Yehoshua sempre foi uma interrogação que me atraiu como a lâmpada atrai a mariposa. E o que descobri sobre Ele é assombroso e lindo...

Yehoshua sempre foi uma interrogação que me atraiu como a lâmpada atrai a mariposa. E o que descobri sobre Ele é assombroso e lindo…

Era o entardecer daquele mesmo dia. O céu estava claro, mas o vento que soprava mais forte que o comum prenunciava tempestade. Os aldeães se atarefava no recolhimento de lenha para fogueiras dentro das casas e no meio da aldeia. Issa e seu discípulo ajudavam na faina. Veio a noite e o vento se transformou num vendaval com chuva chicoteando tudo.

Sentados ao redor da fogueira e tomando vinho, os anciãos conversavam com Issa e Primus. Entre eles estava o guerreiro forte e louro que havia interrogado Issa durante a reunião do dia. E foi ele quem primeiro começou.

— Issa, tu és um mago de outras terras e nós te respeitamos muito. Mas tuas palavras nos deixaram muito incomodados. A toda a aldeia.

— Que parte do que eu vos falei incomodou tanto?

 O guerreiro pensou um pouco e com um sorriso encabulado, respondeu.

— Acho que tudo. Todas as tuas idéias nos perturbaram.

O pôr do sol na mata é sempre mágico.

O pôr do sol na aldeia era sempre mágico e continua sendo até hoje. Só que nas nossas cidades não há espaço para que se possa apreciá-lo em toda sua beleza e nostalgia.

— Então, por onde quereis começar vossas perguntas?

— Gostaria que nos falasses mais sobre as duas mentes que afirmaste que temos — falou a druidesa Myrtha. — Estive pensando. Vivemos claramente em um mundo que nos apresenta, como bem o disseste, dilemas a cada momento de nosso viver. Nossa vida é cheia de dilemas que nos exigem fazer opções. Desde quando nos levantamos até quando vamos deitar, temos de, a cada momento, fazer opções e escolher aquelas que nos pareçam mais adequadas. Isto é função, pelo que pude entender, daquela mente a que chamaste de Mente Imediata ou superficial. E fiquei pensando em como se pode fazer para abstrair-nos o máximo possível de nosso viver quotidiano a fim de nos entregarmos ao esforço de fazer ascender aquela outra mente a que chamaste Mente Profunda, Emocional. Para ti, Issa, e para teu companheiro, é fácil retirar-se para um lugar solitário, sentar-se, fechar os olhos e abstrair-se do mundo exterior. Para nós, druidas e guerreiros, esposas e donas de casa, esta condição é impossível. Temos tantas coisas a requerer permanentemente nossa atenção que não há como fugir a isto. Então, concluí desanimada, nós não temos meios de apressar nossa saída do Círculo de Abred. Com exceção dos Druidas Filid, filhos direto do Cosmos Gerador da Vida, ninguém mais pode acelerar sua liberdade do círculo das provações.

— Disseste-o bem, druidesa Myrtha — Falou Issa. — Vós viveis atarefados e sufocados por inúmeras escolhas dilemáticas. Mas responde-me: até onde assumi sobre vossos ombros as opções que deveriam ser feitas por outros?

Era sempre ao redor de uma fogueira que Yehoshua proferia seus mais belos ensinamentos.

Era sempre ao redor de uma fogueira que Yehoshua proferia seus mais belos ensinamentos.

— Podes ser mais claro, Issa? — Pediu a mulher.

— Sim, posso. Vós guardais convosco mesmo os segredos que descobris quanto ao poder curativo das ervas e dos chás que fazeis com elas. Ao optar por isto, tomai sobre vossos ombros fazer sempre a escolha que devia ser daqueles que necessitam de remédio das matas para suas dores e sofrimentos. Por que fazeis esta opção?

A druidesa olhou ao redor, como se buscando apoio. Então, com um suspiro, voltou a falar.

— Nós somos escolhidas para ser druidas – os homens; ou druidesas – nós, mulheres, segundo a vontade de nossos pais. Qualquer um pode se candidatar a esta função. Nela, temos o dever de guardar os segredos que descobrimos na Natureza, pois muito deles são perigosos se usados de modo errado. Levamos anos estudando e pesquisando, não só as ervas medicinais, mas também os elementais que delas cuidam. Temos de estabelecer com eles uma comunicação que os predisponham a nos ajudar e isto não é fácil. São arredios, como deves saber. Muitos postulantes desistem após alguns anos, pois o trabalho não é nada fácil. Não é um trabalho que todos queiram executar por toda a vida. É quase como um sacerdócio. Não somos sacerdotes, mas curandeiros, entendes? Fazemos rituais que acreditamos serem mágicos e nos ajudarem a obter a colaboração dos Elementais da Natureza, mas isto não faz de nós sacerdotes, como pensam outros povos.  

As druidesas, alem de cuidar dos remédios, também cuidavam da magia elementar.

As druidesas, alem de cuidar dos remédios, também cuidavam da magia elementar.

— Mas não há motivo para que não ensineis aos membros de vossas comunidades os remédios que eles mesmos podem manipular para si e para os seus familiares. Sim, concordo em que há folhas, raízes, frutos e cascas de árvores que podem produzir venenos poderosos e não devem ser dados a conhecer a todos. Mas se não centrásseis em vós o Conhecimento geral, que nosso Pai disponibiliza a todos os que dele possam desfrutar, reduziríeis em muito a carga de deveres que não são de vossa alçada e, sim, dos outros. E o que digo quanto às mezinhas, podeis ampliá-lo para muitos de vossos afazeres. Não há razão para que muitos deles sejam centrados em mulheres, quando os homens também poderiam executá-los. Se podeis cavalgar e lutar igualmente com vossos homens, por que eles não podem cozinhar, limpar a casa onde todos vivem, ajudar com a criação da prole, lavar as roupas e assim por diante?

O guerreiro levantou a mão e falou.

— A nós competem as tarefas mais pesadas que as mulheres não podem executar, como, por exemplo, lavrar a terra para o plantio ou ir à caça de animais de grande porte.

— Qualquer trabalho pode ser executado tanto por homens quanto por mulheres, meu jovem amigo — disse Primus, adiantando-se a Issa. — No país que já foi o meu, as mulheres também lavram o campo e fazem o plantio. Não necessariamente devem ser escravas para isto. Lá, porém, a guerra é competência apenas dos homens. Não é como entre vós. Acredita-se, em Roma, que as mulheres não seriam boas guerreiras e elas mesmas assumem esta crença, quer por comodidade, quer por esperteza.

Eles eram sábios e pesquisadores dos segredos da Natureza, assim como do poder do Som, da Água, do Fogo e da Terra.

Eles eram sábios e pesquisadores dos segredos da Natureza, assim como do poder do Som, da Água, do Fogo e da Terra.

— Mas tendes de concordar que há necessidade de se organizar a vida em grupo — disse um dos idosos druidas até ali calado. — Trabalhos devem ser repartidos segundo capacidades e exigências intrínsecas a eles. Sem isto, a comunidade se desorganizaria.

— E eu não disse que assim não devia ser — rebateu Issa. — Disse tão-só que a maioria de vós vos organizais segundo vossos interesses íntimos de Poder, Domínio e Mando. Mas tais interesses são superficiais, logo, não pertencem à consciência profunda e, sim, àquela superficial. Em outras palavras, tais interesses integram o panteão de “deuses de pés de barro” a que prestais reverência.

— Podes explicar melhor o que intentas com esta afirmativa? — Perguntou outro Druida, olhando de cenho franzido para Issa.

— Serei o mais claro possível, meus irmãos. Disse-vos, antes, que vossa Alma Superficial se volta para vosso exterior por necessidade que tendes de sobreviver em um mundo de desafios constantes. Mas tais desafios poderiam ser minimizados ao máximo, se ao invés de tentardes conquistar a Natureza Natural, voltásseis vossos esforços para conquistar vossa Alma Profunda, vossa Natureza Humana. O voltar-se para dominar o exterior açula em vossa Alma Superficial o Desejo e este implica de imediato a Posse. Possuir, por sua vez, implica Poder e Poder implica Domínio e Domínio implica o Mando sobre tudo e sobre todos. Em busca destas ilusões que são sempre passageiras e ilusórias, vós vos perdeis de vós mesmos e vos dispersais em esforços inúteis para segurar o que não pode ser segurado. Quem pode deter para sempre a posse do ouro que conquista a ferro e fogo? Ninguém. Que mulher pode deter em si a beleza da juventude para sempre? Nenhuma. A beleza física se derrete ao passar do tempo, visto que neste mundo em que viveis tudo é passageiro. Vós sois passageiros. Por mais fortes que sejais enquanto jovens, derretereis ao correr do tempo e vossas forças minguarão até se extinguirem. Nada sobre este mundo é do homem. Nada sobre este mundo dura para sempre. Tudo pertence integralmente ao Pai que está no Céu, pois foi Ele que a tudo criou. E assim sendo, tudo a Ele tem de retornar. Então, se almejardes a paz, primeiramente abdicai do Desejo. Se vos livrardes dele ou, ao menos, se conseguirdes reduzi-lo ao mínimo possível, eis que vossas vidas se tornarão iluminadas pela Paz da Liberdade para Serdes vós mesmos. Vossas preocupações seriam minimizadas e poderíeis voltar vossas atenções para vossos interiores e buscar sentirdes a alegria de Serdes Livre do aguilhão do Desejo. Não valorizaríeis nada e usaríeis com parcimônia e agradecimento sincero o que o Pai vos dá, pois o que Ele dispensa a cada um de vós é exatamente aquilo de que necessitais para viverdes.

A organização social não requer que o Desejo descontrolado seja açulado em vós. Ao contrário: ela impõe que o bem seja repartido equitativamente com todos, de modo que cada qual se sinta protegido e justiçado pelos que têm o dever de manter a organização e a partilha do bem comum. Não é assim que vossos Druidas Filid procedem? Eles não desejam para si além do que satisfaça suas mínimas necessidades e distribuem com todos o muito que aprenderam a obter daquilo a que chamais de Cosmos. Eles vivem regradamente, não se furtam ao trabalho comunitário e jamais exigem dos outros que lhe dêem além do que necessitam para a vida que devem viver.

Ao contrário dos Césares romanos, os vossos Druidas Filid não dão a mínima importância ao ouro ou às conquistas em campos de batalha. Não querem para si senão o estritamente necessário ao seu dia, pois só o dia de agora deve ocupar nossa mente superficial. Se vivem bem este dia têm certeza que o de amanhã será uma conseqüência do que de bom hoje fizeram. O amanhã, eles sabem, o Pai proverá. Prezam a vida; sabem que ela é passageira; sabem que não estão aqui para amealhar, mas sim para doar de si. E doam. Por que não lhes segui os exemplos? Vós mesmo, Myrtha, quando vossa tribo se arma para a guerra sois uma das primeiras a tomar das armas e saltar no selim de vossa montaria. Estais pronta para matar. Mas por que matar? Por que brigar por coisas passageiras?

— Porque nossas terras são preciosas, Issa. Porque nossas vidas também são preciosas. Porque amamos nossas famílias. Porque não queremos ser destruídos pelos inimigos que nos vêm atacar. Se não nos defendermos, eles nos arrasarão e aos que sobreviverem arrastarão como escravos e escravas.

— E por que vos preocupais com isto?

— Como assim?! Não te compreendo, Issa.

Fosse na Sinagoga, fosse ao redor de uma fogueira, ele não dizia senão a Verdade.

Fosse na Sinagoga, fosse ao redor de uma fogueira, ele não dizia senão a Verdade.

— Eu vos disse: se vosso irmão vos pedir vossa terra, dai-a e também ao que nela tendes plantado ou o que nela criais. Passai aos ombros dele o peso de ter que manter tudo isto. Ele terá tirado de vossos ombros o peso do fardo que carregais ano após ano até vossa velhice. Se ele vos fizer de escravo, terá lançado sobre os próprios ombros o peso de ter que vos alimentar e a vossos filhos e parentes, se a todos tiver subjugado. A carga da preocupação com tudo isto é dele, agora, não mais vossa. Se ele vos levou como escravos, mas tendes vossa alma profunda livre do peso de vossa alma superficial, então, em qualquer lugar onde estejais, estareis com a paz na palavra e na ação. Não levareis convosco nem ódios, nem rancores, nem desejos de vingança, pois sabeis que tudo terá um fim. Todos vós hão de morrer e todos terminarão seus dias sob a terra. Sereis, então, iguais, não sereis? Se vos desapegardes das coisas e dos bens passageiros e valorizais vosso íntimo, então, estareis sempre satisfeitos e saciados.

— Mas passaremos nossas vidas trabalhando duro e sendo humilhados por nossos conquistadores, Issa. Não podes compreender isto? Os sofrimentos serão muitos e atrozes.

Yehoshua gostava de ensinar assim, de modo íntimo, junto e sem distinção entre ele e seus aprendizes.

Yehoshua gostava de ensinar assim, de modo íntimo, junto e sem distinção entre ele e seus aprendizes.

— O sofrimento a que vos referis, irmã, só o será se o classificardes como isto. Mas se encarais o trabalho duro que um escravo tem de executar como um meio de vos aperfeiçoardes e o executardes com mais energia do que aquela exigida de vós; se vos entregardes a ele sem resistências devido a valores fúteis, então, minha irmã, logo, logo, vos destacareis como um escravo valoroso e produtivo. As atenções de vosso conquistador, voltar-se-ão para vós e ele se vos aproximará para conversar e tentar compreender a razão de estardes sempre de bem com a vida. E acredita, irmã, pode nascer entre o senhor e seu servo uma amizade tão grande que aquela entre irmãos de sangue será pequena. Entre os hebreus há sobejos exemplos de escravos que se tornaram os melhores amigos e conselheiros até de reis tiranos. A humildade vence os grilhões. A felicidade vence a tirania.

— Como poderia eu trabalhar satisfeita, arando a terra que era minha e me foi tomada? Como poderia eu estar contente com quem escravizou minha família, meu homem, nossos filhos e nossos entes queridos? Não posso compreender isto que dizes, Issa.

O pastor não é o senhor, mas o escravo de seu rebanho.

O pastor não é o senhor, mas o escravo de seu rebanho.

— Não podereis nunca se persistirdes apegada à vossa Alma Superficial, irmã Myrtha. Pensai assim: se algo vos acontece é pela vontade de vosso Pai. Ele sabe muito bem o que deveis receber e o porquê disto; e se vos dá a escravidão é porque desta deveis desenterrar o diamante da alegria de fazer bem feito. Então, a cada hora de vosso dia encarai como um recomeço de algo ainda não alcançado, mas tenazmente procurado. O Pai vos retirou todas as bases da ilusão do Desejo, logo, tirou de vós a canga do Poder, do Domínio e do Mando. Não odieis aquele que vos escraviza, pois ele também é filho do Pai e tem o Pai dentro de si tanto quanto tu mesma o tendes. Então, a rigor, aquele que vos escraviza é vosso Pai em outra forma, em outra condição. É vosso Pai trabalhando sob um aspecto diferente para vos dar um grande impulso para que vossa Estrela de Seis Pontas se forme rapidamente em vosso Ser Superior. É vosso Pai que sabe que vós estais à frente daquele em que ele habita no momento. Talvez o Pai busque em vós o amigo de que vosso conquistador necessita para compreender a grandeza da humildade e a sabedoria da alegria de se contentar apenas com o que se tem e não desejar mais que fazer bem o que deve ser feito. E se o Pai assim trabalha e vos deu uma tarefa muito árdua para que a executeis, então, certamente Ele espera que possais ajudá-lO a ajudar vosso irmão atrasado na aprendizagem do Amor, irmã Myrtha. O Pai não te tornou escrava por punição devido a algum pecado que tenhas cometido. Pensar assim é não compreender nosso Pai Celestial. Ele não vê nada na Terra como instrumento de punição, senão que meios de aprimoramento vosso. E vos usa segundo Seus juízos e de conformidade com o que podeis dar e podeis aprender. Só os muito fortes e muito ricos podem doar de si fortaleza e riqueza, minha irmã. Tolo e perdulário é aquele que não sabe aproveitar a oportunidade para avançar em seu crescimento espiritual.

Fez-se silêncio. Todos pensavam profundamente no que tinham ouvido. Tudo era novo. Aquele modo de encarar a vida era totalmente desconhecido até para os velhos druidas da tribo.

— Tua filosofia é assombrosa, Issa. Parece tão fácil, mas em verdade é árdua e difícil — disse Myrtha, sendo apoiada com acenos vigorosos de cabeça dos quinze anciãos ali reunidos.

— Não busques compreender-me com tua mente superficial, irmã. Em vez disto, busca deixar que de teu ser profundo emane a alegria de ouvir o que te digo, pois é pela emoção que poderás compreender-me, jamais pela razão. A razão é fruto da ilusão e somente tem uma aparente solidez mediante esta. Elimina a ilusão e não mais sentirás a certeza da razão.

Novamente fez-se silêncio. Então, pondo-se de pé, Myrtha falou.

— Issa, sinto que dizes grandes verdades, mas vou necessitar de muito tempo para apreender toda a grandeza de tuas palavras. Realmente, és o sábio de quem sempre eu tinha ouvido falar. Espero que possamos continuar nossa conversa amanhã, pois agora tenho de dar atenção ao meu povo. Logo voltará a chover e preciso ver se tudo está em ordem para a noite. A tempestade não se foi, ainda.

Issa olhou para Primus e sorriu.

Myrtha ainda não havia compreendido o que Ele dissera…