Capítulo III – Surge Uma Luz (Terceira Parte)

Apolo, o condutor do carro do Sol

Apolo, o condutor do carro do Sol

Reminiscências

                  À noite, em seu apartamento, Mara rememorava os acontecimentos daquele dia. Seu sexto sentido lhe dizia que tinha entrado facilmente num túnel perigoso, mas não sairia dele da mesma forma. Os rostos daqueles homens truculentos não lhe saíam da memória. E o Sr. Kamuratti e sua esposa? Figuras saídas das páginas de um romance de ficção detetivesca. Soturnos, frios, olhares gélidos e penetrantes como punhais. Mara jamais havia visto nada semelhante. Aquelas pessoas matariam com a mesma frieza com que os atores representavam os criminosos nos filmes. Então, havia realmente gente assim. Não era somente invenção cinematográfica…

            Seu olhar vagueou pela cidade. Eram nove horas e o Rio de Janeiro se acalmava. Muitos carros ainda estavam passando sobre o elevado Paulo de Frontin, mas o engarrafamento já não existia. Eles corriam livremente. “Onde andarão aquelas bestas humanas? O que estarão fazendo de mal a esta altura da noite? Será que dormem? Será que ainda estão à nossa procura?” Esta última parte de seu pensamento lhe causou um calafrio. Inquieta, andou de um lado para outro no pequeno espaço da sacada de seu apartamento. E começou a rememorar tudo o que vira, ouvira e vivera.

            Primeiro, o seqüestro do tal de Anteu. Ludimila achava que o seqüestro era falso… Pelo menos fora o que dera a entender. Por que? Segundo, a história da remessa de dólares para o exterior. Assunto explosivo. Ludimila lançara às claras, diante de um casal sumamente perigoso, que sabia das falcatruas deles. Depois, o fato de Anteu estar apaixonado por Karina e ter tentado revelar algo a ela. Algo que não queriam que falasse. Vinha, a seguir, a história esconsa do surgimento do Banco Kamuratti e seu envolvimento com o mais poderoso conglomerado financeiro bancário, os Rotschild. Então, o envolvimento de Anteu com Kantor. Inadmissível que o advogado não soubesse quem era o seu colega. Por que, então, aceitava trabalhar para ele? Fazer pequenos favores… mesmo regado a dó­lares, não era o feitio de um Kamuratti. Mesmo que Anteu não fosse Kamu­ratti de nascença, fora criado dentro dos rígidos padrões dos banqueiros e não poderia simplesmente quebrar com eles assim, sem mais aquela. An­teu tinha de conhecer bem mais sobre o banqueiro de bicho do que admiti­ra a Karina. Mara permaneceu dando tratos à bola e não viu a hora passar até quando ouviu o sino da igreja badalar a meia-noite. Não deu importância. Absorvia-se em suas conjecturas e cada vez mais achava incoerente a história de Anteu com o Celso Cerqueira Lima, ou Kantor. Ludmila positivamente não estava acreditando naquela história pueril. Então, por que é que não mencionara nada a ela, Mara? Por que preferira deixar a história como se fosse realmente a em que estava acreditando? Qual o motivo que obrigava Anteu a aceitar Kantor? Qual o pacto que havia entre os dois? Dólares, certamente, não era. E o Sr. Kamuratti deixara isto bem claro ao falar com Ludimila… isto é, Irina Hess… De onde Ludimila tirara este nome? Hess… Hess… Não lhe era estranho este sobrenome… Lembrava-lhe Hermann Hess. Mas Ludimila negara que tivesse alguma ligação com ele… Ou não? A recordação estava confusa. Mas por que a colega escolhera este sobrenome? Provocação, como lhe havia dito? Bom, podia ser… Tentaram matá-las. As­sassinos determinados foram mandados para executá-las. Seria só por cau­sa da remessa de dólares? Não era possível. Um suborno era bem mais fá­cil de ser tentado, mas não fora. Preferiram logo a solução extrema: a morte. E, óbvio, ela fora incluída na lista porque estava com a pessoa verdadeiramente perigosa para eles — Ludimila. Por que sua colega a escolhera? Aquela história de Karina não saber guardar sigilo, agora, pensando bem, não a convencia. Teria sido devido ao que descobrira sobre seus pesadelos? Quereria Ludimila aproximar-se e não sabia como? Mara, após uma consideração mais profundo desta hipótese, achou que sim. Ludimila dese­java aproximar-se, porém ela, Mara, sempre lhe fechara a porta. A ruiva, é claro, terminou por encontrar um meio de envolvê-la no “affair” Kamuratti e, com isto, encontrou um meio de manter-se junto a ela. E era mesmo estranho que duas pessoas totalmente diferentes, nascidas em localidades distantes entre si, de pais com costumes diferentes, tivessem pro­blemas semelhantes… quase idênticos. Como se explicaria isto? A idéia de ir a um hipnotizador parecia genial. Por que não pensara nisto, antes de Ludimila? Havia a tal Terapia de Vidas Passadas. Daria resultado? Certamente era uma alternativa bem mais interessante do que o eterno “Complexo de Édipo Mal solucionado” e a fixação sexual de sua analista. Mara concluiu que valia a pena tentar. Sentiu-se subitamente exausta e foi deitar-se. Adormeceu quase em seguida.

*   *   *

Inquietação e fuga

            Glauce e Aquiles se encontraram em frente ao Souza Aguiar. A médica entrou no automóvel do rapaz e se deixou ficar a ouvir a Nona de Beethoven, olhos fechados. Estava muito exaurida, Aquiles beijou-a de leve nos lábios.

            — Cansada? — perguntou o rapaz.

            — Exausta — respondeu ela.

            — Quer uma hidro? — indagou ele.

            — Hum-hum — respondeu a médica.

            Aquiles levou o carro para Jacarepaguá, direto ao luxuoso motel “PAINEIRAS”  recém-inaugurado sobre uma lapa, a uns cento e cinqüenta metros de altura. Além do luxo da suíte, a paisagem vista lá de cima era deslumbrante. Após demorada hidromassagem, fizeram sexo. Às 22:30h tomaram um lanche e se aninharam nos braços um do outro. Glauce estava relaxada e sonolenta. Seus pensamentos voaram livremente. Cenas confusas que misturavam a mesa de neurocirurgia, pessoas de branco, o rosto de Karina sorridente… o telefonema estranho de   Aquiles… o estranho no elevador… o carro perseguindo o seu… o carro… o estranho… os olhos dele… aquele sor­riso inquietador… o rictus da boca… um lobo… qual o nome? Eurico ou… ou Henrique…? Como era mesmo…? Alarico…? Alberico…? O sono se fora. Glauce abriu os olhos e fitou o rosto sereno de seu noivo. Ele dormitava.

            — Meu bem? — chamou baixinho.

            — Hum? — fez ele.

            — Eu o acordei? — perguntou a médica.

            — Hum-hum — respondeu ele, ainda de olhos fechados.

            — Desculpe… — e Glauce voltou a repousar a cabeça no peito de seu noivo.

            — O que é? — perguntou Aquiles abrindo os olhos.

            — Nada, deixa pra lá! — esquivou-se a moça.

            — Não senhora. Algo importante lhe roubou a paz. O que foi? Fa­le. Eu quero saber.

            — Bobagem…

            — Mesmo assim, o que é?

            — Você conhece alguém chamado… Alarico… Alberico… Frederico… ou algo parecido?

            — Não, por que? Quem é o distinto?

            — Um verdadeiro chato — mentiu Glauce. — Disse que viera recomendado por você. Queria-me convencer a entrar para uma Associação de Clubes Campestres…

            — E você entrou?

            — Não.

            — Bem, precisamos rever o conceito em que você anda colocando o meu nome — brincou o rapaz.

            — Por que? — surpreendeu-se a moça.­

            — Parece que ele perdeu importância. Alguém se apresenta a você servindo-se dele e não consegue nem pro café da manhã… as coisas an­dam pretas pro meu lado…

            — “Seo” bobo! — disse Glauce, rindo e esmurrando-lhe o peito. O rapaz segurou-lhe os braços e lhe deu um beijo. Qualquer coisa no abraço dela pôs Aquiles em guarda. Havia uma como que urgência… talvez até temor… O rapaz apertou a noiva ao forte tórax como se querendo protegê-la. Ficaram assim, apertados e calados por um longo tempo. À lembrança dele veio, súbito, a estranha mensagem em sua secretária eletrônica. “Quando passeava por uma gruta da Acrópole, em Atenas, a Jovem Creúsa, bela donzela, foi violentada por Apolo, o belo Deus do calor e da vida… Cuidado com Apo­lo…” A recordação lhe tirou o sossego. Aos poucos afrouxou o abraço e desvencilhando-se da noiva e dos lençóis foi mergulhar na piscina de água quente. Glauce ficou a olhar para o noivo sem compreender nada, mas entendendo que o encanto daqueles momentos se desfizera. O que havia de errado com o seu homem? Aquiles era um verdadeiro deus grego. Corpo bem modelado devido ao Karatê, músculos rijos, pele morena bronzeada, alto e de maneiras distintas, ele lhe dava a sensação quase palpável de estar diante de alguém que e­ra como um paredão. Abrigada a seu lado, nada poderia ser ameaça. Contudo, vê-lo inquieto — coisa rara — incomodava-a profundamente. O mergulho na piscina era um fuga… O que havia com o seu homem? Do que fugia ele?

            Também se levantou. Ambos estavam nus e ela foi direto para dentro d’água. Beijou demoradamente o seu namorado. Depois, olhando-o nos o­lhos, perguntou incisiva:

            — O que foi?

            — Nada. Eu quis tomar banho — esquivou-se ele.

            — Não fuja. Não fica bem em você. Não é o seu estilo. Vamos, o que é? Me diga.

            Aquiles percebeu que não conseguiria fugir a ela. Sempre foram sinceros entre si. Mas se tinha de falar, que ela o fizesse primeiro.

            — Você está ocultando algo de mim — disse ele. — O que é?

            — Eu…? — surpreendeu-se Glauce,

            — Você, sim. Seu abraço… Ele me disse que você está com medo. De que? Do que você tem medo?

            Glauce ficou a olhar para Aquiles como que hipnotizada.

            — Você percebeu…? – perguntou num fio de voz.

            — Sim.

            — Desculpe — disse a moça, fragilizada e abraçando-se a ele. — Eu não lhe queria perturbar…

            Aquiles sentiu-se culpado. Mas era melhor assim. Não desejava deixar sua amada preocupada com algo que nem ele mesmo sabia o que era.

            — O homem não era vendedor — iniciou Glauce. — Ele…

            E narrou tudo o que lhe acontecera na noite em que se encontrara com Fratelli.

            — E como era o nome de seu suposto vizinho? — indagou Aquiles.

            — Eu não me recordo bem. Qualquer coisa assim como Alarico… Eurico ou… ou Alberico… Eu não sei bem.

            — Você verificou se realmente um novo morador se mudou para o prédio vizinho?

            — Não. Na verdade, nem me passou pela cabeça. Dei graças a Deus por ele ter sumido…

            — Quer saber o que penso?

            — Quero sim — e a voz de Glauce traia a tensão de que estava tomada.

            — Eu acho que ele só quis marcar presença junto a você — disse o rapaz, com um sorriso luminoso no rosto.

            — Como assim? — desconcertou-se Glauce.

            — Quis impressioná-la. Moça, bonita, médica… Hum?

            Glauce perscrutou o rosto de seu noivo, mas ele lhe pareceu absolutamente sincero.

            — Pois se foi isto, conseguiu mesmo. Mas de modo contrário ao de sua pretensão.

            — Ótimo! Deste, eu estou livre — disse Aquiles rindo e aparentemente descontraído. Glauce o olhou por um momento e, então, riu também. Se Aquiles não dava importância, então tudo não passara de conseqüência de seu estresse. Um grande alívio tomou conta da moça. O homem, certamente, tentara uma coqueteria. Vira-a na rua, se interessara e a seguira buscando um meio de se fazer notar. É… a idéia fazia sentido.

            O mal da espécie humana é o medo. As pessoas se agarram à menor e mais frágil esperança por medo de encarar a realidade que lhe parece muitas vezes ameaçadora. E fecham os olhos para aquilo que deviam enfrentar de frente. Glauce agia, agora, justamente assim. Depressa demais se descartou do temor que a mantivera alerta por todo aquele tempo e não deu mais nenhuma atenção a seu instinto de conservação, que lhe alertava insistentemente sobre o perigo. Talvez que ao passar à condição humana, a alma pe­regrina se tenha esquecido do valor que teve para ela o alerta instintivo animal. O gato, ao tomar um susto quanto a alguma coisa que não está bem claro para ele, fareja, olha cuidadosamente para o local de onde lhe pareceu vir a ameaça e se mantém, durante dias e dias, sempre cauteloso, sempre desconfiado quanto àquele lugar. O cão, também. O homem, não. Anula a sensação iminente de perigo racionalizando suas suspeitas. Encontra uma explicação fantasiosa e a ela se apega, pois que, como um opiáceo, ela lhe retira a sensação desagradável do alerta para a luta. Os polí­ticos são o exemplo mais marcante deste procedimento irracional e ina­dequado para o ser humano. Perdem-se em rodeios buscando encontrar a melhor maneira de não se sentir ameaçado e, com isto, tornam-se vulne­ráveis e venais. Raros são aqueles seres humanos que, em dúvida, buscam a fonte diretamente para esclarecer seus temores. A grande maioria procura refúgio na fantasia oniróide. E isto lhes reforça a sensação de impotência, que expressam muito bem na terrível frase: “eu não consigo“. E dizendo isto, reforçam em si mesmos a capacidade de não conseguir.

            Glauce dissera para si, inconscientemente, “eu não consigo lidar com esta sensação inquietante. Eu gosto de sossego. Não quero ver nada que não seja absolutamente conforme com uma vida calma, quieta e previsível”. O homem lhe quebrara a monotonia e a “certeza” de seu viver. Cumprir sua carga de trabalho, vir para casa, dormir e voltar ao trabalho no mesmo e monótono ritmo de todo dia era a sua mais alta aspiração. Passar a vida longe de desafios e incertezas capazes de cau­sarem preocupações e gerar lutas e ansiedades era a sua meta de vida. Glau­ce, como qualquer ser humano atualmente, dá a maior força à entropia e esquece que o fenômeno leva á desagregação e a morte. Fecha os olhos e os ouvidos às vibrações de alerta que a Natureza nos coloca para que aprendamos a acertar o rumo de nossas vidas a cada dia, freqüentemente a cada hora. Retira a beleza do viver, pois viver é lutar e vice­-versa. O movimento é a Vida. A quietude, a Morte. A entropia leva à quietude, logo, à morte. Mas buscamos sistemática e ignorantemente justo o viver quieto, destituído de ação. Domar o sentimento básico de Medo é o maior desafio do Ser Humano em nossa época. E é por isto que as situações de vida são as piores possíveis na atuali­dade. O Ser Humano tem de vencer o Medo e só pode fazer isto aprendendo a não fugir aos desafios. A vida civilizada avança cada vez mais no sentido de nos roubar a quietude e nos tirar da monotonia. Quando sou­bermos viver aceitando prazerosamente os desafios e os encarando como um jogo, ainda que de vida ou morte, e fugindo às carreiras à quietude e à monotonia, então, sim, seremos realmente os senhores da Terra… E foi por ter conseguido iludir-se quanto à sensação de inquietude, ca­lando-a dentro de si, que Glauce voltou para a cama e fez amor com seu noivo, dormindo, depois, serenamente, como serenamente dorme uma criança que fantasia a mamadeira na chupeta que tem na boca.

            Aquiles, porém, não conseguiu dormir. Algo se revolvia fortemente dentro de seus sentimentos e de seus pensamentos. Algo não se ajus­tava. Sua preocupação crescia mais fortemente, agora que o prazer dei­xara sua psique e suas emoções aquietarem-se. Embora sua noiva não tivesse sabido descrever o automóvel nem tivesse tido a capacidade de lhe memorizar o modelo e a marca, a descrição que fez do homem que aparen­temente de modo acidental lhe acompanhara até o seu andar, levava-o a suspeitar de Fratelli. Era uma descrição muito fiel daquele homem violento. E o nome… Alarico… Alberico… Eurico… Enrico… Muita coincidência? Difícil de acreditar. Mas Enrico Fratelli não sabia nada a res­peito de sua vida… de seu noivado. Ele sempre fora muito reticente com isto entre seus companheiros… Era forçar muito querer admitir que aquela história toda fora maquinada em apenas 48 horas, tempo decorrido des­de que eles se haviam desentendido. Como descobrir Glauce, se não tinha conhecimento de sua existência? E que vantagem poderia tirar Fratelli contra ele, Aquiles, atacan­do alguém que nem conhecia, fora do dojô? Fratelli fora humilhado lá, na presença de todos os seus companheiros. Certamente quereria a desforra lá, diante de todos eles. Teria de ser muito doente, muito psicopata, para se pôr a seguir o adversário, descobrir sua vida, planejar o ataque e o perpetrar… Não, o tempo, 48h, não era suficiente para tanto. Fratelli nem mesmo  sabia onde ele, Aquiles, morava… Além disto, era um advogado ocupado. Não poderia perder tempo dando uma de detetive… E se tivesse contratado um? Aí, o tempo seria menos ainda. A lógica que forçava em seu raciocínio lhe dizia que não podia ser o seu ad­versário de dojô. Os dois incidentes não podiam ter relação… Ou será que podiam?

            Glauce fechara o problema. O pensamento de Aquiles, não, ainda que ele procurasse justificativas que lhe dessem a ilusão de que tudo era fantasia e pronto. A impressão sensorial do combate assistido e a compreensão, chocante, de que se tivesse enfrentado Fratelli naquele dia certamente o homem o teria machucado seriamente talvez fossem a motivação que lhe fazia relutar em aceitar a entropia tão facilmente.

            O dia clareou e encontrou Aquiles de olhos fitos no espelho do teto onde se via e à sua Glauce, quietos sobre o leito de cetim.