A neblina da noite tornava tudo frio, mas ao redor da fogueira o tema era caloroso.

A neblina da noite tornava o amanhecer frio e Primus não atinou com o lugar onde despertara.

O dia amanheceu com uma neblina fria permeando tudo e penetrando nas roupas de couros e de peles de ovelha. Primus levantou-se com o corpo dolorido. Nãos sabia quando fôra dormir, mas recordava-se bem de ter falado muito a várias aldeias reunidas naquela a que fôra com Issa tentar resgatar os prisioneiros. Olhou ao redor e em princípio não reconheceu onde se encontrava. Levantou-se tiritando e procurou com os olhos os aldeões, mas não havia ninguém ali. Estava sozinho?

Rodou sobre si mesmo, desorientado, e viu Issa enrolado em grande cobertor de lã. Encaminhou-se até ele e o tocou no ombro. Seu amigo abriu os olhos e lhe sorriu.

— Que grande dorminhoco tu me saíste, Primus — disse Issa, sentando-se.

As choupanas da aldeia celta soltavam fumaça por seus cones, no preparo da refeição matinal.

As choupanas da aldeia celta soltavam fumaça por seus cones, no preparo da refeição matinal.

— Onde estão todos? Quando chegaste?

— Bom, se falas dos aldeões, eles estão lá embaixo. Quanto a mim, não saí daqui. Tu te sentaste para meditar e eu fiquei a esperar que acordasses. E como havia muito silêncio… adormeci. Acordei contigo me chamando.

Primus olhou ao redor. Estavam sob a grande árvore copada que ele conhecia bem. Olhou para a aldeia e a reconheceu de pronto. Era a aldeia da Druidesa Myrtha onde haviam chegado há pouco. Olhou para as próprias mãos e não viu as rugas do envelhecimento. Passou as mãos pelo rosto e não sentiu nenhuma barba longa.

— O que me aconteceu? Como voltei a ficar novo, de novo? — Perguntou assustado ao seu companheiro que se espreguiçava diante de si.

— O que queres dizer? Estás como devias estar. O que estranhas?

Primus não era mais o ancião a que se tinha acostumado.

Primus não era mais o ancião a que se tinha acostumado.

— Mas eu tenho… tinha uns sessenta anos… Nós estávamos numa aldeia diferente daquela lá embaixo. O local de onde nós olhávamos para ela era bem diferente deste onde nos encontramos agora. Tudo mudou… quero dizer, tudo voltou ao que era. Mas isto é impossível! Aquela é a aldeia de Myrtha…

Issa permaneceu calado, centrado em seus alongamentos. Depois, saltitou e socou o ar rápida e violentamente; a seguir começou uma série de movimentos contorcionistas, ora lentos ora rápidos, como se bailasse uma dança esquisita até se sentir aquecido. Deu saltos espetaculares no ar, girando a perna direita como se fosse uma pá de cata-vento, só que em velocidade bem maior. Finalmente parou, respirou fundo e permaneceu quieto por uns momentos, respirando profundamente. Então, voltou-se para seu amigo e discípulo, sorrindo.

— Acho que sonhaste demais, meu amigo. Nunca saímos daqui. Tu te sentaste para meditar no que eu te tinha ensinado. Eu me deitei, cansado de te esperar, e adormeci. Então, despertei contigo me chamando. E foi só isto.

Mirtha era uma druidesa dedicada a práticas mágicas.

Mirtha era uma druidesa dedicada a práticas mágicas. Mas nos rituais também executava sacrifícios humanos.

— Mas… E o sacrifício? E a sacerdotisa? E a pedra do altar? Onde foi parar tudo isto? Eu sou… Eu era um velho… Agora, voltei a ser jovem novamente. Estou ficando doido?

Yehoshua posou o braço forte sobre os ombros de Primus e o fez andar em direção à aldeia. Enquanto seguiam lado a lado, a passos lentos, Issa falava.

— Sim, tens razão. Foste um velho e voltaste a ser jovem novamente.

— Mas… Mas isto não é possível! O tempo não anda pra trás!

— Se tu te centras apenas nesta dimensão em que julgas se resume tua vida e a Grandeza de nosso Criador, o que dizes é verdade. Mas só o é dentro desta estreita realidade relativa, meu irmão. Tu viveste o que ainda vais viver, quando eu me for. Por vontade de nosso Pai Celestial pude fazer que tu ficasses fora do tempo e do espaço que cerceiam tudo o que há na dimensão do mundo denso onde nos encontramos agora. És meu discípulo, Primus. Tens de saber muito para puderes ensinar pouco, mas com sabedoria. Tens de dizer as verdades por parábolas, pois eles não estão capacitados a apreender toda a Verdade, da qual tu tiveste um vislumbre. O que viveste no tempo em que estivemos aqui em cima vai acontecer daqui a alguns anos, quando tu e eu já não mais estivermos juntos. Então, quando tua fé vacilar, tu terás a recordação deste momento e tua fé surgirá com a força que deverá ter para enfrentar o perigo que será quebrar os rituais sagrados deste povo. Neste momento tu não entendes nada, mas vais entender, se o quiseres e se seguires o caminho que te ensino. Tens muito a aprender com os Druidas, se souberes separar o joio do trigo. As magias elementares que eles praticam não levam a lugar nenhum. Aprenderás com eles outras coisas de utilidade. Afinal, são sábios. Magos que têm uma tradição muito antiga e, dentro de certos limites, muito válidas. No entanto, terás de ir muito além deles. Agora, vamos. Não fales. Grava em tua mente o que julgas ter sido fabuloso. Vamos que temos muito o que conversar com o Druida da aldeia, antes que eu me vá.

Prosseguiram em silêncio, Primus se esforçando para ficar calmo. Estava desorientado. Viver ao lado de Issa era tomar sustos incompreensíveis e assombrosos. O Mestre, contudo, tinha calma e tranqüilidade pelos dois e sua paz terminava por também assenhorear-se do coração e da mente agitada e perturbada do romano.

Integraram-se aos celtas e às labutas da aldeia. E tão bem o fizeram que ao final do dia Primus se sentia quase celta também. Os grandalhões eram brincalhões e o aceitavam sem provocações. Quando as estrelas brilhavam na abóboda celeste, os homens fizeram uma grande fogueira e se sentaram a uma mesa de pedra que dava a volta ao redor da grande fogueira. Assim, todos se sentiam aquecidos, iluminados, e podiam conversar animadamente enquanto bebiam vinho. Mas naquela noite havia expectativa. As conversas eram feitas em voz baixa e os olhares estavam pregados na dupla Issa e Primus. eles se sentavam aos lados do Druida, Issa ao lado direito do chefe religioso.

Os Druidas eram, além de sacerdotes, os legisladores e os juízes das aldeias celtas.

Os Druidas eram, além de sacerdotes e magos, os legisladores e os juízes das aldeias celtas.

— Issa — começou o Druida — todos temos curiosidade em conhecer mais sobre o que vós chamais de Nosso Pai Celestial. E creio que deveis começar, vós ambos, visto que sois magos adiantados, os dois, falando-nos sobre o mundo onde esse nosso Pai habita. Como nós, druidas e druidesas, podemos chegar até Ele? Como podemos fazer para Lhe falar? Pode, um guerreiro comum, encará-lO? Como é Sua face? Que sacrifícios devemos fazer para agradá-lO e obter d’Ele Sua proteção para nossa aldeia?

Por um momento houve silêncio quebrado somente pelo crepitar das chamas na madeira da grande fogueira. Então, Issa falou.

— Como conheceis este mundo, suas realidades, suas coisas? — Perguntou. Por um momento houve silêncio. Os celtas se entreolharam um tanto desnorteados. Então, Myrtha falou.

— Nós sentimos o mundo com nosso corpo, com nossos sentidos. Sentimos o frio e o calor em nossa pele; sentimos os odores em nossos narizes; sentimos os gostos em nossas bocas; sentimos os sons em nossos ouvidos; vemos as formas e as cores através de nossos olhos.

— Esta é uma parte da verdade — disse Issa. — Mas sentir implica mais que isto. Implica perceber qualidades, não é? Se sentis o frio imediatamente vos pondes a analisar sua qualidade: é gélido e tiritante ou apenas arrepia os pelos do corpo? É úmido? É seco? Vem do solo? Vem pelo vento que sopra? Se ouvis um som imediatamente vos pondes a analisá-lo: é intenso? É agradável ou desagradável? É ameaçador ou não? E assim sucede com tudo o que podeis sentir: procurais imediatamente, quase de modo automático, perceber a mensagem que há na sensação que o que sentis vos desperta. Disto, desta capacidade de perceber as qualidades das sensações depende, muitas vezes, vossas vidas. Mas quando se trata daquilo que não podeis sentir, como podeis percebê-lo?

— Do que falais, Issa? — Perguntou um celta barbudo e grande e forte como um touro. Ele era um guerreiro.

— Falo de vossas emoções e de vossos pensamentos. Como podeis percebê-los?

— Ora, os pensamentos acontecem dentro de nossas cabeças e as emoções nós as sentimos em nossos corações — respondeu o grandalhão.

— Correto. E quando se trata de sonho? Como sabeis que estais sonhando e não vivendo uma realidade além desta? Por exemplo: quando sonhais com um desastre onde um grande perigo vos ameaça ou ameaça a alguém de vossa aldeia, como sabeis que isto não é verídico?

— Basta acordar e olhar ao redor. Veremos que tudo o que aparentemente vivíamos não passou de um sonho — tornou a responder o grandalhão.

— E como tendes certeza de que aquilo que sonhastes não está acontecendo em algum lugar, de algum modo? Quero dizer, quem vos garante que o sonho não esteja acontecendo num mundo além deste em que credes ser o real?

— E há um mundo assim… onde os sonhos são reais? — Perguntou outro guerreiro.

Fadas e Elfos, entre outras entidades elementais, sempre fizeram parte das crenças nórdicas.

Fadas e Elfos, entre outras entidades elementais, sempre fizeram parte das crenças nórdicas.

— Há o mundo dos elfos, dos gnomos, dos elementais, enfim? — Perguntou Issa, circunvagueando o olhar ao redor da mesa. — Vossos Druidas e vossas Druidesas afirmam que trabalham com eles. Então, não os vedes, no entanto, neles credes porque vossos sacerdotes vos afirmam isto. Em verdade, em verdade, eu vos digo: há um mundo além deste onde muitos de vossos sonhos são mensagens que vossas Mentes Imortais podem captar e transmitir para vossas Mentes Mortais.

— Temos duas mentes?

— Eu teria dito melhor se vos tivesse afirmado que tendes duas almas. Sim, tendes duas Mentes ou duas almas. Uma, imediata, fruto mesmo desta realidade que conheceis; a outra, profunda em vós, quase sempre desconhecida e que não depende desta realidade. Os sonhos e as fantasias engendradas por vossas mentes mortais não são importantes e se desfazem sem qualquer significado. No entanto, os sonhos e as imaginações que vos assolam à noite ou despertos permanecem como algo sensorial, estes vêm de vossas Almas Imortais. Vêm de uma realidade muito além desta que vêdes e experimentais através de vossos cinco sentidos.

— Podes exemplificar? — Pediu a Druidesa Myrtha.

— As mulheres costumam ser mais sensíveis ao que diz respeito a seus filhos. Quando uma mãe sonha que viu seu filho ser trespassado pela lança de um oponente numa batalha que vai acontecer dentro de sete ou dez dias, fica ansiosa e tenta dissuadi-lo de ir à luta, este sonho é premonitivo, ou seja, a Mente Imortal da mãe deslocou-se no mundo além deste e viu o que vai acontecer. Sua lembrança não a abandona e a angústia que ela lhe desperta está presente o tempo todo, por mais que ela se esforce para combatê-la. E quando o que ela viu acontece, muitas vezes vosso povo a toma por uma vidente poderosa. Mas aquela mulher só o foi em função do amor profundo e dos cuidados que a mulher-mãe tem para com seus filhos. Há uma ligação entre as almas imortais dos pais para com seus filhos. Um pai também pode pressentir um acontecimento mau ou bom em relação a seu filho, ao qual ame profundamente. E quando acontece esta ligação entre Mentes Imortais, uma pode perfeitamente deslocar-se no mundo além deste e antever o futuro, que pode ser bom ou ruim.

— É nesse mundo que vive a entidade a que chamas de Nosso Pai Celestial? — Quis saber o Druida.

— Não. Em verdade vos digo que nosso Pai Celestial está além de todos os níveis de mundos que acontecem e existem além deste que podeis sentir e perceber. E tudo o que vedes, até vós mesmos, é fruto de um grande sonho que Ele sonha. A diferença entre o que o Pai sonha e o que vós sonhais, é que Ele tem pleno controle de seu sonho e pode engendrá-lo segundo Sua Vontade e com finalidade bem determinada. Já vós não tendes qualquer poder sobre vossos sonhos. O Pai pode penetrar cada coisa que esteja em seus sonhos. Pode criá-las à Sua vontade e pode determinar como, quando e de quê modo coisas e seres de Seu sonho vão-se encontrar e interinfluenciar-se. Ele sonha com toda a consciência plena do que sonha e é sonhando que a tudo cria, inclusive a cada um de vós, homens e mulheres.

Sois criados com duas consciências ou duas almas, como queirais entender. Uma destas consciências é superficial e indispensável para que vós possais viver sobre a Terra, que vos apresenta desafios a cada instante. Essa consciência superficial se volta toda para o imediato e a realidade em que vos encontrais a cada hora de vossas vidas. Se estais no campo, ela se volta para esta realidade e vos coloca as possíveis probabilidades de perigos que ali hão. Faz a mesma coisa quando estais atravessando um rio ou um braço do mar. Ela existe para vos permitir viver em ambientes que não notais são sempre hostis e desafiadores, além dos desafios que vós mesmos criais tolamente para si, quando vos dividis em nações com línguas, crenças e modos de comportamento diferentes entre si. Mas por se voltar para os detalhes, a consciência superficial enfatiza exageradamente o que não tem valor, senão transitório. Se não entendeis o que é o raio ou o trovão, imaginais um deus à vossa semelhança em tudo, mas com o poder de manipular aqueles acontecimentos naturais em tempos de chuva e de tempestades. Como podeis ver, tomais a vós mesmos como o Arquétipo para mensurar todos os acontecimentos da Natureza bruta, onde quer que ela se manifeste. Só assim podeis entender o que vos acontece, ainda que vossa crença não ultrapasse os limites da imaginação.

Mas a consciência superficial é necessária porque ela vos impulsiona para a exploração, a experimentação, o estudo e as descobertas que criam e enriquecem vosso Conhecimento.

A consciência superficial centra-se na cabeça, visto que é nela que se encontram principalmente os órgãos com que podeis sentir o ambiente ao vosso redor. A exceção é somente o tato, visto que ele se estende por todo vosso corpo. Mas não podeis ouvir, nem ver, nem escutar, nem sentir o paladar ou o odor das coisas senão através dos instrumentos que tendes em vossas cabeças – a boca, os olhos, o nariz e os ouvidos.

Já a outra consciência é profunda e lida principalmente com o sentimento e as emoções. Esta, como bem o disseste, Belzur, situa-se na área onde está vosso coração. Esta consciência só é perturbada pela sua parceira, superficial, quando esta percebe algo com uma qualidade que lhe atribui, qual seja: qualidade agradável ou desagradável; perigosa ou inócua; amorosa ou odiosa e assim por diante.

A função principal de vossa existência neste mundo é unir estas duas consciências para que ela vos forme um Homem Perfeito.

O símbolo do Homem Perfeito é a estrela de cinco pontas — e Issa deu a volta à mesa de pedra e desenhou no pó do chão uma grande estrela de cinco pontas. — Vêde que esta estrela representa muito bem um homem com os braços e as pernas abertas. As pontas da estrela que simbolizam os braços parecem indicar que o Homem Perfeito está pronto para receber a todos e a tudo, sem medo, com Amor e Fraternidade. Não há armas em suas mãos, mas seus braços mostram o desejo de abraçar tudo em grande e carinhoso amplexo. Este Homem Perfeito está além do medo, além dos valores passageiros, além das crenças tolas e infantis. Ele está pronto para abraçar o seu Criador. Na Índia alguém que tenha alcançado esta perfeição é chamado de Iluminado. Entre vós, só os Druidas e as Druidesas estão a caminho de tal iluminação. No entanto, não há um único que já tenha atingido tal perfeição, pois que ainda se voltam para agir segundo suas consciências superficiais.

Agora, vede este triângulo. Ele tem uma ponta voltada para baixo. Ele é a representação de vossa consciência superficial. Agora, vede este outro triângulo. Ele tem uma ponta voltada para o alto.

Issa ia desenhando no pó do chão as figuras de que falava. Os aldeões saíam de seus lugares para se colocar próximo do Mestre a fim de enxergar o que ele fazia. O silêncio era grande e todos se fixavam em suas palavras.

— O triângulo com a ponta voltada para baixo simboliza vossa consciência superficial, que, como eu já o disse, situa-se em vossa cabeça. O triângulo com a ponta voltada para baixo simboliza o esforço da consciência superficial no sentido de se aprofundar em vosso Ser, de modo a avançar em direção ao outro triângulo. Este aprofundamento se dá pelo Conhecimento que, aos poucos e com muitos esforços, ides adquirindo no viver e conviver entre vós mesmos, com outros povos e com a Natureza. Desvendando os segredos desta, vosso Conhecimento se expande e expulsa para longe as sombras da ignorância.

O triângulo com a ponta voltada para cima simboliza vossa consciência profunda e nela se encontra todo o potencial emocional e sentimental que tendes e podeis desenvolver. Vossas emoções podem levar-vos ao Criador ou lançar-vos para baixo, para bem distante d’Ele. As emoções amorosas, fraternais, caridosas, são as forças que impulsionam a consciência profunda para o alto, em direção à sua irmã, a consciência superficial.

Issa fez outro desenho. Este, uma estrela de seis pontas.

— Quando os dois triângulos se entrelaçam forma-se uma estrela de seis pontas. Ela simboliza o Adepto, aquele que ultrapassou o estágio da Iluminação e se tornou um Ser Acima de Tudo o que vedes e viveis na Terra. São superiores a qualquer um, a qualquer rei, a qualquer imperador terrestre. Podem realizar os fenômenos naturais que, no entanto, tomais agora como milagres. Exemplo: a cura instantânea de um corpo doente e envelhecido. Podem ver o futuro e o passado e podem compreender a infinita harmonia do Universo. Compreendem a Vontade do Pai e entendem, finalmente, que tudo acontece conforme Sua Excelsa Vontade. Aquele que consegue que seus dois triângulos ou suas duas consciências se unam com perfeição, lança-se para fora do círculo de Abred e foge da roda das encarnações. Esta pessoa não mais tem carma a quitar com nada nem com ninguém e conhece segredos da Natureza do sistema Terra muito além do que os homens irão descobrir daqui a cinco mil anos.

— E onde e como é que se dá a união destas duas consciências ou destes dois triângulos no ser humano? — Perguntou o Druida todo interessado no que ouvia. Todos assentiram automaticamente com as cabeças, reforçando a pergunta e o interesse do Druida.

— Aqui, bem entre vossas sobrancelhas. Quando os dois triângulos se fundem, a estrela de seis pontas se fixa aqui — e Issa colocou seu indicador da mão esquerda no ponto que, hoje, se conhece como glabela, entre as sobrancelhas. — E quando isto acontece, vós tendes vossa Terceira Visão aberta e podeis ver, falar e ouvir nos mundos além deste em que vos encontrais encarnados.

— E como podemos acelerar esta maravilhosa união? — Perguntou Mirtha com a mão espalmada sobre o peito, demonstrando a grande ansiedade de que estava tomada. Novamente centenas de cabeças assentiram com ela.

— Tereis de fazer um grande esforço para vos desapegardes de vossos maus hábitos e de vossos maus costumes. Tereis de abandonar o desejo por coisas tolas e fúteis, como ouro, territórios, escravos e poder terreno sobre os outros. Tereis de abdicar dos juízos de valor sobre vossos irmãos. Tereis de abandonar definitivamente o rancor e a vingança. Tereis de compreender que o revide de um insulto só gerará mais insultos e mais dores. Tereis de aprender a perdoar os que vos insultam e não valorizar o que seja mesquinho da parte de ninguém, visto que todos só fazem aquilo que podem fazer e só dão o que têm para dar. Tereis de sempre estar dispostos a ajudar vossos irmãos e não somente os que integram vossa aldeia, mas também todos os estranhos. E não deveis de modo algum esperar agradecimento ou paga pelo bem que lhes fizestes ou pela ajuda que lhes destes, pois agir assim é o dever de todos os homens e de todas as mulheres. Não estais nesta vida para aprender a tomar, mas sim para aprender a doar, até a si mesmo, se isto vos for exigido. Fazei o que tendes de fazer com satisfação interna pelo fato de ter podido fazer e, não, pela busca do reconhecimento do outro, ainda que em um olhar de agradecimento ou de adoração. Tereis de despertar o prazer de sentir prazer apenas consigo mesmo e, jamais, com o que venha de fora. Se vosso irmão vos pedir vossa casa, dai-lhe, também, vossas roupas e vosso leito; se ele vos exigir vossas terras, dai-lhe, também, vossas criações e tudo o que nelas há de plantações. Nada pertence a ninguém, senão ao Pai. Quando tiverdes de deixar este mundo, nada levareis convosco senão vossas duas consciências. Então, por que apegar-se ao que é passageiro? Na vida, o que vos chega às mãos é sempre passageiro, mas não notais isto e este é um dos grandes erros entre os que almejam o Conhecimento redentor.

Um murmúrio de espanto e decepção ergueu-se de dentro da multidão, mas a mão do Druida elevou-se imperativa e fez que os descontentes se calassem.

— Issa, mostraste-nos, hoje, o quão sábio és. Tu me deixaste boquiaberto com teus ensinamentos. Jamais nenhum de nós, Druidas, pesamos como nos ensinaste a pensar, nesta noite. Mas teus ensinamentos requerem que nos recolhamos para repensar tudo o que ouvimos e dimensionar conosco mesmo até onde podemos ir no que nos dizes ser necessário para ter o Terceiro Olho desperto. Poderias deixar para outra ocasião prosseguir com estes ensinamentos deveras espantosos?

Com um sorriso descontraído, Issa assentiu com um aceno de cabeça e se pôs de pé.

— Irmãos meus, vi que minhas últimas palavras vos decepcionaram. No entanto, a Verdade não pode ser deformada nem colorida para satisfazer ao homem. Ela tem de ser apresentada como é: Verdadeira. E o que eu vos disse aqui, esta noite, é a Verdade. Que cada um de vós vos recolhais a vossos corações e, sem rancores nem mágoas contra mim, meditai cuidadosamente no quanto ireis ganhar trilhando o caminho do Adeptado. Eu vos saúdo e vos desejo uma noite de paz na companhia de nosso Pai Celestial que está em todo lugar a todo momento.

E com um aceno de cabeça Yehoshua convidou Primus a segui-lo. Os aldeões abriram respeitosamente uma passagem para que os dois viandantes saíssem da aldeia e fossem para debaixo da árvore que tinham adotado como morada…