O canto destas lindas criaturas de Deus está cada vez mais raro não somente no Brasil, mas no mundo todo...

O canto destas lindas criaturas de Deus está cada vez mais raro não somente no Brasil, mas no mundo todo…

Era manhã. Uma belíssima manhã de Sol radioso e luminoso. A mata amanhecera com vida. Uma vida pulsante no canto das aves, no rocio da manhã e na brisa fria que perpassava tudo.

A aldeia estava de pé, cedo, já toda entregue à faina do dia-a-dia. Yehoshua abriu os olhos e sorriu para a ave que piava estridente empoleirada no galho da grande árvore que ele e seu companheiro aprendiz tinham escolhido como teto. A lage fria era a cama para os dois. Duas peles de carneiro isolavam a frialdade da terra e da bruma da noite. Yehoshua pôs-se de pé e se espreguiçou com gosto. Depois, desceu até o pequeno fio de água que corria murmurando entre as pedras e as raízes, em direção à aldeia lá em baixo. Lavou o rosto e a boca e esfregou vigorosamente todo o corpo com a água praticamente gelada. Então, pôs-se a saltar sobre as pernas inspirando e expirando profundamente. A seguir, aos grandes saltos, voltou à lage que lhe servira de cama, tomou de seu cajado e começou um balé de movimentos nos quais aquele pedaço de pau parecia ter vida própria e não era reto, mas redondo e flexível como um pedaço de corda. Primus despertou com os gritos de Issa, soergue-se nos cotovelos e bocejando ficou a olhar seu Mestre naquela explosão de vida e juventude.

Um legionário romano armado com seu pilum.

Um legionário romano armado com seu pilum.

Soltou um grito de susto e dor quando o cajado de seu Mestre lhe estalou sobre as omoplatas. Rindo, Issa o exortou a se levantar e se exercitar.

— A preguiça não é descanso, Primus! Levanta-te e te exercita. Afinal, tu não eras um legionário romano?

— Decurião — corrigiu Primus, sorrindo e se pondo de pé. Também lavou rosto e boca no riacho e voltou à lapa. Também apanhou de seu cajado e se pôs a exercitar os rudes e diretos golpes de lancetadas desferidas em combate. Issa parou o que fazia e ficou olhando, sério, para aqueles movimentos de morte.

— Não, não, não é assim que tu deves te exercitar. Esses movimentos de guerra faz que coloques em tua mente um inimigo imaginário que, a despeito de tua incapacidade de enxergar além deste mundo, realmente toma forma diante de ti e contigo combate, o que te excita os maus instintos. Aprende, Primus, que tanto o movimento, quanto a palavra e o pensamento estimulam seres de outras dimensões que tu não podes ver com olhos físicos. No teu caso, tu colocas de pronto, diante de ti, aqueles que contigo lutaram e perderam no campo de batalha. E estes, chamados diante de ti, vêm com ódio e com o desejo de te eliminar. Esse tipo de exercício de guerra não presta. Aprende comigo. Baila com a força da Natureza. Ela não foi criada para destruir, mas para fortalecer o caráter e fortificar o corpo.

E Issa veio postar-se ao lado de seu discípulo, dando início ao ensinamento dos movimentos suaves que praticava sempre que tinha um tempo disponível. Não demorou para que Primus estivesse cansado e arfando. Ele parou e curvou-se, largando o bastão e se apoiando sobre os joelhos.

— Mas que movimentos são estes que tu fazes? Nem o mais pesado “pilum” romano me cansou tanto quanto este bendito bastão.

Yehoshua ou Issa sustou sua aula e rindo veio pousar a mão sobre o forte ombro do romano.

— Respiras mal, meu amigo. Não consegues deixar teus músculos distensos. Parece que continuas com o tal “pilum” em punho. Terás de te exercitar muito para dominares a Força Oculta que a tudo interpenetra. A força do Amor do nosso Pai Criador.

Primus ergueu o corpo suado, passou o dedo indicador da mão direita na testa para retirar o suor que ali era abundante e replicou.

— Num combate de verdade, eu te venceria facilmente, Issa. Não sei bailar com um cajado, mas sei manejar muito bem um “pilum” romano. E o gládio também.

Issa dobrou-se de rir.

— Não, tu não me vencerias porque tu enveredarias pela senda do combate, coisa absurda entre irmãos, e eu seguiria pela senda da diversão e da brincadeira, como fazem as crianças.

Primus estava sério e olhava com olhar pesado para Issa. Este parou de rir e lhe entregou seu cajado.

— Toma, me ataca. Como quiseres.

Issa ou Yehoshua era incansável em ensinar a quantos estivessem a seu alcance sobre a Verdadeira Lei do Pai.

Issa ou Yehoshua era incansável em ensinar a quantos estivessem ao seu alcance sobre a Verdadeira Lei do Pai.

Assustado, Primus recuou abanando negativamente a mão diante de si e se sentindo envergonhado pela raiva que percebera havia sentido contra seu Mestre, sem uma razão lógica que lhe explicasse aquilo.

— Toma! — Insistiu Issa. — Quero que aprendas o que digo. Quero que aprendas a viver a vida como nosso Pai nô-la prodigalizou. Quanto à raiva que sentiste de mim, depois falaremos dela. É natural na tua condição atual, de homem e de ex-combatente.

Hesitante, Primus tomou do bastão e se preparou para atacar. Mas uma grande bulha se ergueu da aldeia e isto chamou a atenção dos dois amigos que se voltaram para ela, esquecendo momentaneamente do que faziam.

Lá em baixo dois homens eram arrastados de dentro de uma cabana. Debatiam-se furiosamente, mas não conseguiam safar-se das fortes mãos de seus companheiros.

— Vem! Depressa! — Urgiu Issa, pondo-se a descer a lapa aos saltos, seguido de perto por Primus que não entendia nada do que seu Mestre fazia. Os dois chegaram à multidão quando esta se fechava ao redor dos dois homens, já amarrados com fortes cordas sustentadas em suas pontas por quatro gigantes louros. As cordas distendidas mantinham os prisioneiros eqüidistantes de seus captores.

— O que se passa! — E a voz imperiosa de Issa se fez ouvir acima da bulha de raiva que estrugia ao redor dos prisioneiros. O Druida e a Druidesa reconheceram Issa e com um aceno de mão ordenaram que lhes dessem passagem. Quando os dois, finalmente, conseguiram chegar até onde estavam as máximas autoridades da aldeia, o velho Druida falou.

— Estes homens foram pegados praticando atos condenáveis para nossos costumes. Atonchau, o mais baixo, aquele ali — e o dedo acusador do Druida apontou para um dos prisioneiros — servia de fêmea para Luprécio, nosso mais destacado guerreiro. Isto é contra as nossas Leis.

— E o que pretendeis fazer com eles? — Perguntou Issa.

— Serão mortos a flechadas. E seus corpos serão queimados para que outros não ousem cometer o crime que cometeram.

Pesado silêncio caiu sobre todos. E todos os olhares estavam sobre Issa, numa expectativa do que faria ou diria. Então, após um momento em que ficou olhando duramente nos olhos também duros do Druida, Issa desviou seu olhar para um javali dependurado pelas patas diante de uma das casas.

— Escutai! Todos vós, escutai o que vos vou dizer. Antes de vos outorgardes o direito de tirar a vida a alguém, provai, primeiro, que sois capazes de dá-la a qualquer um. Neste momento, eu desafio os Druidas ou à Druidesa a que devolvam a vida àquele javali dependurado diante da casa de Molthon. Se conseguirem devolver a Vida ao animal, então, terão o direito de tirar a vida destes dois seres humanos.

Pesado silêncio se fez entre os presentes.

— O javali foi morto para nossa alimentação, não porque tenha cometido atos infamantes — disse um jovem guerreiro, alto, louríssimo e de olhos azuis que, não obstante, faiscavam de ódio e orgulho.

— Então — rebateu Issa com os olhos flamejantes fixados nos do jovem arrogante — estais prontos a cometer um ato mais vil do que eu tinha pensado. Matareis não para vos alimentardes, mas em nome de uma falsa moral. Quantos de vós, aqui presentes, que vos dizeis homens, não já se aproveitou daquele que servia de fêmea para o outro condenado? Tu, me jovem, tu me podes negar que já tiveste teus desejos lascivos voltados para aquele que é tua vítima, agora?

O jovem celta, pegado de surpresa, pigarreou e baixou os olhos, avermelhando-se todo.

— Tu aprovas tal comportamento indigno de um homem? — Perguntou Myrtha — E Aquele a quem chamas de nosso Pai Celestial, ele também aprova que um homem sirva de mulher a outro ou que uma mulher sirva de homem a outra?

— Nem eu, nem meu Pai, que também é vosso, aprovamos ou desaprovamos nada. Nós nos limitamos a assistir os pesados dramas da Alma humana. Vós credes na transmigração dos Espíritos. Credes que se volta à vida após se ter morrido. Mas respondei-me: quem vos garantiu que aquele que viveu como homem nesta encarnação não voltará na condição de mulher na próxima? Afinal, o sexo carnal não tem qualquer significado para o Verdadeiro Espírito Imortal do homem. Respondei-me: quem vos deu a certeza de que, ao desencarnar nesta existência, na próxima não vireis como fêmea? Vós credes em vossa religião que a alma humana pode nascer na forma de um animal. Mas isto não é verdade. A Natureza não anda para trás. Ela avança, sempre. Tendes a mulher em alta consideração, mas sois preconceituosos com os fenômenos de seus corpos e em vossos íntimos demonstrais desprezo pra com elas porque não têm a força física que possuem vossos machos e sangram mensalmente pelos seus sexos, sangue que tendes como impuro. Mas nada do que o Pai Criador fez é impuro. Tudo tem sua razão e tudo está muito bem ajustado no sistema da Natureza…

— Então, um homem se dar como mulher para outro é natural e está no sistema desse a quem afirmas que é teu pai e nosso também?

A pergunta foi feita pelo guerreiro mais temido da aldeia, que avançara um passo e viera se postar desafiadoramente diante de Issa.

— Está — foi a reposta taxativa dada por Issa que não se deixou intimidar pela montanha de músculos diante de si. — Aquele que, como tu, abusa das mulheres, estupra-as até quando são ainda imaturas para o ato da procriação; aquele que, como tu, trata as mulheres como seres inferiores e as despreza, e as desrespeita, e as humilha ainda que quando acicatado pelo desejo se atirem sobre elas como animais, sem qualquer respeito por sua delicadeza e por sua vontade, este, eu to afirmo, tem alta probabilidade de vir como fêmea para viver uma vida de durezas, muito a miúde ao lado de alguém que agirá para com a atual mulher como esta agiu com outras, no seu passado violento e desrespeitoso de macho dominante. E muitos devem tanto e são tão rebeldes que são punidos com nascer em corpos aparentemente machos, mas de Natureza Fêmea, ou vice-versa. Desta condição não podem fugir. Estão purgando crimes hediondos que cometeram em vidas passadas. Não devem ser apedrejados e abjurados, mas sim compreendidos e ajudados. Não são doentes físicos, meus irmãos. São doentes espirituais e para eles vós não tendes nada que possais fazer para lhes minorar o sofrimento. Se os matais agora, apenas prorrogareis para outra vida o sofrimento que deviam ter esgotado nesta. Quando aprendereis que a Caridade e a Fraternidade são Leis impositivas em todas as vossas miseráveis condições de vida? Quando compreendereis que aquele que julga e condena fatalmente também será julgado e condenado? Não vos limiteis a enxergar apenas vossos umbigos. Olhai adiante deles, muito adiante, eu vos peço. Olhai para a Natureza. Ela tem todas as lições que vós deveis aprender, pois sois superiores aos demais seres animais na Terra. Tendes a consciência do EU SOU e se sabeis que sois, então, devíeis saber que a todos é permitido também SER, ainda quando não possuam esta consciência caríssima e dificílima de se alcançar. Vós, que nesta vida, tendes a consciência de que sois homens ou de que sois mulheres, fazei todos os esforços para continuar merecendo esta condição no futuro, pois este é inexoravelmente construído por vós ainda quando aqui estais. E se vosso próximo se comporta estranhamente para os padrões naturais que aceitais como corretos, não os condeneis, mas buscai compreender aquela fraqueza que ele apresenta, pois certamente, independente de que possais ou não entender o que lhe sucede, há uma razão sólida para que ele tenha sido submetido às agruras daquele viver. Algum de vós se preocupou em perguntar o que sente aquele que se deixa aviltar por vós em seu leito?

O silêncio se fez pesado e muitos se remexiam incomodados ou murmuravam entre si, com os olhos pregados no chão.

— Então, Myrtha — disse Issa — cabe a ti  pronunciar a sentença. O que decides? Pensa, antes, que tuas palavras podem ser pedras que atiras para cima e que fatalmente cairão sobre tua cabeça; ou podem ser plumas que o vento leva e espalha deste modo conhecimento e sabedoria entre os demais teus semelhantes.

Um pesado e longo silêncio se fez. Myrtha olhava para o espaço diante de si, com olhar perdido em algum pensamento que a angustiava. Então, depois de uma longa espera, ela se voltou para os que sujigavam os dois prisioneiros e ordenou em voz alta.

— Soltai-os! Deixemos que se vão de nossa aldeia e que cumpram com seus destinos bem longe daqui. É o máximo que posso fazer por eles e não adiante me pedir que faça mais, porque não atenderei.

Os olhos de Myrtha olhavam fuzilantes para a face serena de Issa. Este, curvou a cabeça em sinal de assentimento e rodando nos calcanhares se afastou, enquanto os prisioneiros eram soltados e chutados para fora da vila a ponta-pés e vaias.

Quando chegaram à lapa de onde tinham descido, Issa percebeu que os dois condenados vinham subindo em direção deles, hesitantes. Com um aceno de mão abriu-lhes as portas de sua hospitalidade. Primus conteve sua contrariedade e afastou-se de Issa, temeroso de que este lhe prescrutasse o íntimo. Ele ainda estava sob o impacto das palavras de seu Mestre. Sabia que entre o povo dele, os hebreus, era costume apedrejar os homens-mulher e as mulheres-macho. Como é que, sendo daquele povo, ele tivesse pensamento tão contrário? No fundo, tanto hebreus quanto celtas comungavam a mesma crença.

— Primus — soou a voz de Issa — ninguém é obrigado a comungar com todo o em que sua comunidade crê. Se assim fosse, onde estaria o direito de cada um de agir segundo sua vontade? Os homens se diferenciam das ovelhas justamente porque podem pensar por si. Quando todos pensam juntos o mesmo pensamento; quando todos comungam juntos as mesmas crenças e os mesmos hábitos, então, todos se condenam ao fim. É a divergência que leva ao crescimento. Ela, a divergência, cria oportunidades para o Conhecimento. Tu, hoje, aprendeste comigo e com os celtas, que há outros modos de se compreender aqueles que diferem profundamente de nós. Aprendeste que não podes atirar pedras nos outros, visto que o que lhes acontece agora, bem poderá vir a te acontecer. Nada é definitivo nesta existência terrestre. Nada é assegurado aos que ainda devem descer a viver aqui. Então, tolerância e fraternidade devem ser as Leis que regem as relações entre vós, encarnados de todos os tempos.

Aprende e compreende, Primus, que as lágrimas do outro são informações preciosas para que ajas agora a fim de evitar no teu futuro lágrimas semelhantes.

Os dois condenados da aldeia se chegaram e permaneceram respeitosamente afastados, cabeças sobre os peitos e ombros caídos.

— Vinde, irmãos — convidou-os jovialmente Issa. — Primus terá imenso prazer em nos preparar um gostoso e farto desjejum. Aguardemos, pois, enquanto ele busca o necessário para isto.

Pegado de surpresa, Primus ficou de boca aberta. Não tinham nada para comer. Como poderia preparar um desjejum para os quatro?

Com alegria sincera, Issa logo colocou os dois recém-chegados à vontade e um deles, vendo que Primus estava atrapalhado, ofereceu-se para ajudar. Os dois, guiados pelo celta, enveredaram na mata e logo retornaram com favos de mel, frutas silvestres e um faisão morto a pedradas.

Issa saboreou as frutas e o mel, mas declinou da carne tenra da ave.