Capítulo IV – A curiosidade de Tamara (3ª Pate)

 

O Bairro do Leblon, à noite, no Rio de Janeiro.

O Bairro do Leblon, à noite, no Rio de Janeiro.

 Tamara voltou à redação de “A CIDADE” e apanhou a pasta que continha a correspondência interna. Queria ver se alguma coisa relativa ao caso Kamuratti estava ali, à sua disposição. Nada que interessasse. Mas havia uma foto de Kantor Antratos saindo do Fórum. Atrás dele, um ho­mem forte, alto, muito bem apessoado. Tamara olhou o verso da foto e nada havia anotado. Em outro envelope encontrou mais duas fotos. Uma, den­tro do refeitório do Fórum. O mesmo homem que estava atrás de Kantor Antratos, estava, agora, conversando com outros. Estava de pé e os outros, sentados. Quem era aquela figura? Tamara nunca o havia visto, antes. Na terceira foto havia o mesmo homem. Estava sentado dentro de um automóvel estacionado em algum lugar.

                   — Quem diabo é este figuraça? — indagou-se Tamara. Aquilo era coisa de Franco, o repórter fotográfico com quem mais trabalhava no jornal. Na verdade, Franco era mais de “O MUNDO”. Ele era um free-lance e se ajustara muito bem a ela e a Karina, sua colega do jornal concorrente. Por que fotografara aquele homem? Qual a importância dele? Seria um segurança de Kantor? Mas o banqueiro do bicho tinha vários. Nenhum era realmente importante. Por que aquele em especial tinha sido motivo de atenção de Franco?

                   Fez uma ligação interna para a sala dos fotógrafos. Franco não estava. Tinha saído sem dizer para onde. Tamara guardou as fotos. Conversaria com ele sobre aquilo quando o encontrasse. Outro colega de redação veio-lhe pedir ajuda numa matéria e ela se entregou ao trabalho envolvendo-se no assunto. O dia iria ser monótono…

*   *   *

A Culpa

                   Fratelli estava reunido com dois de seus homens numa churrasca­ria. Almoçavam. Os homens bebiam cerveja, ele, somente água gasosa. Tinha o olhar perdido no espaço e estava ausente do ambiente. Parecia recolhido profundamente em si mesmo. Uma ruga profunda na testa denunciava um esforço de memória. Havia tensão em todo seu corpo.

                   — E então, chefe, alguma pista das duas piranhas? — perguntou o mais moreno deles.

                   — Não. Nada, ainda — respondeu Fratelli com voz sumida. Parecia estar distante dali —. Pra falar a verdade, estou no escuro total. Isto é muito chato, Cicno — e, agora, seu olhar se fixou na face do outro. —. O Dr. Kamuratti não gosta de coisas demoradas e confia em que possamos descobrir logo quem são aquelas duas intrometidas. Ele as quer vivas para interrogatório. Mas quem são elas? Onde se escondem?

                   — Eu anotei a chapa do automóvel do play-boy. Quem sabe…?

                   — O que…? — surpreendeu-se Fratelli.

                   — Eu disse que anotei a chapa do automóvel daquele rapaz — repetiu Fílio.

                   — Mas que ótimo! Afinal, alguma coisa por onde começar. É remo­ta a possibilidade, mas não custa nada tentar.

                   — Chefe… — chamou Cicno.

                   — O que é?

                   — O senhor não pretende bater no rapaz, não é?

                   — Por que pergunta isto?

                   — Bem… eu acho que… O “Cicatriz” já fez vítimas demais e…

                   — Não se preocupe. Eu não vou matar o cretino. Nem pretendo arranhar o seu rostinho de bebê chorão, fique sossegado.

                   — Que bom! — disse, aliviado, Fílio. — O Dr. Kamuratti não gosta de mortes desnecessárias. E nós não gostamos da idéia de ele se enfurecer contra nós.

                   — Somos descartáveis, não nos esqueçamos disto — completou Cicno.

                   Fratelli nada comentou, mas em sua mente passou a lembrança da família do policial que trucidara naquela noite. Ele tentou afastar da memória aquela lembrança. Cícno tinha razão. O Dr. Kamuratti sempre fora taxativo quanto a isto: matar só com autorização expressa dele e com o má­ximo de precaução. E aquele “serviço” tinha sido particular. Uma vingança de puro rancor. Mas por quê? Em qualquer parte do mundo, matar um policial era assanhar toda a corporação. Ele se pusera de alvo e isto também o incomodava. As palavras de seu assecla o tinham despertado para o perigo em que se colocara diante de seu chefe. Ele era bom, o melhor de todos na Organização. Mas ninguém é insubstituível e a Escola da Morte era uma fábrica de forjar homens iguais ou piores que ele mesmo. E para piorar as coisas, o maldito policial era um inepto. Nem soubera defender-se. A luta que esperara, não tinha havido e em seus ouvidos ainda soavam, desagradáveis, os gemidos abafados de suas vítimas. Perdeu o apetite. “Porra! Por que tinha de se lembrar daquilo numa hora destas?”

                   — O que foi? — estranhou Fílio.

                   — Nada, nada. Perdi o apetite, só isso — respondeu Fratelli de mau humor.

                   Os dois capangas se entreolharam, mas nada comentaram. Fratelli, quando de mau humor, era pior que uma cascavel enfurecida.

                   — Vamos ao DETRAN? — indagou Cícno, tentando puxar conversa.

                   — É claro, sua besta! — rosnou Fratelli.

                   — Desculpe. Não queria aborrecer — disse o capanga, agastado.

                   — Tudo bem, tudo bem. Desculpe você. Estou azedo…

                   — Vamos terminar e trabalhar. O senhor vai melhorar, temos certeza — falou Fílio, conciliador.

                   — É, vamos — disse Fratelli controlando-se.

                   Meia-hora depois os três saíam da churrascaria. Fratelli não es­tava melhor. O rosto da garotinha de olhos esbugalhados fitando-o aterrorizada o atormentava e o deixava quase fora de si. Fôra uma estupidez, agora o reconhecia. Aquelas pessoas não tinham qualquer importância para ele. Por que fora lá, atormentá-las? E por que diabo as matara? Tinha de aprender a controlar o seu mau gênio. Tinha de controlar aquela raiva surda que parecia rugir em seu interior como um vulcão sempre pronto para explodir. Talvez Kimura tivesse razão, afinal. Ele era egoísta e odioso. Precisava melhorar. Culpa era algo que nunca, antes, sofrera com tamanha intensidade. Agora, sentia-se acicatado por essa emoção horrível, que lhe corroia a mente e a alma sem alívio. O que fazer?

                   Cícno dirigia o automóvel de olho no seu chefe. Sua carranca, o olhar perdido no vazio não prenunciavam nada de bom. O que diabo atormentava aquele homem de ferro? Talvez o medo ao Dr. Kamuratti. Era a ú­nica coisa no mundo que Fratelli respeitava e temia. Talvez estivesse se lembrando dos policiais que os tinham detido e estivesse ruminando algu­ma coisa terrível contra eles. Afinal, tinham sido os responsáveis dire­to de eles estarem, agora, a ver navios.

                   Chegaram ao DETRAN.

                   — Fiquem aqui mesmo. Eu vou lá sozinho — ordenou Fratelli, que o que menos desejava naquele momento era companhia.

                   — Tudo bem. Esperamos aqui — disse Cícno aliviado.

 Conhecendo a Caça

                    Fratelli encontrou-se com o seu contato. Deu-lhe o número da placa e aguardou que ele consultasse o computador. Maravilha, aquela invenção do homem. Em poucos minutos tinha em mãos nome e endereço do proprietário e ficou absolutamente surpreso. Era nada mais nada menos que o milionário, “play boy” das noitadas famosas, Luis Filipe Nettus Filho. Conhecia-o, mas só o vira duas ou três vezes e, assim mesmo, de longe. Talvez por isto não tivesse identificado o boa-vida lá na praia. Se tivesse conseguido isto, talvez não contasse, agora, com aquele peso incômodo na consciência.

                   — Ora vejam só — disse baixinho — então, o rapazote prefere an­dar num carrinho vagabundo em vez de em seus carrões importados. Engana de verdade, sim senhor. Ele é o noivo da famosa modelo Milena Fórcis, a também milionária dondoca das fofocas dos jornais. Será que os dois ain­da estão juntos? Será que a zinha ao lado dele lá na Barra era ela? Bem, de qualquer modo, tenho de tratar com cuidado aquele rapaz. A família dele é amiga dos Kamuratti e freqüentam a casa um do outro. Se realmente o rapaz tiver dado ajuda às moças, então, tenho de ser muito astuto e cauteloso ao abordá-lo. Nunca, antes, encontrei-me com eles, pois não freqüento o mundo dos Kamuratti. Agora, o rapaz tem uma péssima impressão de mim e não aceitará receber-me, a não ser que eu apresente uma boa desculpa.

Fratelli voltou para o automóvel dando tra­tos a bola e teve uma idéia. Foi para o seu apartamento e de lá chamou o banco, naquele telefone especial.

                   — Alô? — ouviu a voz de seu patrão.

                   — Sr. Kamuratti, sou eu, Fratelli — disse.

                   — Eu sei que é você. O que deseja?

                   — Uma ajuda de sua parte. Acontece que…

                   E Fratelli contou tudo sobre o encontro com o rapaz, na praia. Apenas omitiu o modo violento como agiu.

                   — Agora, preciso que o senhor dê um jeito de eu ser recebido pe­lo jovem Luiz Filipe. É uma possibilidade remota, mas o carro dele é do modelo e da cor que o garçom me descreveu. Aliás, o único que estava no bar, naquele dia.

                   — Você acredita que ele tenha dado guarida às mulheres? Por que?

                   — Não sei. Apenas tenho um palpite. Mas sendo ele um “Play boy” e mulherengo, e estando só… Quem sabe?

                   — Você me disse, da outra vez, que ele estava acompanhado… Pe­lo menos, foi o que lhe falou o garçom.

                   — Sim, sim, agora recordo disto. Mesmo assim… Quem sabe? Aque­las duas são muito espertas. Deram um jeito de conseguir ajuda. Podem a­té ser conhecidas dele ou… de seu ambiente… Tudo é possível, não é?

                   — Conhecidas de Luis Filipe? Eu não creio. Se fossem, ele sabe­ria de algo e já me teria comunicado. É muito amigo nosso e não teria porque ocultar algo assim. De qualquer modo, venha ao banco. Vou fazer de você meu enviado para levar uns papéis importantes para ele. En­dereço a Luis Filipe pessoalmente. Não há como ele não o receber. Daí em diante, é com você. Mas seja muito prudente em averiguar a história, en­tendeu? Não quero suspeitas.

                   — Farei tudo a meu alcance, pode ficar despreocupado.

                   E Fratelli desligou pela primeira vez antes de seu patrão o fazer. Kamuratti ficou com o aparelho nas mãos, olhando pensativamente para o bocal. Aquela pequena falta de respeito poderia ser somente porque seu assecla estava preocupado com o que tinha a fazer… Seria? Na verdade, Kamuratti estava envolvendo o homem e seus asseclas mais profundamente em seus negócios como um meio de lhes averiguar não somente a lealdade como a capacidade de ser eficiente, discreto e rápido. Dependendo de como se saísse, trá-lo-ia mais para perto de si. Estava começando a necessitar de um substituto para Darinoshkin, morto pela C.I.A. quando cumpria uma arriscada missão nos Estados Unidos.

                   Colocou o aparelho no gancho e voltou a seus afazeres. O relógio, um carrilhão de século XVIII, marcava pontualmente 15 horas.

*   *   *

Reencarnação ou Aprendizagem subliminar?

                    Eram, agora, 21:30h e Mara estava totalmente mergulhada na biblioteca rebuscando velhos, mas bem conservados volumes de publicações passa­das. Estava cansada e já desinteressada, quando lhe caiu nas mãos uma en­cadernação de capa mais escura que as demais, não pela cor, mas pelo uso. Folheou-a ao acaso. Tinha artigos do jornal antecessor a “O MUNDO” e no qual Sísifo, o repórter que escrevera sobre Pargos, trabalhara. E foi quase ao fechar o volume para abandoná-lo que seus olhos deram com outro ar­tigo de Sísifo. Era sobre a ilha. Mara perdeu todo o cansaço e leu com o coração aos pulos.

 “UMA MISTERIOSA ILHA CHAMADA PARGOS – 18 de abril de 1803

Arraia Gigante nadando de barriga para cima.

Arraia Gigante nadando de barriga para cima.

                   Há uma ilha no Pacífico, no paralelo 18º 22′ e no meridiano 75º 22′ 16″ que é até hoje desconhecida quase totalmente.”

                   Mara parou a leitura. A coordenada do paralelo estava diferente. O artigo posterior a este dava 22º 16′. Por que a diferença? Procurou o volume anterior. Localizou-o com facilidade. Sim, ali estava. A diferença era de 4°. Teria Sísifo se equivocado naquele primeiro artigo? Ele datava de três anos antes. O outro era de 1806. Talvez erro de instrumento… Mara voltou à leitura.

                   “Pargos é o nome desta ilha misteriosa que não tem nada de paradisíaca. Sua origem é vulcânica e parece ter surgido há coisa de seiscentos anos atrás. Não fica na ro­ta de navios e, por isto, é pouco ou quase nada freqüentada. Não tem qualquer importân­cia econômica para o continente. Mas me chamou a atenção porque é habitada. Fui lá verificar como vivem seus habitantes e descobri coisas singulares na ilhota. Em primeiro lugar está a origem daquele povo. Há suspeita de que sejam descendentes dos míticos atlantes, habitantes de uma ilha misteriosa que teria tido o seu fim antes do plistocê­nio, aproximadamente de 120 a 130 mil anos atrás. Uma explicação mais recente e menos rocamboles­ca diz que seus habitantes são remanescentes do extinto povo conhecido como índios ata­camenhos, artesãos que para lá migraram para fugir aos ataques de outras tribos mais a­guerridas que eles, simples camponeses afeitos ao artesanato mais do que às armas. Pude constatar, contudo, que há duas raças bem distintas em Pargos. Uma, possivelmente, remanescentes atacamenhos, outra, contudo, desconhecida talvez atlantianos reais. Estes povos, os prováveis descendentes atlantianos, têm pele avermelhada como os quase extin­tos índios americanos e seus nomes diferem enormemente dos nomes indígenas comuns à re­gião chilena. Ambos os povos convivem pacificamente e se miscigenam naturalmente, o que é uma pena, pois a continuar assim, em pouco tempo não haverá nem uma raça, nem a outra e, sim, uma terceira oriunda desta miscigenação. Entre os mais antigos corre uma lenda, não confirmada por ninguém do continente, de que os vermelhos já viviam em Pargos bem antes dos atacamenhos ali chegarem. De qualquer modo, é somente uma velha lenda. E como estes povos não possuem escrita, é impossível saber-se a verdade.

                   Pargos é inóspita. Só possui um rio em cuja embocadura fica a aldeia, a única da ilha. Com paciência e persistência se consegue que os naturais da terra nos levem para o interior da floresta, cuja travessia exige dois dias de caminhada por entre cipoal e árvores gigantes. Há muitas cobras, mas poucas espécies venenosas. Frutas silvestres são abundantes e os pargoítas informam que elas dão o ano inteiro. A geografia da ilha é ascendente no sentido sul-norte, porém, o local onde se encontram as mais belas e mais espantosas lapas é a noroeste, mais para o norte que para o este. Aqui, as falésias mergulham a prumo num oceano de águas azuis translúcidas. A mais de cinco metros de profundidade é possível ver os cardumes de peixes, olhando-se lá de cima. No cimo dos pedregulhos, que facilmente ultrapassam os seiscentos metros, sente-se medo. O vento sopra em pancadas fortes, alternadas por brisas suaves, o que tende a nos tirar o equilí­brio e nos põe em permanente risco de despencar direto para o mar profundo. Os venda­vais são tremendamente assustadores, quando acontecem e o fazem com freqüência. Ape­sar de repentinos, são, contudo, previsíveis, pois os animais uma quantidade espanto­sa e rica em variedade, talvez comparável com os da Amazônia assim como as aves, procuram abrigo horas antes de a procela estourar e a mata ficar pesadamente silenciosa. A gente tem de estar no meio dela para compreender como é opressivo o silêncio que se faz em tais ocasiões. Parece que a vida, repentinamente, deixou de existir. Nem uma folha se move. Nem um mosquito zune. O silêncio é muito oprimente. Então, repentinamente, co­meça a ventania. Sem aviso e sem gradação. O vento desaba com fúria, como se soprado pela boca de um danado do inferno. Tudo se retorce e das lapas vem um assovio lúgubre que impressiona. No céu, ainda azul, relâmpagos fantasmagóricos lançam desenhos de fogo que assustam de verdade. Não se sabe de onde, pesadas nuvens surgem e uma chuva de dilúvio, que nos cega e não permite a visão nem a um metro adiante, cai chicoteando tudo, fusti­gando terra, mata e bichos. Tão repentinamente como veio a tempestade se vai. E tão repentinamente como se foi a zoeira dos animais volta a ser ouvida. A vida nasce a cada vendaval. É assustadoramente belo. Uma hora antes do vendaval, o mar muda de cor. Do azul cintilante e translúcido passa a um azul—cinzento, pesado, plúmbeo. Os pargoítas costumam dizer que “o oceano ficou de cenho franzido”. Quem está pescando, nestas ocasiões, volta o mais depressa que pode para a terra firme. Ficar nas águas é quase conde­nar-se à morte, pois a ilha é cercada por arrecifes e corais perigosos para as embarcações, mesmo as de calado leve, como as pirogas que utilizam. A ilha de Pargos não tem praias, exceto três nesgas de areia amarelo-ocre espremidas entre arrecifes os quais, entre o subir e descer das ondas, surgem como dentes negros ameaçadores de entre as águas profundas. A maior das praias, medindo uns cinqüenta ou sessenta metros de comprimento por uns trinta a quarenta metros de largura, é a que fica na embocadura do rio. É povoada de coqueiros muito belos e cujo murmúrio constante das palmas é muito bonito de ou­vir. Tubarões de todos os tipos passeiam por aqui, pois as águas, ainda que profundas e agitadas, são tépidas, ao contrário do que normalmente acontece nas águas desta região. Arraias perigosas e enormes também são comumente vistas entre os corais. Muitas enguias com dentes afiados como navalhas ali se escondem e até mesmo “a morte branca” tem sido vista nadando aqui por perto. Há coisa de três meses corre um boato entre os ilhéus de que, após o terceiro aniversário da menina Letícia, encontrada no oceano abandonada num cesto e cercada de sargaços, presa num arrecife e dali retirada por Gaditano, uma espécie de Governador dos ilhéus, uma chusma de “morte branca” tem cercado a ilha e há quem diga ter visto um deles medindo até 12 metros de comprimento. Este repórter, a fim de comprovar a notícia, veio a Pargos para tentar fotografar o fenomenal tubarão. Dizem os nativos que eles nadam preferentemente para o lado norte e noroeste, justa­mente porque lá não tem arrecifes e escolhos perigosos e o mar é profundo. Ainda não pude convencer ninguém a me levar de barco até aquelas águas. As ondas lá são avan­tajadas e o vento lança tudo que flutua de encontro aos paredões, dizem os ilhéus. Na verdade, pude constatar que realmente as ondas são grandes; quanto ao vento, ele sopra intermitentemente e com freqüência. Esta intermitência pode durar mais de oito ou dez horas, tempo suficiente para que possamos ir lá e retornar sem grande perigo, a não ser que o tão falado peixe resolva nos atacar. Mas ninguém quer aventurar-se. En­quanto não consigo quem ouse a aventura que proponho, planto-me dias inteiros nos al­tos penhascos a observar com binóculo as águas profundas à procura do grande tubarão. Ao que parece, contudo, ele não é muito chegado à Imprensa. Não aparece nem mesmo em sombra. Como os pargoítas não mentem nunca, é certo que o tal peixe deve existir. Is­to me intriga. Por que só os habitantes da ilha conseguem ter dele notícias? Consta ­ e eu não sei se é verdade ou fantasia que o peixe perseguiu duas canoas por longa distância dentro do mar, mas não as atacou. Parecia somente querer que elas ficassem em terra. Acredito que se tratava de uma arraia gigante. Elas costumam, aqui em Par­gos, nadar debaixo das canoas e, algumas vezes, viram de dorso para baixo (acho que é o único lugar na Terra onde fazem esta proeza) e como são brancas na barriga, devem ter sido confundidas se foi mais de uma com o famoso tubarão branco. O medo, freqüentemente nos prega peças. Há poucos dias passei por uma experiência estranha. Estava plantado so­bre o penhasco da tocha (parece, quando visto lá da aldeia, uma tocha acesa) e olhava para o oceano já há mais de três horas, quando Gaditano veio buscar-me. Ele me disse que Letícia, a garotinha de três anos, estava de pé na praia apontando para este lo­cal e balançando negativamente a cabeça. O Tuchah, uma espécie de feiticeiro da ilha, havia jogado os osso de tubarão e neles vira a morte se encaminhando para cá. Relutei um bocado em abandonar meu posto, mas desci finalmente. E foi a melhor coisa que fiz, pois mal chegamos ao sopé da pedreira, um relâmpago riscou o céu. O corisco caiu justamente em cima da lapa, atingindo em cheio o local onde eu me encontrava. Logo a se­guir desabou uma tempestade das mais violentas que já me foi dado assistir por estas paragens. O incidente me preocupou, mas ainda não creio nos poderes estranhos que to­dos aqui acreditam que a criança possui. Ela me parece uma menininha bem normal, ape­nas um tantinho misantropa para a sua idade. Amanhã…”

                   O artigo não tinha continuação. Faltava a página seguinte. Mara se afanou em procurá-la em outro volume que parecia seguir-se àquele. Nada, porém. Foi quando ouviu seu nome pronunciado com raiva.

                   — Mara! Mas o que diabo está fazendo aqui? Eu a procurei pelo Rio de Janeiro todo, droga! Você esqueceu-se de mim, foi?

                   Era Ludmila e entrara furiosa, só parando de falar plantada ao lado da espantada Mara. E ao fitar o rosto da companheira, mudou rápido de humor.

                   — Mara! Que cara é esta?

                   — Ludmila! Eu me esqueci completamente, criatura! Você foi lá?

                   — Sozinha? Nunca!

                   — Eu me aborreci com a analista e saí de lá tão perturbada que fiquei perambulando por aí sem ter idéia do que fazer. Esqueci completamente da sessão de hipnose. Mas não perdemos tudo, não. Veja este outro artigo…

                   E Mara apontou para o volume aberto sobre a mesa. Ludmila fi­tou o artigo hesitante. Estava com vontade de brigar, mas resolveu con­ter-se e ler. E foi o que fez.

                   — Não acrescenta nada ao outro — disse ao final.

                   — Acrescenta, sim. Pra começar, é discordante quanto à localização de Pargos. As coordenadas estão alteradas. Depois, fala do poder de previsão que Letícia possuía e nos informa que isto era dela desde cedo na vida.

                   — E daí? O erro quanto às coordenadas é muito comum em documen­tos antigos. Os aparelhos daquela época não eram muito precisos e não se tinha um bom conhecimento dos continentes e oceanos. Quanto aos poderes de Letícia, não vejo novidade alguma em que ela o possuísse desde o nascimento, ora.

                   — Ludmila, presta atenção. Os poderes não foram desenvolvidos. Eles nasceram com a garota.

                   — E o que tem isso?

                   — Ora, isto me alivia e muito. Se eu fosse a encarnação ou… Ou a reencarnação daquela criança, teria, pela lógica, de ter também aqueles poderes, não teria?

                   —  Eu não sei. Não entendo nada de reencarnação, minha cara. Aliás, eu ainda não creio nesta coisa, não.

                   — Ótimo! Você reforça em mim a tendência para não aceitar o que parece ser o lógico.

                   — Bem, tá bom. Se Letícia não foi você em alguma encarnação passada, então, por que você tem aquele pesadelo que retrata exatamente a história da chegada da menina à ilha?

                   — Não sei dizer. Mas… Bom, dizem os psicanalistas que pessoas que nunca estiveram em contato com gregos são capazes de, em certas condições especiais de consciência, falar perfeitamente aquele idioma por­que o ouviram quando ainda estavam no ventre materno. Pode ser que eu tenha ouvido sobre Pargos quando estava em gestação. Meus pais… Algum familiar meu deve ter lido estes artigos e eles devem ter impressionado muito minha genitora… Talvez até ela tenha tido algum forte pesadelo. Quem sabe o clichê do sonho tenha-se fixado em meu aparelho psíquico em formação?

                   — E isto é possível? — perguntou, curiosa, Ludmila.

                   — Eu não sei. Dizem os estudiosos da Psicanálise que sim.

                   — Bem, se isto é possível, então, a hipótese da reencarnação po­de dar adeus à pretensão de ser adotada como científica — disse Ludmila.

                   — Minha… Nossa analista deu-me um artigo impressionante para ler. Era a descrição de um caso tratado pelo Dr. Laercy Parrot, famo­so estudioso da Psicanálise. Ele conta que fazia a psicoterapia de uma mulher inglesa da classe média baixa, que jamais tinha deixado a Ingla­terra. Esta mulher lhe fora encaminhada pelo Hospital Central de Psiquiatria, de Londonderry, como um fenômeno a ser averiguado. Ela, num transe histérico por ocasião da morte de seu filho menor, afogado numa enchente do Tâmisa, em dado momento começou a falar numa língua estranha. Seu ma­rido, que tinha um gravador à mão, gravou a algaravia. A gravação foi levada para a Universidade de Cambridge e um Professor de línguas traduziu o que ali estava. A mulher falara em aramaico antigo, a língua de Jesus, raiz do atual grego. Contava como também havia morrido afogada quan­do o barco em que viajara no mar da Galiléia foi virado por uma tempestade. Dizia-se um comerciante abastado da época. O Dr. Laercy começou a a­veriguar todas as hipóteses plausíveis e quando já quase estava se dei­xando convencer de que se tratava de uma autêntica prova de reencarnação, conseguiu uma entrevista com o genitor da mulher. Este lhe disse que certa ocasião os franciscanos da aldeia fizeram uma missa e a rezaram, se­gundo eles, na língua de Jesus. O Dr. Laercy foi procurar o mosteiro dos franciscanos. Eles confirmaram a história e informaram que, naquela mis­sa, um deles havia narrado a história de um homem que se afogara por não ter tido fé. O homem era um abastado comerciante contemporâneo de Jesus. Servindo-se das técnicas associativas, o Dr. Laercy conseguiu trazer à consciência de sua paciente a missa que ela assistira dentro do ventre de sua mãe, pois o evento havia-se dado quando sua genitora estava grávida de três meses. Com isto, aquele respeitável estudioso conseguiu provar, ao ver da igreja psicanalítica, que esta história de reencarnação é pura ilusão. Tudo tem uma explicação racional e explicitamente aqui e agora.

                   Ludmila deixou-se cair sentada com fisionomia abatida.

                   — O que houve? — perguntou Mara, curiosa.

                   — Bem, se este artigo é verdadeiro, então…

                   — Então…?

                   — Então terei de voltar à analista e lhe pedir desculpa pelas tolices que lhe disse, hoje. E mais: terei de aceitar sua hipótese de que sou uma neurótica, com o tal Édipo mal solucionado e com minha parte sexual esculhambada inconscientemente. Francamente, a outra hipótese era bem mais agradável aos meus olhos.

                   — A da reencarnação?

                   — É. Eu já começava a crer que era sua contemporânea naquela famigerada ilha.

                   — Ludmila, a Psicanálise não explica tudo, ora bolas! Pode ser que a tal mulher tenha tido o processo do modo como o Dr. Laercy descre­veu, mas e daí? Isto não quer dizer que o fenômeno da reencarnação não exista. Ambos os fenômenos podem ocorrer sem que nenhum deles exclua o outro. Aliás, não vejo qualquer ligação entre eles que possa levar à conclusão de que por se ter provado a hipótese psicanalítica da memó­ria fetal, tenha-se necessariamente de chegar à conclusão de que a re­encarnação não existe. Acho que é forçar demais a barra, você não? No meu modo de ver, o que a Psicanálise conseguiu comprovar foi um passo intermediário para se provar a reencarnação.

                   — Que passo? — perguntou Ludmila sinceramente interessada na lógica de sua colega.

                   — O de que o que está no ventre da mulher gestante ultrapassa o mecanismo fisiológico. É algo transcendental. A própria ciência afirma que a massa encefálica do feto… (no caso de três meses), é apenas um pequeno tubo gelatinoso e não tem condições de gravar nada. E se é assim, então, o que tem memória é aquilo que chamamos de espírito ou de… de alma, não é?

                   — Parece lógico — disse Ludmila, admirada.

                   — Então, o caso do Dr, Laercy vem, ao contrário, comprovar que alguma coisa que transcende o físico, o aqui e agora, está ocorrendo e tomando forma no ventre da mulher grávida. E não depende, quanto a processos psíquicos, dos mecanismos neuronais ainda em formação.

                   — Mara, você está-me saindo melhor que a encomenda. Não sei se sua lógica é certa, mas que isto me reanimou, reanimou sim.

                   — Muito bem. Então, vamos embora. Já estou mais do que satis­feita. E estou exausta, diga-se de passagem.

                   — Bem… E a sessão de hipnose?

                   — O que tem ela?

                   — A gente faz ou não?

                   — Faz, ora essa. Por que não?

                   — Pensei que sua analista…

                   — Nossa analista.

                   — Sua. Eu não pretendo voltar lá, não. Você me convenceu de que há uma esperança de a reencarnação ser um fato e eu me apego a ela. Continuo não desejando me deixar abater pela psicanálise.

                   — Como quiser. Eu ainda vou continuar a freqüentar a doutora.

                   — E por que?

                   — Bem… Pra falar a verdade, ainda não sei ao certo. De alguma maneira não sei dizer, acredito que ela ainda me será de utilidade.

                   — Você é quem sabe…

                   As moças se retiraram e foram para casa. Soavam as 23 horas.