Capítulo IV – O Combate (1ª Parte)

Hoje estou azedo e com nenhuma disposição de escrever. Então, vamos apenas fantasiar...

Hoje estou azedo e com nenhuma disposição de escrever. Então, vamos apenas fantasiar…

A Psicanalista         

                    A psicanalista recebeu-a, como sempre, com a mesma frieza de costume. Cumprimentou-a com um leve aceno de cabeça, sem lhe estender a mão e a convidou, ainda com um aceno de cabeça, a entrar no consultório. Um luxo. Tudo do bom e do melhor. Luz indireta, tapetes que abafavam os passos e o fatídico divã à romana. Colocado estrategicamente, um abat-jour que podia lançar muita luz sobre a face de quem se deitasse no divã, mas aumentava a penumbra na qual a analista se ocultava sentada atrás do coitado que estivesse ali estendido. “Indecente”, pensou Mara com raiva. “É como desnudar uma pessoa para ficar “voyeristement” admirando-lhe as fe­ridas. E a vítima só pode obedecer…”

                   Sentou-se, ao invés de se deitar, e procurou encarar a analis­ta de frente. A luz do abat-jour a incomodava e sem a menor cerimônia apagou-a.

                   — Por que faz isto? — indagou a analista com aquela voz monocórdia de sempre.

                   — Porque estou de saco cheio de tê-la as minhas costas e esta luminária me incomoda a visão. Gosto de olhar as pessoas de frente. Gosto de lhes ver a face e de saber como reagem a mim — disse Mara, controlando sua raiva.

                   — Está raivosa, Mara? — falou a analista com a mesma voz morti­ça de sempre.

                   — Sim, estou.

                   — Ah! … Pelo menos, agora, já confessa seu ódio recalcado…

                   — Não confesso nada! E não se trata de recalque coisa nenhuma. E muito menos de ódio infantil.

                   Esperou que a mulher dissesse alguma coisa, mas ela permaneceu impassível, olhando-a fixamente.

                   — Bem, já que não quer falar, falo eu — disse Mara. — Tome, leia isto e me diga o que pensa a respeito.

                   — O que é isto?

                   — Leia!

                   — É importante para você, que eu aceite este papel?

                   — Merda! É importante, sim, droga! Leia!

                   — Está bem.

                   E a analista aceitou a cópia Xerox do artigo e o leu em silêncio não fazendo qualquer comentário quando terminou a leitura. Apenas olhou, silenciosa, para Mara. Aquilo decepcionou a repórter.

                   — Voltei a ter aquele pesadelo de novo — disse, desconcertada diante do olhar frio da mulher. — Não mudou nada. As mesmas cenas, as mes­mas pessoas. O que me diz?

                   Esperava que a analista ligasse as cenas de seu pesadelo com o que continha a reportagem, mas ela não o fez.

                   — Você sabe o que penso a respeito. Quer fazer alguma associação com as cenas do pesadelo? Que tal começarmos pelo pescador…

                   — Ora, vamos, doutora. Você já tentou isto e não funcionou.

                   — Por sua resistência, Mara. Vamos, feche os olhos e relaxe. Procure trazer à lembrança o homem do pesadelo…

                   — Mas…

                   Mara hesitou. Compreendeu que a analista não se dignara a ler o artigo. Apenas fingira fazê-lo. Sentiu-se confusa e um misto de raiva e decepção a acometeu.

                   — É melhor deitar, Mara. Fica melhor para relaxar e fazer as associações. Vamos, deite-se.

                   Não era um convite. Era uma ordem. Mara perturbou-se. Viera disposta a brigar com sua analista, mas agora estava confusa. A mulher ti­nha uma autoridade estranha, perturbadora.

                   — E então?

                   Mara hesitou, mas obedeceu.

                   — Ótimo. Agora, feche os olhos e relaxe… Relaxe… Não pense em nada volitivamente… só relaxe…

                   A voz era monótona e dava sono. Mara bocejou. Aos poucos seu corpo foi afundando no divã. Com esforço tentou obedecer, mas cenas e mais cenas do dia lhe vinham à mente… Talvez estivesse mesmo em resistência, afinal de contas. Não conseguia parar de pensar… O artigo. Pensou no artigo.

                   — O homem do sonho… o pescador — ouviu a analista dizer — por favor, Mara, diga tudo o que lhe vier à mente quanto a ele…

                   A princípio não vinha nada à lembrança de Mara. Apenas uma sensação muito estranha, de escuridão. Escuridão que ela percebeu, espantada, traduzir-se em uma íntima recusa a pensar. Gozado! Inda agorinha mesmo ela não conseguia parar de pensar. Agora, não pensava! Pelo menos, não vinha qualquer cena à sua memória… “Que coisa curiosa” disse para si mesma, “estou vazia…”

                   — O que há, Mara? — veio a voz sem calor e sem cor da analista.

                   — Eu… eu não consigo… eu não consigo ver o homem e… não me vem nada à lembrança… — Mara não sabia por que, mas estava meio agasta­da por ter de falar aquilo.

                   — Relaxe. Deixe que sua mente se reflita em sua consciência.

                   “Fácil dizer, chapa; o difícil é fazer” — pensou Mara de si para consigo mesma. Mas permaneceu tentando não pensar senão no tal homem… O nome dele… como era mesmo o seu nome?

                   — E então, Mara? — voltou a perguntar suavemente a analista.

                   — Gaditano! — a repórter ouviu-se dizendo.

                   — Gaditano… O que é isto para você?

                   — O pescador.

                   — Você sabe o significado desta palavra, Mara?

                   — Não… Só sei que é o nome do pescador.

                   — Por que você associa esta palavra ao pescador de seu sonho?

                   — Pelo artigo, ora! É o nome dele! — Mara teve vontade de abrir os olhos, mas alguma coisa dentro de si se recusou a fazer isto.

                   — Que artigo?

                   — O que lhe dei! Não o leu?

                   — Li. Ele descreve uma ilha e algum acontecimento exótico ocorrido nela — disse a analista, demonstrando que Mara se enganara quanto a ela não ter lido o artigo.

                   — Sim, isto mesmo. O artigo descreve a ilha de meus sonhos.

                   — Não. O artigo descreve uma ilha. Mas lá não é dito que seja a de seus sonhos…

                   Ela estava de gozação. Só podia estar.

                   — É a ilha de meus pesadelos, sim senhora! — quase gritou Mara.

                   — Você está fugindo do tema, Mara.

                   — Não estou não! Leia novamente o artigo! — Mara sentou-se agitada. — Verá que ele contém a descrição da minha ilha!

                   — Sua ilha? Você tem uma ilha, Mara?

                   — Droga, doutora! Eu me refiro à ilha de meus pesadelos!

                   — A ilha do artigo não me parece ter importância, Mara. É algo distante de nossa realidade…

                   Mara levantou-se num ímpeto. — Aí é que está! — exclamou ela — O artigo tem importância, sim. Se não tem para a sua teoria, tem para mi­nha realidade! — e ela foi até a porta, disposta a sair, mas abortou a ação e voltou a sentar-se. Apontou para o papel na mão da analista e fi­cou a olhá-la nos olhos. Ela, porém, não se moveu e continuou a fitá-la, como sempre, com aquele olhar inexpressivo.

                   — Mas que diabo! — exclamou a repórter francamente irritada — Você vai ficar aí, me olhando com este olhar de peixe morto, vai? Que tal voltar a ler o artigo em sua mão, hein?

                   — Já o li, Mara. Ele não é importante para nós…

                   — É! É, É e É ! — gritou Mara, exasperando-se.

                   — O que vê aqui, Mara?

                   — O que vejo? Santa Maria Madalena, mulher, aí está a essência de meus pesadelos. Uma ilha, uma criança encontrada entre sargaços por um pescador – Gaditano, segundo o jornalista que escreveu a reportagem – e que é muda, tal como a criança de meu pesadelo! Que mais quer?

                   — Eu? Nada, Mara. Você é que deseja saber o que seu inconsciente lhe está tentando dizer. Só estou procurando ajudá-la a chegar até ele.

                   — Que inconsciente? O coletivo?

                   — Não sou jungueana…

                   — Ah, esqueci-me! As famosas linhas de atuação! Ora esta, douto­ra, e o meu inconsciente pessoal ou coletivo sabe lá alguma coisa sobre as compartamentalizações da Psicanálise, hein? Será que você pensa que só pelo fato de você se dizer analista ortodoxa, o meu inconsciente vai somente sonhar sonhos capazes de satisfazê-la, é?

                   Esperou em vão por uma resposta. A analista continuava impassiva. Aquilo era exasperante.

                   — Pois se pensa assim, é muito petulante, cara doutora. E quer saber do que mais? Pra mim, C H E G A! Há muito mais do que Édipo nesta história e eu vou descobrir entendeu?

                   — À vontade, Mara. Mas quando passar este arroubo de rebeldia projetiva, que tal voltarmos ao nosso tema?

                   — NÃO VAMOS VOLTAR A COISA ALGUMA, ENTENDEU BEM? — Mara gritou a todo pulmão — Aliás, não vou tornar aqui para que você fique batendo na mesma tecla, tentando-me convencer que o seu todo poderoso Édipo é que está no comando de minha vida, porque não é, queira você ou não; queira seu amado Freud ou não! Adeus, doutora!

                   E Mara saiu porta-a-fora sem que a analista fizesse qualquer movimento no sentido de impedi-la. Apenas anotou em sua agenda: “Cobrar a sessão de hoje, a Mara.”

                   A repórter estava furiosa. Perambulou pela rua a esmo. Não estava com nenhuma vontade de ir pra casa nem queria encontrar ninguém. Aquele encontro com a analista fora um desastre. Estava com raiva, com frio, com a sensação de desamparo, de solidão e de frustração.

                   A cidade acendera-se toda, mas a noite estava fria e com uma chu­vinha quase sereno caindo como garoa. Isto aumentava o frio e a sensação de solidão.

                   Mara perambulou a esmo e terminou decidindo-se a ir para a redação e voltar ao “Mausoléu” a fim de continuar a pesquisa. Quem sabe encontraria mais alguma coisa escrita pelo seu falecido colega?