de pano negro. Juntaram aquilo com algo que havia dentro de um grande caldeirão, evitando através de cobertura com panos grossos e pretos, que a luz solar tocasse o interior do vaso de barro preto de fuligem. Cobriram o caldeirão com o pano negro e grosso, colocaram duas varas por dentro de suas grossas alças e, juntas, levaram-no para dentro de uma espécie de buraco sob uma grande pedra que havia debaixo de enorme árvore de copa densa e abobadada. Os aldeães não pareciam tê-las visto, pois ninguém delas se aproximou. As mulheres, algumas afanadas em fazer bolos e cozer alimentos em abundância; outras, entregues à limpeza da aldeia. Os homens dedicando-se a afiar suas espadas e as pontas de suas lanças. Embora a agitação fosse grande, o silêncio também o era. Parecia que tudo o que faziam tinha um propósito ritualístico.

E tinha.

O dia passou devagar demais para os aldeães, depressa demais para Primus. A noite desceu fria e uma lua cheia, avermelhada, brilhou no céu sem nuvens. Então os cânticos lhe chegaram aos ouvidos e ele como que despertou de um longo sonho. Com profundo suspiro pôs-se de pé, tomou de seu cajado, que lhe fôra dado por seu amigo e Mestre, e caminhou até perto da descida para a aldeia. Dali ficou observando os celtas, vestidos de longos balandraus brancos, homens e mulheres, formarem sete círculos. Em cada um deles, intercalando-se, homens e mulheres, de mãos dadas, entoavam cantos ora suaves, ora gritados, como de incentivo ao combate. Nestes, os círculos se moviam depressa, quase correndo, mas seus integrantes sempre mantinham as mãos dadas. Primus notou que seis círculos giravam ao redor do sétimo. Três em sentido levógiro e três em sentido dextrógiro. Não atentou para o número de integrantes de cada círculo, que eram 72 indivíduos. Como hipnotizado permaneceu de pé, assistindo ao ritual festivo.

Efígie de Belenos, o deus druida.

Efígie de Belenos, o deus druida.

As horas se passaram e quando estava perto da meia-noite os cânticos cessaram e bebidas foram distribuídas a todos os aldeães. Mulheres eram as encarregadas desta tarefa, sem distinção de idade. Após um tempo que Primus não saberia dizer quanto, os homens, com gritos selvagens, tomaram de suas lanças e começaram uma dança saltada, feroz. Ele ouvia distintamente o nome “Belenos” entre outros gritados sob o efeito da bebida ingerida.

“É chegada a hora” disse Primus de si para consigo. Sem perceber que seu medo tinha dado lugar a uma determinação férrea, ele desceu pisando firme e decidido em direção à aldeia. Não tinha mais dúvida. Caminhava ereto e se sentindo dentro de uma bolha quente, acolhedora, que não via, mas somente sentia.

As druidesas foram buscar o caldeirão de dentro do túmulo, esse o nome dado à caverna sob a pedra debaixo da grande árvore copada, e o levaram para cima de outra, no lado oposto àquele de onde tinham saído, sobre a qual, apoiada em outras quatro, rústicas, havia uma fazendo as vezes do tampo de uma mesa. Era a ara do sacrifício. Os gritos cessaram e todos formaram uma mole humana quieta, atenta ao que se desenrolava diante de seus olhos avermelhados. Os aldeães estavam como hipnotizados. Olhos tão vermelhos quanto a pele de seus corpos. Talvez efeito da bebida que tinham ingerido em grande quantidade.

Uma representação atual de Belenos.

Uma representação atual de Belenos.

Um druida forte e jovem, trajando preto e paramentado como guerreiro, subiu ao altar e se colocou ao lado da Druidesa encarregada do sacrifício. Ela estava sem cobertura na cabeça e trajava um balandrau branco. O punhal sacrificial estava sobre a pedra. O casal permaneceu quieto, olhando por cima das cabeças da assistência. Uma das druidesas trajadas de negro e que até ali se tinha mantido, com as outras, perto do caldeirão, encheu um copo da beberagem que estava lá dentro e esperou. Uma jovem veio de dentro de uma tenda especialmente construída para as oferendas vivas, trazida por outras duas druidesas de negro que a tinham ido buscar. Lutava e se debatia, chorando, em vão. Trouxeram-na até junto do caldeirão, onde as restantes quatro permaneciam quietas e indiferentes ao pranto e aos fracos pedidos de piedade da jovem oferenda.

A druidesa que tinha a caneca em mãos, segurando a face da jovem, obrigando-a a abrir a boca e verteu-lhe goela abaixo o conteúdo da caneca. Por um momento a jovem continuou chorando, mas seu pranto foi cessando e ela se empertigou toda, à medida em que a litania entoada pelas druidesas negras aumentava de som e acelerava o ritmo. Então, a que tinha dado de beber à jovem, tomou-a pela mão e delicadamente se encaminhou, em postura solene, para a pequena escada de três degraus que levavam à ara sacrificial.

O jovem paramentado de Belenos tomou a moça pela mão direita e a levou até a pedra sacrificial. Ali, como se alheia a tudo e a todos, ela obedeceu à ordem de se deitar de frente, braços ao longo do corpo, olhar fixo na lua cheia.

Os cânticos cessaram.

A druidesa sacerdotisa tomou do punhal ritual, ergueu-o bem alto e murmurou uma prece de oferecimento e de agradecimento a Belenos. Quando seu olhar se fixou no tórax da jovem, já pronta para a punhalada fatal, uma voz forte e imperiosa soou, quebrando o silêncio hipnótico que eletrizava o local.

— Pare! Essa vida não lhe pertence. Você não tem o direito de fazer que ela cesse de viver no corpo dessa jovem. Eu ordeno que suspendam esse sacrifício sacrílego!

Como um só corpo a mole humana se voltou para o ancião que avançava para o altar totalmente indiferente aos olhares de ódio que lhe eram lançados.

— O romano! — Rugiu o druida travestido de Belenos. — Matem-no! Ele violou nosso ritual e manchou esta noite. O ano será ruim para todas as aldeias aqui presentes. O invasor deve ser despedaçado a lancetadas. Matem-no!

Um rugido unânime de ódio retumbou da turba enfurecida e centenas de lanças foram apontadas para Primus. Mas ele se voltou para a turbamulta e passeou os olhos pelos rostos diante de si. Os selvagens celtas não compreenderam porque não podiam mover-se. Estavam confusos e se sentindo pequenos diante do olhar de fogo que os olhos do ancião romano lhes lançava. Então, sem mais ligar para eles, que, um a um, foram depositando suas lanças no chão, Primus encaminhou-se para o altar e sem dar qualquer atenção aos casal boquiaberto de espanto, estendeu a mão e tomou a da jovem, puxando-a da ara sacrificial. Como se despertada de um sono letárgico, ela mais que depressa saltou da pedra, olhos esgazeados, e abraçou-se com o ancião, que lhe acariciou os cabelos e, depois, manteve-a sob seu braço protetor.

— Ouvi-me, irmãos meus — disse Primus em voz alta o suficiente para que todos o pudessem escutar. — Não adoreis o Criador de Todos nós através de festividades onde se imole uma inocente. Ele é o Pai da Vida e, não, da Morte. Adorai-o em vosso íntimo, em vossos corações. Pedi-Lhe o de que necessitardes e Ele vô-lo dará de acordo com o que fizestes por merecer. Seu altar não é de pedra e não se situa fora de vós, fora de vossos corações. O sangue de todo ser vivente é sagrado porque é ele que transporta a vida para todo o corpo. E aquele que o dá de graça, não aceita que o ofertem de volta sob quaisquer que sejam as alegações.

— Louco! — Rugiu a druidesa sacerdotisa, apoderando-se do punhal sacrificial, tomando-o das mãos de Primus sem que este lhe oferecesse resistência. — Tu irritaste Belenos e por tua causa ele não abençoará nossa colheita, não nos mandará chuva para regar nossos campos nem protegerá nossos rebanhos de pragas e doenças. Belenos nos desamparará nas batalhas e, por tua causa, seremos aprisionados como escravos. Deves morrer junto com ela, para acalmar nosso Deus!

A mão de Primus moveu-se rápida e aprisionou uma mariposa que passava entre ele e a druidesa. Então, empurrando a mulher para o lado, sem qualquer consideração, depositou o inseto morto sobre a pedra sacrificial.

— Eu lanço um desafio a Belenos, aqui e agora! — Gritou bem alto. — Se ele realmente existe; se ele tem realmente poder, que devolva a vida a este inseto que acabo de esmagar em minha mão. Se assim fizer, se o inseto sair voando da ara do altar, então eu entregarei a jovem para vós e a mim também, depois dela.

Todos os olhares se voltaram para a ara do altar esperando ver a mariposa levantar vôo. Mas nada aconteceu. Esperaram em silêncio por um longo tempo, mas nada. O inseto estava morto e a brisa da noite soprava sobre suas asas paradas como se para mostrar que ali não mais havia a vida.

Nervosa, a sacerdotisa entoou cânticos e dançou freneticamente ao redor da ara, em vão. Quase uma hora se passou e nada aconteceu. Ela pegou de um turíbulo e lançou dentro das brasas um pó azul, cuja fumaça, acre, fez alguns sentirem os olhos arder. Mas ainda assim, o inseto continuou morto. Primus ergueu a mão imperiosamente, fazendo que a mulher parasse sua agitação frenética e inútil. Avançou até perto da ara, estendeu as mãos sobre o inseto e orou, em voz alta:

— Pai de infinita bondade e poder. Para que creiam em ti todos os que aqui estão, peço-te que devolvas a vida a esta pequena criação tua para que se cumpra seu destino.

Imediatamente as asas da mariposa se agitaram. Ela girou sobre si mesma e se pôs de pé sobre suas patinhas. Bateu as asas por um momento e, então, elevou-se no ar e sumiu em direção à mata, diante dos olhos estarrecidos de todos que viam o milagre.

— O silêncio era pesado. Agastada, a druidesa sacerdotisa não sabia o que fazer. o milagre se dera bem diante de seus olhos e dos olhos de seu companheiro. Não havia como negá-lo.

— Irmãos — ouviu-se a voz de Primus. — Sentai-vos porque eu vou-lhes falar sobre o Verdadeiro Deus, nosso Pai que a tudo criou e deu vida. Ele está aqui, ao nosso redor e dentro de cada um de nós…

E Primus falou com segurança a noite toda. E todos o ouviram atentamente, sem agressões nem ameaças.

Primus se tinha saído bem de sua dura prova.