O Rei dos Reis ensinava tenazmente aos seus discípulos a não ficarem em sua dependência.

O Rei dos Reis ensinava tenazmente aos seus discípulos a não ficarem em sua dependência.

Duas semanas se passaram sem que Issa desse as caras junto aos seus três discípulos. Estes, desorientados, já desanimavam e já acreditavam que tinham sido abandonados. O que fazer? Na companhia do Mestre tudo era fácil de fazer. A Vida tinha sempre um Norte a ser buscado. As coisas fluíam naturalmente. Eles tentavam conversar entre si sobre os ensinamentos que o Mestre lhes passara, mas quanto mais discutiam, mais e mais se perdiam e se emaranhavam. Nada, agora, parecia fazer sentido. Como viver como uma criança em um mundo violento, que requeria valentia e união para se conseguir defesa e segurança? Primus, o mais instruído nos ensinamentos do Mestre já hesitava diante dos questionamentos cada vez mais forte dos dois celtas.

Viver sobre aquela lapa, ao relento, era muito incômodo e Primus, pela primeira vez em muitos meses, se deu conta disto. Uma noite, dormiam uns junto aos outros por causa do frio intenso, eis que, inexplicavelmente, uma chuva desabou. Chuva e vento forte. Acordaram tiritando e desorientados. Mas Luprécio foi o primeiro a tomar uma iniciativa. Desceu a lapa às apalpadelas, enveredou por entre o capinzal e, após esforços cansativos, encontrou as espadas que Issa havia jogado fora. Trouxe as duas de volta e entregou uma ao seu companheiro. Ambos se puseram freneticamente a cortar galhos de arvores e trazê-los para amontoá-los sobre a pedra. Depois, Atonchau lançou-se pedreira abaixo e invadiu a aldeia. Confiava em que não houvesse vigias.

Com cuidado roubou várias cordas e as enrolou à volta do corpo. Então, retornou à lapa. Os três, trabalhando freneticamente, conseguiram armar uma barraca rústica, mas suficientemente bem trançada, o bastante para abrigá-los do aguaceiro. O dia amanhecia, quando finalmente voltaram a se deitar, tiritando de frio. A barraca rústica tinha sido construída sobre a lapa, numa reentrância da qual não podia ser vista pelos aldeões.

A manhã surgiu pesada, cheia de relâmpagos e trovões, mas sem chuva. O frio, no entanto, não tinha arrefecido.

— Por Cailleach, a Deusa das Rochas — gritou Lupércio tiritando. — Onde diabos se meteu esse estranho Monge? Por que se esqueceu de nós? Teria sido melhor que tivesse deixado que nos matassem. Agora, eis-nos aqui, sozinhos, famintos e friorentos. Sem lar, sem grupo, sem nenhum conforto. O desgraçado disse uma porção de besteiras e…

Eram muitos peixes eviscerados que Issa trazia dependurados por uma corda na cintura.

Eram muitos peixes eviscerados que Issa trazia dependurados por uma corda na cintura.

De dentro da mata lá em baixo surgiu a inconfundível figura de Issa trazendo alguma coisa, parecendo um cesto, sobre um dos ombros. Ao lado de sua cintura, dependurados em uma fieira, muitos peixes. Mesmo com aquela carga, ele subia a lapa cantando. Sua voz era entrecortada pelo esforço que fazia. Ao que parecia, o que tinha sobre o ombro era bem pesado.

Primus correu a se colocar ao lado do celta que, agora, olhava para o homem que se aproximava com um misto de alívio e raiva.

— Graças aos céus, ele voltou — murmurou o romano. O celta manteve-se calado, braços cruzados no peito, olhar carregado sob um cenho franzido. Tinha os maxilares tensionados.

Issa passou por eles e foi direto à barraca, onde entrou e sorriu para Atonchau, ainda deitado sob a manta feita com couro de carneiro. O Mestre abriu o cesto e se pôs a retirar lá de dentro favos de mel que ia depositando em quatro grandes pratos de madeira. Sobre o mel colocou algumas frutas silvestres , tâmaras secas, uvas e maçãs e ao lado de cada “prato” pedaços de pernil de javali assado, sobre tiras de couro curtido de carneiro. Um odre feito de couro de ovelha contendo vinho também foi colocado na “mesa”, com três copos feitos de madeira. Então, bateu palmas para chamar a atenção dos outros dois que ainda permaneciam lá fora, hesitantes. Eles entraram e deram com aquela refeição e com Issa sentado pacientemente aguardando que eles também tomassem lugar à “mesa”.

— Onde arranjaste tudo isso? — Perguntou Primus, sentando-se satisfeito ao lado de Issa.

— Ora, a vida não cessa só porque fiquei sozinho, longe de vossa companhia. Fui à busca de ajuda na aldeia dos druidas Alam, Vougan e Almiro.

— Mas aquela aldeia é inimiga de nossa aldeia — disse Luprécio, espantado. — Como foi que eles te receberam, Monge?

— Com cortesia, amizade e muita atenção. Por que?

— Tu lhes disseste de onde estavas chegando?

Ele era terno e carinhoso com as crianças, mas era duro com seus discípulos. E os doze não escaparam desta dureza.

Ele era terno e carinhoso com as crianças, mas era duro com seus discípulos. E os doze não escaparam desta dureza.

— Disse que estava acampado numa lapa, ao lado da aldeia da Druidesa Myrtha; disse que tinha deixado três companheiros tontos aqui e que teria de regressar para ter com eles. Trabalhei doze dias, da manhã à noite, na construção de um barco para eles. E quando me retirei, ontem à tarde, pedi estes alimentos para nós. Pernoitei numa gruta há três horas de caminhada daqui e foi ali que me livrei da chuva, mas não do frio.

— Mas… Mas eles te deixaram vir assim, sem guardas… sem ameaças… sem nada?

— Atonchau, não sou inimigo deles. Nunca lhes fiz mal algum. E quando estavam às voltas com a construção do casco de um navio que desejavam construir, eu o fiz para eles. É claro que foi um trabalho cansativo, exaustivo, mesmo. Mas valeu a pena por ver a felicidade em suas faces. Por que crês que me tratariam como alguém perigoso?

Atonchau olhou para seu companheiro com uma interrogação na face. Lupércio deu de ombros e começou a devorar o pedaço de javali.

Todos comeram em  silêncio. Quando terminaram e desceram para se lavar no riacho, Issa convidou-os a se sentarem com ele à margem do córrego de águas frias. O chão estava molhado, mas eles se arrumaram sobre algumas pedras, os discípulos curiosos e expectantes.

— Dizei-me agora o que fizestes enquanto eu estive fora.

Os três se entreolharam, constrangidos.

— Nós… nós esperamos teu regresso — disse Atonchau, hesitante. — Tu te foste sem nos dizer para onde nem se demorarias…

Issa permaneceu em silêncio, mas seus olhos perscrutaram os de seus companheiros com intensidade.

— Estais-me dizendo que nada fizestes só porque eu não estava aqui?

— Bem… O que podíamos fazer? O que querias que fizéssemos?

— Uma criança pergunta ao pai o que ele deseja que ela faça?

A pergunta de Issa desconcertou os três, que se entreolharam atônitos.

— Respondei-me! Não é uma pergunta impossível! — E a voz de Issa demonstrava irritação, o que agastou os três homens diante dele.

— Não… eu creio que não — titubeou Primus.

A Culpa acicata a alma e tortura o culpado. Melhor  é enfrentar a morte que viver com a culpa.

A Culpa acicata a alma e tortura o culpado. Melhor é enfrentar a humilhação de assumir a responsabilidade pelo erro, por maior que ele tenha sido, que viver com a culpa.

— Não é esta a resposta que espero de vós, homens inermes! — O grito de raiva de Issa sobressaltou seus três discípulos. — Sejais firmes! Hesitais em me dar uma resposta simples, por que? Buscais algo que supondes me satisfazer? Eu não desejo que ninguém me satisfaça, pois eu mesmo estou sempre satisfeito comigo e com o que faço. Mas e vós? Nem ao menos podeis ser diretos e claros?

— É que tuas perguntas nos desorientam — Tentou justificar-se e aos demais, Luprécio.

— Onde ficastes, enquanto eu estive longe de vós?

— Na lapa. Não sabíamos se tu voltarias e, se voltasses, não terias como saber para onde tínhamos ido. Nós achamos que devíamos te esperar — Respondeu, por sua vez, Primus.

— E o tempo todo que permanecestes lá, só conseguistes construir aquela tapera e assim mesmo apenas quando premidos pela chuva?! Antes disto, não fizestes nada?! Deixastes que o tempo escorresse por entre vossos dedos como a água sem aproveitá-lo de modo útil?! Vós ambos conheceis as dificuldades que o povo da aldeia de Myrtha passa diariamente. Não tivestes a iniciativa de ir até lá oferecer-vos como ajuda?

Havia não somente raiva na voz de Issa, mas também uma censura que colocava seus ouvintes se sentindo como peixes fora d’água. Ele insistiu na pergunta.

— Nem ao menos tivestes a iniciativa de descer à aldeia e buscar junto deles, ajuda para vós, já que o orgulho e o medo vos impediram de vos oferecerdes para trabalhar e ajudar? Ou, ao menos, tomar a iniciativa de fazer sem necessariamente se oferecer, visto uma possível recusa deles para convosco?

Os três se remexeram inquietos, mas menearam as cabeças negativamente.

— Ah, notei que amarrastes muito bem os galhos de vossa tapera. Onde conseguistes as cordas? Por acaso, fostes pedi-las à Druidesa ou aos Druidas da aldeia?

Um pesado silêncio caiu sobre todos e todos os olhos foram abaixados para o solo. Ninguém conseguia encarar a censura intensa que havia no olhar de Issa.

— Ainda espero que me expliqueis como conseguistes as cordas…

— Eu… Chovia muito e fazia frio. Luprécio foi procurar as espadas que tu tinhas jogado fora. Ele as recuperou e com elas cortamos os galhos de que precisávamos para construir a tapera. Mas não tínhamos com que amarrar os galhos. Então, eu desci até a aldeia e… e… e furtei as cordas que estavam dependuradas diante das casas. Sabia que não haveria vigia numa noite como aquela.

Issa meneou a cabeça negativamente e passou a mão direita pelos cabelos. Depois de um tempo em que permaneceu olhando para os próprios pés, voltou a encarar seus discípulos e falou.

Os homens o imaginam etéreo, inumano, sempre com uma expressão melosa. Mas ele foi homem com H maiúsculo. Muito mais homem que Deus, quando a situação assim requeria.

Os homens o imaginam etéreo, inumano, sempre com uma expressão melosa. Mas ele foi homem com H maiúsculo. Muito mais homem que Deus, quando a situação assim requeria.

— É assim que ensinareis aos homens? Ensiná-los-eis que devem roubar dos outros aquilo de que sintam necessidade? Ensiná-los-eis que devem ser medrosos e covardes? Ensiná-los-eis que devem se aproveitar do descuido e da boa fé dos seus irmãos? É esta a mensagem que lhes passareis, quando eu vos mandar a eles? Ireis ensiná-los a ficar esperando por mim como vós mesmos ficastes, inutilmente?! Não foi isto que eu vos demonstrei o tempo todo em que estive convosco. Não me lembro de em nenhum momento estar à espera de meu Pai Celestial, embora eu saiba que Ele está sempre atento a mim e ao que faço. O que achais que Ele diria se me observasse dependendo d’Ele para fazer coisas simples, como, por exemplo, ir ter com os aldeães e me oferecer para os ajudar n’algum trabalho necessário e urgente?

— Mas Issa — protestou Luprécio — tu te esqueceste de que fomos expulsos de lá? Tu te esqueceste de que Myrtha deixou bem claro que devíamos ir para bem longe da aldeia?

— E vós a atendestes? Vós fostes embora para bem longe? Não me lembro disto, mas me lembro muito bem que ficastes comigo e com Primus sobre a lapa, de onde eles vos podiam enxergar o dia todo. Nem por isto vieram belicosos buscando expulsar-vos para longe. Eles não demonstraram nem medo nem belicosidade para convosco. Apenas vos ignoraram e a mim e a Primus, também.

O olhar de fogo de Issa parecia querer incinerar o pobre celta, que sem perceber, se encolheu e baixou os olhos.

— Que eu me recorde, quando vós dois recebestes a sentença da irritada Druidesa, não foi o que fizestes. Ao contrário, viestes atrás de mim por vossas próprias vontades. Eu não vos chamei. Tomaste a decisão por vós mesmos. Ou estou enganado?

Os celtas menearam as cabeças negativamente.

— Dependência não é minha doutrina. Inassertividade não é minha doutrina. Preguiça não é minha doutrina. Medo não faz parte de minha doutrina. Incapacidade de enfrentar perigo não é minha doutrina. Não vos dei tal exemplo, mas bastou que eu me afastasse e ficastes sem saber o que fazer. Isto não é qualidade de discípulo meu. Indecisão na ausência de uma autoridade, desorientação na tomada de decisão, timidez diante da dúvida, tudo isto definitivamente não faz parte dos que eu escolho para meus discípulos. Sois ricos demais, para mim.

— Ricos?! Como assim, ricos? — Perguntou Atonchau, atônito. — Nós não temos nada. Nem nossas armas temos, pois tu as jogaste fora. Como, então, somos ricos?

— Sois ricos de vícios dos fracos de Espírito. Esta riqueza, meus irmãos, eu dispenso. Não me servem para nada. Nem para mim, nem para vós nem para aqueles a quem deveis ir em meu nome. E agora, se quereis que eu vos aceite novamente, ide até a aldeia de Myrtha. Eles precisam de braços fortes para reparar os estragos que a chuva causou entre eles. Muita comida se estragou. Ide e agi e só quando tiverdes realmente feito algo bom, sem ódio, sem mágoas, sem rancores em vossos corações, então, sim, vinde a mim novamente e eu vos aceitarei. Até lá, estareis por vossa conta e risco.

Issa pôs-se de pé e desapareceu entre as árvores da mata. Levava consigo apenas a si mesmo. Seus discípulos se entreolhavam tontos, desorientados e se sentindo desamparados. Luprécio foi quem, erguendo-se num ímpeto, falou primeiro.

— Eu não vou voltar à aldeia. É loucura! Issa não sabe o que meu povo faz com os que são expulsos e retornam. Não, não, eu não volto lá. E se querem saber, acho que nós dois erramos quando decidimos seguir esse doido. Ele nos coloca sobre o braseiro e se vai. É fácil para ele. Não é quem vai enfrentar o perigo!

— E desde quando um celta treme diante do perigo?

A pergunta serena veio de Primus, que olhava placidamente para Luprécio.

— Em Roma, no Grande Império de Roma, respeitam-se os celtas por sua coragem, seu destemor diante da morte. Mas vejo, agora, que aquilo é só mito. Estou diante de um dos considerados mais valentes entre os habitantes da vila de Myrtha e o vejo tremendo como vara verde porque tem medo de uma Mulher.

— Não me insultes! — Rugiu Luprécio com olhar desvairado e se voltando de mãos crispadas para o romano. — Mato-te com uma única mão, se me provocas.

— Ah… Matar é tua solução quando te sentes ameaçado? Em quê, então, tu te diferencias dos outros celtas guerreiros lá de aldeia? Qual é a diferente entre ti e eles?

Enfurecido, Luprécio atirou-se sobre o romano e o ergueu do chão como se ele fosse um boneco. Segurava-o pelo pescoço, impedindo que respirasse. Mas curiosamente Primus não fez um único movimento de defesa. Apenas sufocava, mas sem reagir. Foi Atonchau que se atirou sobre o braço hercúleo de Luprécio e o forçou para baixo.

— Larga-o! Ele e Issa falaram verdades que tu não pudeste suportar pelo teu orgulho ferido. Eu também me senti mal com o que ouvi de ambos, mas eles estão certos. Larga-o de uma vez! Se o matas eu me afasto de ti, pois és mais um assassino que um guerreiro digno.

Os olhos de Luprécio se fixaram na face decidida de seu companheiro. Então, hesitante, largou do pescoço de Primus, que se curvou sobre si mesmo tentando respirar com dificuldade. Foi amparado com cuidado por Atonchau que o ajudou a se sentar.

— Perdoa o meu amigo — pediu Atonchau, ajudando Primus a se sentar. — Ele está desorientado pelas verdades que ouviu. Nem ele nem eu tínhamos consciência de que a Verdade nos era insuportável.

Voltando-se para Luprécio, que o olhava desorientado, continuou.

— Issa está certo. Nós ficamos como dois imbecis, por quinze dias perdidos sobre uma lapa, sem iniciativa nenhuma que não fosse descer para a mata a fim de caçar algo para comer. Não sei de ti, mas eu tive muito medo de que Myrtha ou algum dos Druidas, vendo que na lapa só estávamos nós, sem a companhia de Issa, tomassem a decisão de vir pôr-nos a correr. E, vendo-te agora, sei que correiras com o rabo entre as pernas, como eu o faria com toda a certeza.

— Sugiro que construamos lanças, já que temos as vossas espadas, e vamos caçar. As vossas, Issa quebrou quando as lançou lá de cima. Levaremos a caça para os aldeães. Já que perderam a comida, não creio que repudiem a que vamos levar-lhes.

Tinha sido Primus a falar. Os celtas hesitaram um pouco, mas aceitaram a sugestão. Três horas depois estavam diante da entrada da aldeia, cada qual levando sobre os ombros um animal abatido…