O Rei dos Reis olhava meditativo para a aldeia celta. Quanto trabalho teria seu discípulo para incutir na mente daquele povo rústico as novas idéias trazidas por ele, Yehoshua.

O Rei dos Reis olhava meditativo para a aldeia celta. Quanto trabalho teria seu discípulo para incutir na mente daquele povo rústico as novas idéias trazidas por ele, Yehoshua.

Issa estava calado e quieto. Parecia olhar meditativo para a aldeia lá embaixo, onde os celtas se atarefavam. A maior parte das atividades deles voltava-se para as armas. Polir, afiar, desamassar. Primus, que observava o Mestre encostado ao tronco da árvore, decidiu aproximar-se para com ele conversar.

— Estás pensativo. Isto é bom ou mau?

O romano sentou-se ao lado de Issa e apanhou um graveto no chão, pondo-se a desenhar inconscientemente uma estrela de cinco pontas no pó do solo.

— Jamais encontrarás maldade em mim, Primus — respondeu Issa, voltando-se para olhá-lo. — Vês os aldeões? Nem parece que me ouviram a noite toda, ou quase. Estão agindo como sempre agiram por gerações e gerações. O que concluis disto?

— Eu?! — Espantou-se o romano. — Como assim, eu?

Onde quer que estivesse, Yehoshua sempre aproveitava a ocasião para ensinar um novo modo de entender o Pai Celestial.

Onde quer que estivesse, Yehoshua sempre aproveitava a ocasião para ensinar um novo modo de entender o Pai Celestial.

— Para quê estás aqui? Para quê eu te trouxe tão longe? — E os olhos de Issa perscrutavam escrutinadoramente a face espantada do romano. Este, esforçava-se para apreender o significado das perguntas de Issa.

— E Então? — Insistiu o Mestre diante do silêncio constrangido de Primus. — Tu também já te esqueceste de mim?

— O quê? Como poderia, se tu estás sempre junto a mim?

— Primus, muitos vivem lado a lado, mas nem por isto um nota o outro ou dele se lembra quando aquele se ausenta. A importância da presença do outro na vida de alguém só é notada, e com muito desconforto, quando aquele se foi para não mais voltar. Quer por ter morrido, quer porque não mais agüentou a irascividade do outro ou os seus comportamentos desajustados diante do Amor que os devia ligar. Eu estou fisicamente ao teu lado, é claro. Mas estou contigo? Sempre? Tu me tens em tua Mente Profunda? Tu me amas verdadeiramente?

Primus pensou um pouco e, agastado, murmurou “eu não sei”.

— E no entanto, estás o tempo todo comigo. E no entanto tu me ouves falar e conheces minha doutrina. Mesmo assim, não sabes se eu estou contigo na tua Mente Profunda…

Fez-se um silêncio bastante incômodo para Primus que, agastado, abaixara a cabeça e não se atrevia a olhar Issa nos olhos. Então, este falou e sua voz era mansa e sem censuras.

"Onde houver uma ou mais pessoas reunidas em meu nome, lá eu estarei também". Mas com muita freqüência ninguém nota Sua presença..

“Onde houver duas ou mais pessoas reunidas em meu nome, lá eu estarei também”. Mas com muita freqüência ninguém nota Sua presença..

— Se tu, que me tens o tempo todo a teu lado, não me podes assegurar que eu estou em tua Mente Profunda, em Teu Coração, em Tua Alma Imortal, o que se dirá daqueles que me ouviram sem ouvir? Em verdade, Primus, eu quis chamar tua atenção para a luta gigantesca que terás com eles, combatendo suas tradições e ancestralidades. Não creias que mudarás seus hábitos da noite para o dia. Isto, nem mesmo eu consigo. Lembras-te de que eu disse que não se apressa o tempo? Ninguém pode fazer o rio correr mais rápido do que seu leito lhe permite. Assim é com as duas mentes do homem comum. Minhas palavras estão lá, em cada um dos que as ouviram. Elas não fenecerão, mas ao correr do tempo eles as adaptarão a seus costumes e às suas tradições, pois são medrosos, e chegará o tempo em que dirão coisas afirmando serem minhas palavras, quando nunca o foram e jamais o serão. Construirão templos, desrespeitando minhas ordens expressas em contrário a isto, aonde dirão que vão para me adorar e, no entanto, seus corações estarão imundos e eles nem sequer se darão ao trabalho de limpá-los antes de me buscarem. Certamente com estes eu jamais estarei. Enquanto eles cantarão hinos e gritarão Hosanas ao filho do Senhor com a falsidade em seus corações dizendo que é em minha homenagem, tem certeza, Primus, que preferirei estar entre feridos, mendigos, prisioneiros, desamparados e moribundos que, longe dos falsos, arrependidos, choram o desamparo a que terão sido relegados até mesmo pelos que, emproados, reunidos em seus templos de pedra, cantarão cânticos de louvor a mim. Não sou homem de bajulações, Primus. Jamais esqueças disto. Jamais incentives entre este povo que te entregarei quando me for, a construção de templos com a finalidade de me endeusarem. Não sou o verdadeiro Deus, mas um de seus muitos filhos. Apenas estou mais avançado que todos vós na senda da Iluminação Espiritual. Nunca te esqueças disto, para que não enveredes por caminhos que só me aborrecerão e me afastarão de ti e dos que te seguirem. Não quero adoração de ninguém. Quero o esforço sincero do homem consigo mesmo para ascender à Luz do Pai que dentro de cada um mora. É isto o que eu quero. Foi para ensinar isto que vim, não para nada que no futuro dirão de minha vinda.

Primus olhava impressionado para seu Mestre Issa. Cada vez mais ele se revelava diferente e com objetivos claros: queria que o Pai Celestial fosse conhecido, adorado e respeitado. Não desejava para si nenhum reconhecimento, nenhuma adoração. Esta era sua maior demonstração de humildade.

"Não julgueis, para não serdes julgados. E lembrai-vos: aqueles que estão presos pagam sozinhos o crime que é de todos vós."

“Não julgueis, para não serdes julgados. E lembrai-vos: aqueles que estão presos pagam sozinhos o crime que é de todos vós.” Ele repetiu à exaustão este alerta, mas não encontrou “ouvidos de ouvir” nem em seu tempo, nem nos tempos de hoje.

— Falas de coisas fabulosas, Issa. Coisas novas, estranhas e… e… e difícil de se aceitar plenamente, pois para tanto é necessário mudar toda a cultura em que estamos inseridos. Quando disseste que se deve entregar o que nos pertence a quem no-lo peça, tu confundiste muito não somente a eles, mas a mim também. És contra os ricos? Condenas os que têm posses? O Pai Celestial abjura de seus filhos mais bem aquinhoados e exige que eles lancem longe de si seus bens, suas posses? Se é assim, por quê?

Issa soltou uma gargalhada divertida e olhou com os olhos lacrimejando de tanto rir para aquele discípulo que não sabia que ele o amava muito.

— Tens medo, por acaso, de em aqui ficando conseguir riquezas e, por isto, seres abjurado por nosso Pai?

— Não, não é isso… Eu pensei, por exemplo, nos meus conterrâneos romanos. Pensei nos Senadores, todos milionários, mas alguns honestos em seus propósitos; pensei nos Generais, também riquíssimos, mas nem todos corruptos e gananciosos. Pensei nos comerciantes, alguns honestos de verdade, mas que são ricos devido mesmo às suas atividades. Pensei no próprio César. E tendo ouvido tuas palavras fiquei perturbado. Só os pobres é que podem ganhar a simpatia de nosso Pai Celestial? Mas se tudo o que acontece é por Sua Vontade, então, por que Ele colocou a riqueza material ao alcance de nós, falíveis?

— Que te disse eu a respeito de nosso Pai, Primus?

Primus pensou um pouco, antes de responder hesitante.

— Que Ele é todo poderoso e está em tudo, até em nós, homens. E é justamente isto que me confunde. Se Ele está em nós, independente de termos ou não bens materiais, por que vota desprezo aos que possuam bens e riqueza? Não está Ele se voltando contra si mesmo? Como se explica isto?

— Mas quem te disse tamanha estupidez, Primus? Certamente não fui eu — exclamou Issa, com espanto estampado na face sempre serena.

— Mas foi isto que todos que te ouviram, inclusive eu, entendemos.

Issa ergueu a mão esquerda num pedido mudo de silêncio. Olhou fixo para um ponto no espaço à frente e ordenou com voz impositiva.

— Druidas — disse Issa — sei que estais aqui. Podeis aparecer.  Por que vos escondeis a me espiar, como se eu fosse um criminoso que devesse ser vigiado?

Para espanto de Primus, uma porta pareceu abrir-se diante deles em pleno espaço e três druidas, uma sendo Myrtha, surgiram lá de dentro.

— És poderoso, Issa. Nunca, antes, alguém descobriu um Druida quando este se oculta no véu do tempo.

— Não tendes razão para nos observar às escondidas, Druidas — falou Issa com censura na voz. — O que vos tenho a dizer eu o digo olhando em vossos olhos. Ofendeis-me quando usais de artimanhas pueris buscando pegar-me em alguma falta da qual possais me acusar perante o Conselho dos Anciãos. Em verdade em verdade eu vos digo: não sereis vós os meus juízes nem meus algozes. E aquele povo que desempenhará tão nefanda tarefa devido mesmo à cegueira espiritual que, neles, é milenária, chorará por séculos o que a mim farão.

Yehoshua era feminista e por isto vivia cercado, admirado e amado pelas mulheres daquele tempo, quando elas eram discriminadas cruelmente pelos homens.

Yehoshua era feminista e por isto vivia cercado, admirado e amado pelas mulheres daquele tempo, quando elas eram discriminadas cruelmente pelos homens.

— Perdoa-nos, Issa —, pediu Myrtha, aproximando-se sem demonstrar constrangimento. — Tuas palavras, ontem, deixaram muitos de nossos guerreiros irritados. E exatamente pelo que teu discípulo te questiona agora. Nós te temos vigiado onde quer que vás para continuar escutando o que falas. Não com o objetivo de te acusar, mas buscando mais informações que tenhas a dar para esclarecer a confusão que tuas palavras lançaram no nosso meio. Sabemos que conversas muito com teu discípulo romano e a ele ensinas tua doutrina, bastante estranha para o povo celta. A aldeia está dividida depois que tu lhe dirigiste a palavra. As mulheres, principalmente, colocam-se ao teu lado intransigentemente e defendem o que tu disseste e isto irrita os homens. Não é  bom para ti nem para teu discípulo romano cairdes na antipatia dos celtas.

— Tolos! — Bradou Issa, demonstrando irritação. — Covardes! Como podem fingir que são amigos nossos quando por nossas costas tramam coisas impensáveis? Aqui, como em Jerusalém, há a predominância dos machos sobre as fêmeas. No entanto, se quereis saber, o Pai é mais feminino que masculino e privilegiou a mulher como aquela que pode trazer o homem à terra. Faça o homem o que fizer, jamais poderá engravidar e nutrir em seu ventre um ser que lhe venha por meios naturais, pois este privilégio é das fêmeas e, não, dos machos. Nosso Pai não tem sexo, mas quando está criando, ele é fêmeo. E se o que digo vos confunde, então, tereis um dilema sobre o qual pensardes por vossos próprios meios, pois o que é dado de graça ao ignorante, é jogado fora por ele com pouco caso. E os segredos do Pai são sempre divinos e requerem conhecimento profundo daquele que para eles se voltem.

— Já te pedi perdão por isto. Mas é necessário esclarecer uma coisa: os celtas podem ser tudo, menos covardes. Nós…

Yehoshua condenava veementemente lutas sangrentas, ou não, entre os homens. Isto, para Ele, não demonstrava coragem, mas retardo evolutivo.

Yehoshua condenava veementemente lutas sangrentas, ou não, entre os homens. Isto, para Ele, não demonstrava coragem, mas retardo evolutivo.

— Não falo da covardia que se restringe à dicotomia coragem em combate versus medo ao combate, mulher. Isto é destituído de qualquer valor e só demonstra o quanto o homem ainda é mais animal que humano. A mim repudia o combate entre os homens, seja por quais motivos forem, desde os que se dizem por diversão até os que são feitos por ódio e outras razões vis.

Falo da incapacidade e da covardia que demonstraram de dialogar abertamente comigo, como fiz convosco. As mulheres de vossa aldeia não se pejam de não saber e perguntam sempre com o interesse de uma criança, o que muito me agrada. Mas vossos homens, como outros quaisquer em quaisquer parte por onde tenho passado, sempre me questionam com desconfiança e se sentindo ameaçados por mim. No entanto, sou de paz e não almejo sentar meus pés sobre a cabeça de nenhum irmão. Sentai-vos, pois. E vamos esclarecer o que vos atormenta.

Em silêncio os dois druidas e Myrtha sentaram-se diante de Issa, seguidos por Primus, assustado e temeroso diante da primeira explosão de ira daquele que ele conhecia como a pessoa mais pacata do Mundo. Ele não podia ver a aura cinzenta de um dos dois Druidas, sinal de sua pequenez espiritual, ainda que fosse o melhor dos magos entre eles.

Eis o Signo de Salomão, a  Estrela de David.

Eis o Signo de Salomão, a Estrela de David, que foi explicada aos Celtas em primeira mão por Yehoshua.

— Eu vos mostrei o signo da Iluminação Plena – a Estrela de Seis Pontas. Denominei de Mente Superficial ou Alma mortal aquela que vos dirige durante vossos dias e noites. Ela se volta para o mundo exterior e busca duas coisas principalmente: primeira – obter Segurança; segunda – obter o Conhecimento que vos explique da melhor maneira possível a Natureza que vos cerca.

Agora eu vos digo que a Mente Superficial é criada a partir do momento mesmo em que dais vosso primeiro pontapé no ventre de vossas mães. Ela vive plenamente na escuridão do ventre materno e tudo sente, mas não compreende. Por isto, desenvolve, na Mente Profunda, ainda latente mas já presente na criança que se forma, a que chamei de vossa Alma Imortal, desenvolve, repito, a primeira reação emocional de importância – o Medo. A Insegurança no indivíduo já nascido é a resultante do Medo dos Tempos da Escuridão. E é esta resultante que impulsiona vosso ser encarnado à busca compulsiva por Segurança. O primeiro fruto da Insegurança é a Gula. Não a gula por comida, mas a Gula pela obtenção de duas das maiores ilusões que vos assolam o viver humano: a Posse e o Controle. O impulso para a Posse a partir da força incontrolável da Gula, leva à Avareza e, também, à Usura. Gula, Posse, Controle, Avareza e Usura são as riquezas que mais abundam nos corações dos que vivem correndo atrás de bens materiais.

O Medo desestrutura qualquer Identidade e pode tornar-se mórbido e muito sofrido.

O Medo desestrutura qualquer Identidade e pode tornar-se mórbido e muito sofrido. Mas a par com isto, pode ser causa de grandes sofrimentos para terceiros.

As Mentes Superficiais ou Almas Mortais tornam-se escravas destes frutos da Árvore da Vida. Por isto, quanto mais bens possuem os ricos da terra, mais desenvolvem o Medo ao seu irmão. E o Medo de que seu irmão possa vir tomar o que pensam que possuem desperta nos gananciosos e pseudo-ricos a tendência à Guerra e à Matança. Os homens desenvolveram milhares de eufemismos para mascarar este Medo e suas resultantes, mas tais eufemismos só enganam a eles próprios e aos iguais a eles. Assim aprisionadas, as Mentes Superficiais ou Almas Mortais não mais conseguem escapar da servilidade à ilusão da Riqueza. Entram numa roda viva e passam a quanto mais ter, mais querer. E isto os conduz aos mais baixos frutos destes defeitos básicos, como a corrupção, o assassinato, o rancor, a malícia, a concupiscência, a vingança e uma dezena de outros males semelhantes. E há uma resultante que vós tendes diante de vossos olhos e não compreendeis. Acossados pelos frutos do Medo Primitivo, os homens buscam desesperadamente o corpo das mulheres, impulsionados instintivamente a neles penetrar como se pudessem, com isto, reverter o irreversível caminho ascensional. Vede que todos os ricos da terra o que mais procuram com ânsia é a posse de mulheres, muitas mulheres. Não que as amem verdadeiramente, mas sim que as desejam sexualmente como um caminho de retorno ao que não se pode retornar senão após a morte física. E as mulheres procuram ter para si tais homens não porque tenham a dominá-las diretamente o mesmo Medo que a eles assola, mas sim porque há um desejo desesperado de que através da falsa segurança que pensam que eles lhes podem dar, encontrem guarida e onde se esconder da ameaça profunda de seu próprio Medo. Por caminhos complementares, ambos chegam sempre ao mesmo ponto.

Aqui a pessoa já sente as primeiras Emoções.

Aqui a pessoa já sente as primeiras Emoções.

Agora, voltemos ao tempo em que estais no ventre de vossas genitoras. O Medo, que é emoção, e que vossa Mente Superficial em formação desperta na Mente Profunda, ainda adormecida, faz que esta fique impregnada por ele. Por isto, ela resiste muito em subir do Coração à Cabeça. E esta resistência é tanto mais forte quanto mais vos enredais com os frutos proibidos da Árvore da Vida. Se passais vossas existências presos ao Medo, então, inibis poderosamente a ascensão da Mente Profunda. E enquanto esta não ascender das profundezas de vossos corações para se unir ao Conhecimento sem fantasmas de vossas Mentes Superficiais, vós não podereis realmente serem chamados de homens, pois não o sois de verdade.

Quando eu disse que para acelerar a união dos dois Triângulos Mágicos Ocultos no Homem vós tereis de fazer um grande esforço para vos desapegardes de vossos maus hábitos e de vossos maus costumes; quando disse que tereis de abandonar o desejo por coisas tolas e fúteis, como ouro, territórios, escravos, fêmeas e poder terreno sobre os outros; quando disse que tereis de abdicar dos juízos de valor sobre vossos irmãos, eu me referia à luta latente em todo ser humano, nasça ele onde nascer, pois que todos vós passais por este Portal de Entrada no Reino das Trevas – o mundo em que viveis. Podeis chamar, ao conjunto dos predicados negativos da vossa Mente Superficial, de Demônios, como fazem os hebreus sem que tenham consciência do que seja verdadeiramente o Demônio. Julgam-no, os hebreus, uma entidade etérea, com existência algures no espaço, vermelho ou preto, chifrudo e maldoso, que vive absolutamente empenhado em travar uma luta feroz com o Criador no esforço de ganhar as almas humanas. Tolos. Todos os que adotam tal compreensão sobre o que seja o Demônio estão errados e jamais conseguirão sair do mundo da escuridão onde mergulharam ainda quando estavam no ventre de suas genitoras. O Demônio, o vosso, o de cada um de vós, estejais onde estiverdes, é único em cada um e vos acompanha desde o ventre em que fostes gerados.

Creio que já podeis compreender a razão de eu ter dito que para acelerar a união dos dois triângulos mágicos em vós, deveis abdicar das riquezas. Mas as mais perigosas não são as externas, que podeis pegar, cheirar e provar. As riquezas mais perigosas são vossos vícios nascidos mesmos com vossas Mentes Superficiais ou vossas Almas Mortais. Aqueles que possuem riquezas materiais e as utilizam em benefício de seus iguais, ainda que se reservando a melhor parte que elas lhe possam dar, sem que isto os faça arrogantes e pedantes diante de seus irmãos, não comete pecado perante nosso Pai Celestial. Mas tais pessoas são tão difíceis de encontrar como difícil é encontrar uma agulha nas areias de uma praia.

Sim, o Pai que está no homem bom também está no homem mau. Sim, o Pai que está no homem mau sofre nele todas as suas agruras e dores, sejam elas emocionais, sejam físicas, como as resultantes das guerras fratricidas e totalmente desnecessárias entre os de Sua Criação. Uma vez que Ele, na forma humana, ultrapassou o Portal do Inferno, terá de se submeter ao Demônio que domina aquela criatura na qual habita no Coração Humano, pois Sua força só poderá se demonstrar quando a Mente Superficial for domada pelo esforço consciente do homem. E esta força desenvolve-se unicamente através do Conhecimento. E o Conhecimento acontece lentamente e não sem muito esforço, sem muito sofrimento e muita coragem no homem fraco e medroso. E antes que mo pergunteis, eu vo-lo digo: o Pai mora na Mente Profunda, pois só nela é possível encontrar o Verdadeiro Amor. O que pensais ser amor entre vós, homens e mulheres, não passa de um arremedo grosseiro e aleijado daquele que é pleno e puro.

Então, ao aconselhar-vos que deis vossos bens materiais aos vossos irmãos se ele vô-lo pedir, eu quis dizer que em se esforçando para dar de si seja o que for, o homem está iniciando seu combate interno ao Demônio que veio consigo desde sua geração. Ao doar de si e ao se doar o homem se desapega do supérfluo. E quanto mais pródigo seja o homem com seu semelhante, mais forte ele fará o Pai que está aprisionado em sua Mente Profunda, sua Alma Imortal. Os bens materiais distribuídos de modo a trazer felicidade, alívio a dores e sofrimentos dos que padecem, retornam ao doador não como mais bens que possa acumular, mas como a Gratidão daqueles a quem ajuda sem se preocupar em receber agradecimentos deles. A força da felicidade que aos poucos inundará quem assim fizer, fortificará o Pai que está esperando na Mente Profunda do benfeitor e Ele certamente aflorará com força total, libertando o bom homem da escravidão ao Engano do que os indianos chamam de Mâyâ, a Ilusão.

É ao Pai subindo para o vosso frontal que eu simbolizei com o triângulo com a ponta voltada para cima. Finalmente, compreendestes-me?

Primeiramente os Druidas e a Druidesa se entreolharam. Então, com um suspiro, Myrtha falou.

— Sim, neste momento nós te entendemos, mas com certeza, passadas algumas horas, tudo o que nos disseste se tornará confuso e de difícil apreensão. Como podemos fazer para que tuas palavras e teus ensinamentos não se perturbem em nossas Mentes?

— Meditai. Relaxai. Abdicai do que seja supérfluo em vosso dia. Acima de tudo, pautai vosso comportamento pelo que vos tenho ensinado.

Os três visitantes suspiraram, puseram-se de pé e pediram licença para se retirar. Issa apenas lhes acenou afirmativamente com a cabeça. Eles o cumprimentaram e a Primus e rodando sobre os calcanhares desceram em direção à aldeia.

— Eles não farão como eu os instruí, Primus. Então, tudo o que ouviram se embaralhará em suas mentes e suas línguas não poderão falar a Verdade que tentei lhes passar. Caberá a ti, em breve, cuidar para que esta Verdade não seja distorcida, pois em breve eu me irei e tu nunca mais me verá de novo, ao menos neste mundo.

As palavras de Issa trouxeram grande inquietação ao coração de seu discípulo romano.