"Porra! O velhote anda azedo com a gente, né não? Ele ainda não viu o que vamos aprontar..."

“Porra! O velhote anda azedo com a gente, né não? Ele ainda não viu o que vamos aprontar…”

Decidi retornar à academia. Devido ao maldito bico de papagaio fiquei um ano todinho apenas comendo e vendo TV. Fora isto, era tomar diclofenaco e Advil para aliviar a dor na coluna. Mas a coisa piorou, pois ficar parado não faz bem a ninguém, principalmente a um velho idiota de 74 anos, como eu, que sempre teve vida agitadíssima e sempre viveu entre ferros e dojôs.

Lula, Dilma, Moro e as inumeráveis quadrilhas de ladrões que nos sangram o Erário Público já não mais me chamam a atenção. Principalmente quando li que já está acertado entre os togados a soltura da turma de corruptores. Aí, o saco estourou. Estou enfarado com qualquer notícia sobre esta turma.

Eduardo Cunha e Renan Calheiros só me fazem sentir saudade dos tempos em que fui treinado para “eliminador de obstáculos” ou, mais modernamente, “atirador de elite”. Se eu tivesse de volta, por um dia que fosse, minha saúde dos 19/21 anos e minha pontaria infalível, juro que o Brasil teria duas “ilustres figuras humanas” desfilando com fanfarras e bandeiras direto para o inferno… E aproveitando a oportunidade, o Lula e a Dilma iriam secundando os insolências, como mordomo e aia, respectivamente… E só de sacanagem eu faria tudo de modo a parecer que um agente da Rússia fosse quem tivesse feito a limpa em nosso lixão… Ah, ah, ah!

Viver deitado, "curtindo preguiça e bebendo água de coco ou tomando cerveja" não ajuda em nada.

Viver deitado, “curtindo preguiça e bebendo água de coco ou tomando cerveja” não ajuda em nada.

Sexta-feira da semana passada, dia 3 de abril de 2015, tinha acabado de fazer uma limpeza no canil da cadela e decidi tomar um banho. Como sempre, estou só em casa na parte da manhã, de modo que, peladão, saí do quarto onde tinha vindo buscar uma muda de roupa e ia para o banheiro. E foi quando me vi de corpo inteiro no espelho do corredor. Parei e fiquei mirando aquela figura horrível, que não batia nada com a imagem que tenho de mim em minha memória. Eu era forte, musculoso, pernas grossas, bíceps trabalhados, tudo por conta das lutas que praticara a vida inteira. Mas o diabo que me olhava de volta lá de dentro do espelho nada mágico era uma droga. Um velho de bunda murcha, caída; pernas de caniço e barriga imoral, projetando-se para a frente como uma melancia. Mas eu me derreti todo!” – exclamei para mim mesmo. “Aonde foi parar aquele homem que chamava a atenção das moças de antigamente?”  – E eu mesmo me respondi: “acabou-se, mané. Derreteu-se, como tudo neste mundo”. 

Irritado com o que vira, tomei a decisão de aceitar o convite que minha parceira me fazia já há uma semana: ir para a academia, malhar. Bom, por signo e por índole eu sou um preguiçoso de marca. E também, por signo, sou chegado a um narcisismo discreto. E foi este sujeito esconso, o tal Narciso, que me ferroou o orgulho masculino. 

A maquininha chifruda só faz rir garota propaganda.

A maquininha chifruda só faz rir garota propaganda.

Daí que na segunda-feira, dia 6 de abril, lá me fui de mala e cuia pronto para malhar. Fiz a inscrição numa academia mais próxima de casa do que a que antes eu freqüentava e bem melhor em instalações. E caí dentro. Trinta minutos de bicicleta fixa a 25 km/h com peso graduado 3; trinta minutos de esteira com velocidade 60. E dez minutos numa geringonça que eu desconhecia, uma coisa em que a gente anda sem sair do lugar, mas é como se estivesse subindo uma escada ou uma ladeira. Ao mesmo tempo, a gente segura nos “chifres” da coisa e se contorce todo. Os passos são como se estivéssemos exatamente subindo uma ladeira íngreme. A coisa arrebenta os ligamentos dos músculos nos joelhos e faz nossas “batatas” de pernas arder como se por dentro delas estivesse correndo fogo. Mas encarei a coisa com determinação de cabra macho. E põe macho nisto, cara!

Terça-feira, todo doído, lá fui de novo. Sou assim. Se não pegar a coisa nos dentes abandono na primeira oportunidade, pois além de preguiçoso, sou danado de acomodado. Mas agora eu tinha na mente aquela figura horrorosa a me olhar lá de dentro daquele espelho maldito e não ia afrouxar assim, facilmente.

Novamente voltei todo machucado. O bom foi que à noite dormi como uma pedra. Não levantei nem uma vez para ir aliviar a bexiga no peste do “bocão”, lá no banheiro. Mas durante os exercícios sofri um acidente. Estava na tal chifrudinha, aprendendo a rebolar (arre égua!) quando ouvi alguém dizer meu nome. Voltei-me para ver quem era e meu joelho entrou debaixo do botão de controle de dificuldade n mãquina e uma avenida foi aberta na coxa direita, quase no joelho. Um pedaço de três ou quatro centímetros de pele foi arrancado literalmente. Senti uma fisgada e uma ardência forte, mas como estava suando em bica e com o corpo muito quente, não valorizei o acidente e continuei brigando com aquela coisa de torturar pernas. Terminei os dez minutos e fui colocado na “nega doida”. Não falei do acidente, até porque ainda não tinha visto o estrago.

A academia que freqüento é exatamente igual a esta.

A academia que freqüento é exatamente igual a esta.

A “nega doida” É uma geringonça engraçadinha até. A gente sobe num piso de ferro que lembra de longe um coração. Ela toda lembra a frente de uma lambreta. O instrutor liga o negócio e aí a gente é atacado por uma tremedeira danada. Tremem pernas, treme barriga, treme a comida dentro do estômago, tremem as coxas e as batatas das pernas. E treme o tórax até à altura dos mamilos, o que me chamou a atenção, pois daí pra cima tudo fica quietinho, quietinho. É um negócio esquisito. Perguntei para que servia aquilo e o instrutor me disse que era bom para a circulação. Sei não. Dos mamilos para baixo treme tudo por dentro e por fora do corpo. Nove minutos naquilo e saí me sentindo esquisito, com as pernas, a bunda, a barriga e a comida no estômago, tudo quente e ainda vibrando. 

Só quando entrei no banheiro para tomar banho foi que vi o estrago na coxa direita. O pedaço de pele estava todo enroscado junto ao joelho. Arranquei-o e o joguei fora. Tudo ardia e ao redor do ferimento havia uma nódoa roxa. Tomei banho, lavei bem a ferida com sabonete, depois passei uma pomada de sulfato de neomicina + bacitracina, que é muito boa para fazer curar ferimentos.

Quarta-feira não deu para eu voltar à academia. A perna ferida doía pra burro. O ferimento estava roxo, embora não sangrasse (como eu já disse aqui, depois que meu sangue foi todo trocado lá no Centro Espírita Bezerra de Menezes, os ferimentos em mim cicatrizam com uma velocidade espantosa. Este, por exemplo, não sangrou quase nada. A perna de minha calça não ficou manchada de sangue, embora o rasgo na coxa tenha sido grande e profundo).

Minha "cadeira do papai" é igualzinha a esta. Presente de meu filhão.

Minha “cadeira do papai” é igualzinha a esta. Presente de meu filhão.

Voltei para o “bem-bom” de ficar esticado na “cadeira do papai” vendo TVzona e bebericando sucos. Mas isto era o pior que me podia acontecer. Hoje, decidi que iria à academia com ou sem coxa doendo. E fui. Se afrouxar, não volto. Então, fui. Fiz tudo como manda o figurino. Só que hoje, 10/04, fui pela manhã. A aula terminou mais ou menos às 10 horas. De minha casa até a Academia é uma ladeira só. Na rua onde ela se situa inicia-se uma avenida de duas pistas largas, boas, com um passeio para pedestres. Na rua debaixo, por onde gosto de ir, há residências. E durante a semana, a rua fica mais ou menos vazia, mais vazia que cheia. Aqui e ali passa um carro e é só. É ao contrário da rua de cima, onde há bastante comércio e movimento. Como não gosto de andar onde há muita gente, optei por voltar da academia pela rua de baixo. Um quarteirão de descida, dobra-se à direita e anda-se até encontrar outra avenida de duas pistas. Cruza-se esta e continua-se descendo até chegar à rua de minha casa. Geralmente por este caminho, que percorro em parte, quando vou de bicicleta elétrica fazer compras, quase não há pessoas andando pelas ruas. Então, tem a calma de que gosto. Mas hoje o bicho pegou feio pro meu lado. Eu vinha concentrado nas minhas pernas que estão recebendo um castigo merecido, mas que me doem muito, quando saio dos aparelhos. Azar delas. Quem mandou afinarem?

Vinha assim, monologando com meus botões, quando senti que duas pessoas se colocavam ao meu lado, uma de cada lado. Eram dois rapazes magros, morenos, cabelos de tuim, mais altos que eu uns cinco a oito centímetros, bermudões e chinelas havaianas. Fui pegado pelos cotovelos e pelos braços e subjugado. Os jovens mantinham meus braços presos juntos ao meu corpo. Então, ouvi o da direita dizer: “Aí, véi, num reage não qui a gente te mata. Passa a carteira. Depressa!” Encarei o jovem. Magro, nervoso, ele olhava fixo para o chão, mas apertava com força meu braço.

Eles confiam na quantidade, na arma e na surpresa da vítima.

Eles confiam na quantidade, na arma e na surpresa da vítima. E se é um velho, acham que estão bem arrumados. Azar.

— Se deu mal, garoto. Eu sempre ando com minha carteira, mas hoje, pra azar de vocês, eu a deixei em casa. Não tenho nem um tostão furado nos bolsos.

— Num vem de cunversa mole não, véi. Num tamo de brincadeira. Passa a grana, já!

— Já disse. Não tenho dinheiro comigo.

Eles começaram a me empurrar em direção a uma moita formada por duas árvores de jardim bem mal-cuidadas,  na calçada maltratada do outro lado da rua, enquanto o jovem da esquerda, o mais alto e mais nervoso, passou a falar.

— Celular! Passa o celular.

— Estão nos bolsos de minha calça — disse eu, estudando a situação. Meu diabinho dava pulos de alegria no meu ombro esquerdo, gritando à toda: “Mata eles! Mata eles!” No ombro direito meu anjinho bradava em desespero: “Não! Um celular não vale uma vida!”

Mas eu estava mais para meu diabinho, pois se há uma coisa que me deixa danado é assalto. Principalmente quando o alvo sou eu.

O garoto, sem largar de meu braço esquerdo, meteu a mão no bolso esquerdo de minha calça e tirou de lá o celular Nokia, velho como o Papai Noel. Eu só o uso porque o chip da extinta Brasiltelecom ainda goza do brinde de acumular créditos para o ano seguinte toda vez que coloco carga. Já estou com mais ou menos R$ 140,00 de créditos de carga, pois é raro eu usar este chip.

— Mas qui merda de celulá é este, véi? Isto é do tempo do ronca!

E ele fez menção de atirar o aparelho no chão. Aí, não prestou. Eu falei alto e ameaçador:

— Nem pense! Nem tente quebrar meu celular!

— E vai fazê o quê, véi?

— Mato vocês dois.

Quase me derrubando eles me arrastaram para detrás da moita. Não era bom esconderijo, mas dava para que quem estivesse longe não nos enxergasse. O garoto a quem eu tinha ameaçado meteu a mão no bolso e tirou de lá um soco inglês.

— Vai apanhá, véi!

Aiki-dô. Eu estava com os dois braços presos, logo, empreguei a técnica do Aiki-dô. Puxei com força meus braços para cima, encolhendo os ombros num arranco. Por reflexo, eles empurraram meus braços para baixo. Era o que eu queria. Inverti o puxão e empurrei minhas mãos para baixo, ajudado por eles mesmos, até à altura de seus escrotos. Então, fechei as mãos em suas bolas, com força. Os dois arregalaram os olhos e soltaram um gemido baixo – “hummm!!!” – Apertei mais e eles se curvaram sobre si, gemendo e tentando falar: “Solta! Solta! Está doendo!” . Mas eu estava muito chegado ao meu diabinho, que feliz da vida dava saltinhos de alegria em meu ombro esquerdo, sempre gritando em meus ouvidos: “Mata eles!” “Mata eles!”. Eu olhei para os infelizes. Estavam curvados como tatus-bola, agarrados em meus braços para não cair, gemendo e tentando arrancar minhas mãos de seus balangandãs, o que só piorava a situação deles. 

— Solta o soco inglês — disse para o moleque que o tinha enfiado nos dedos da mão. Apressadamente ele jogou a arma no chão. Então, eu os arrastei para o meio da rua e os soltei, avisando: “Vão embora e não olhem para trás. Se algum me olhar, vai morrer. Estou avisando!” 

Curvados, mãos entre as pernas e quase caindo, os dois dispararam rua abaixo, entraram pela avenida e desapareceram de meu campo de visão. Apanhei o soco inglês e o joguei dentro de uma boca-de-lobo. Depois, continuei minha caminhada de volta para casa.

Meu diabinho desmaiou de raiva em meu ombro esquerdo e meu anjinho deu de cantar músicas sacras, todo feliz por minha escolha. Quase lhe dou um peteleco. Detesto músicas sacras…

Estou velho, barrigudo, pernas de palito, mas ainda sou uma peste quando me atentam…