Os macacos são o maior empecilho em nossas vidas.

Os macacos são o maior empecilho em nossas vidas.

Eu estava sentado em uma cadeira na varanda de casa. Tinha chegado da academia não fazia nem uma hora. Tomara banho e, sentindo-me ótimo depois de “puxar ferros”, pedalar sem sair do lugar e correr numa esteira, num total de 2 horas e 30 minutos de ginástica puxada, fiz o que sempre faço: sento na varanda de minha casa, uma música clássica orquestrada ou tocada a violino em tom baixo, olhos fechados, centro minha atenção em meu Deus Interior. Depois de algum tempo é muito fácil a gente se encontrar com Ele. O som da música, quase inaudível para não causar impressão sensorial que atrapalhe, ajuda bastante e o bem-estar após a ginástica faz o resto. Há mais ou menos cinco meses decidi pôr em prática esta modalidade de “estar comigo”. Varro literalmente de minha mente tudo o que diga respeito a acontecimentos fúteis que geralmente nos assoberbam o pensamento e sossego meu Eu Interior. A paz é indescritível. E não é difícil fazer isto, basta que a gente se determine e não desista nos primeiros dias. Ele se revela e é muito prazeroso conhecê-lo. A primeira coisa que se sente é a profundidade da Vida. Não a vida exterior, agitada, cheia de dias e noites e que preenche ininterruptamente nossos pensamentos superficiais e descontrolados. Não esta. Falo da Vida perene, sempre presente, sempre aqui e agora.

Velho, sim. Iletrado, sim. Mas burro, jamais. Eis Orozimbo.

Velho, sim. Iletrado, sim. Mas burro, jamais. Eis Orozimbo.

A gente é levado para um estado de paz que não há palavras que a descreva. E é aí que encaramos os nossos egoísmos, os nossos apegos a futilidades, os nossos medos avoengos. Mas também é aí que sentimos a Paz a que Yehoshua se referiu exaustivamente quando por aqui esteve e não foi nem visto nem ouvido pelos que viveram naquele tempo grandioso.

Um alerta: consciência pesada, cheia de auto-censura; coração mesquinho, odioso, rancoroso, vingativo, concupiscente, tudo isto não deve ser conduzido a tal lugar. Creio que o resultado seria apavorante, pois a verdade de nossas ações (as nossas culpas reais) surgem de algum lugar muito profundo em nossa Consciência Transpessoal com uma força literalmente aterradora. Uma vez o processo iniciado, não há como sustá-lo. Mesmo que saltemos da cadeira e corramos a fazer seja o que seja, aquela Consciência sobrepõe-se a tudo e domina nossa senso-percepção íntima. E nos aterroriza. Eu sempre me lembro de Karl G. Jung que afirmava: Em cada um de nós há uma porta que jamais deve ser aberta. Uma vez ultrapassada, não há retorno”. 

Fui e sou fã dele, Castello Branco. Apenas discordei de sua bondade. Eu teria feito o que recomendava Costa e Silva. Mas Castello pegou leve com os polititicas e ei-los de volta ao Congresso...

Entre eles também havia aqueles que não prestavam para nada. Maus, arrogantes e corruptos tanto ou mais que os polititicas de hoje.

Não vivenciei isto, este terror, ao começar a buscar aprofundar-me em mim mesmo. Nunca fiz nada propositadamente mau em minhas ações para com meus irmãos de karma. Ninguém chegou a mim e saiu de mãos abanando. Outro dia minha filha me ligou, emocionada, dizendo-me que um dos meninos que treinaram Tai-Chi-Tchuen comigo, hoje concursado do serviço público, conversando com ela pelo telefone lhe disse: “Você notou que todos os que treinaram Tai-Chi com seu pai se deram bem na vida? Depois da aula de técnica todos esperávamos suas palavras sábias sobre o TAO DA VIDA. Não há um que não tenha feito uma universidade ou que não tenha ao menos cursado uma área técnica. E todos éramos adolescentes revoltados, com as cabeças cheias de idéias ruins. Eu, por exemplo, estava a um passo de me juntar com um bando de traficantes de drogas que havia duas casas abaixo daquela onde eu morava, quando fui levado até ele. O Sifu me salvou na hora H. Sou eternamente grato a ele por isto e sinto imensa saudade dos tempos em que brincávamos de lutar e aprendíamos o verdadeiro sentido da vida”. Eu já ouvira de outros ex-sidais comentários semelhantes – um até escreveu isto em um artigo que publiquei referente a meus filhos.

Olho para trás e tenho a alegria de não enxergar nenhum mal que tenha feito a quem quer que seja. Que odiei profundamente a alguns indivíduos “poderosos” nos tempos da “Ditadura Militar”, não nego. Fui perseguido furiosa, cruel e tenazmente por eles. Fui pisoteado no que eu tinha de mais puro e sincero em mim: meu apego à Verdade e à Justiça. Fui covardemente traído por um que durante anos eu amei como amigo. Dois deles estiveram pelo fio de uma navalha para serem mortos por mim. E não numa explosão de raiva, mas como objetivo firme, tenaz, de um planejamento terrivelmente mau. Naqueles tempos eu vivenciei o Ódio com uma força avassaladora, como jamais pensei que tal sentimento pudesse ser tão forte e nos desse uma força muito além da força física. Mas por interferência divina – na exata expressão da palavra  – eu fui retirado daquela teia tenebrosa, quando já parecia que não havia mais retorno.

Todos morrerem e de mortes agoniadas. Dois, afogados. Um, em Copacabana. Outro, na Barra da Tijuca. O General Presidente da Empresa teve um derrame, ficou hemiplégico, defecando-se e se urinando sem controles esfincterianos e sem poder emitir senão grunhidos em lugar de palavras e tendo de ser levado a todo lado por uma enfermeira paga a peso de ouro para cuidar dele. Morreu em agonia, num hospital pago a peso de ouro. Enfim, todos morreram. Toda aquela arrogância fruto das estrelas sobre seus ombros se esvaiu no espaço-tempo sem deixar rastro. Não sei de ninguém que diga, dos que viveram comigo aqueles tempos, algo de bom e meritório a respeito das ações deles. E ao menos um dos que sei que ainda estão vivos, está em condições miseráveis. Ansiedade, angústia, medo, tudo de mistura com mentira, falsidade, traição e ambição desmedida o tornaram um pária social e um demente psicologicamente imprestável. Lamentável. Desperdiçaram uma encarnação de ouro por nada.

Por isto, por ter passado pelo mar agitado da vida sem naufragar em suas ondas fantasmas, posso, agora, sentar calmamente e em silêncio, longe de tudo e de todos, e conversar amigavelmente com meu Deus, meu Verdadeiro Criador de Todas as Coisas. A paz que me invade e a sensação de proteção que me inunda são indescritíveis.

Seu pito é seu melhor companheiro quando deseja pensar.

Seu pito é seu melhor companheiro quando deseja pensar.

Alguém fez soar a campainha. Abri os olhos e suspirei. Lá se fôra meu momento sagrado de recolhimento com o Infinito. Meti a mão no bolso da calça e premi o controle. O portão se abriu e a figura querida do velho Orozimbo entrou por ali todo feliz e sorridente. Veio até o alpendre, pegou o velho tronco que sempre lhe servia de banco e se sentou sem dizer nada, mas com aquele sorriso maroto na face. Acendeou seu pito, baforou quieto olhando à frente.

— Pru qui é qui tu tá cor-de-rosa? — Perguntou, sempre olhando à frente.

— Não estou cor-de-rosa. É certo que tenho a pele morena avermelhada, mas isto é herança…

— Num se faça de beste, home — cortou-me ele, voltando-se para mim. — Vancê sabe bem do qui é qui véi tá falando.

— Estou em conversa com o Criador. E você chegou a tempo de me interromper — Respondi com uma pitada de maldade.

— E apois. Véi num pudia percebê isto aí lá de fora, ora. Véi veio falá cum vancê a respeito do adeus qui vancê deu a um fio seu. O qui diabo foi aquilo?

— Não é de interesse de ninguém, nem mesmo de você, meu velho mexeriqueiro. E como é que…

— Meu netim. Ele leu.

— Ah…

— Vancê ficô zangado, num ficô? Num mente qui véi sabe. Sou um bamba na mandinga de meu Candomblé.

— Tá. Fiquei, sim. Mas aprendi a fechar a boca, respirar fundo e me sentar num cantinho e deixei de pensar em macacos.

— E pru qui é qui vancê teve de fazê isso aí? Por qui diabo meteu os macaco nesta históra?

— Um filho meu foi desaforado e desrespeitoso comigo. E mais que isto: foi de uma grosseria além da conta do que seja razoável. Tive de me exercitar em não pensar em macacos.

— Diabo, home, vancê qué ixpricá pro véi o qui diabo tem os macaco com o desrespeito de seu fio cum vancê? Véi veio preguntá se vancê qué qui ele entre na briga. Vancê sabe qui seu povo tá merguiado numa demanda danada que um rabo de saia move contra esse seu fio aí. Se percisá de ajuda, é só pidi. E vancê me vem cum esses macaco? Pru quê?

Eu soltei uma gargalhada. Desta vez, enrasquei meu velho amigo.

— Ouça. No Japão havia um local especialmente dedicado ao aprendizado da filosofia de uma religião conhecida pelo nome de ZEN. Um dia, um homem jovem, muito interessado em aprender a fazer meditação, bateu à porta do templo e disse ao monge que o atendeu. “Bom-dia, senhor. Eu gostaria de aprender a meditar. Sei que isto é muito difícil e requer muita técnica. Tenho lido uma quantidade enorme de livros a respeito e aprendi muito com eles sobre as técnicas que se deve empregar para se conseguir meditar corretamente. Mesmo assim, não tenho obtido muito êxito. Então, vim pedir ajuda aos senhores monges.”

O monge, que era muito idoso, permaneceu em silêncio olhando o homem expectante diante de si. Então, falou.

— O senhor quer aprender a meditar?

— É claro! Quero muito — exclamou o homem, entusiasmado.

E o senhor estudou muitos livros sobre como meditar? — havia ironia na voz do monge.

— Sim, durante anos tenho estudado uma grande quantidade de livros sobre o assunto. Aprendi muito com os livros.

— O monge suspirou e disse, virando-se para entrar no templo.

— Então, vá para casa e não pense mais em macacos.

O homem ficou boquiaberto. Nunca tinha lido nada a respeito de macacos em livros sobre Meditação. Espantado, segurou a manga da roupa do monge e perguntou:

— Não pensar em macacos? É só isso?

— É só isso — respondeu o monge, lançando um olhar sério para seu visitante.

— Ora, isto é muito simples de fazer. Eu não precisava ter lido tanto para descobrir que a Meditação era tão simples. Obrigado.

O monge fez um aceno de cabeça e entrou de volta no templo. Três horas depois eis que batem desesperada e insistentemente na porta. Ele foi ver quem era. Era o homem. Estava com expressão angustiada e suava muito.

— Por favor, mestre, me ajude! — pedia o homem agoniado. —  Desde que o senhor disse para eu não pensar em macacos não mais consegui parar de pensar em como deixar de pensar neles.

Orozimbo prestava toda atenção ao que eu lhe contava. Quando parei ele abriu as mãos em sinal de que não tinha entendido. Eu sorri e lhe disse:

— Quer compreender?

— Lógico! Ainda num intendi o qui faz esses macaco na sua históra.

— Vá para casa e não pense em macacos, meu amigo.

Voltei a cerrar os olhos e procurei me abstrair do exterior. Mas não pude. Em aproximadamente três minutos Orozimbo estourou numa gargalhada.

— Entendi! — gritou ele. — Entendi! Os macaco são os insurtos qui seu fio lhe dixe, num são não?

— Por que você ficou pensando nesses macacos aí? Eu não lhe disse que não pensasse neles?

Orozimbo calou-se e permaneceu ao meu lado até quando dei por encerrado meu período de recolhimento para conversar com meu Deus.